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LISTES DES ANNEXES

Carte 1 : Localisation de la Commune de Bankim

3.1.3 Milieu socio économique

coçando a orelha e a criança com DM novamente balançando a cabeça, confirma a pergunta).

P: (A pesquisadora levanta-se da cadeira e a criança com DM apóia as duas mãos sobre a mesa e acompanha, quase que simultaneamente, o gesto da pesquisadora. O parceiro interacional nesse momento fica fora de foco. Ao se levantar, a criança com DM apóia discretamente a mão direita sobre a cadeira e o parceiro interacional, olhando para a sua direita, está sentado ainda na cadeira).

Observe-se nesse episódio como a díade joga o jogo da produção de sentido a partir da diversidade e da singularidade dos seus jogadores. Vemos como a díade vai construindo a compreensão da história a partir de alguns indicadores lingüísticos, como, por exemplo: (a) repetição de palavras; (b) hum, rum; (c) entendi!; (d) pronto tia, terminou!; (e) tom enfático e (f) acho. Além desses indicadores lingüísticos, podemos ressaltar também os gestuais, como: (a) balançar a cabeça em sinal de afirmação; (b) olhar na direção da pesquisadora após o término da narrativa; e (c) a criança com DM levantar-se, quase que simultaneamente da cadeira, acompanhando o gesto da pesquisadora após o término da narrativa. Esses indicadores, assim como um jogo de xadrez (para utilizar uma metáfora wittegensteiniana), operam orientados por regras (Pinheiro, 2006). Ou seja, as regras das expressões lingüísticas, assim como as regras do jogo de xadrez, só podem ser compreendidas se nos apropriarmos das regras de movimentação de cada peça. No entanto, essas regras são dinâmicas, se construídas na e pela interação e se transformam ao longo do tempo. Nesse sentido, essa díade vai construindo dinamicamente sua compreensão dessa história, até chegar um momento do registro em que o parceiro interacional verbaliza “entendi!”, “pronto, tia, terminou” e a

criança com DM parece caminhar nessa mesma direção. Ou seja, ratifica (após o questionamento da pesquisadora) que a história “está boa” para ela e logo depois acompanha o movimento gestual da pesquisadora e se levanta da cadeira.70

Gostaríamos, por último de destacar como a díade distribui simietricamente os papéis de iniciar e concluir a história. Nesse processo, a criança com DM desempenha o papel de iniciar a narrativa71 (cf. analisamos no frame de direcionamento), mas cabe ao

parceiro interacional o papel de conclusão e fechamento da mesma, como analisamos anteriormente, no frame de compreensão.

Após a análise microgenética da díade 2, faz-se necessário que compreendamos o processo de produção de sentido da mesma de modo mais amplo, com o objetivo de destacar a dinâmica de funcionamento dessa díade. Para isso, as trocas relacionais dessa díade serão analisadas a seguir, a partir de um olhar macrogenético.

6.4. – Produção de sentido na díade 2 (macroanálise) e análise comparativa das díades 1 e 2

De modo geral, observamos nesta díade uma grande sincronia dos interlocutores na construção das narrativas. Na nossa interpretação, isso pode estar associado, por exemplo, uma mudança na postura da pesquisadora da díade 1 em relação à díade 2. Como já havíamos destacado, na díade 1 as instruções da pesquisadora foram assimétricas, mas, com essa díade, a mesma adotou uma postura que revelou a sua preocupação com os seguintes aspectos: (1) iniciou as observações chamando as crianças pelos nomes (M. e .V. 00:06 seg); (2) Reapresentando-se à díade (“Meu nome é F.; 00:07-00:08 seg); (3) reforçando a familiaridade das mesmas com a pesquisadora: “Vocês se lembram de mim, né? De ontem?”(00:09-00:11 seg) e (4) tendo o cuidado

70 Acreditamos que este episódio ilustra a diversidade das regras dos jogos de linguagem que,

diferentemente dos jogos de xadrez, caracterizam-se por sua complexa plasticidade e, por isso, não podem ser formuladas abstratamente, mas interacionalmente, como foi observado nesta díade.

