Em 1956, durante o oitavo congresso nacional do PCC, aparecerem as primeiras evidentes divisões no âmbito do partido. Já nos anos anterio- res, durante o processo de modernização da China, no seio do partido duas tendências se evidenciaram. A primeira exaltava o espírito revolucionário de Mao, espírito idealista, mas abstrato, que queria basear todas as mudanças da economia chinesa no mero entusiasmo e voluntarismo do inteiro povo chinês. Esta tendência continha a convicção de que a revolução comunista e, mais propriamente, Mao Zedong, haviam sido investidos da missão de livrar o povo chinês da miséria, da fome, e de levar a China a tornar-se a mais poderosa nação do mundo, retomando, sem dúvida, a concepção centrista da China das primeiras dinastias. A obediência e a lealdade ao partido e, conseqüêntemente ao seu líder, estavam se revestindo de um caráter quase religioso. Mao era o messias que tinha nascido para realizar a salvação da China.
Um retrato psicológico de Mao, escrito nos anos 60 consegue ilustrar bem a tendência messiânica de Mao em relação à China
O sonho de Mao era conseguir catapultar a China para o comunismo partindo de fatores superestruturais em vez de fatores materiais: em lugar da energia elétrica, de que falava Lenin, a energia revolucionária. Uma maneira idealista e voluntária de abordar os problemas, própria do artista e do poeta, para os quais a realidade não se impõe como momento imprescindível, mas deve ser inventada, forjada, seguindo e deslocando, os imperativos de uma visão puramente subjetiva e interior. É significativa a importância que tem, na obra de Mao, a famosa anedota do velho louco que resolvera mover as montanhas com a força dos próprios braços.103 (Tradução nossa)
Ao contrário da primeira, a segunda tendência fundava-se numa vi- são mais realista da situação chinesa, das dificuldades que a China deveria enfrentar para se transformar em um país moderno e economicamente inde- pendente. Os representantes desta tendência eram, sobretudo, Liu Shaoqi104 e Deng Xiaoping, que já no ano anterior tinham sido repreendidos pelo mesmo Mao que os acusava de querer afrouxar o ritmo da industrialização, 102 CHANG JUNG, op. cit. p. 189.
103 LEYS, Simon. Gli abiti nuovi del presidente Mao. Milão: Edizioni Antistato, 1977, p. 55.
104 Liu Shaoqi nasceu em 1898 na província de Hunan, a mesma de Mao. Freqüentou a uni- versidade em Moscou e retornado à China, uniu-se ao recém formado partido Comunista da China. Participou da Longa Marcha. Foi Presidente da RP da China de 1959 até 1968.
comparando-os a mulheres de pés enfaixados que só lamentam que “estamos indo demasiado rápido, demasiado rápido.”105
Durante o VIII Congresso, que se reuniu de 15 a 27 de setembro de 1956, Liu Shaoqi e Deng Xiaoping atacaram a ideologia maoísta que rejeitava inflexivelmente a ajuda da burguesia na modernização da China. Além disso, o próprio culto à personalidade de Mao foi colocado em discussão por Deng Xiaopíng.106 Foram feitas mudanças nos Estatutos do Partido Comunista que atingiam diretamente o ilimitado poder de Mao Zedong. De fato, ao invés de não ter nenhum vice-presidente ao lado do presidente Mao, agora os novos estatutos previam a presença de quatro vice-presidentes que constituíram o novo órgão do Comitê Permanente do Politburo.107 E não só. Os estatutos precedentes diziam que a mesma pessoa ocuparia o cargo de Presidente do Comitê Central do PCC e presidente do Politburo, enquanto os novos omitiram este “detalhe”. Mao Zedong permaneceu Presidente do Comitê Central, mas o cargo de Presidente do Comitê Permanente do Politburo passou a Deng Xiaoping, como também ficou com ele o cargo de secretário, figura importante no cenário político porque de fato, caberia a ele tomar as decisões mais importantes no âmbito do partido.
