3 Analyse de l'activité de conduite par le modèle de Markov caché et les modèles de ruptures
3.3 Modélisation de l'évolution des signaux lors des situations de conduite par le Modèle Semi-
3.3.1. Modélisation par les chaînes de Markov cachées: principe, modèle, et algorithmes
Analisámos anteriormente a função do uso de substâncias ao longo dos tempos, detivemo-nos também sobre a experiência de certas figuras literárias. Façamos agora um percurso diferente, tendo em conta o tipo de disseminação que o consumo das drogas mais visíveis teve, nas sociedades ocidentais, e a reacção de alarme que desencadeou a sua disseminação. Os pânicos morais (S. Cohen, 1994; 1988) assim desencadeados traduziram-se na repressão, quer da comercialização das substâncias, quer dos consumidores mais vulneráveis no todo social. Tal ambiente de alarme social teve por dom o instalar mecanismos de amplificação da desviância – conceito este aplicado à área das toxicodependências por Young (1971)20 que associa os actos de consumo a situações de dilema moral que noutro capítulo exploraremos.
De facto, a comercialização das drogas ilegais acabou por se fixar em espaços urbanos desprivilegiados, contribuindo para a degradação da sua imagem social (Fernandes, 1997). Paralelamente, um sem número de autores críticos tem vindo a desmontar esta situação, onde o único actor social que parece em desacordo com o estado das coisas é o próprio toxicodependente (Brochu & Chayer, 1997; Baratta, 1990; Kaminsky, 1990; Bertrand, 1986). Espinosa (1989), por seu turno, reactualizando o conceito de delito sem vítima, põe em causa a razão de ser da criminalização dos consumidores21.
Propomo-nos, mais uma vez, uma tarefa histórica, tendo agora em conta a evolução das mais visíveis comunidades de consumidores. Interessa-nos conhecer a emergência do consumo de drogas como estigma (noção de Goffman, 1963) e avaliar o que essa carga moral negativa, associada ao consumo, pode implicar nos indivíduos utilizadores dessas substâncias.
Uma visão histórica interessante pode ser obtida em Preble & Casey (1969). Estes autores, entre outros aspectos, lançaram um olhar longitudinal sobre os consumos de heroína na cidade de Nova Iorque (sobre o assunto
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Fernandes (2003) defende que a repressão produziria uma espécie de selecção natural dos desviantes mais aptos a delinquir e em escapar à polícia – tendo, por isso, efeitos contraproducentes a médio prazo.
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Veja-se também Schur (1974).
pode-se consultar uma síntese que fizemos do tema Tinoco, 1999). Se, inicialmente, o consumo era reduzido, após a II guerra mundial observou-se um alastramento da utilização da substância, entre comunidades de imigrantes como porto-riquenhos, irlandeses, italianos e também a afro- americanos: a substância era barata e o seu consumo, mesmo em regime de dependência, não trazia grandes modificações à vida dos seus utilizadores. Mais tarde, por motivos de vária ordem, a regularidade do abastecimento do produto passa a ser imprevisível: mas os traficantes descobriram uma população disposta a comprar o produto por preços superiores e a aceitar consumir versões adulteradas das substâncias. Consequentemente, a comunidade de consumidores principiou a degradar-se, a ter problemas de inadaptação evidentes. O fenómeno da desviância secundária começou, então, a observar-se.
A desviância secundária, conceito de Lemert (1951), consiste precisamente na parte de trangressão que é induzida pela sociedade. Ao proibir-se determinada conduta, os indivíduos que a cometem passarão a ter de se confrontar com mais obstáculos. As dificuldades e isolamento social consequentes facilitariam a internalização de identidades transgressivas (consulte-se também Lemert, 1964)22.
Em Portugal e em Espanha sucedeu um percurso semelhante ao novaiorquino – algumas décadas mais tarde. O facto dos dois países ibéricos estarem submetidos a ditaduras que, de algum modo, os afastavam económica e culturalmente do seu contexto europeu e ocidental, contribuiu certamente para essa decalage.
