Recherche d’information
1.3.3 Modèles probabilistes
A mobilização social é um ato de comunicação (TORO, WERNECK, 1996), como exposto no primeiro capítulo. Partindo deste pressuposto, toda a pesquisa realizada em Noronha teve como ponto central a comunicação em seu sentido dialógico como fenômeno humano, baseado na palavra, e democrático, como propõe Freire:
Se dizer a palavra verdadeira é transformar o mundo, dizer a palavra não é privilégio de alguns homens, mas direito de todos os homens. Precisamente por isso ninguém pode dizer a palavra sozinho, ou dizê-la para outros, num ato de prescrição, como qual rouba a palavra dos demais” (FREIRE, 1987, p. 78).
A comunicação na mobilização tem o papel de convocar as vontades dos indivíduos, compartilhar o que tem sido feito e, principalmente coletivizar os resultados, para manter os envolvidos seguros de que o que estão realizando em seu campo de atuação também é executado em outras categorias, o que dá continuidade ao processo. Como verificamos no primeiro capítulo, não há um meio
de comunicação que represente a comunidade na Ilha. Os alunos, durante a oficina de “Comunicação e Mobilização Social”, que promovi no dia 22 de abril na Escola Arquipélago, se queixaram de que não assistem à TV Golfinho (única que produz conteúdo sobre a Ilha, mesmo que sob a ótica oficia da ADEFN) e nem ouvem a Rádio local, pois o conteúdo não lhes interessa. O blog Viver Noronha, outro que trata sobre a Ilha e o Jornal Ecoar, do ICMBio, eram desconhecidos dos alunos que usam, basicamente o facebook para se comunicar, apesar da lentidão da internet.
Segundo a “Análise dos Resultados da Pesquisa de Opinião sobre o Setor de Comunicação da Ilha de Fernando de Noronha”, divulgado em 2004 pela TV Golfinho, e entrevistas realizadas em fevereiro de 2012, a comunidade tem interesse por programas educativos, documentários, trabalhos preventivos acerca da educação e saúde. No documento, muitos moradores pedem por uma cultura, pedem para que a televisão mostre a cultura do nordeste para que eles se inspirem a construir a sua própria cultura. Sobre a TV Golfinho, a comunidade sente falta de programas que aprofundem os conceitos trabalhados e participação prévia da comunidade. O grande interesse dos moradores é por novas vivências.
A Ilha carece de meios de comunicação representativos, feitos para e pela comunidade. Qualquer estratégia de comunicação que vise a mobilização no Arquipélago deve começar buscando meios que permitam à população descobrir e dar sua própria voz. O facebook é um meio que vem sendo muito utilizado para convocar as passeatas recentes na Ilha, mas que pela dificuldade de muitos moradores em ter acesso à internet, quase não foi utilizado neste projeto antes da pesquisa de campo. Consegui me comunicar com os ilhéus por telefone (quando este funcionava) e lá, usando a velha e eficaz “Rádio Rata à Sapata”. Para manter os alunos atualizados da programação de entrevistas e escalas de equipes, produzimos um grande cartaz que ficava na sala utilizada para a produção do documentário. Lá, se alguém conseguia marcar entrevistas, colocava a data e horário no mural e, assim todos se mantinham informados. As entrevistas foram quase todas marcadas indo de casa em casa no período da noite, quando a maioria já havia retornado do trabalho. Em Noronha, essa é a melhor estratégia de comunicação: a pessoal. É muito fácil encontrar as pessoas na rua, no supermercado, na escola. Noronha propicia uma maior convivência entre seus indivíduos e há que se considerar esta proximidade na hora de se pensar em estratégias para a mobilização.
A comunicação micro ou dirigida, aquela voltada a grupos ou pessoas considerando suas especificidades (TORO, WERNECK, 1996) é a mais eficiente na Ilha, principalmente, quando feita por bairros. Como em Noronha existem várias comunidades, cada bairro tem suas características próprias e investir nesse diálogo segmentado pode ser o sucesso para atingir um maior número de pessoas. A mobilização só é possível quando é estabelecido um canal de diálogo entre os diversos setores envolvidos, nesta pesquisa, buscou-se articular o contato com os principais poderes da Ilha (ADEFN e ICMBio) também pelo diálogo direto e reuniões com representantes. Assim, o projeto foi destaque no Jornal da Ilha, da TV Golfinho, e conquistou apoio de vários segmentos com transporte, passeio de barco e alimentação.
O sucesso em estratégias de comunicação dirigida, no entanto, não esvazia a urgente necessidade de se fomentar na Ilha uma comunicação emancipatória, representativa da comunidade. Falta investimento em meios que promovam a liberdade de expressão, a participação da comunidade e que retratem a realidade local. Segundo Ana Clara Marinho, o canal de maior audiência (ainda não há dados oficiais) na Ilha é a Globo Nordeste, que retransmite a programação produzida no continente, sem nada local, uma comunicação de massa, que difere da micro por se dirigir às pessoas como indivíduos anônimos. “Tanto a liberdade quanto a igualdade são impossíveis sem uma comunicação diversa desta comunicação massiva”, alerta (VIEIRA, 2011, p.41)
Neste sentido, alguns projetos em andamento na comunidade podem servir como embrião para uma comunicação mais democrática em Noronha. O primeiro é o Jornal Mural, uma iniciativa do professor de Artes e História da Escola Arquipélago, Diógenes Almeida, que está construindo um blog com notícias escritas por cerca de 10 alunos. As matérias são expostas em um mural na escola e retratam assuntos relacionados ao cotidiano estudantil e à realidade insular. Três alunos deste grupo acompanharam o projeto do documentário e produziram, inclusive, uma matéria para o mural. A outra iniciativa é resultado do envolvimento do grupo de alunos do Cine Clube com esta pesquisa. Eles gostaram tanto de produzir um documentário e descobrir a própria história que começaram a pensar em pautas para elaborar pequenas reportagens investigativas e exibi-las antes dos filmes de sábado.
Outras estratégias de mobilização viáveis na Ilha são as reuniões temáticas, rádio comunitária, vídeos ambientais, exibição de documentários e “tradução” de trabalhos acadêmicos sobre a Ilha.