Mao Zedong aproveitou o conflito para realizar uma poderosa propa- ganda antiamericana. O lema lançado naquele período: “Resistir à América, ajudar a Coréia”, foi o grito de combate para a exacerbação do ódio contra os americanos, em particular, e contra todos os estrangeiros, em geral, represen- tantes das forças imperialistas. Alinhar-se ao partido opondo-se aos Estados Unidos significava demonstrar lealdade e patriotismo. O governo comunista convidou todos a desfilar nas estradas para apoiar a guerra pela Coréia. Os estudantes e os trabalhadores foram convidados a deixar de trabalhar e de 97 VIZENTINI, Paulo Gilberto F. e RODRIGUES, Gabriela. O dragão chinês e os tigres
asiáticos: desenvolvimentos e diplomacia na Ásia Oriental contemporânea. Porto Alegre:
estudar para irem de casa em casa fazer propaganda e recolher fundos para ajudar os voluntários chineses que tinham ido combater. Todos aqueles que não participavam destas atividades ou se recusavam a participar das paradas de propaganda eram acusados de não apoiar o governo e, portanto, de não amar a própria pátria.
Em 1951, apenas dois anos após a proclamação da República Popular da China, o governo percebeu que a corrupção havia já se infiltrado nos seus meandros e que a frágil economia chinesa estava sendo colocada em perigo por causa dos grandes desvios de dinheiro feitos por alguns dos funcionários comunistas, além de subornos e outros atos ilícitos. Todas essas ações repe- tiam os erros do Guomindang, que tinham sido condenados pelos comunistas. Por isso, no final do mesmo ano, foi lançada a Campanha dos “Três Anti”, com a qual o governo comunista queria combater os três males que se aba- tiam dentro das fileiras comunistas: corrupção, desperdício e burocracia. O governo decidiu executar alguns funcionários do Partido Comunista, assim como integrantes do exército acusados de corrupção.
No ano seguinte, o partido decidiu lançar uma outra campanha, que desta vez chamou-se de “Campanha dos Cinco Anti” e o seu objetivo era atacar os capitalistas. A campanha anterior tinha atacado os membros do partido. A de agora queria atingir a outra parte igualmente responsável pela corrupção na China. Os cincos males a serem combatidos eram: o suborno, a evasão fiscal, a fraude, o roubo de propriedade do Estado e a obtenção de informação econômica por meio da corrupção. Todavia, a punição não foi tão grave como aquela infligida aos membros do partido. Estas duas cam- panhas, cujo nome em chinês foi reduzido em uma única expressão (san-wu
fan), inauguraram um instrumento de controle do partido que se tornaria
uma constante na vida de todo cidadão chinês. Com efeito, as campanhas de massa eram realizadas por meio de equipes de trabalho que se torna- ram, com o tempo, órgãos efetivos do Partido Comunista, trabalhando em todos os níveis, regionais, provinciais e locais. A sua tarefa era controlar o comportamento das autoridades e dos funcionários públicos. Estas equipes organizavam palestras no meio do povo, convencendo as pessoas a denun- ciar casos suspeitos. Em caso de denúncia, se procedia uma investigação. Se a acusação se revelasse verdadeira, passava-se à execução da sentença. A sentença mais grave era o envio da pessoa condenada a um campo de traba- lho para ser reeducada através o trabalho manual.98 Este hábito de envolver toda a população na aplicação de suas políticas foi uma característica de Mao Zedong, que esperava, desta forma, alcançar cada membro do partido e desentocar cada inimigo do sistema.
98 CHANG JUNG. Cisnes selvagens – Três Filhas da China. São Paulo: Companhia das Le- tras, 1994, p. 167. Não obstante, o livro Cisnes Selvagens não tenha um caráter acadêmico, as informações históricas nele contidas não são de caráter ficcional. Procuramos distinguir tais informações das anotações pessoais da autora. Pelas informações históricas nele contidas, tal obra é utilizada na Universidade Federal de Roma “La Sapienza” como livro texto nas disciplinas de história da China.
Em 1954 foi promulgada a primeira constituição chinesa criada se- guindo o modelo soviético. A constituição afirmava que o principal órgão legislativo era a Assembléia Nacional do Povo, que devia eleger o Presidente da República. Ao Presidente da República cabia o comando da Defesa Nacional. Naturalmente, Mao Zedong foi eleito naquele ano Presidente da República e, portanto, Chefe da Comissão Militar e presidente do Conselho para Defesa Nacional, permanecendo ao mesmo tempo na Presidência do Partido Comunista. De fato, era o Partido Comunista a única guia do país. As suas estruturas, quer em nível central, quer regional e local, se sobrepunham às estruturas do próprio Estado, atuando um controle capilar pela imposição das diretrizes maoístas.99
No mesmo ano Zhou Enlai participou da Conferência de Genebra re- lativa à situação da Indonésia e ao conflito coreano. Na ocasião, Zhou Enlai formulou os cincos princípios de “Coexistência Pacifica”: autodeterminação, não intervenção em assuntos internos, mútuo respeito, benefício recíproco e igualdade de tratamento, princípios estes que foram reafirmados no ano seguinte, em 1955, por ocasião da Conferência de Bandung. A República Popular da China ofereceu uma importante contribuição em matéria de re- lações internacionais, mesmo sendo reconhecida oficialmente somente por sete dos 29 países participantes à conferência.100
Depois de ter lançado o primeiro plano qüinqüenal (1953-1957) - que relançaria na China a indústria pesada, graças à ajuda maciça da União Soviética101 -, em julho de 1955 Mao pediu que se acelerasse a coletivização da agricultura, por meio da passagem do trabalho do camponês individual às grandes cooperativas agrícolas. No mês de novembro do mesmo ano, ele anunciou que toda a indústria e comércio, que até aquele momento não havia sido objeto de mudança, passariam às mãos do estado. Os antigos proprietários permaneceriam nas indústrias e nas empresas como simples administradores controlados por funcionários do partido.
No mesmo ano, foi lançada uma campanha para descobrir “os contra- revolucionários”. Mao suspeitava de alguns escritores comunistas que, no seu entendimento, estavam mostrando um pensamento independente da ideologia comunista, ou melhor, maoísta. Independência de pensamento podia levar, segundo Mao, a uma não obediência às diretrizes do governo e, portanto, representava um perigo à ordem e união do país. Neste fato, Mao demonstrava não se afastar muito do comportamento dos imperadores das dinastias chinesas: deixar o povo ignorante para que não pensasse. Se pensasse, podia se rebelar e provocar a queda do imperador.
Além dos escritores, Mao desconfiava de qualquer pessoa que no pas- sado tivesse tido alguma ligação com o Guomindang. O objetivo era como 99 ZORZI, Adige. La Chiesa nascosta. Milão: Baldini &Castoldi, 1999, p. 105.
100 VIZENTINI, Paulo Gilberto F. e RODRIGUES, Gabriela, op. cit., p. 16.
101 Em 14 de fevereiro de 1950, a China e a União Soviética assinaram um Tratado de Amizade, Aliança e Assistência Mútua. O auxílio soviético foi fundamental para a industrialização da China e se constituiu principalmente de créditos, participações em projetos industriais, envio de maquinários e técnicos russos.
sempre eliminar qualquer traço de hostilidade ao redor do governo comunis- ta. Como resultado da campanha, mais de 160 mil homens foram etiquetados como “contra-revolucionários”, o que significava ter não somente as suas vidas arruinadas, mas, com eles, também a vida dos seus filhos e netos.102