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Le microscope ` a effet tunnel ` a temp´ erature variable (VT-STM) . 21

1.3 Croissance organis´ ee

2.1.2 Le microscope ` a effet tunnel ` a temp´ erature variable (VT-STM) . 21

“As atividades dos proprietários dos jornais e dos demais jornalistas não se confundem com as dos que atuam nas instituições partidárias, mas eles também são agentes da história que ajudam a construir.” (Capelato, 2014, p.304.)

A temática unindo a imigração e a imprensa pode ser abordada a partir de dois ângulos: a imprensa produzida pelos imigrantes as representações dos imigrantes na imprensa em geral.26 Vamos buscar abordar as duas facetas neste subcapítulo e quais foram os estudos já produzidos neste âmbito, tanto no Brasil como em Portugal. Dessa forma apresentamos a metodologia de como iremos analisar fontes importantíssimas nesta tese: os jornais de grande circulação e a imprensa imigrante.

26 Uma obra importante que dialoga com essa relação particular da imprensa com outros temas é a Imigração &

Imprensa de Dreher (2004). Resultando de um evento internacional sobre a intersecção destes dois temas,

existem vários artigos muito relevantes a esse respeito, principalmente a relação de poder que existe dentro de qualquer imigração você conseguir controlar a produção de notícias sobre a terra natal e sobre a sociedade recetora do processo migratório. Mesmo não abordando a relação entre os imigrantes brasileiros e a imprensa, existem muitos capítulos relevantes sobre o tema, focados em outras imigrações pelo mundo.

73 Há alguns anos muitas ciências humanas vêm desconstruindo a máxima de que as notícias são produzidas com imparcialidade e sem intencionalidade. Nega-se esta postura e busca-se, por meio de vários estudos, apontar as múltiplas motivações – políticas, económicas, culturais, sociais, entre outras - que influenciam os produtores de notícias. Nas sociedades atuais os meios de comunicação tiveram um papel inegavelmente ativo na produção de imagens e identidades, permeadas pelas mais diversas motivações e por isso mesmo tornaram-se palco de diversos embates entre grupos de uma sociedade.

O caso da imigração brasileira para Portugal não foi diferente e os estudos académicos indicam isso. Em 2003 o professor da Universidade Nova de Lisboa Fernando Rui Cádima e a socióloga Alexandra Figueiredo escreveram Representações (imagens) dos imigrantes e das minorias étnicas na imprensa, Lisboa. Obercom/ACIDI. Estudo profundo, onde foram analisadas 4.076 notícias nos mais diversos meios de comunicação de Portugal de 31 de janeiro de 2001 até 31 de março de 2002. Destacamos a conclusão do estudo no seu último parágrafo:

“Do acima descrito, colocam-se duas questões. Por um lado, sendo o papel dos media determinante na formação da opinião pública e influenciando a agenda política, não lhes caberia a função de levantarem novas questões associadas à problemática da imigração e minorias étnicas, em vez do reforçar da estereotipização da diferença? Por outro lado, deveria ou não existir uma deontologia jornalística no tratamento destas questões, no sentido de promover a integração ou de, pelo menos, não acentuar as diferenças entre «minoria» e «maioria»?” (p.56).

Outro importante estudo foi realizado por Isabel Ferin Cunha, Clara Almeida Santos e uma equipe de pesquisa do Instituto de Estudos Jornalísticos da Universidade de Coimbra (IEJUC), utilizando análise textual computadorizada, para auxiliar na sistematização dos dados por meio do programa MAXQDA e onde foram analisados os meses de Abril a Dezembro de 2003. Foram analisados os diários: Público, Diário de Notícias, Correio da Manhã, A Capital e 24 horas, os semanários Expresso e Independente e os jornais televisivos exibidos no prime-time dos quatro canais generalistas de sinal aberto: RTP1, RTP2, SIC e TVI. O resultado foi publicado em 2004, sob o título Media, imigração e minorias étnicas, pela editora do órgão público português destinado à imigração, o ACIME.