71 É importante frisarmos que, para iniciar a narrativa, o parceiro interacional sugeriu que a criança com

de construir instruções simétricas: “Pronto...vocês vão fazer o seguinte: vocês vão contar uma história juntas, tá?. Esses elementos parecem ter contribuído para a construção de um ambiente interacional com menos controle e direcionamento por parte da pesquisadora. Isso pode ser percebido, por exemplo, na baixíssima freqüência dos

frames de direcionamento ao longo dos registros videográficos (2 ao todo), conforme ilustra o gráfico abaixo:

Gráfico 13. Incidência dos temas no frame de direcionamento na díade 2

Vale salientar também que, dentre esses frames, como ilustra o gráfico acima, o primeiro refere-se à solicitação/oferecimento de ajuda da pesquisadora à díade (2 min 29 seg- 2 min e 43 seg) e só o último refere-se à interdição das ações dos participantes, mais especificamente do parceiro interacional que procurava ter acesso ao artefato cultural.

Os frames de direcionamento tiveram uma freqüência muito baixa; já os frames

de preenchimento de lacunas tiveram uma freqüência altíssima (17, ao todo), revelando- nos o quanto a díade procurou realizar questionamentos, indagações e pedir maiores esclarecimentos acerca das características físicas (5 ao todo), dos estados subjetivos/intencionais dos personagens (4 ao todo), das ações dos personagens (5 ao todo) e dos cenários que integravam a história (3 ao todo). Essa elevada incidência dos

revelando-nos que as indagações e intervenções do outro interacional (criança com DM ou criança sem DM) cumprem um papel importante para a construção do sentido e para a compreensão da história nessa díade. Para fins ilustrativos, observemos a freqüência dos frames ao longo dos registros videográficos.

Gráfico 12. Freqüência dos frames de direcionamento, preenchimento de lacunas, crítica e compreensão e tempo total de ocorrência na díade 2

No bojo dessas considerações, podemos observar também como, a cada jogada, os interlocutores movimentam as peças que compõem a trama discursiva e uma nova configuração, um novo padrão relacional emerge nessa díade. Dessa forma, podemos observar, por exemplo, que inicialmente, para cerca de quatro (04) frames de preenchimento de lacunas, emerge um frame de compreensão. No entanto, à medida que a díade passa a construir um vínculo afetivo mais denso, há um aumento dessa freqüência dos frames de compreensão e um declínio dos frames de preenchimento de lacunas, o que corrobora o nosso argumento de que a produção de sentido é um fenômeno interacional, dinâmico e que se transforma ao longo do tempo.

Nessa díade poderíamos destacar também que o tempo de hesitação da criança com deficiência mental para iniciar a história é muito baixo (4 segundos após o término das instruções da pesquisadora) e a mesma recebe uma relevante estimulação do parceiro

interacional para que comece a contar a história: “Começa M.”. Logo após essa estimulação, a criança com DM inicia um frame de preenchimento de lacunas (1 min e 29 seg- 1 min e 46 seg) acerca dos estados subjetivos/intencionais dos personagens, mas com a voz ainda bem baixinha e parecendo falar com certa timidez.. Introduz elementos prototípicos das narrativas: (1) Era uma vez.... (2) O menino que tava pensando em pegar frutas... .e depois (3) apareceu aqui...

