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“Qual o recado que você deixa para estes jovens, com base no que se aprendeu com a mobilização de 1988?” Essa foi a última e mais reveladora pergunta de todas as entrevistas. Cenas emocionantes tomaram conta dos bastidores, o encontro entre pai e filho e as mensagens preocupadas com os rumos do Arquipélago fizeram os envolvidos chorarem em várias entrevistas. É visível que os antigos líderes estão cansados e já se dedicaram muito pelo futuro de Noronha. “Já dei muita parte da minha vida pela luta na Ilha [...] vocês jovens têm a felicidade de ainda poder ouvir e participar dessa história que envolve seus antepassados”, lembra Domício com orgulho.

A contribuição foi enorme, mas há um longo caminho pela frente, a mobilização é um processo. “Os jovens serão responsáveis por uma Ilha melhor no futuro. A minha geração não conseguiu, se vocês não assumirem a Ilha vai ficar abandonada”, resume Tinho. Mesmo que a geração de Tinho (a que lutou há 25 anos) não tenha obtido conquistas palpáveis, deixou como legado para os mais jovens o exemplo da história de lutas. A força dos mais velhos demonstra o quanto a união é importante ao se pensar na mobilização e sustentabilidade da Ilha.

O cansaço dessa geração de lutas é proporcional ao carinho que ela sente pelo Arquipélago. Temerosos do destino da “Esmeralda do Atlântico” após a anunciada falência do modelo turístico atual e o aumento do dilaceramento socioambiental, os entrevistados demonstraram depositar todas as esperanças (aqueles que ainda possuem alguma) nos jovens. Para as gerações que participaram de 1988, o principal diferencial dessa juventude é a educação, já que

estão todos alfabetizados e têm oportunidades que não existiam em outras épocas. “A escola tem que formar cidadãos. O jovem tem que estar preocupado em ter conhecimento dentro da escola.”, suplica Wilson.

Mas será que eles assumirão essa responsabilidade? No balanço final, a juventude se preocupa com o futuro da Ilha, mas já incorporou o discurso individualista. Querem sair de Noronha para estudar, crescer na vida e não acreditam em lutas, pois nada muda. Entretanto, as mensagens deixadas pelos mais velhos tocaram alguns desses estudantes. Mais conscientes, eles começaram a protestar no Conselho de Educação e estão pensando em criar um Grêmio Estudantil.

Os relatos sobre o movimento de 1988, seguidos da mobilização nacional, fizeram os alunos se questionarem, “se o Brasil acordou, porque Noronha não pode acordar também?” A resposta, vinda dos próprios jovens é: “nada atinge aqui, só o Turismo, enquanto ele não for afetado, Noronha não vai ter outro protesto igual ao de 1988”. Dentre os jovens que participaram do documentário era fácil identificar pelo menos quatro com forte perfil de liderança. Há que se capacitar esses futuros líderes, na faixa etária dos 14 aos 16, antes que eles saiam da Ilha. Mais: é preciso motivá-los a ficar. Como? Acredito que um bom começo é investir em educação e permitir que eles desfrutem da Ilha, como se fossem turistas.

Em uma semana de pesquisa, os levei para fazer programas corriqueiros da época em que morava lá, como assistir ao nascer da Lua na Igrejinha de São Pedro, subir o Piquinho, ir ao Sancho, fazer passeio de barco com peixe feito na hora. Fiquei surpresa ao constatar que era a primeira vez que muitos deles participavam de algumas atividades. Viver em Noronha e nunca ter visto a Lua nascer é um pecado, assim como não ir à praia, “porque temos aula o dia inteiro, não temos nem tempo de fazer o dever, como vamos aproveitar a praia?”. Foi lindo vê-los implorar para ficar mais um pouco contemplando a lua ou se recusando a terminar o passeio de barco, trocando de barco três vezes para não ir embora.

As aulas do ensino integral deveriam, ao menos, ser ao ar livre, propor atividades ao redor da Ilha como vem fazendo o fiscal Maguinho nas aulas de educação ambiental. Um processo de ensino/aprendizagem, no qual o papel do professor é “impulsionar a capacidade de saber pensar no aluno, [...] que resgata fortemente a vertente maiêutica da aprendizagem para e pela autonomia” (DEMO, 1999, p. 4). Qual motivação o jovem noronhense tem para ficar na Ilha, se mora em

um “paraíso” sem desfrutá-lo? Morar em Noronha sem aproveitar a natureza do lugar é como morar em uma cidade do interior pernambucano. Para os jovens, resta a pior parte: passar o dia dentro de sala de aula, conviver com estradas esburacadas e enlameadas, falta de água, lazer e cultura, pouca variedade no mercado, saúde e educação deficitárias, entre outros. Assim não há como concorrer com a atração da vida cosmopolita do continente.

A maioria dos entrevistados criticou a educação no Arquipélago após a chegada de Pernambuco, já que ela é baseada nas diretrizes do Estado de Pernambuco, sem considerar algumas peculiaridades do território insular. Entendo educação como “comunicação, na medida em que não é transferência de saber, mas encontro de sujeitos interlocutores que buscam a significação dos significados”. (FREIRE, 1983, p. 69). Segundo os alunos que participaram desta pesquisa, a história da Ilha não é discutida em sala de aula e inserir fatos como a mobilização de 1988 no conteúdo programático só contribuiria no resgate da identidade local.

O ensino deve despertar a curiosidade dos estudantes sobre o mundo e sobre a ocupação da Ilha, mitos e lendas. Afinal, “o conhecimento [...] exige uma presença curiosa do sujeito em face do mundo. Requer sua ação transformadora sobre a realidade. Demanda uma busca constante. [...]Reclama a reflexão crítica de cada um sobre o ato mesmo de conhecer.” (FREIRE, 1983, p.27). Além da curiosidade, a aprendizagem deve ser considerada um exercício e formação da politicidade, baseada na relação humana, como propõe Demo

"A aprendizagem é sempre fenômeno global, corpo e alma, no qual a relação humana é algo essencial. O humano da relação humana é sobretudo sua politicidade. Com efeito, a participação política é muito mais fenômeno emocional, que reclama dedicação, entrega, envolvimento, entusiasmo, do que meramente cerebral. Não se pode mais dizer que vida é cognição. Este cartesianismo passou. Mas vida é aprendizagem, porque vida é o que sabemos e aprendemos a fazer dela." (DEMO, 1999, p.4) Acredito muito, pelo que vivenciei, no potencial transformador desses jovens, carentes de atividades que exercitem a liderança de maneira prazerosa e lúdica. Fugir da rotina das salas de aula, proporcionando uma educação holística e experimental. Espero voltar em breve para editar o documentário junto com eles e contribuir, assim, para a continuidade de um projeto que deve ser permanente. A comunicação libertária, protagonizada por eles, seja por documentário ou por outros meios, deve se incorporar ao cotidiano não só da escola como em todos os setores.

Como expressa este manifestante do protesto em Noronha, as crianças precisam de socorro:

 

Figura 29: Manifestantes pedem ajuda para “salvar” as crianças de Noronha (Fonte: Blog Viver Noronha, 2013)