• Aucun résultat trouvé

Modèles de soins communautaires paramédicaux

Dans le document Vivre bien et plus longtemps (Page 125-128)

Em Cossery, perceber que o mundo está assente sobre a impostura é reconhecer que vivemos sufocados por mentiras, tolas mentiras tão nefastas quanto patéticas – portanto, todos os heróis de Cossery vivem o trânsito da percepção lúcida à zombaria desenfreada. Tal zombaria se expressa na caricaturização e exagero de temáticas diversas utilizadas pelo próprio autor, como o escárnio e certo engajamento desleixado.

A caricatura das temáticas filosóficas exige uma resposta à altura. Não é possível desafiar uma realidade deficiente e opressora, tal como descrita pelos gnósticos, sem empreender um conjunto de afiados exercícios e, sem adoptar, no próprio cotidiano, uma postura mais rígida e ascética. Tais temáticas só se desnudam com a devida “provação” – é preciso exercitá-las com certa disciplina. Propor a existência de um

177 “Tant que tu vis parmi les hommes, ils t`offriront toujours le spectacle de leurs appétits sordides et de leurs sottises. C`est une éternelle comédie, suprêmement agréable aux yeux d`un observateur lucide. Et elle est partout la même”. (Cossery, 2005: 470).

161

plano, separado da imensa interdependência material, constituiria, para Cossery, uma invenção metafísica descurada de sua vivência e, portanto, excessivamente desleixada.

Retomemos Rosset: a história da humanidade é a história da recusa ao real178 – sendo este último sempre intransigente como uma potência que não anseia por discutir e vive a nos atropelar para além de toda e qualquer dicotomia. O real de Rosset é tal como a natureza naturante de Espinosa, pois segue seu rumo enquanto potência – substância que nos é imanente e nos espreita. Para Rosset, fechar os olhos para a mentira não nos garante a felicidade, ao contrário, injecta no cotidiano o peso insustentável da ilusão, retirando-nos a possibilidade de uma ação genuína. Ao contrário de todos os pensadores que antes abordamos, Espinosa é confiante em relação ao homem, por acreditar que o conhecimento da perfeição o levará sempre para o melhor caminho. A boa informação é necessária para o bom comportamento, pois o homem bem instruído através das peias da razão estará salvo e conhecerá a verdade e, por conseguinte, fará a melhor escolha. Porém, Espinosa acredita que a única forma de alcançarmos esse tipo de gesto é através da criação – o único momento em que o homem se equipara a essa potência, pois quando criamos, nos posicionamos tal como a natureza naturante, não estamos a ser constrangidos por forças externas.

Assim, tal como em Espinosa, há uma preocupação central na obra de Cossery de escrever uma filosofia da prática quotidiana, uma Ética pautada no reconhecimento das nossas limitações e na garantia da melhor escolha179. Assim, se Espinosa anseia em

178 Tal ideia encontra-se disseminada em muitas de suas obras, porém, encontramo-la com mais ênfase nas obras: Le réel et son double (1984) e Lo real: tratado de la idiotez (2004b). Ainda assim, suas duas obras de mais conhecidas, La logique du pire (1970) e L’anti-nature : éléments pour une philosophie tragique (1973), versam sobre a conflituosa relação do homem com a “crueldade” e “incomplacência” do real.

179 Em Espinosa, o reconhecimento das coisas é importante como uma tomada de consciência, mas ao mesmo tempo, ele aceita que pouco podemos fazer – apenas percebe e reconhece um mundo que se repete, da mesma forma que Heráclito. Em Cossery se dá o mesmo, o reconhecimento da impostura é importante, mas não para efectuar possíveis mudanças estruturais e, tal como em Espinosa, não há livre arbítrio, afinal, os homens estão mesmo esquecidos por Deus. Mas em ambos há uma satisfação no reconhecimento que, em Espinosa, vem com a distinção entre um mundo imaginário e um mundo racional, e em Cossery, entre o mundo dos vendidos e escravos, e o mundo dos libertos pela miséria e dos iluminados – a racionalização dessa dicotomia permite a construção de uma ética. Em Espinosa, tal noção surge na última parte da Ética, quando o filósofo fala da “virtude suprema da mente”, a saber, a de conhecer as coisas a partir do “terceiro gênero”, ou seja, conhecer as coisas a partir da compreensão da “natureza” de Deus, no entanto, tal conhecimento não significa qualquer ideia de supremacia, estando o homem sempre refém do “movimento” da natureza. Mas e, com efeito, a consciência desta condição permite, também, o surgimento de determinada “alegria”: “Por isso, quem conhece as coisas por meio desse gênero de conhecimento passa à suprema perfeição humana e, consequentemente, é afetado da suprema alegria, a qua vem acompnhada da ideia de si mesmo e de sua própria virtude” (2011: 229). Tal

