3.4 Equilibrium with T > 2 periods
3.4.2 Equilibrium if parties influence citizens’ preferences
O método filosófico de Kierkegaard não se atém à continuidade. Os conceitos são exercidos dentro de uma proporção visualizável de tal forma que estejam dados em conjunto e em complementação uns aos outros. Outrossim, também se observa que estes mesmos conceitos formam um amálgama estando conciliados uns com os outros para oportunizarem adjacência às chamadas categorias mais significativas, dentre as quais a de Indivíduo e a de Existência, continuamente interrelacionados. O uso de qualquer um destes conceitos, em Kierkegaard, traz como consequência a exposição de uma miríade de conceitos relativos oportunamente intercruzados. Esta é uma prova do discurso integrador da filosofia em Kierkegaard que, dada a força dialética, é capaz de exprimir uma relação de identidade antes não suposta entre os conceitos.
Essa mesma relação de identidade entre os termos, na filosofia de Kierkegaard, permite com que o conceito possa ser atravessado por
seu oposto para conciliar-se mais prontamente como categoria ou conceito maior mais adiante. É o caso, por exemplo, do conceito de angústia, que é, enquanto conceito, elementarizado tanto pelas vias intelectivas quanto sentimentais. É, dentre outros conceitos kierkegaardianos, o mais abstrato e o mais concreto, pois permite entender o homem angustiado na situação de angústia para a qual desperta, sabendo-se que o angustiado mesmo é, antes observador, juíz e vivenciador da sua própria ação. O mesmo ocorre com a designação da assim chamada “tarefa de existir” (Opgove). Ao mesmo tempo em que se translucida como pensamento, erige-se, também, como esforço. Ao mesmo tempo em que se situa como dom, cobra seu valor de entrega62 a algo. E o que dizer, então, do conceito de existente? Bem, ele é o predicado mais direto da impredicabilidade da existência, como nos mostra Kierkegaard. O existente é aquele que conclamou e tornou realidade o ato de existir, compreendido na interlocução entre vivência interior e exterior. É aquele que trava uma luta entre o desejo e a possibilidade de existir. Amiúde, ele é também aquele que se coloca numa dimensão solitária e secreta que o lança para as peripécias de vencer o nada pelo ser. E, por ser solitário nessa dimensão de luta, o existente é uno, indivisível, Indivíduo.
Doravante, o movimento de expressão do existente, pelo menos em termos absolutos, não pode ser direto (se assim o fosse, ele não estaria em caráter de exceção, solitário e confinado a um segredo63). O existente, tomado autenticamente em sua via de existência, não pode estar num estado horizontalizado de vivência, segundo o qual a partilha e a intersubjetividade sejam fatores condicionantes da totalidade de sua vida. Ele não é o sujeito da relação sujeito-objeto, mas a subjetividade precípua em busca da subjetividade pura64.
O existente tem como meta lutar pelo ser. Mas isto não é apenas um mandamento, é uma condição. Posteriormente, o ser em existir vem tangenciado pela vontade de tornar-se. E o existente se torna existente assumindo-se resistente a um ser geral, genérico e impessoal, devendo- se como Único.
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Um dom que se entrega. Um presente dado com o qual presenteia-se a outrem.
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O segredo ou mysterium da existência na transcendência.
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Esse encontro da subjetividade dada com a subjetividade transcendental, Emannuel Mounier (1947) chamou de “appel de l´Unique a l´Unique” em Introduction aux existentialismes, p. 51.
Esta conotação do existente como Único deixa entrever uma relação de proximidade de posição ontológica entre Kierkegaard e Platão65, no sentido de que pensamento do ser é o mesmo que ser; isto, implicando na vida do existente pode, pois, ser assim resumido: o ser único pensa-se único não porque a idéia ou dimensão de único lhe é interior, mas que entre a idéia de ser (pensada) e a idéia de único (expressada existencialmente) não existe correlação senão a mais intensificada identidade.
Desse modo, segundo Wahl (1965, p.91), “a função ontológica do Indivíduo (enquanto ser Único) é existir”. E existir implica, concretamente, assumir-se em uma luta que se trava num picadeiro sem platéia, num lócus de solidão que implique ao próprio lutador reconhecer-se ou definir-se em sua labuta.
Filosoficamente, um Indivíduo em pecado, de acordo com Kierkegaard, é um indivíduo que está, ainda, nadando nos mares do nada. Ele não descobriu-se existente, porque justamente reside ainda na não-existência, está na baila externa da possibilidade e, para ele, a vida se resume a um acordo entre fazer e receber. O Indivíduo não existente não comporta a esperança de verificar-se para além da prática possível da sua quotidianidade expressa. Ele se vê atado às preocupações com o mundo exterior que sua própria individualidade institui-se como acidente deste próprio mundo. O homem paga com tédio por esse tipo de vida relativa, superficial, atracada na própria efemeridade . O tédio é a ameaça de vacuidade existencial que afeta a vida em sua significância mais absoluta, é o sentimento que traspassa a negatividade humana quanto ao seu propósito de autenticidade66.
Só há um modo, segundo Kierkegaard, do homem torna-se existente: é fazer-se devir, pela experiência, escolha e ação, no tempo, iniciando um ritmo próprio de escolha. Tempo existencial é um produto consciente do tempo físico. O homem experimenta suas relações
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Que seja, aqui, relembrado diálogo platônico Parmênides, p. 137-145, em que, em sua Primeira Parte, Sócrates confronta Zenão, apresentando o argumento das formas inteligíveis, que descrevem a essência do pensamento como uma essência de coisa.