Diferentemente do que se observa na díade 1, o parceiro interacional da díade 2 parece estar engajado em outros jogos de linguagem, demonstrando que acompanha visualmente a criança com DM e após 17 seg da escuta da narrativa, o parceiro interacional interrompe-a e faz uma pergunta acerca das características físicas dos personagens. Mais especificamente, observa-se que, nos primeiros momentos de interação da díade, há uma predominância dos frames de preenchimento de lacunas acerca dos estados subjetivos e/ou intencionais dos personagens, em que a díade explora temas inter-relacionados: (a) personagens pensando em pegar as frutinhas (1 min e 29seg – 1 min e 46 seg.); (b) o que os personagens queriam ao pegar as frutinhas (episódio 3; 2 min e 6 seg – 2 min e 28 seg.); (c) estratégias para perceber a intencionalidade dos personagens (2 min e :44 seg- 3 min e 4seg). Nesses frames observamos alguns aspectos de regularidade lingüística e gestual: (a) resgate da seqüência narrativa no primeiro quadrinho...; (b) uso de “tags” nas frases interrogativas; (c) uso de dêiticos de lugar (aqui); (d) uso de repetição do discurso do outro; (e) manuseio do artefato cultural por parte da criança com DM; (f) palma da mão voltada para cima em sinal de explicação; (g) balançar a cabeça em sinal de afirmação; e (h) busca de contato visual entre a criança com DM e o parceiro interacional. Esses indicadores lingüísticos e gestuais emergem bastante cedo nessa díade e, para nós, parecem repercutir também na emergência do primeiro frame de compreensão aos 3 min e 6 seg (observe-se que muitos desses

indicadores são definidos, na seção do método, como indicadores de produção de sentido).

Nesse primeiro frame de compreensão, observamos uma abundância de repetição e de uso de tags nas frases interrogativas. Para Koch (2003), esses são dois grandes indicadores de produção de sentido no texto falado. O primeiro refere-se a um meio que os pares interacionais utilizam para criar categorias, itens novos, desconhecidos e também para transformar a narrativa em algo “(...) mais coesivo, acessível e coerente” (Ibid., p.131). Essas repetições72 também cumprem o papel de orientar a díade para a compreensão, como já dicutimos anteriormente, e são uma estratégia discursiva destinada não só a garantir a coerência e a compreensão, mas sobretudo fortalecer os laços emotivos entre os participantes e a preservação das faces (Koch, 2003; Malinowski, 1962). Já o segundo indicador acima mencionado (o uso de tags nas interrogativas) é prototípico da relação face a face e cumpre uma função interacional e de produção de sentido, como analisa Koch (2003).

Após o frame de compreensão, a díade constrói uma seqüência quase ininterrupta de frames de preenchimento de lacunas, referentes às ações dos participantes e às características físicas, até emergir o segundo episódio de compreensão Mais especificamente, podemos analisar que os frames de preenchimento de lacunas das ações dos personagens e das características físicas dos mesmos revelam-nos um maior engajamento da díade, observado, por exemplo: (a) pela permanente troca de olhares entre a criança com DM e o parceiro interacional; (b) pela voz mais melodiosa e carinhosa por parte do parceiro interacional; (c) pela abundância de sinônimos usados pelo parceiro interacional para explicitar melhor as suas dúvidas; (d) por uma maior descrição de elementos não presentes no texto, o que nos fala do processo de criação da criança com DM (processo inferencial); (e) por uma maior orquestração corporal da

72 Para Tanen apud Koch (2003), as repetições cumprem o papel de mensagem e de metamensagem,

exercendo funções de grande relevância na compreensão, produção e conexão do discurso e intervindo, de forma decisiva, nos processos interacionais.

díade (balançam a cabeça quase que simultaneamente); (f) pelas mãos em sinal de explicação e olhos arregalados; (g) pela voz mais enérgica da criança com DM, ao responder ao parceiro interacional e (h) pelo corpo do parceiro interacional quase sempre inclinado para a frente na direção da criança com DM.