162

nos fazer ver o mundo sem o véu da imaginação, Cossery deseja fazer-nos ver o mundo sem o véu da mentira produzida pelos impostores. E, para tal, ele precisa trazer as temáticas edificadas pela filosofia para a instância quotidiana, terminando por perceber a impossibilidade de tratar certas temáticas filosóficas que lhes são caras sem a devida intensificação das mesmas, ou seja, percebendo ser impossível falar de ócio sem preguiça, serenidade sem indolência180, e ironia sem escárnio. Pois embora Cossery fale-nos de um mundo que sempre gira sob o mesmo eixo, é perceptível na progressão de sua obra uma preocupação com o crescimento da impostura181. Se antes os homens eram atormentados pelos excessos perversos do discurso religioso, hoje, são atravessados por uma gama cada vez maior de falsos discursos182. Quando estava já sem voz, ele declara que “La télévision participe à un complot mondial destiné a éradiquer

l’intelligence sur toute la planète”183

. Os seus dois últimos romances184 foram acompanhados de uma intensiva preocupação com a complexificação da mentira nos dias atuais. Essa atmosfera, onde a impostura, para operar, recorre à ajuda do medo e da ameaça, faz com que as recomendações de cunho filosófico tornem-se estéreis em face de uma ambiência caótica que nos espreita a todo o momento. Como veremos abaixo, a fina ironia de salão, apontada por Kierkegaard, e o recolhimento para um jardim de sossego, como apontava Epicuro, tornam-se atitudes impraticáveis dado o contexto em que estamos lançados.

Michel Onfray, em sua releitura sobre os cínicos, procurou demonstrar que tais pensadores, quase sempre relegados a uma parte menor da História da Filosofia, nos

“alegria” decorre da saída do “mundo imaginário” para a suprema “racionalização” que ocorre a partir do conhecimento de Deus.

180

Torna-se complicado utilizar o termo “irresponsabilidade”, pois os personagens de Cossery estão implicados numa ética do escárnio, tal como nos apontou Raymond Espinose (2009).

181 O tema da impostura cresce gradativamente livro após livro, culminando num último romance que trata mais diretamente do assunto.

182 Tal como nos diz Bruno Latour (2000a; 2000b), o mundo se torna mais complexo na mesma proporção que se proliferam os objetos, aos quais ele insiste em chamar de não humanos, formando um agregado que ele opta por chamar colectivo ao invés de sociedade. Para Latour, o desenvolvimento técnico nada tem de inocente, sobretudo no que diz respeito ao aumento das relações conflituosas – uma vez que os chamados não humanos participam de nossa vida nos influenciando e nos transformando numa espécie de híbridos.

183 Une vie dans la journée d’Albert Cossery, film documentaire réalisé en 2005 par Sophie Leys, Production le GREC.

163

trazem uma reflexão fundamental que se torna de suma importância para repensar temáticas consagradas da Filosofia – até onde podemos tomar a sério as clássicas questões da mesma? Eis, para Onfray, a contribuição central dos cínicos. Assim, os cínicos pareciam demonstrar que os dilemas da filosofia platónica não poderiam ser tomados tão a sério por, entre outros motivos, não serem possíveis de se por em prática. E, para comprovar isto tudo, Diógenes caricatura Platão, elevando seus dilemas ao patamar da piada, pois somente assim pode-se perceber a esterilidade de certos impasses filosóficos – episódio emblemático é àquele em que Diógenes, para exemplificar o conceito de “homem” de Platão, a saber, um bípede implume, depena uma galinha e põe-na a mesa para que os sujeitos presentes vislumbrem o “homem de Platão”. Cossery, por sua vez, ao utilizar a própria vida enquanto discurso-primeiro de sua obra, acaba por colocar todas as temáticas de seus contemporâneos a prova. Nesse ponto, podemos aproximar as vias de Espinosa e Cossery, ao ponto de imaginarmos ser a reflexão de Cossery um espinosismo onde a figura do Deus-Natureza é a de um Deus- Natureza análoga ao dos gnósticos – um falso demiurgo que exercita sua potência com o que há de pior. Todavia, essas similaridades metodológicas permitem conclusões muito diversas, pois a “impostura” de Cossery não parece instaurada no cosmo, ou seja, na ordem das coisas, mas sim, nas práticas banais dos seres humanos. Em Cossery, ao percebemos a impostura reinante, podemos aceder finalmente a uma existência mais desleixada e irresponsável, contudo, não há em suas reflexões explicações ou indicações de bom viver.