Outro elemento importante foi a falta de qualquer referência ao pen- samento de Mao Zedong. Era evidente, portanto, a tentativa de diminuir o poder até então considerado inatingível de Mao. Frente a estas tentativas, ele não podia permanecer inativo tanto mais que naquela época verificaram-se, no âmbito internacional, mudanças importantíssimas que estavam colocan- do em sério perigo o futuro do comunismo mundial. A mudança principal estava acontecendo na própria União Soviética. Depois da morte de Stalin, em 1953, Nikita Krushev assumiu o comando da União Soviética. Em 1956, durante o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), Krushev começou o processo de desestalinização, denunciando abertamente os crimes cometidos por Stalin. Esta fresta aberta no sistema totalitário russo foi a centelha que fez explodir o movimento revolucionário da Hungria que há tempo estava se formando. A revolução foi violentamente reprimida pela polícia secreta russa. Mas para Mao este acontecimento representava um sinal de alarme a não ser subestimado. Ele não deixou de perceber o papel fundamental que os intelectuais húngaros tinham desempenhado naquela revolução e não queria que a mesma coisa acontecesse na China. Além disso, o descontentamento no âmbito do Partido Comunista e entre a popu- lação insinuava-se sempre mais. Com o intuito de descobrir quais eram os intelectuais que apoiavam o partido, e de qual o partido precisava naquele momento, em maio de 1956, Mao usou pela primeira vez a expressão chinesa
baihua qifang, baijia zhengming (que cem flores desabrochem, que cem
105 MAO ZEDONG apud MEZZETTI, op. cit.,p. 51. 106 MEZZETTI, op. cit., p. 53-54.
107 Politburo é uma abreviação da palavra Political Bureau, termo que tem a sua origem na palavra russa Политический Вюро (Politìchesckij Bjuro) ou da palavra alemã Politisches
büro. Politburo é a organização executiva em muitos partidos políticos, principalmente nos
escolas entre elas rivalizem), lançada no III século a.C. pelo filósofo taoísta Zhuangzi a propósito das várias escolas filosóficas que surgiram na China durante o período dos Reinos Combatentes (480-220 a.C.).108 Naturalmente, o objetivo verdadeiro de Mao não era conhecido pelos demais. A campanha foi apresentada como um convite a ajudar o partido a reencontrar o caminho certo por meio da correção dos erros cometidos. As rédeas pareciam estar se soltando e isso provocou nos intelectuais surpresa e, ao mesmo tempo, satisfação por poderem finalmente ter a liberdade de se expressar através da poesia e da literatura.
Em fevereiro de 1957, Mao, no seu discurso “Acerca da justa solução das contradições no seio do povo”, depois de ter analisado os fatos da Hungria e de ter explicado a necessidade da eliminação dos contra-revolucionários acontecida nos primeiros anos do regime comunista, afirmou que certamente nesta eliminação alguns erros tinham sido cometidos. Agora precisava da ajuda de todos para examinar os erros cometidos pelo Partido Comunista. Por isso convidou todos a realizar uma aberta crítica ao marxismo e a quanto o Partido Comunista tinha operado até aquele momento:
Alguém perguntará: já que o marxismo é aceito pela maioria do povo de nosso país como ideologia orientadora, é possível criticá-lo? Certamente. O marxis- mo é uma verdade científica e não teme a crítica, se a temesse e pudesse ser refutado pela crítica, então não valeria nada. Os marxistas não devem temer a crítica, de qualquer parte provenha. Ao contrário, eles devem temperar-se, desenvolver-se e conquistar novas posições durante a crítica e na tempestade da luta. A realização da linha “que cem flores desabrochem que cem escolas rivalizem-se” não enfraquecerá, mas reforçará o papel de guia do marxismo em campo ideológico.109
Depois de vencer o temor de uma possível retaliação, as primeiras críticas começaram a emergir e em pouco meses, transformaram-se em um verdadeiro movimento de protesto contra o Partido Comunista, denun- ciando a falta de liberdade de expressão e de imprensa. Todavia, as críticas não se limitaram ao âmbito da arte e da literatura, mas atacaram a natureza do regime comunista e o próprio Mao foi alvo das acusações pela situação crítica em que se encontrava a China. A Universidade Beida em Pequim tornou-se o centro das manifestações contra o Partido Comunista. Milhares de dazibao110encheram as paredes da Universidade. O movimento de protesto 108 Neste período surgiram na China as grandes escolas filosóficas do Taoísmo, Confucionismo e a Escola dos Legistas.
