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3. Questionnaire destiné aux laboratoires 161

3.1.15. Commentaires

3.2.2.3. Mises en perspective

Para entender os processos migratórios do século XXI é preciso compreender os efeitos da globalização sobre tal fenômeno. Nos dias atuais, o horizonte dos sujeitos não se restringe a uma capital ou aos estados mais próximos e prósperos. As perspectivas abrangem o mundo, onde se dispensam fronteiras e se cria a esperança de uma vida melhor. A diminuição da

7 As representações sociais podem ser classificadas de acordo com três tipologias: as representações hegemônicas

- largamente partilhadas, uniformes e não discutíveis, as quais prevalecem em todas as práticas simbólicas ou afetivas; representações emancipadas - produzem-se nas relações intergrupais, criam suas próprias versões, mantendo um certo grau de autonomia, permitindo a diferenciação dos outros grupos; e as representações polêmicas - correspondem às visões divergentes entre grupos opostos, relacionam-se com conflitos sociais e relações antagônicas (Moscovici, 1978).

68 disparidade entre espaço e tempo possibilita a aproximação cultural entre os povos. Em contrapartida, essa compressãoconduz à massificação dos atuais movimentos migratórios. As desigualdades socioeconômicas entre os países ricos e pobres aumentam a cada dia, estimulando a necessidade e o desejo de migrar para outros países. Em consequência, o agravo significativo dos problemas relativamente às migrações é inevitável no contexto da globalização.

As migrações, por sua vez, devem ser abordadas enquanto componente estruturante da contemporaneidade. A aceleração e o barateamento dos meios de transporte, o avanço do processo de globalização, a revolução tecnológica midiática e a tomada de consciência da possibilidade de mudança da trajetória pessoal e subjetiva são alguns dos fatores que contribuíram para essa transformação radical nos modos de estar-no-mundo (ElHajji, 2013, p. 125).

No mundo globalizado, onde as experiências sociais são caracterizadas por sua forma fluida e irregular, o fenômeno das migrações tem provocado a crescente instabilidade das identidades modernas e vem promovendo o contato intercultural, voluntário ou não, no fluxo incessante entre imigrantes, refugiados, exilados, trabalhadores, cientistas, estudantes, estrangeiros ilegais, etc, configurando a geometria contemporânea do mundo em deslocamento. A globalização é um fenômeno moderno que pode ser analisado sob diferentes pontos de vista, ainda que as divergências em respeito ao seu significado permitam extrair algumas conclusões elementares.

Para Canclini (1999), a globalização foi se compondo associadamente aos processos de internacionalização e de transnacionalização, por meio de uma intensificação de dependências recíprocas, a partir do crescimento e da aceleração das redes econômicas e culturais que atuam em uma escala mundial. De acordo com o autor:

Sem embargos, foram necessários os satélites e o desenvolvimento de sistemas de informação, manufatura e processamento de bens com recursos eletrônicos, transporte aéreo, trens de alta velocidade e serviços distribuídos em todo o planeta para construir um mercado mundial onde o dinheiro, a produção de bens e mensagens, se desterritorializassem, as fronteiras geográficas se tornam porosas e as alfândegas, muitas vezes, se tornam inoperantes. Ocorre então uma interação mais complexa e interdependente entre focos dispersos de produção, circulação e consumo (Canclini, 1999, p. 46, tradução nossa).

69 O desenvolvimento dos meios de comunicação, de transporte e das tecnologias trouxe consigo novas dinâmicas que conceberam práticas e permitiram os movimentos transfronteiriços das informações, das ciências, das finanças, das organizações, das relações que interligam as sociedades e das pessoas, possibilitando a intensificação de fluxos migratórios e turísticos, novas aprendizagens e a obtenção de imaginários multiculturais.

Tal fenômeno é considerado relevante no que se refere à abertura das sociedades para a importação e exportação de bens materiais que transitam de um país a outro; à velocidade da disseminação de informações, imagens e mensagens; e ao sentido de cooperação e intercâmbio mundial. Este processo de transnacionalização funciona também para a manutenção de emblemas de um imaginário supranacional, como: a cultura brasileira ou mexicana apresentada em uma telenovela, a cultura francesa em um perfume, a japonesa em um televisor, etc. Em outras palavras, a era da globalização, além de interagir eficazmente com o mundo, emprega a imaginação em diversos cenários de uma só vez (Canclini, 1999).