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Aqui se verá muito claramente uma relação de princípios a respeito da crítica ao homem contemporâneo, que começa com a apreciação da angústia, como sentimento do tédio e da captação do nada existencial, em Kierkegaard, até o conceito de nichtung em Heidegger.
existenciais no tempo que lhe é dado e expressa sua autonomia de vivente entrando nele com uma tarefa bem específica: a de cuidar de seu segredo, daquele mistério que o lança paradoxalmente como Único na diversidade de possibilidades de existir de que o tempo se encarregará. Com estas palavras, Johannes de Silentio mostra que o tempo é o grande cenário, o locus específico da luta que o homem, pela angústia, trava indo do nada ao ser:
(..) Só a idéia de tomar consciência da carga do tempo, de dar-lhe tempo para escutar infatigavelmente todo sentimento secreto, de maneira tal que não se faz a cada instante o movimento em virtude daquilo que há de mais sagrado no homem, pode descobrir-se com uma horrível angústia, e se não de outro modo ao menos pela angústia se pode suscitar o obscuro impulso que se oculta em toda vida humana, enquanto que vivendo na companhia de seus semelhantes, um se escapa e esquece facilmente isso, outro se mantém a pique e acha a oportunidade de recomeçar com maior vigor; esta idéia sozinha, concebida com o respeito conveniente, me parece capaz de disciplinar a muito contemporâneo que afirma ter chegado ao mais alto posto (TT: 115-6).
O homem descobre-se, enquanto Indivíduo, existente, a partir de uma “terrível angústia”. Esta angústia é, como já se afirmou, captação do nada. O nada, em relação ao ser, no ato de existir sugere a quebra de vínculos entre a relação intencional entre existente e existência possiblitada. Como forma de lutar pelo existir, a angústia ou ansiedade, sempre se portará como o vigia eterno da consciência de existir. È ela que evidencia a tensão entre existência e não existência, mas, em si mesma, ela é apenas um sentimento, evidenciado pela estreiteza interna que causa.
Paul Tillich (2001), teólogo alemão a quem as idéias de Kierkegaard muito influenciaram, trata angústia e ansiedade como sinônimos. Para ele, face a sondagem sempre temível da não-existência, a ansiedade é, antes, o núcleo da apreensão do Indivíduo face ao “dever” de existir.
(...) a ansiedade não tem objeto, ou melhor, numa frase paradoxal, seu objeto
é a negação de todo objeto. Portanto, participação, luta e amor em relação a ela são impossíveis. Aquele que está em ansiedade está, tanto quanto é mera ansiedade, entregue a ela sem apelação. O desamparo no estado de ansiedade pode ser observado da mesma forma em aninmais e humanos. Expressa-se pela perda de direção, reações inadequadas, falta de “intencionalidade” (o ser relacionado com conteúdos significantes de conhecimento ou vontade). A razão deste comportamento às vezes surpreendente é a falta de um objeto no qual o sujeito (em estado de ansiedade) possa concentrar-se. O único objeto é a própria ameaça, mas não a fonte da ameaça, porque esta fonte é o “nada” (p. 29).
Desse modo, se vê assegurado que a superação do nada, enquanto vazio de sentido vivencial, só pode ser dar pela existência. A existência é o domínio ontológico do Indivíduo, e é nela que seu status de plenitude é posto em xeque. Para Kierkegaard, o existir relativamente só pode ser concebido em referência a uma vida quotidiana, normal, geral. Mas viver acima do geral é a grande questão, o motivo maior pelo qual a finalidade de existir alcança sua indissociável magnitude.
Esta magnitude em potencial, afeita à idéia de existência, é encontrada na beatitude. Para Kierkegaard, o processo de encontro entre vida humana e vida divina é o grande definidor do assim concebido „movimento de eternidade do homem‟. Para ele, o homem não repousará na supressão de sua própria finidade se não puder experimentar estar acima do próprio finito, dissociando-se da angústia e das tensões em que existir temporalmente demanda.
E Kierkegaard vê em Cristo não só a imagem mais plasmada historicamente do objeto da fé pelo cavaleiro da fé67, mas como a
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Nota-se que teologicamente Cristo e Abraão são diferenciados em relação aos que os definem: Abraão é o pai da fé, Cristo é o objeto da fé por meio do qual a própria história toma um sentido de transcendência orientado para a salvação, para a plenitude dos tempos.
condição para que o Indivíduo ganhe os ares de um movimento eterno consagrando-se aos auspícios de sua subjetividade sem resíduos, uma subjetividade que se queira única, e, portanto, individual.
O modelo de individualidade ideal, Kierkegaard vai cunhá-lo a partir da assim chamada “Imitação de Cristo” (PAP: IX A 288; 399). O Indivíduo existente sofre? Que tome como medida para sua consolação espiritual os sofrimentos de Cristo e compare-os consigo. O Indivíduo deve esperar o que? Aquilo que Cristo esperou pela fé. Mas há Indivíduos que não sejam cristãos? O Cristo é uma medida universal, sua denominação não é maior que seu significado, já que Cristo é a medida mais absoluta da relação absoluta entre homem e Deus.