Em Espanha, o fenómeno do uso de substâncias ilegais em comunidades definidas e visíveis no todo social começou com o haxixe, nas décadas de 60 e 70 do passado século, em soldados que serviram em África (nomeadamente em Ceuta e Sara Ocidental), continuou com a heroína e a cocaína, que se foram fixando em zonas marginais das cidades como contexto privilegiado da sua comercialização e do consumo (Romaní, 1991). Contudo, nas décadas de oitenta e noventa irá acontecer uma modificação notória dos actores desses submundos da droga, de que no próximo capítulo
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A indução de metadona e a melhoria súbita do consumidor pode ser interpretada à luz deste conceito.
faremos notícia.
No caso de Portugal o início das actividades dos consumos deu-se em grupos políticos de oposição ao regime, mas também em subculturas que se formaram em contextos sócio-económicos mais favoráveis, mas onde existiam também situações de exclusão social, e onde se formou uma ideologia de contra cultura não desprezível – foi assim no caso inglês analisado por Willis e também no caso português consulte-se Agra & Fernandes (1993); Fernandes & Agra (1991).
Ribeiro (1999) refere que em Portugal, os primeiros consumos ocorreram em elites culturais e só depois o seu uso foi alastrando para outras franjas sociais. Fernandes (1997) estudou vertentes ecológicas e espaciais das margens da cidade do Porto onde a comercialização de produtos psicotrópicos se acabou por fixar.
No nosso país, a erosão da dimensão contracultural das comunidades de consumidores também foi observada. Gradualmente, as actividades em torno dos consumos foram sendo reduzidas a dimensões utilitárias: não se consome hoje para se exprimir uma oposição ou para se descobrir outro através da substância, usa-se a substância porque aconteceu, por fatalismo, porque uma oportunidade se proporcionou na rede informal do sujeito (note-se que o que dizemos limita-se às comunidades de consumidores mais visíveis socialmente e que tivemos oportunidade de estudar).
No caso da heroína, a dimensão do flash como uma parte dos efeitos da substância foi-se, lentamente, perdendo. Solal (1991) surpreende-se com a ausência desta dimensão na maior parte dos consumidores contemporâneos. A partir de um certo momento, a vertente mais realçada na vivência dos consumos é a do sofrimento e da dor. Esta mudança, embora corresponda a um endurecimento das condições de vida de muitos consumidores, corresponde igualmente a uma mudança na imagem social da substância. Já que, as drogas em geral, e a heroína em particular, instituíram-se como estigma. Este conceito foi proposto por Goffman, em 1963, referindo-se a uma qualquer atribuição social portadora de desprestígio para o indivíduo que a tem (que pode estar associada a dimensões puramente sociais ou a deficiências físicas que repercutiriam na vida social dos sujeitos). A situação
implica uma série de constrangimentos nas próprias relações interpessoais e, acima de tudo, na percepção que o indivíduo tem de si mesmo.
A heroína é definitivamente, nos dias de hoje, um estigma. É um estigma que provoca reacções negativas nos outros quando é revelado o consumo e implica que o heroinómano faça uma gestão cuidadosa do segredo. O consumidor vê-se perante a disjuntiva de redes de suporte social desviantes
versus normativas – o que não acontece, por exemplo, com o alcoólico ou o
fumador compulsivo de tabaco.
Por outro lado, qualquer indivíduo que encete um consumo continuado deste opiáceo vê-se perante um dilema moral: conhece, em algum grau, a condenação social que envolve a substância; terá, assim, de construir alguma racionalização ou conjunto de racionalizações que justifiquem os seus actos (é este o cerne das técnicas de neutralização de Sykes & Matza propostas em 1957).
Compreendemos agora o modo como o uso de psicoactivos ilegais se pode inscrever na história do indivíduo. A emergência de comunidades de consumidores mais ou menos estáveis possibilitou a estruturação de uma ideologia das drogas que, de algum modo, homogeneíza essa inscrição.
Existem possibilidades estruturadas de alienação do sujeito: “a ressaca obrigou-me a fazer isso” (chantagear a mãe); “tomei drunfos e os drunfos dão para roubar”. Será a partir desta ideologia que muitos consumidores tentam recriar a sua margem de manobra, construindo mecanismos que protegem a sua auto imagem: “trafico mas só vendo a quem quer”; “arrumo carros mas pelo menos não tiro nada a ninguém”.