3.4 Equilibrium with T > 2 periods
4.3.3 Mixed strategies
Temor e tremor não é um livro de teodicéia da cristandade. Em
suas páginas, não há nenhuma menção ao termo/nome “Cristo”, a não ser quando Johannes de Silentio fala de Maria, clamando-a como a “serva do Senhor”, a “virgem que deu a luz a um menino” (TT: 73-75). Em nenhum momento, Abraão é comparado a Cristo, senão a figuras heróicas da moral pagã, como Brutus, Jefté, Agamenon, Inês e o tritão, etc...
Uma exegese profunda do respectivo livro colocará em choque a moral clássica, mas nunca poderá apresentar qualquer estratégia de apresentação de uma moral cristã. Pode-se supor, com base em Gene Fendt, que Kierkegaard, quando escreveu Temor e tremor estava na esfera religiosa de sua existência (p. 12). Mas, por quais razões, então, nem o próprio nome “Cristo”, nem um mínimo do compêndio da ética cristã são alçados no livro? A resposta parece vir do próprio Kierkegaard, no Diário de 1843 (mesmo ano em que Temor e tremor é publicado):
O paradoxo absoluto faria que o Filho de Deus se fosse encarnado, seria visto no mundo e se viveu de tal modo seria observado. Restaria, no sentido mais rigoroso, um Indivíduo como todos os outros, com um ofício, uma família, etc. (o que faria com que a vida de Cristo seria regulada pelos mais altos sensos de moralidade). (...) Ora, o paradoxo divino não pode, aqui, deixar de ser notado, (...) e é necessária a fé para resolver seu
paradoxo; a tola razão humana quer que ele tenha sucesso, que ele arraste os contemporâneos, os entusiasme, etc (D: 175).
Kierkegaard sugere por essa anotação que o Cristo, enquanto evento reconhecido pela fé, não pode ser manipulado sob quaisquer pretextos pela razão humana; procurá-lo historicamente é fazê-lo desempregar-se do mistério que sua encarnação comporta. O Cristo contemporâneo não é um líder, um exemplo, nem mesmo um paradigma. Ele é a libertação do vínculo entre a vida interior e exterior do Indivíduo, e sua humanidade é apenas uma dimensão correlata de sua divindade, um relativo de um absoluto. Eis que o tornar-se cristão, para Kierkegaard, é, enfim, uma divinização do humano existente, o último píncaro que comporta uma gradação para a perfeição, a atualização da plenitude da existência que a vida ética ou estética não podem garantir com autenticidade. Desse modo, se em Temor e tremor, o Cristo não é citado, suas referências indiretas são colocadas sob a vértice do “dever absoluto para com Deus” que Johannes de Silentio institui como a superação do humano pelo divino sem a perda de seu conteúdo existencial importante: sentir-se na vivência da experiência, do desdobramento da “empiria”68
de Indivíduo.
A ligação entre os termos “Indivíduo” e “cristão” parece fomentar para a sinonímia das duas expressões. Doravante, a leitura de
Temor e tremor aponta com espírito de certeza que o primeiro termo se
aplica a Abraão e o segundo a Cristo e que entre Abraão e Cristo existe uma espécie comum de paradigma de transcendência. Ademais, o termo “Indivíduo” está condicionado muito explicitamente ao chamado período filosófico de produção kierkegaardiana, que vai de 1843 a 184969. A produção kierkegaardiana conhecida como Kierkekamp70 tem,
68
Idéia aqui trabalhada como sentido metafísico da existência, que esclarece a missão do existente.
69
Ernani Reichmann, em Intermezzo lírico-filosófico, parte VII e Henri-Sans Vergote Sens et repetition são dois grandes comentadores de Kierkegaard entusiastas desta idéia.
70
A luta de Kierkegaard contra a Igreja Oficial Dinamarquesa, que vai de 1845 até o ano de sua morte, em 1855.
outrossim, como ponto de agenda responder à questão: “Como tornar-se um cristão?”71
Um raciocínio taciturno poderia muito bem ponderar que se torna cristão quem se inicia numa religião cristã. Para isto, bastaria nascer numa família cristã, ser educado numa escola cristã e viver segundo os preceitos e obrigações de uma nação cristã. Doravante, Kierkegaard criticará duramente na classe de artigos que ficaram conhecidos como O momento72 esse tipo de mecanismo que mais se classifica como um “cristianismo geográfico”. Que fé esse processo evidencia? Que idéia de salvação esse tipo cultural de cristianismo pode oferecer à consciência pessoal de seus praticantes? Esse tipo de cristianismo flerta, sim, com a dimensão cronológica no tempo e só pode oferecer um caminho que se protagonize, única e exclusivamente, pela moral. Mas o cristianismo radical, o cristianismo absoluto, serve ao Indivíduo como o ponto mais profundo da interiorização da consciência, pois aproxima-o tanto de si mesmo como de Deus. É o cristianismo salvífico, o cristianismo kairóstico, o cristianismo que oferece a eternidade como item de grandeza e de mistério.