A globalização é um fenômeno que aproxima e, ao mesmo tempo, expande as relações, unindo os dois polos. As questões e acontecimentos locais são delimitados pela redução do espaço-tempo, ultrapassando fronteiras territoriais nacionais e determinando impactos imediatos sobre a humanidade a grandes distâncias.

Segundo Giddens (1991), a globalização pode ser definida como “a intensificação das relações sociais em escala mundial, que ligam localidades distantes de tal maneira que acontecimentos locais são modelados por eventos ocorrendo a muitas milhas de distância e vice-versa” (p.64). Essa realidade promove novos desafios em nossa dinâmica de vida, pois é capaz de transformar o cotidiano em um encontro de diferentes culturas permitindo a construção de um sujeito inter e pluricultural (Felgueiras & Vieira, 2010).

Para Appadurai (2004), a comunicação eletrônica e as migrações marcam o mundo atual, não como forças contraditórias, mas como aquelas que juntas criam um espaço em que espectadores e imagens circulam simultaneamente. No mundo globalizado contemporâneo, poucas são as pessoas que não têm um amigo, parente ou colega de trabalho que não está indo ou voltando de algum lugar distante, trazendo em sua “bagagem” novas histórias, possibilidades e curiosidades. Deste modo, tanto pessoas como imagens encontram-se, por

70 vezes, por acaso, através de processos amovíveis e imprevisíveis, entre acontecimentos mediáticos e audiências migratórias.

Fatalmente estamos em movimento, não somente quando viajamos ou mudamos de residência, pois a maioria das pessoas está em movimento mesmo sem sair fisicamente do lugar. Através da TV (via satélite ou a cabo), saltamos para dentro e fora de espaços e contextos estrangeiros, além da internet que nos leva a qualquer lugar numa fração de segundos. No mundo em que habitamos hoje em dia, as distâncias não importam tanto, existem na verdade para serem ultrapassadas, negadas, anuladas. O espaço não é mais um obstáculo. Não existem mais “fronteiras naturais”, todos podem vencer esses limites e ter a possibilidade de se sentir como um viajante (Bauman, 1999).

A partir da flexibilização das relações, o processo migratório permite a formação e a construção das identidades. As migrações produzem identidades plurais, porém, identidades questionadas, pois tal processo é caracterizado por grandes desigualdades.

Segundo Rocha-Trindade (1995), o processo migratório possui várias perspectivas, especialmente quando se trata dos interesses do país de origem, do país receptor e do próprio migrante. Contudo, estes interesses podem se complementar e se entrelaçar, no que diz respeito ao seu futuro. Do ponto de vista do país de emigração, a saída de mão de obra pode significar um alívio para o mercado de trabalho em razão da falta de empregos, da redução dos custos para apoio aos desempregados, constituir um equilíbrio para a balança de pagamentos do país, através das remessas que os emigrantes enviam, etc.

Para o indivíduo migrante, as razões econômicas e culturais podem ser satisfeitas com a mudança de país, como: a melhoria da situação relacionada ao emprego, salários, aprendizado de outras línguas, estudos, perspectiva de vida e horizontes futuros. Já o país receptor visa geralmente captar trabalhadores altamente qualificados. Alguns países, por possuírem grande extensão de território, baixa densidade populacional e aumento da população idosa, incentivam a integração e o estabelecimento dos imigrantes. Por outro lado, a maioria enfatiza o caráter transitório e não definitivo dos trabalhadores estrangeiros. O indivíduo migrante pode ser bem aceite como trabalhador, mas nem sempre como concidadão e membro permanente da sociedade local. Tanto é que, ainda hoje, consoante aos interesses e questões

71 envolvidas, desenvolvem-se várias políticas nacionais e internacionais em matéria de imigração.

De acordo com ElHajji (2013), para além das funções políticas e econômicas que estão por trás dos deslocamentos humanos, o fenômeno das migrações também deve ser percebido a partir do registro do desejo, da subjetividade, da sensibilidade e, até mesmo, da ambiguidade da natureza humana.

Direito de ir embora/desejo de voltar; vontade de ficar/necessidade de ir; nostalgia/insatisfação; realização/fracasso; presença/ausência. A migração é, em si, um movimento duplo e dúbio, no qual imigração sempre equivale a emigração, chegada a partida, expectativas a frustrações, sorrisos a lágrimas. Mas também significa a possibilidade de hibridizações, cruzamentos subjetivos, afetivos, simbólicos, culturais e científicos (Idem, p. 130).