Em 2006 foi publicado Media, imigração e minorias étnicas II também coordenado por Isabel Cunha e Clara Santos, com o IEJUC, e com a colaboração dos pesquisadores Catarina Valdigem e Willy S. Filho. Mantiveram-se os mesmos meios de comunicação

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utilizados no estudo anterior.27 Os autores defendem que existe uma relação entre algumas

perceções das opiniões dos portugueses e as formas como são produzidas as notícias sobre os imigrantes e minorias étnicas. Por exemplo, neste trecho:

“há elementos na análise da imprensa e da televisão, efectuada no ano de 2004, que confirmem os seguintes dados avançados: os portugueses preferem os brasileiros para conviver, os imigrantes de Leste para trabalhar e dificilmente optam por se relacionar com os cidadãos de origem africana. (…) Assim, poder-se-ia confirmar a existência de indicadores, na análise de imprensa e de televisão, que apresentem os africanos como menos “competentes e cumpridores”, “menos educados” e “menos sérios”, associando-os à criminalidade, violência e tráfico de droga; os brasileiros “mais alegres”, de “trato fácil” e “facilmente integráveis”; os imigrantes de Leste como “mais competentes profissionais” e “concorrentes potenciais” no mercado de trabalho. Ou, pelo contrário, os dados compilados neste Instrumento de Trabalho apreendem fenómenos de outra natureza, nomeadamente políticos, sociológicos e culturais” (2006, p.23).

Esta relação sublianhada no trecho coaduna com a interpretação que propomos sobre os meios de comunicação e suas formas de construir notícias e influenciar a opinião pública. Isto não sucede de forma direta ou linear, todos os seres humanos ao receberem informações tem capacidade de interpretação e de assimilação. Entretanto lembramos que um dos elementos de formação de opinião das sociedades modernas são os meios de comunicação, e que apesar do discurso de imparcialidade, existe uma prática ativa de construções de visões de mundo e de ações nas sociedades.

Outro fruto deste trabalho de pesquisa em relação à media e os imigrantes foi a dissertação de mestrado em Comunicação e Jornalismo, defendida na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra de Willy Filho Imagem do Imigrante Brasileiro no Jornalismo Televisivo Português 2004-2006. (2007). Também publicado pelo ACIME um ano depois em 2008. Além da criteriosa análise da produção televisiva sobre as imagens do imigrante brasileiro que norteia a publicação, há um estudo histórico exaustivo das empresas de comunicação portuguesas.

Ainda na temática geral de como a imprensa aborda os imigrantes em Portugal, o jornalista e antropólogo Alexandre Costa fez da revista Visão seu objeto de estudo. A criação da categoria imigrantes em Portugal na revista Visão: Jornalistas entre Estereótipos e Audiências., foi publicado em 2010. Nesta obra Costa investiga a revista entre 2002 e 2010 com a preocupação de identificar como os imigrantes foram sendo retratados pelos diversos

27 O alto-comissário para a Imigração e Minorias Étnicas, Rui Marques, e o Coordenador do Observatório da

Imigração do ACIME, Roberto Carneiro, enfatizaram neste segundo volume o aumento de notícias com teor neutro em relação aos imigrantes nos meios de comunicação português. Exploraremos mais essa relação entre o ACIME e as pesquisas desenvolvidas na segunda parte da tese, no sexto capítulo.

75 jornalistas. Conforme foi mencionado no capítulo anterior, o estereótipo é uma construção utilizada para diminuir e menosprezar o outro dentro de uma sociedade. Por isso a palavra imigrante teve na imprensa portuguesa o seu significado deslocado: imigrante não abarca todos os que não são nacionais. A palavra imigrante, devido ao estereótipo criado e alimentado pela imprensa, permite ao autor uma afirmação muito pertinente:

“A associação à categoria de imigração no senso comum leva a que fiquem de fora aqueles que não se enquadram nesse padrão de desfavorecimento social, legal e económico, seja o presidente da TAP, Fernando Pinto, ou cidadãos do espaço Schengen, como os ingleses e alemães que escolheram o Algarve para residir, que quase nunca surgem designados como imigrantes” (2010, p.23).

