1.4 Modelling parties’ and citizens’ behaviour
1.4.2 How citizens react to parties’ behaviour: the sorting phenomenon 18
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Um fim universalista com meio particularista é uma expressão usual de um paradoxo.
Esta questão posta por Johannes de Silentio não é apenas provocadora mas desafiadora. Trabalha bem diretamente contra o que pode ser suposto, até então, como insuficiência do quadro da reflexão moral, quando pretende dar-se cabalmente como a orientação pelas máximas – tal como requereu a ética kantiana39 – ou como a constituição da vida coletiva e padronizada da educação do instinto pela cultura – conforme supôs a Sittlichkeit hegeliana40.
Notadamente, que o próprio Johannes dá indícios de uma resposta ao longo do tratamento da questão, explicitando, de certa maneira, a possibilidade de suspensão da moral pelo paradoxo da fé41. É o modo segundo o qual necessariamente a moral tenha que sofrer sua
epoké42 para designar-se como movimento existencial após ser
apresentada à sua completude teleológica, ou completude de finalidade. Johannes de Silentio está, aqui, desse modo, enfatizando a resposta de que a existência na ética tenha muito mais mediação e dependência de uma própria idéia de ordem no finito que a existência religiosa, que é imediata, absoluta e puxada muito mais pelo salto qualitativo.
Amiúde, a mais concreta das dimensões da existência seja a ética, já que por meio dela, o reino das finalidades a que tendem as ações parece erguer-se mais visivelmente. É suposto que o pseudônimo kierkegaardiano esteja, na escrita de Temor e tremor, dimensionando seu estado atual de vivência da esfera ética, mesmo criando, pela hipótese da suspensão teleológica da moralidade, a hipóstase da
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Principalmente na Fundamentação da Metafísica dos Costumes, p. 133 ss.
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Termo hegeliano que se atém à esfera moral, no campo do direito, e que culmina na especificação de ordens que a moralidade pronuncia na determinação do campo das ações (cfr HEGEL, 2010, Philosophy of Right, p. 151 A.)
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TT: 63: “Quando Hegel em seu capítulo O bem e a consciência determina ao homem unicamente como Indivíduo, tem razão ao considerar esta determinação como uma forma moral de mal (cf, sobretudo, Filosofia do direito) que deve ser suprimida na teleologia do moral, de maneira que quando o indivíduo permanece nesse estádio, o bem peca ou bem entra em crise. De fato, erra ao falar da fé e ao não protestar em voz alta e inteligível contra a veneração e a glória da qual é objeto Abraão como Pai da Fé, cujo processo deveria ser revisado e a quem faria prescrever como assassino. Com efeito, a fé é o paradoxo com o qual o Indivíduo está acima do geral e sempre de tal maneira que, coisa importante, o movimento se repete e como conseqüência o Indivíduo, logo após haver estado no geral, se isola no sucessivo como que por sobre ele.
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existência religiosa (imediata) para cumprir e encetar um lugar, na proporção da relação dialética entre mutável e imutável, entre temporal e eterno, finito e infinito, de preponderância à fé.
Posto em suspenso todo caráter de plenitude da ética, todo seu valor absoluto prestidigitado pela filosofia moral clássica, a ética já não mais se situa como primeiro fator de transcendência do telos existencial do Indivíduo. No entanto, uma questão se prontifica com maior espírito de dúvida: se se suspende a ética, o que fica em seu lugar?
Primeiramente, Johannes de Silentio, apesar de não se admitir como um filósofo loquaz43, mantém a ética no acervo dos ideários da razão. Doravante, antes de passar ao problema de sua intencional suspensão teleológica, aduz com toda segurança que “a fé começa precisamente onde termina a razão” (TT: 61).
