ADOPTE A LA MAJORITE
MME AMOUROUX
M. LE MAIRE Exactement, merci
Em plena Revolução Cultural, quando o culto da personalidade de Mao alcançara as regiões mais remotas da China, Mao olhou para além das fronteiras chinesas visando à conquista do mundo. Até o último período da sua vida, ele se sentiu investido da missão de salvação do mundo. O culto a ele reservado chegou a ter conotações quase religiosas, num período em que ele queria expulsar da China todos os deuses que podiam atrapalhar o culto à sua pessoa. Para conquistar o mundo e trazê-lo para seu lado, arquitetou planos de ajuda financeira aos países com os quais a República Popular da China estabelecera relações diplomáticas. Muitos jovens do Ocidente ficaram fascinados por Mao. O jornalista Tiziano Terzani, que passou muitos anos na China, conta como ele e outros jovens da sua idade fantasiavam sobre a figura de Mao:
A China estava em plena Revolução Cultural e Mao em Pequim fora a faísca que acendia a fantasia da juventude ocidental inspirada na sua mensagem antiautoritária. Vista de longe, a China aparecia como o país mais criativo e Mao um gênio empenhado na maior experiência de engenharia social que a humanidade nunca tentara: a busca de uma sociedade mais justa e mais humana. Muitos foram fascinados pela grande ilusão representada por Mao e pela sua China. Se o nosso era um mundo velho e imperfeito, se as esperanças do passado foram frustradas, eis uma nova ocasião. A China não seria uma
outra União Soviética ou uma outra Cuba. A China era algo a mais. E assim a China se tornou um mito, o mito do “outro”.192 (Tradução nossa)
Foi seguindo este mito que muitos jovens do Ocidente participaram das escolas de treinamento fundadas pelo partido às portas da capital. Mao pretendia difundir o mito da China nos países limítrofes, especialmente Birmânia, Laos e Vietnã, mas não conseguiu nada.
O Vietnã, de maneira especial, sempre desconfiou das ofertas de ajuda provenientes de Mao Zedong e, com razão, pois quando Mao percebeu que as relações diplomáticas chinesas, ao invés de melhorar, pioravam, não hesitou em aproximar-se do seu inimigo, os Estados Unidos.
Já em 1953, depois da morte de Stalin, a China tentou uma reaproxima- ção aos Estados Unidos, mas foi ignorada. Daquele momento em diante, Mao levantou a bandeira antiamericana. Agora, porém, estava pronto a mudar de tática. A ocasião para convencer os Estados Unidos das suas boas intenções veio quase por acaso, em 1971. O time chinês de tênis de mesa fora disputar uma competição no Japão. Alguns times estrangeiros foram convidados para visitar a China, e o time americano manifestou interesse em ser convidado. Mao aconselhou Zhou Enlai, Ministro do Exterior, a recusar o pedido. Na última hora, porém, mudou de idéia e, em plena noite, ordenou à enfermeira que o assistia de ligar ao Ministro do Exterior para que o time americano fosse convidado.193 Zhou Enlai preparou uma recepção fabulosa. Todos os jornais publicaram o excepcional ato de abertura do governo chinês. O pre- sidente americano Nixon, que depois da guerra contra o Vietnã procurava uma abertura ao Oriente, colheu a ocasião e enviou, no mesmo ano, o seu enviado Kissinger para preparar sua visita. No final do mesmo ano, a China passou a fazer parte da Organização das Nações Unidas.
Um outro acontecimento político importante marcou o ano de 1971. A ruptura da aliança entre Mao e Lin Biao. Mao percebeu que Lin Biao queria a todo custo se tornar vice-presidente da República Popular da China e se convenceu de que, de alguma forma, Lin Biao poderia ofuscar a sua imagem no cenário político. Por isso começou a pedir a Lin Biao que pronunciasse autocríticas em frente aos membros do partido. Lin Biao sempre se recusou. Conhecendo profundamente Mao, Lin Biao percebeu que seria a sua próxima vítima e decidiu fugir com sua família para a União Soviética. Todavia, na última hora, Lin foi traído pela própria filha que denunciou a iminente fuga da família aos membros do partido. O avião teve que partir as pressas sem poder encher totalmente o tanque. A falta de combustível provocou a queda do avião. No acidente morreu toda a família, com exceção da filha, que se recusou a partir com eles.194
Em seguida, Mao ficou seriamente doente e quase morreu. A grave situação de saúde o impedia de participar ativamente da vida política e o 192 TERZANI, Tiziano. La Porta Proibita. Milão: Ed. Longanesi, 1998, p. 13.
193 CHANG JUNG; HALLIDAY, op. cit., p. 680-681. 194 CHANG JUNG; HALLIDAY, op. cit., p. 655-657.
forçou a reabilitar alguns dos quadros de partido que foram exilados nas campanhas antidireitistas ou durante a Revolução Cultural. Dentre eles fez a sua reaparição Deng Xiaoping, que Mao mandou chamar em 1973.
Deng Xiaoping nasceu em 1904 na província de Sichuan. Participou do Movimento Cultural de 04 de maio de 1919. No ano seguinte viajou para a França, onde participou de um programa de trabalho. Foi ali que Deng conhe- ceu Zhou Enlai e entrou nas fileiras do Partido Comunista da China. Deixou a França em 1926 e foi estudar um ano na União Soviética. Retornando à China, se engajou nas revoltas organizadas no sul pelo Partido Comunista participando, em seguida, da Longa Marcha. Por anos liderou o Exército de Libertação em várias províncias chinesas. Esta ligação com os militares o ajudou nos períodos em que foi afastado do poder. Sempre se manifestou leal a Mao, a não ser no período em que apoiou a linha mais pragmática de Liu Shaoqi, que denunciou os fracassos econômicos do Grande Salto Adiante. Durante a Revolução Cultural Mao tentou várias vezes convencer Deng Xiaoping a apóia-lo, mas não conseguiu.195 Por esta sua recusa foi exilado e etiquetado como capitalista e direitista.