109 MAO ZEDONG. “Acerca da justa solução das contradições no seio do povo”. Discurso
de 27 de fevereiro de 1957, Libro 14 – Opere di Mao Zedong. Disponível em: http://www.
bibliotecamarxista.org/Mao/libro_14/libro_14.htm. Acesso em: 15 nov. 2005.
110 Dazibao literalmente significa Jornal dos grandes ideogramas. De fato, os dazibao eram escritos a mão usando ideogramas grandes para que as mensagens fossem mais legíveis. Foram usados também durante a Revolução Cultural. Depois da Revolução Cultural, foram usados para expressar o descontentamento do povo em relação à atuação política do Partido Comunista, sendo fixados pelas ruas da cidade. Foram proibidos em 1978.
alcançou também o meio sindical, que reivindicava o seu papel de defensor dos interesses dos operários contra o Partido Comunista.
A reação por parte do Partido Comunista não tardou a se manifestar. Em 19 de junho de 1957, o texto de Mao divulgado no mês de fevereiro daquele mesmo ano, foi retransmitido com a adição de alguns trechos que tinham sido omitidos na versão precedente. Estes trechos esclareciam os 6 pontos que as críticas deviam respeitar para serem aceitas e consideradas úteis ao desenvolvimento e melhoramento do regime comunista:
1.As palavras e as ações devem favorecer a unidade de todas as nacionalidades do nosso país e não a divisão;
2. devem favorecer e não danificar a transformação e a edificação socialis- tas;
3. devem concorrer a consolidar e não sabotar nem a enfraquecer a ditadura democrática popular;
4. devem concorrer a consolidar e não a sabotar nem enfraquecer o centra- lismo democrático;
5. devem concorrer a reforçar e não a abalar nem enfraquecer a direção do partido comunista;
6. devem trazer benefício e não dano à solidariedade socialista internacional e à solidariedade internacional de todos os povos amantes da paz.
Destes seis critérios, os mais importantes são o da via socialista e o do papel guia do partido. Propomos estes critérios para contribuir a desenvolver a livre discussão dos diferentes problemas entre o povo e não freiá-la.111
Estes seis pontos eram, portanto, uma precisa advertência de qual era a natureza das críticas que teria sido aceita pelo governo comunista. O fato de eles terem sido publicados somente depois que a bomba das “críticas” já tinha explodido e que todos os intelectuais tinham manifestado abertamente as suas convicções reforça a idéia que a campanha das Cem Flores foi uma manobra bem arquitetada por Mao para poder identificar os inimigos ainda latentes do Partido Comunista. A tese segundo a qual Mao teria sido surpreendido ao ver o quanto o regime comunista e inclusive a sua figura de líder tinham sido violentamente atacadas é um tanto ingênua. Mao era bastante esperto para entender que estava perdendo poder, principalmente dentro do partido, entre a classe dos intelectuais e de todos aqueles que possuíam algum conheci- mento técnico ou científico. Até então, Mao permitira uma certa aliança com estes grupos por objetivos meramente estratégicos. Agora, porém, chegara o momento de derrotar os últimos inimigos da revolução chinesa.
De fato, logo após a Campanha das Cem Flores, o Partido Comunista lançou a campanha antidireitista. Todos aqueles que tinham se manifestado contra o Partido Comunista foram acusados de ter traído o próprio país e rotulados como direitistas. Os mais atingidos foram os estudantes, profes-
111 MAO ZEDONG. “Acerca da justa solução das contradições no seio do povo”. Discurso
de 27 de fevereiro de 1957, Libro 14 – Opere di Mao Zedong. Disponível em: http://www.
sores, artistas e cientistas que foram condenados aos trabalhos forçados nas regiões mais remotas da China ou desclassificados e obrigados a cumprir tarefas mais humildes, que lhe impediam de voltar a seus “perigosos” lugares de trabalho.