Dentro desta perspectiva, percebemos que as transformações rápidas geradas pela globalização também constituem um impacto direto sobre o movimento das migrações internacionais, operando como motor fundamental neste momento histórico e funcionando como uma força poderosa no novo sistema mundial. A expansão do mercado global e a multidimensionalidade da globalização, sem dúvida, são aspectos que devem ser considerados como fatores que caracterizam as migrações atuais (Martine, 2005).

Como consequência da globalização, as possibilidades e facilidades de comunicação entre os imigrantes atuais e seus países de origem são maiores. Hoje, de onde estiverem, as pessoas podem acompanhar as principais notícias mundiais e locais através de jornais, televisão ou internet. Tais sujeitos estão, de certo modo, interligados e mais próximos de sua cultura e tradições de origem, bem como mais suscetíveis às trocas culturais procedentes de outros povos. Segundo Canclini (1999), “a interculturalidade se produz hoje mais através das comunicações mediáticas do que por movimentos migratórios” (p. 79, tradução nossa).

Na mesma linha, Martine (2005) argumenta que o fenômeno das migrações internacionais é inevitável nas sociedades contemporâneas. Por isso, por que não extrair deste processo os aspectos mais positivos?

72 Esta postura não nega as dificuldades e as perdas reais ocasionadas pela migração, mas argumenta que estas podem ser, muitas vezes, reduzidas com ações específicas. Parte-se do suposto de que os aspectos positivos da migração são, pelo menos potencialmente, bastante mais significativos de que os negativos, e que também podem ser realçados com políticas adequadas (Idem, 2005, p. 04).

Na verdade, essa é uma questão ambígua, pois como estimar o valor das migrações internacionais? Na visão do autor, “a maioria das consequências socioeconômicas da migração é dupla ou contraditória, dependendo da ótica, do momento e da situação” (Martine, 2005, p. 11). Embora não seja possível quantificar os aspectos positivos e negativos das migrações internacionais, o autor vê vantagens que parecem ser bastante consideráveis e coerentes.

Em linhas gerais, Martine (2005) defende que as migrações proporcionam e estimulam os indivíduos a se confrontarem com novos costumes e novas maneiras de pensar, para além de produzirem grande relevância social devido à sua universalização e por servirem como contributo para o desenvolvimento de diálogos interculturais. Em contrapartida, existem algumas desvantagens tanto para os países de origem como para os de acolhida. Para os países de origem, observamos que frequentemente perdem parte das pessoas consideradas mais qualificadas, denominada a “fuga de cérebros”, o que causa certo déficit de recursos humanos. Já nos países receptores, existe uma certa rejeição em relação aos imigrantes, sobretudo no que diz respeito à alegação de que os mesmos competem no mercado de trabalho com os nacionais, principalmente no atual momento de crise econômica. Além disso, são vistos como “indesejados” devido às suas diferenças étnicas, religiosas ou culturais.

Para Coll (2002), existem diversas concepções consideradas reducionistas, que devem ser observadas com atenção, particularmente por não levarem em conta uma série de fatores acerca das migrações atuais. O autor expõe alguns aspectos, como:

 A concepção economicista: essa modalidade baseia-se na visão que relaciona o imigrante à mão de obra barata, na qual acaba por ser uma visão utilitarista, aplicada ao campo econômico, que nutre sentimentos de receio por parte dos imigrantes relativamente a estereótipos, atitudes e políticas discriminatórias dos autóctones;  A problematização do fato imigratório: uma visão contraditória, geralmente promovida

73 imigrante a um “problema”. Entretanto, os imigrantes são responsabilizados por problemas estruturais que, na verdade, já existem nas sociedades de acolhimento, como por exemplo o trabalho na economia informal e a residência em bairros degradados;  A falta de memória histórica: quando se afirma que a “distância cultural” torna a

integração do imigrante mais difícil, esquecendo-se que a maioria das sociedades necessitou da emigração, frente aos desafios econômicos, e foi formada com a contribuição de povos e culturas distintas;

 Mútuo desconhecimento entre pessoas de diferentes origens culturais: o conhecimento que as sociedades receptoras possuem da cultura dos imigrantes é ínfimo. Na maior parte das vezes, são conhecimentos arraigados por estereótipos que contribuem para reforçar os preconceitos e desconfianças, do mesmo modo, que os imigrantes só conhecem as características funcionais das culturas locais (Coll, 2002).