A construção de um texto na imprensa é feita de acordo com o projeto editorial dos proprietários do meio de comunicação e também pela construção do jornalista e dos editores desse produto impresso. Na hora de noticiar algo relacionado com um crime, a origem brasileira era destacada, mas quando se tratava do imigrante brasileiro que era presidente TAP, esta origem não ganhava o mesmo destaque. Costa defende que os médias portugueses criavam e alimentavam muitos estereótipos contra as populações imigrantes desfavorecidas.

A autora Ana Filipa Pinho traz duas contribuições importantes: a primeira a sua dissertação de mestrado em Comunicação, Migrações e Processos Comunicacionais. O Caso dos Brasileiros em Portugal, e a segunda, “A imprensa na construção do processo migratório: a constituição de Portugal como destino plausível da emigração brasileira”. Na primeira, a autora estuda a representação simbólica da imagem de Portugal para os imigrantes brasileiros de uma maneira geral. Na segunda, desenvolvida seis anos depois, há uma continuação neste sentido de perceção das imagens e identidades, ao estudar e analisar dois grandes veículos de comunicação brasileira, a revista semanal Veja da Editora Abril, e o matutino paulista O Estado de S. Paulo durante os anos de 1986 a 1996 na tentativa de estabelecer uma relação entre as tomadas de decisões para a imigração e as noticias vinculadas nos grandes meios de comunicação.

Em relação à media imigrante existem dois trabalhos importantes publicados. Um versa sobre as imprensas migrantes em geral atuando em Portugal, desenvolvido por Isabela Salim e intitulado Os meios de comunicação étnicos em Portugal: dinâmica organizacional dos media das comunidades de imigrantes (2008). Este estudo fez um exaustivo trabalho de catalogação e análise dos meios de comunicação étnicos nas comunidades angolana, brasileira, ucraniana, russa, romena e chinesa. Além disso, a autora fez diversas entrevistas dentro das comunidades para perceber qual a relação dos imigrantes com essas medias

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voltadas para eles. Apesar do tom generalista da obra, existiu um cuidado profundo com as análises sobre as propostas desses meios de comunicação abordando as mais diversas áreas da vida destes imigrantes como, por exemplo, cidadania, xenofobia, racismo, direitos, cultural e económica.28

O segundo estudo importante, foi focado na comunidade brasileira e desenvolvido pela autora Isabel Leão que, ao longo de anos, estudou o jornal Sabiá (2016), produzido pela associação Casa do Brasil de Lisboa. Em diversos congressos e eventos a autora produziu uma excelente análise deste periódico imigrante em Portugal. Usando as metodologias antropológicas a autora busca identificar como os imigrantes são influenciados pela mídia destinada a eles. Segundo esta autora, o jornal Sabiá é um instrumento que potencializa a integração destes com a sociedade portuguesa. Seus trabalhos são voltados para este estudo de caso específico sobre a comunidade brasileira e o jornal Sabiá e dessa forma contribuiu bastante para a temática.

Outro estudo realizado sobre o Sabiá foi a monografia de conclusão de curso de Ciências Sociais na Universidade Estadual de Campinas, por Gustavo Santos, intitulado: Sabiá em Portugal: Imigrantes brasileiros e a imaginação da nação na diáspora (1996). Nele o autor investiga amplamente os primeiros anos da publicação priorizando os atos públicos da Casa do Brasil de Lisboa em relação às questões envolvendo a luta por mais direitos para os imigrantes brasileiros retratados no jornal.29

A imprensa imigrante pode ser considerada de pequena dimensão em relação às tiragens dos outros meios de comunicação, entretanto a questão neste trabalho não é equiparar as duas. Pelo contrário, destacamos exatamente que o poder da grande imprensa é forte e alimenta e constrói muitas opiniões. Neste estudo buscamos justamente perceber como esta imprensa menor ou mais setorizada, tenta estabelecer um debate e até mesmo um embate sobre identidades na sociedade portuguesa.