Rosset, numa obra chamada L’Anti-nature: éléments pour une philosophie tragique (1989)185, identifica a idéia de “natureza” como algo subjacente a todo discurso da

modernidade. Para Rosset, aqueles que dizem dominar o verdadeiro sentido da natureza, acreditam saber, também, os ditâmes teleológicos de todas as coisas. E, ao ter a certeza do que está por detrás de quaisquer engrenagens, os homens se iludem com idéias de “sentido” e “propósito”, como se, por detrás do caos, houvesse um princípio lógico – ainda que, tal princípio, seja pessimista e inoportuno. E assim se diz, tal como Rosseau, que o homem é naturalmente bom, ou, pelo contrário e, a propósito de Hobbes, que o homem é naturalmente mal. Poucos seriam os filósofos “não naturalistas”, ou seja, pensadores alheios à idéia de um “foco central” que regula e direciona todas as coisas.

185 Publicada originalmente em 1973.

164

Urge pensar: Estaria Cossery imerso no discurso naturalista dos filósofos apontados por Rosset? Ou ainda mais grave: Seria Cossery um escritor que, negligenciando o acaso, optasse por seguir sobre a lógica do pior de que nos fala Rosset? Isso seria verdade se Cossery não houvesse proposto a divagação como um a priori fundamental para toda análise. Pois ao invés de tomar a realidade como um palco repleto de fatalidades desagradáveis, recebe-a como um presente muito divertido que lhe proporcionam grandes momentos a serem apreciados, optando portanto em não cair num exercício extremamente difícil: o da aceitação do Trágico, caminho este tomado por Nietzsche, Conche e, afinal, pelo próprio Rosset. Para este último, mesmo as dádivas do acaso nos são entregues de forma incomplacente – não conseguimos dizer que não estamos felizes, pois se estivermos de fato felizes, a felicidade tem a força da intransigência, algo que caracteriza fundamentalmente o real. Porém, é possível aceitar o trágico de fato? Quando o “trágico” nos atinge, como procedemos? Como, afinal, o trágico se concretiza? Tal como em Espinosa, Cossery não anseia por se testar186. É possível alcançar o ideal de uma vida trágica, tal como fez Rosset em sua releitura de Nietzsche, pondo-se a prova a todo tempo? Ora, se sabemos o caminho da perfeição, não tomaremos nenhum outro. Isso nos leva a entender algo sobre a galeria de personagens composta por Cossery: existem aqueles rendidos à impostura, existem os grandes impostores, existem os que estão à margem de tal forma que nem podem optar e, bem próximo a esses, existem os “iluminados”, os que zombam daqueles que escolhem as vias tenebrosas de um mundo em corrupção. Tal configuração se torna

186 As ideias dos gnósticos podem ser encontradas numa série de evangelhos não canônicos apelidados como “evangelhos apócrifos”. Muitos desses livros recebem o mesmo nome dos evangelhos oficiais – tal como o Evangelho de Mateus ou de João. Ainda que a interpretação acerca desses livros seja diversa, têm-se, no geral, a ideia de que Jeová representa um “falso demiurgo”, uma espécie de “aberração” incapaz de governar o mundo da forma adequada. Além disso, a ideia de não se por a prova é uma atitude bem típica dos grupos gnósticos, e pode ser encontrada nos evangelhos mais utilizados por esses mesmos grupos, como o Evangelho de Mateus, de Tomé, de Filipe e de Maria Madalena. Neste último livro, encontramos: “Não imponhais mais preceitos do que aqueles que estabeleci para vós, e não diteis nenhuma lei, como o legislador, para que não sejais atormentados por ela”. A ascese, nesse caso, tem o sentido da abstenção para enfrentar um mundo de impostura, uma vez que, para as seitas gnósticas, vivemos sob o julgo tirânico de Jeová. Diz Lacarrière: “Na vida quotidiana, esta recusa dos sistemas de um mundo governado não por homens, mas por sombras, aparências de homens – a que chamarei pseudo- antropos – levou-os a viver à margem de toda a sociedade constituída, a incitar à recusa de qualquer compromisso com instituições falaciosas, a recusar a procriação, o casamento, a família, a obediência a todos os poderes temporais – fossem eles pagãos ou cristãos” (2001:13). A recusa, no intuito de não se por a prova, pode ser percebido de forma mais sutil em muitos momentos dos livros canónicos, como por exemplo, no momento em que Jesus questiona a legislação acerca do adultério no Evangelho de Mateus (5:29): “Se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e lança-o de ti; pois te convém que se perca um dos teus membros, e não seja todo o teu corpo lançado no inferno. E, se a tua mão direita te faz tropeçar, corta-a e lança-a de ti; pois te convém que se perca um dos teus membros, e não vá todo o teu corpo para o inferno”.