Contudo, observa-se que a recepção de imigrantes tem se tornado cada vez mais problemática, devido ao volume de pessoas deslocadas, oportunidades de emprego, visibilidade e convivência social, diversidade e choque cultural. Todos esses fatores podem gerar intolerâncias de ambos os lados.

A era da globalização sugere um “mundo sem fronteiras”, mas no contexto dos migrantes essa definição não se aplica. Nos dias atuais, não existe o livre trânsito entre fronteiras no que se refere à mobilidade de pessoas. As fronteiras somente se abrem para o fluxo de capitais e mercadorias, já para os imigrantes estão cada vez mais fechadas. Dentro desta lógica, percebemos uma certa incoerência na relação entre a globalização e as migrações (Martine, 2005). Neste sentido, o autor defende que “a migração internacional é resultado das desigualdades entre países - e a globalização acentua essas desigualdades” (Idem, p. 05).

O processo de globalização pressupõe a ideia de desterritorialização e desinstitucionalização, apontando em direção a um mundo sem fronteiras. Entretanto, a ausência destas bases implica na perda de referências e, por sua vez, no sentimento de não pertencimento a um lugar ou a um elo de identificação política, social ou cultural,tornando o sujeito desorientado. As identidades atingem e são atingidas pelos movimentos transnacionais,

74 redefinindo os sujeitos. Assim, a partir destas identidades híbridas, os sujeitos assumem uma cidadania transitória (Hall, 2006).

Quanto mais a vida social se torna mediada pelo mercado global de estilos, lugares, imagens, pelas viagens internacionais, pelas imagens da mídia e pelos sistemas de comunicação globalmente interligados, mais as identidades se tornam desvinculadas – desalojadas – de tempos, lugares, histórias e tradições específicas e parecem “flutuar livremente” (Hall, 2006, p. 75).

No mundo dinâmico globalizado em que vivemos, perdem-se algumas identidades, que darão lugar e valor a outras, porque estas encontram-se em constante movimento. Portanto, reduzir as identidades mantendo hábitos de pensamento e expressões enraizados, torna as identidades limitadas.

Na era da globalização, as identidades e o pertencimento são fenômenos que encontram- se em crise. Enquanto antes as identidades eram rígidas e inegociáveis, hoje, mediante a velocidade e fluidez do mundo contemporâneo, as identidades tentam ajustar-se às novas estruturas transitórias e frágeis que se encontram em constante transformação. Fruto do líquido mundo moderno, as identidades tornaram-se totalmente imprevisíveis, não sustentando mais a segurança oferecida pelo pertencimento (Bauman, 2005).

Frente ao exposto, despontam questões a serem repensadas no mundo contemporâneo acerca dos sentimentos de pertença e das identidades. Como bem coloca Amin Maalouf, em seu ensaio “Identidades assassinas” (1999), enquanto muitos fazem um exame de consciência, ele faz um “exame de identidade”, pois não considera ter uma pertença essencial em que possa reconhecer-se. Pelo contrário, o autor adota uma posição na qual a partir da sua memória possa aflorar o maior número possível de componentes de sua identidade, sem renegar nenhuma delas. Como árabe e cristão, revela-se em sua especificidade, como uma minoria, ao mesmo tempo, que se sente profundamente próximo de mais da metade da humanidade, através da língua e da religião. Portanto, cada uma de suas pertenças o vincula com muitas pessoas. Quanto mais numerosas são as pertenças que ele tem em conta, mais específica se revela sua identidade.

Os elementos díspares e únicos do sujeito configuram e esboçam a sua identidade, bem como ajudam a construir seu itinerário pessoal. Maalouf (1999) considera que, ao fazermos

75 um “exame de identidade” iremos descobrir que nosso caso é tão particular quanto o dele. A humanidade inteira se compõe de casos particulares, pois a vida cria diferenças, nunca há resultados idênticos. Neste caso, todos os seres humanos possuem uma identidade composta. Isso é exatamente o que caracteriza a identidade de cada qual, única, complexa e irreparável.