Quanto a questão de como tornar-se um cristão, o teólogo holandês Zuidema (1960, p. 11) pondera que
(que a mesma) contenha dois temas básicos: a idéia de existência pessoal é pressuposta na de posse da consciência interiorizada e a de que a idéia de Paradoxo Absoluto, ou Idéia Kierkegaardiana de Revelação, é pressuposta na idéia de salvação dada em Cristo. O crente é um indivíduo reconciliado consigo mesmo e com Deus. Ele tem certeza de que ele mesmo, através da sua consciência interiorizada, está de posse de sua salvação. Ele tem certeza de
71
A resposta a esta questão exigiria outra trajetória que este estudo, por suas limitações em relação à cronologia filosófica de Kierkegaard visa não supor. È de certo notar que a fase de produçãodo opus kierkegaardiano, mais conhecida como segunda fase é a que mais apresenta temas religiosos voltados à mística, á eclesiologia, à arte de elaborar sermões.
72
Cujas últimas publicações não foram lançadas, devido à morte de Kierkegaard em 1855.
que a salvação dada por Deus em Cristo é o ponto alto de sua fé.
Jean Wahl (1949) em seus Études kierkegaardiènnes73, é, pois, também um defensor da idéia de que a existência humana não está contraposta, em Kierkegaard, à de revelação de Deus. É reafirmado neste estudo pioneiro o que foi proposto como idéia de Indivíduo em
Temor e tremor; que o Indivíduo tem como possibilidade a
transcendência, que enquadrá-lo apenas na lógica material e mediata deste mundo é fazê-lo desencontrar-se de sua dimensão espiritual e que sua plenitude no mundo ou as relações para com este não podem lhe oferecer. Resta-lhe a fé como elemento tanto de paradoxo como de superação. É neste sentido que os termos „cristão‟ e „Indivíduo‟ se equivalem em Kierkegaard.
Por último, é preciso considerar que, se em matéria filosófica, Indivíduo e cristão se equivalem, pois ambos são os protagonistas de uma relação absoluta de transcendência existencial que pressupõe a fé, é preciso reconhecer, segundo Kaufmann (1958), que a fé cristã difere-se da fé judia quanto à sua natureza: a fé “em” e a fé “que” (por exemplo: a fé do Indivíduo em Cristo e a fé que o transcende) é cristã. A fé como “confiança” e “intimidade” é judia (p. 253). A primeira prepondera o predicado correspondente à fé; a segunda, o sujeito. O representante do primeiro tipo de fé é o cristão, que adquire seu estado existencial após o movimento e termo deste. O segundo é o Indivíduo, que está numa relação de condição única com seu objeto transcendente de confiança e intimidade.
O termo “transcendente” é usado em Kierkegaard, a partir da programação em Temor e tremor, para designar um estado de elevação consistentemente espiritual e ascético do homem por sobre o mundo. O mundo é, no opus kierkegaardiano, o vínculo e o receptáculo da existência material (ou vida cultural propriamente dita), o lugar em que as deleite e o sentimento de apego à vida fluem como uma necessidade de vivência. O mundo, outrossim, é o horizonte onde a própria finidade humana se perfaz como indício do tempo e do espaço. O mundo físico é, assim, o chamariz para a diversidade existencial, a ser experimentada pelo Indivíduo. É o circuito próprio onde estética e ética se digladiam a
73
Essa tese encontra-se especificamente no capítulo La théorie de l´existence, p. 258 a 288, da mesma obra.
oferecer uma constância de realização em prol do humano. No capítulo a seguir, veremos como o conceito de vida no mundo se acopla ao de Indivíduo e como este se apega à realidade, na condição de desenvolver a vontade na imanência, através do ato de escolha. A escolha em Kierkegaard é o segundo mecanismo de elementarização da tese filosófica do Indivíduo em Situação, e, implica, quando considerada a
posteriori da circunstância da experiência e de sua inauguração na
individualidade do Indivíduo, a relação mais concreta e dinâmica do existente para com o mundo físico-cósmico.