165

mais clara a partir do romance Mendiants e orgueilleux (1955), quando a dupla Gohar e Yeghen compartilham a consciência de uma impostura planetária e pouco percebida pelos demais personagens, sobretudo pelo policial que os persegue, Nur El Dine. Pares de personagens iluminados tornam-se recorrentes nos romances subsequentes: em La

Violence e la dérision (1964) Heikal e Karim, personagens que se contrapõem à figura

de um governador tirano e impostor; em Un complot de saltimbanques (1975) Teymour e Medhat, que desafiam Chawki, um proprietário corrupto (muito próximo à figura de mesmo nome, Chawki, do romance La maison de la morte certaine); e, em Une

ambition dans le désert (1984), Samantar, espécie de herói aristocrata que se contrapõe

ao primo e primeiro-ministro, Ben Kadem. Essas figuras iluminadas, que se distanciam enormemente dos impostores, ofertam uma espécie de gramática da impostura. Surge, portanto, uma espécie de consciência diferenciada perante a impostura – há os impostores e, também, os “iluminados” que zombam da impostura.

Contudo, estabelecida essa tipologia dos impostores, pretenderia com ela Cossery alguma ação pedagógica? Alguma ação transformadora do mundo? Essa atitude, pautada num reconheciemnto que se traveste em denúncia e “ensinamento”, encontramo-la num homem próximo a Cossery, Louis-Ferdinand Céline, no qual é evidente uma dimensão pedagógica negada por Cossery. Dizemos “próximo à Cossery” porque, até agora, associamos Cossery a figuras exteriores, a saber, pensadores que, embora contemporâmenos, jamais foram referenciados por ele, tais como Clément Rosset e Marcel Conche. Porém, podemos reconhecer este tipo de atitutude perante a vida num autor que, certamente, influenciou a própria obra de Cossery.

Utilizaremos como exemplo do que foi dito acima, um curto diálogo entre a obra de Céline e Cossery. Sempre que questionado acerca de suas maiores influências, Cossery é bastante pontual, para ele, não há mais que dez bons romances em cada século, assim, entre Nietzsche e Stendhal, jamais se esquece de citar Céline. E, evidentemente, há muitos elementos da literatura deste último que se tornam influências evidentes na obra de Cossery, pois além da contribuição de Céline em trazer para a literatura a linguagem popular, ou seja, o calão e linguajar rude, algo que também influenciou sobremaneira a escrita de Cossery, seus personagens carregam algo sempre presente na obra de Cossery: A descrença no desenvolvimento espiritual da humanidade. Entretanto, esse reconhecimento, que faz convergir a ambiência de ambas as obras, dá a ver a Cossery a

166

possibilidade de viver na irresponsabilidade – e na obra de Céline, transforma-se em amargura.

Gustin, personagem de Mort à crédit (1936) 187, encontra-se saturado de seu trabalho como médico, pois já não suporta alimentar o capricho de seus pacientes – que lhe procuram mais por carência que por doença. Então, ele olha para as nuvens e declara “Hoje será sífilis”. Gustin e Ferdinand188

, diferentemente dos demais, conseguem de fato situar suas vidas na instância de uma indolência constante, entretanto, são golpeados pela amargura - pela vontade de transformar um mundo que lhe parece desajustado. Muito embora Céline apenas descreva de forma detalhada um mundo que arde em impostura através de uma fala já cansada de tanto a vislumbrar, acaba por tomar diversos posicionamentos políticos ao longo de sua vida, inclusive, realizando um panorama geral sobre os culpados nas grandes guerras e, também, realizando críticas sobre as posturas dos países envolvidos – neste caso, França e Alemanha. Essa preocupação, de tentar realizar uma ação pedagógica, que perpassa toda a obra de Céline189, é abandonada e resignificada na obra de Cossery – como afirmou Irène Fenoglio, não há resquícios de intenções pedagógicas em sua obra. Talvez, por acreditar que mesmo essa última é uma tarefa do impossível, sendo assim, nosso autor, mais uma vez, se esquivará dessa empreitada. Céline também se leva a sério demais.

Dans le document Vivre bien et plus longtemps (Page 125-128)