Esse maior engajamento mostra-nos como a produção de sentido é produzida na e pela relação com o outro. Isso pode ser evidenciado, por exemplo, naquilo que observamos no início do registro videográfico, quando a criança com DM falava bem baixinho e com voz tímida (episódio 1; frame de direcionamento). Já nos episódios acima comentados, percebe-se uma maior descontração da criança com DM e do seu parceiro, o que pode ser visto nas alternâncias entre os turnos de fala, na complementação dos discursos do outro e nos vários momentos em que a criança com DM discorda do parceiro interacional através da palavra “não”, como também através de gestos como “balançar a cabeça negativamente”. Respaldados nesses episódios, podemos pensar a deficiência mental não apenas como: “(...) resultado de um defeito orgânico que perturba o desenvolvimento intelectual natural”, mas como um fenômeno multifacetado que tem implicações para as interações sociais e para o o desenvolvimento cultural desses sujeitos (Vygotsky, 1989, p ?).

O maior engajamento, a voz melódica e carinhosa do parceiro interacional e o tom mais enfático da criança com DM ao discordar do parceiro mostram-nos como a produção de sentido é um processo dinâmico e interativo que se constrói a cada momento, a partir dos usos que os interlocutores fazem da linguagem na situação etnográfica. Nesse processo, gostaríamos de destacar que a possibilidade do adensamento dos laços afetivos fala-nos do importante papel de elementos extralingüísitcos, como, por exemplo, o apego da díade na produção de sentido e na construção de narrativas. No entanto, estamos conscientes de que esse não é o objetivo deste trabalhado, ficando a discussão para futuras pesquisas dessa envergadura. Dessa

maneira, o outro interacional, em suas múltiplas dimensões (sociocognitiva e afetiva), cumpre um relevante e desafiador papel na atividade de coprodução discursiva da criança com DM, demonstrando que o sujeito com deficiência mental é pleno de “potencialidades e “virtualidades” que precisam ser construídas na e pela relação com o outro social. Dessa forma, encontramos subsídios, na construção dos dados da nossa pesquisa, para refutarmos a concepção da deficiência mental proposta por Doll (1941) como um: “(...) estado de incompetência social obtido na maturidade, ou provável de se obter na maturidade, resultante de uma parada no desenvolvimento de origem constitucional (hereditária ou adquirida); a condição é essencialmente incurável através do tratamento irremediável” (grifos nossos). Nessa definição, opomo-nos às idéias, ainda presentes na atualidade, de “déficits”, de “limitações” e de “parada no desenvolvimento”.

Depois desse frame, tivemos, como já mencionamos, um progressivo declínio dos frames de peenchimento de lacunas e um incremento dos frames de compreensão. Nos frames de compreensão, observamos a necessidade dos participantes de contar a história, o que reforça a nossa idéia de que a díade 2 apresentou um maior engajamento que a díade 1, no que tange à construção da narrativa. Também podemos destacar que a freqüência dos frames de compreensão da díade 2 foi quase o dobro daquela observada na díade 1 (na díade 1, tivemos 5 frames de compreensão e, na díade 2 tivemos 9). Isso revela-nos, mais uma vez, o papel da sincronia e do engajamento dessa díade na construção de múltiplos sentidos para a história.

Esse nível de envolvimento na díade, na nossa interpretação, pode ter contribuído para a baixíssima freqüência dos frames de crítica ao longo dos registros videográficos, ou seja, parece não ter existido a preocupação do parceiro interacional em elaborar críticas à narrativa da criança com DM. (só tivemos um episódio no seguinte intervalo 8 min e 8 seg – 8 min e 42 seg). Também observamos um único episódio, no

qual a criança com DM faz uma autocrítica à sua narrativa, mas, a partir da intervenção do parceiro interacional (10 min e 43 seg – 11 min e 7 seg). Com isso, porém, não estamos querendo afirmar que a crítica não é um importante aspecto para a produção de sentido, estamos apenas frisando os elementos característicos da dinâmica interacional dessa díade.

Numa perspectiva de síntese, percebe-se nessa díade como cada interlocutor parece estar comprometido a facilitar a compreensão do parceiro, a atender suas solicitações, a (re)negociar com ele o sentido do que está sendo dito, através de um constante processo de negociação de significados, respeito pelo ponto de vista adotado pelo parceiro, bem como mútuo engajamento e construção de um clima prazeroso e carinhoso das trocas entre eles.