Chapitre 2 : Caractérisation d’assemblages supramoléculaires de CMP 93
2.3 Mise en évidence et étude d’assemblages supramoléculaires non solubles
Foucault (1969) concebe os discursos como uma dispersão, como sendo formados por elementos que não estão ligados por nenhum princípio de unidade. Cabe a Análise do Discurso descrever essa dispersão, a fim de compor e reger regras capazes de reger a formação dos discursos. Tais regras são chamadas por Foucault de “regras de formação”, pois determinam os elementos que compõem o discurso, a saber: os objetivos que aparecem, coexistem e se transformam em “espaço comum” discursivo; os diferentes tipos de enunciação que podem permear o discurso, os con- ceitos em suas formas de aparecimento e transformação em campo discursivo, rela- cionados em um sistema comum; os temas e teorias, o sistema de relação entre di- versas estratégias capazes de dar conta da formação discursiva, permitindo ou exclu- indo certos temas e teorias.
Essas regras que determinam a formação discursiva se apresentam sem- pre como sistema de relações entre objetos, tipos enunciativos, conceitos e estraté- gias. A partir do conceito de discurso como conjunto de enunciados que se remetem à mesma formação discursiva, o discurso é o conjunto de enunciados que tem seus princípios de regularidade na mesma formação discursiva; para Foucault, a análise de uma formação discursiva consistirá, então, na descrição dos enunciados que os com- põem. Para ele, enunciado não é o conjunto de frases, mas a unidade elementar, básica, que forma o discurso. Assim, o discurso passa a ser concebido como família de enunciados pertencentes à mesma formação discursiva.
Para Foucault (1969), o enunciado apresenta quatro características consti- tutivas:
A primeira diz respeito a relação do enunciado e seu correlato, chamado por ele de referencial. O referencial é aquilo que o enunciado manifesta, a condição
de possibilidade do aparecimento, diferenciação e desaparecimento dos objetos e re- lações que são designados em frases. Por sua condição de existência, o enunciado relaciona as unidades de signos que podem ser proposições ou frases com um domí- nio ou campo de objetos, podendo assim, permitir o aparecimento de conteúdos con- cretos no tempo e no espaço.
A segunda característica é a relação do enunciado e seu sujeito. Foucault critica a concepção de sujeito como fundadora da linguagem. Segundo ele, o sujeito fundador está encarregado de animar diretamente, “com seu modo de ver”, as formas vazias da língua e sua relação com o sentido concerne à ideia de o sujeito fundador dispor de signos, de marcas, de traços de letras, mas não tem a necessidade, para que haja sua manifestação, de estar presente na instância do discurso.
Foucault rompe, portanto, com a ideia de continuidade evidente e presente na história e instaura a nova visão que se vale da ruptura e da descontinuidade, cons- truindo-se uma série de mutações inaugurais nas quais não há lugar para projeto di- vino ou humano, pois a análise pautada na descontinuidade histórica não estabelece a referência a teologia ou a subjetividade fundadora, nem cabe a análise pautada na relação leitor e autor, descrevendo assim uma formulação como enunciado à finali- dade de compreender a intencionalidade autoral, ou no que ele não quis dizer, di- zendo, mas em determinar qual é a posição que pode e deve ocupar todo indivíduo, que o ocupará ao formular enunciado, evitando assim qualquer concepção unificante do sujeito.
O discurso não é atravessado pela unidade do sujeito, mas por sua disper- são decorrente das várias posições possíveis de serem assumidas por ele no dis- curso, “as diversas modalidades de enunciação em lugar de remeter à síntese ou à função unificante de um sujeito, manifestam sua dispersão” (FOUCAULT 1969: 69). Essa dispersão reflete a descontinuidade dos planos de onde fala o sujeito que pode, no interior do discurso, assumir diferentes estatutos. Esses planos “estão ligados por um sistema de relações, o qual não é estabelecido pela atividade sintética de uma consciência idêntica a si, muda ou prévia a qualquer palavra, mas pela especificidade de uma prática discursiva” (FOUCAULT 1969: 70)
Assim, o sujeito é visto como uma função vazia, um espaço a ser preen- chido por diferentes indivíduos que o ocuparão, e a concepção de discurso como um campo de regularidades, em que diversas posições de subjetividades podem se ma- nifestar, redimensiona o papel do sujeito no processo de organização da linguagem,
eliminando-o como fonte geradora de significações, não sendo, portanto, causa, ori- gem ou ponto de partida do fenômeno de articulação escrita ou oral de um enunciado, nem a fonte ordenadora, móvel e constante das operações de significação que os enunciados viriam manifestar na superfície do discurso.
A terceira característica diz respeito à existência de um domínio, de um “campo adjacente” ou “espaço colateral”, associado ao enunciado integrando-o ao conjunto de enunciados, já que, ao contrário da frase ou proposição, não existe enun- ciado isoladamente. Não existem, portanto, tipos de enunciados, mas sempre um enunciado fazendo parte de uma série ou de um conjunto, desempenhando papel no meio de outros, apoiando-se neles e se distinguindo deles: ele se integra sempre no jogo enunciativo.
A quarta característica constitutiva do enunciado é aquela que o faz emergir como objeto: refere-se à condição material e para caracterizar essa materialidade, Foucault distingue enunciado de enunciação. O enunciado se dá toda vez que alguém emite um conjunto de signos; enquanto a enunciação se marca pela singularidade, pois jamais se repete, o enunciado pode ser repetido. Em perspectiva hipotética, enunciações diferentes podem encerrar o mesmo enunciado. Todavia, como a repeti- ção de um enunciado depende de sua materialidade, que é de ordem institucional, depende de sua localização no campo institucional, pois uma frase dita no cotidiano, num romance ou inscrita em qualquer outro tipo de texto, jamais será o mesmo enun- ciado, pois, em cada um desses espaços, possui função enunciativa diferente e espe- cífica.
Foucault traz muitas contribuições para estabelecer diretrizes para a Aná- lise do Discurso, mas verificar como se concretizam essas diretrizes, ele deixou sob a responsabilidade dos linguistas e o faz por seu objetivo não se enquadrar na esfera discursiva.
Vemos assim, no cerne do discurso, concepções ligadas ao signo, às re- presentações, às instâncias de poder, marcadas pela ideologia e pela enunciação. Tais aspectos se relacionam ao presente estudo, à medida que todos os atos repre- sentados no gênero discursivo roteiro, que vinculam e orientam o fazer material do jogo. São, assim, justificados por esses elementos tão presentes na Análise do Dis- curso e que serão mais bem elucidados no decorrer do trabalho sob a perspectiva teórico-analítica. Todavia, além desses aspectos supracitados, convém pontuar al- guns procedimentos referentes à prática da leitura e interpretação de texto, sobretudo
no que concerne à representação dos valores, comportamentos e da cultura vincula- dos à construção de roteiros baseados em obras literárias.