Não se trata aqui de discutir até que ponto a fé esteja
proporcional à razão ou vice-versa, mas de fomentar a clivagem que se
estabelece entre elas, relacionando-as como pressupostos diferentes da capacidade existencial do Indivíduo. De um lado, a razão encaminha para o ordenamento da liberdade, por outro a fé legitima a própria crença no devir e no advento do possível, que pode ser fragmentário, espontâneo e instantâneo. Por outro lado, a razão cria para a moral este ordenamento, enquanto a fé o eleva a uma categoria que já não pode ser mais crível senão pelo paradoxo. O paradoxo, assim, é a linguagem da fé e a suspensão teleológica da ética, como evocada no Diário de Kierkegaard, é a “epoke do crente” (PAP: IV B, 188). Fé e razão formam, no acervo kierkegaardiano das idéias, uma relação de desunião proposital: uma termina no ponto em que a outra começa.
Doravante, não existe um caso análogo na história da filosofia, ou na história da teologia bíblica, e convergentes no pensamento kierkegaardiano, que se assemelhe ao de Abraão na suspensão teleológica da moral. Isto demonstra muito fortemente que Abraão mostrou-se isolado nesta opção tão desafiadora e esse isolamento só se justifica exatamente por sua fé, que o elevou do parâmetro de homem ético para o de Indivíduo. Diz Johannes de Silentio:
A história de Abraão comporta esta suspensão teleológica do moral. Não tem faltado espíritos eruditos nem
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perspicazes para achar casos análogos. Partem deste belo princípio: que, no fundo, é o mesmo. Se se aperta um pouco mais ou se olhe mais de perto, eu duvido muito que se ache uma só analogia na história universal, (...) entanto que está estabelecido que Abraão representa a fé e que ela está expressada normalmente nele, cuja vida não é unicamente a mais paradoxal que possa ser pensada, senão que é tão paradoxal que resulta absolutamente pensá-la (TT: 65). Fé e impossível (no plano normal de uma situação idealmente normal) condizem-se como sinônimos na obra de Kierkegaard. A fé, pelo paradoxo, leva ao absurdo, que não somente é a antítese da razão como que um triunfo sobre ela, pois de certa forma, o Absurdo elimina a necessidade, postando, por sua vez, a categoria do impossível44. A tese de Chestov (1951) aponta para essa mesma direção: a de que a fé é um impossível para a razão, por isso que renuncia a seus atavismos imediatos para gerir uma própria ética:
(...) O caminho que conduz ao Absurdo está obstruído pela ética: por conseguinte, não há apenas que suspender a razão, senão também a ética. Kierkegaard diz em seu diário que quem quiser comprrender a filosofia existencial deve compreender o quer dizer as palavras “suspensão da ética”. Enquanto a ética obstrua o caminho, será impossível chegar ao Absurdo. Digamos de imediato: se é certo que não se pode chegar ao Absurdo sem antes haver rechaçado a ética, isto não quer dizer ainda que a a ética
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Doravante, que não se confunda impossível com irracional. A maior obra em língua portuguesa que visa defender Kierkegaard das acusações de irracionalismo em Temor e tremor é A palavra e o silêncio, de Ricardo Quadros Gouvêa, que pressupõe Kierkegaard como um filósofo em diálogo de crise com outros filósofos, mas sem renunciar a uma linguagem tipicamente racional para conduzir seus conceitos próprios.