Deng Xiaoping sofreu muito durante os anos da Revolução Cultural, principalmente pelo tratamento que foi reservado aos seus filhos, obriga- dos pelas Guardas Vermelhas a denunciar publicamente o pai. Um deles, depois de ter sido torturado, jogou-se pela janela da Universidade e ficou paralítico.196
Todavia, durante este período, Deng Xiaoping permaneceu calado esperando a ocasião de poder voltar. Mao o chamou quando percebeu que ao redor dele não havia mais ninguém que pudesse garantir a estabilidade do país. Quando Zhou Enlai ficou doente, Mao chamara Wang Hongwen, um dos Rebeldes que trabalhou para ele durante a Revolução Cultural197, mas quando percebeu que ele não possuía competência suficiente e não conseguia ganhar a confiança do exército, não teve outra escolha a não ser chamar Deng Xiaoping.
Começara o período de declínio de Mao. Em 1973, Nixon e Breznev198 assinaram o Acordo para Prevenção da Guerra Nuclear, acordo que foi vis- to por Mao como uma traição dos Estados Unidos. Em seguida, a notícia das demissões de Nixon por causa do escândalo Watergate fez naufragar os sonhos de Mao, que recebera de Nixon a promessa do reconhecimento diplomático da China.
Retornando a participar da liderança política, Deng Xiaoping estabe- leceu uma aliança com Zhou Enlai, que se afastara de Mao, e com o líder do Exército, o Marechal Ye Jianying, antigo amigo de Deng Xiaoping e futuro Ministro da Defesa. Eles representavam a ala moderada do Partido 195 CHANG JUNG; HALLIDAY, op. cit., p. 716.
196 Ibid., p. 717. 197 Ibid., p. 718.
198 Leonid Breznev substituiu Nikita Krushev na presidência da URSS a partir de 1964 até 1982, assumindo também o cargo de Secretário Geral do PCUS. O seu governo foi caracterizado por uma política de distensão em relação aos Estados Unidos e à Europa.
Comunista, que se opunha a uma linha mais radical, sustentada pela esposa de Mao, Jiang Ching e pelos componentes daquela que seria definida “Bando dos Quatro” (Si ren bang): o jornalista de Xangai, Yao Wenyuan, Zhang Chunqiao, também jornalista e Wang Hongwen, o mais jovem componente do grupo, que provinha das Guardas Vermelhas.
Quando as condições de saúde de Zhou Enlai se agravaram por causa de um câncer que lhe fora diagnosticado, Deng Xiaoping foi admitido no Politburo e na Comissão Militar.
Deng tentou melhorar as condições de vida da população chinesa pro- curando restituir-lhe uma certa liberdade. Mas a morte de Zhou Enlai, em janeiro de 1976, oito meses antes da morte de Mao, mudou de novo o qua- dro político. Temendo que Deng pudesse ocupar o lugar deixado por Zhou, Mao se apressou em ordenar a sua prisão, denunciando-o publicamente. A ala radical do partido parecia prevalecer. Mas ninguém levava em conta a reação do povo chinês. De fato, o funeral de Zhou Enlai foi a ocasião pro- pícia para a organização de grandes manifestações por parte da população. Homenageando Zhou, que representava a ala moderada do partido, o povo expressou as suas críticas ao partido e, indiretamente, à decisão de tirar Deng do cenário político. Os movimentos de contestação foram logo reprimidos. Mao chamou o Ministro da Segurança, Hua Guofeng199, até então quase desconhecido, para ocupar o lugar de Zhou Enlai.
Tudo fazia pensar que Hua Guofeng seria o escolhido à suceder Mao na presidência do Partido Comunista. Até o último dia de vida Mao Zedong titu- beou em revelar o nome do seu sucessor. A ala radical do Partido Comunista esperava poder preencher o lugar ainda vazio com um dos componentes do Bando dos Quatro. Mas os eventos se desenrolaram de forma diferente.
Quando Mao morreu, em setembro de 1976, Hua Guofeng assumiu o cargo de chefe do partido, posição que somente Mao ocupara até então. O seu primeiro ato político foi mandar prender o Bando dos Quatro, com a acusação de complô contra o partido, recebendo por esta decisão política os elogios da opinião pública e da ala moderada do partido.
Mantendo-se fiel à linha política da esquerda maoísta, Hua Guofeng continuou a crítica contra Deng, mas não por muito tempo. O Exército de Liberação, líderado pelo Marechal Ye, apoiava Deng Xiaoping, e Hua Guofeng estava ciente de não poder governar o país sem estreitar alianças estratégicas com os militares.
Deng soube se aproveitar disso e escreveu para Hua Guofeng elogiando a sua ação política. No ano seguinte, por ocasião do primeiro aniversário da morte de Zhou Enlai, o povo chinês reuniu-se novamente na praça Tiananmen, desta vez para pedir expressamente a volta de Deng Xiaoping.
199 Hua Guofeng nasceu em 1921 na província do Shanxi. Tornou-se membro do Partido Co- munista em 1938. Em 1951 foi nomeado secretário de Partido no Hunan, província natal de Mao. Foi chamado a participar do Politburo em 1973 e foi nomeado Ministro da Segurança em 1975.