O autor também insiste em criticar quando uma pessoa expressa a sua identidade de modo que tenha dedecidir-se como sendo apenas árabe, francês, negro, etc, e esclarece que a identidade de uma pessoa não é uma justaposição de pertenças, não é um mosaico, e por isso, temos que vivê-las como um todo. Segundo Maalouf (1999):

(…) a identidade se vai adquirindo passo a passo, é a aprendizagem da primeira infância que vai se modelando, se conformando, voluntariamente ou não, às crenças das famílias, ritos, atitudes, convenções, aspirações, prejuízos, rancores, junto a sentimentos de pertença como de não pertença (Idem, p. 33).

Para o autor, os seres humanos não são parecidos, as pessoas não são intermutáveis. Entretanto, é por comodidade que englobamos todos ao mesmo término e, por sua vez, também atribuímos aos mesmos crimes, ações e opiniões coletivas, sem maiores problemas. Formulamos juízos que, às vezes, acabam por converterem-se em convicções profundas.

Ainda nesta trajetória, Stuart Hall (2003), em sua obra “Da diáspora: identidades e mediações culturais”, faz uma reflexão acerca da questão da identidade cultural dos migrantes caribenhos, relacionada com as complexidades da era da globalização crescente. Segundo explica o autor, “a pobreza, o subdesenvolvimento, a falta de oportunidades – os legados do Império em toda parte – podem forçar as pessoas a migrar, o que causa o espalhamento e a dispersão” (Idem, p. 28).

Neste sentido, apesar da identidade cultural ser constitutiva do nosso eu mais interior e estar essencialmente em contato com um núcleo imutável e atemporal, seguindo uma linha ininterrupta, esta pode ser impermeável relativamente à mudança temporária do nosso local de residência (Hall, 2003). Em outras palavras, a identidade cultural não se desvincula de suas origens e tradições, pois é este cordão umbilical que dá sentido e mantém presente sua autenticidade. Sendo assim, o autor considera que os laços podem permanecer fortes, apesar do distanciamento de sua terra natal, ao mesmo tempo que no seu retorno podem existir dificuldades para religar-se às sociedades de origem.

76 De qualquer forma, o retorno à terra natal sempre tem seus impactos, pois, durante a migração, é elaborado um projeto inicial e novas experiências são vividas. O retorno normalmente é um reencontro com sua identidade, sua cultura, seus costumes, com o espaço geográfico e social, com familiares e amigos. Pode também significar um estranhamento no que diz respeito ao sentimento de não pertencer mais a este lugar, uma sensação chamada por Hall (2003) de “pecado da ausência”, que se resume ao sentimento de não enquadramento ao antigo ritmo de vida, à sensação de não se reconhecer no seu local de origem. O não acompanhamento da dinâmica de vida atual deste espaço, pode se tornar, para alguns, mais difícil do que a decisão de partir. Portanto, a experiência da migração pode ser vivida e sentida de maneira diferenciada por cada um.

Considerando o exposto, reconhecemos as duas fases do percurso migratório, nas quais podem ocorrer dificuldades de integração dos migrantes nas sociedades acolhedoras e de origem, nas etapas de inserção (no país estrangeiro) e por reinserção (no país de origem). Nestas etapas, os migrantes sofrem um processo de adaptação a um novo contexto cultural. Por estas razões, a problemática da integração é bastante complexa (Rocha-Trindade, 1995).

Com base nesta discussão, cabe esclarecer que o âmbito social não se resume aos sujeitos e aos grupos sociais, pois este é habitado por objetos, práticas, fenômenos, conflitos e, até mesmo, por personagens, que constituem outros tantos cenários para esses indivíduos e grupos. Tais objetos estruturam a integração e a interação social, ampliando-as. A partir das informações disponibilizadas, a sociedade utiliza recursos que possibilitam a categorização, a definição de papéis, a validação de tomadas de posições e condutas. Constrói-se, neste ínterim, um jogo complexo de percepções de mundo e relações intergrupais (Deschamps & Moliner, 2009).

A maneira como participamos da vida cotidiana na sociedade define o grau de integração do indivíduo no grupo. Suas afinidades e o ajustamento recíproco fazem com que a pessoa se sinta integrada. A integração não pode ser encarada de forma geral, pois os indivíduos podem, simultaneamente, pertencer a vários grupos na sociedade globalizada