constitua o único obstáculo que deve vencer a filosofia existencial. Falta ainda o mais difícil: Sabemos que a Ética nasceu ao mesmo tempo que a razão, e que a Necessidade é irmã do dever. Quando, obrigado pela Necessidade, Zeus reduz os direitos dos homens sobre seus corpos e sobre o mundo, decidiu dar-lhes em compensação algo melhor, uma parte do que pertence aos deuses. Este algo melhor era o ético: os deuses e os homens só possuem um meio para escapar da Necessidade – o dever. Suspendida a ética, rechaçado o dom dos deuses pagãos, o homem se achou cara a cara ante a necessidade. E então, já não tem eleição: tem que emprenhar-se com ela em uma luta suprema e desesperada, em uma luta na qual os mesmos deuses tem renunciado e cujo resultado ninguém podia prever. Ou, mais exaramente: na medida em que se quer prever, estamos obrigados a admitir que não pode haver duas opiniões sobre este ponto: nem os deuses lutam contra a Necessidade. Os mais grandes sábios tem retrocedido ante a ela: não só Platão e Aristóteles, senão também Sócrates confessava que a luta era impossível. E como a luta pelo impossível carece de sentido, há que renunciar a ela. O que até agora não se via como ponto de contato entre o racional e o ético, agora se verá mais claramente. Desde o instante em que a razão se aproxima da Necessidade e proclama seu impossível, a ética surge de imediato e proclama “tu deves” (p. 61-2).
Chestov (1951) elucida, assim, o valor relativo da ética e sua procedência pagã. A relação entre o heroísmo pagão e a supremacia, em termos de suspensão da necessidade, pelo salto da fé, executado pelo
cavaleiro da fé (Troensridder), será uma relação de ruptura, que
insinuará muito mais a diferença de definição entre herói trágico e esse mesmo cavaleiro. O herói trágico cumpre o dever ante o mandamento.
Ele sabe que vai sofrer, que o cumprimento da ordem lhe trará sofrimento, mas tem a necessidade de prontificar-se como exemplo histórico. O cavaleiro da fé vê-se numa relação em que o dever é suspenso pelo próprio dever, sua atenção não se volta à aprovação do público, do geral, mas é condicionada interiormente.
Johannes de Silentio pontua, então, que a diferença entre Abraão e o herói trágico45 é que para o primeiro “toda expressão do moral tem seu télos em uma expressão superior da moral”(TT: 68) e que, por conseguinte, isso não evidenciaria nunca uma suspensão teleológica da moralidade. Entretanto,
(...) Muito diferente é o caso de Abraão. Por meio de seu ato, há franqueado todo estado moral; possui mais além um télos ante o qual suspende este estádio. Eu teria sumo interesse em saber como pode referir-se sua ação ao geral e como poderia descobrir-se entre sua conduta e o geral uma relação qualquer à diferente de haver franqueado o moral (TT: 68). Johannes fornece uma pista para descrever a fé como a virtude do Indivíduo: ela ajuda a cunhá-lo na iminência de sua subjetividade. A fé é uma virtude interna que só se percebe pelo nome. Seus efeitos são alternativos e diversos, e, entendida como paixão46, a fé é sinuosa, imprevisível e não categorizável. A linguagem que a engendra é a do paradoxo e intentar entendê-la é motivo de renunciar à sua expressão genuína: ela remanesce-se no segredo; um conselho de fé é sempre um empreendimento perdido47, pois a fé não se partilha, ela é a própria condição da relação transcendentalizada do Indivíduo para consigo
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Ícone filosófico kierkegaardiano de A alternativa, Primeira Parte, a ser melhor estudado no capítulo que se coloca posterior a esse.
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A fé como sinônimo de mais alta paixão é um termo apropriado de Lessing, segundo a nota 1 da Problemata I (TT: 77ss).
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“Quando um homem empreende um caminho, penoso em seu sentido, do herói trágico, muitos devem estar em condições de aconselha-lo; porém a quem segue a estreita senda da fé ninguém pode ajuda-lo ninguém pode compreende- lo. A fé é um milagre, ninguém está excluído”. (Ib, p. 77). A fé não exclui ninguém nem por mérito nem por desabono. Desse modo, ela é diferente da razão em seu princípio. Mas a razão doravante também não possui a capacidade de absolutizar, ou seja, de postar-se para si mesma uma dialética de superação e de recomeço.
mesmo e para com o Absoluto. Assim sendo, ela também pode ser concebida como motivadora de um dever absoluto para com Deus.
2.4 Há um dever absoluto para com Deus?: Abraão como