Este subcapítulo procurou conhecer melhor quais são e como são os estudos sobre os imigrantes na imprensa portuguesa. E também explorar um pouco a questão da imprensa

28 A autora classifica os dois meios de comunicação que serão investigados neste trabalho da seguinte maneira:

“Jornal Sabiá - apoiar o imigrante nos aspectos ligados aos direitos de permanência e outros dos imigrantes" e a revista O Brasileirinho - Informar o imigrante sobre os aspectos relacionados com a comunidade brasileira em Portugal; aproximar o imigrante brasileiro, dentro da sua comunidade (p.46). Esta visão será problematizada e questionada durante o texto sobre estes meios de comunicação.

29 Esta escolha do autor é limitadora, pois neste período como vamos exemplificar ainda nesta tese existe uma

grande preocupação com os mais diversos aspetos culturais que são abordados pelo Sabiá que devem ser levados em conta para melhor compreender este período.

77 produzida pelos imigrantes. Devido à escolha das fontes desta tese este tema é muito importante e foi explorado com essa finalidade neste subcapítulo. A imprensa nas sociedades modernas tem um papel muito importante enquanto criadora, formadora e fomentadora de opiniões. Por isso, a escolha de estudar como os imigrantes brasileiros foram retratados em momentos diferentes pela imprensa portuguesa e como estes imigrantes reagiram a estas disputas e negociações sobre as suas identidades.

TERCEIRO CAPÍTULO: DIÁSPORA BRASILEIRA E PORTUGAL

ENQUANTO DESTINO DE MIGRAÇÕES

Neste capítulo buscamos fazer uma contextualização das três décadas envolvidas neste estudo (1980, 1990 e 2000) nos dois países e de maneira cronológica tradicional. Além disso, procurando alargar as interpretações e questões sobre esse período, abordamos de maneira temática e não cronológica: a alimentação dos imigrantes e o espaço em que eles se relacionavam. Essa escolha partiu do entendimento que um estudo sobre imigração deve estar atento às múltiplas possibilidades de compreensão dessa realidade complexa, que se dá nessas duas dimensões importantes a do espaço e a do tempo, vividos por esses imigrantes brasileiros em Portugal.

Migrar foi ao longo da história um processo realizado por milhões de seres humanos, pelos mais diversos motivos. No caso deste trabalho propomo-nos estudar a migração dos brasileiros para Portugal no período de 1986 a 2007, por meio das disputas e negociações identitárias travadas por esses imigrantes brasileiros. Quais foram as motivações que levaram à escolha de Portugal enquanto destino da migração? Para tentar responder a essa complexa pergunta, este capítulo se dedica a traçar um panorama do contexto histórico destes dois países, Brasil e Portugal, ao longo desses vinte e um anos.

Houve um longo processo no Brasil em relação à mudança de país recetor de migrantes para país emissor de migrantes. Segundo Igor Machado apenas na segunda metade

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da década de 2000 este fenómeno passou a ser tratado sob outra ótica30. Em Portugal houve,

como analisaremos em breve, uma grande repercussão na mudança de paradigma em relação a deixar de ser um país de emigrantes e passar a ser um país de imigrantes no começo do século XXI.

Essa transformação da realidade deve ser alvo de estudo numa pesquisa histórica sobre qualquer imigração ao longo de um período de tempo. Esta opção metodológica destoa de outros estudos académicos que utilizam o primeiro capítulo para apresentação de estatísticas de entradas e saídas de imigrantes e análises das economias dos países envolvidos. Neste trabalho de história propomos outra maneira de realizar este processo, entendendo que não se deve segmentar uma tese em partes que não dialogam entre si e se bastam por si.

O espaço público e o espaço privado também são arenas de negociações identitárias. Por isso a preocupação de abordar também essa disputa em conjunto com os dados de entradas e saídas de imigrantes. As relações que os brasileiros travaram no seu dia-a-dia com a sociedade portuguesa que estava em transformação foram repletas de momentos de disputas e negociações de imagens e sentimentos. Para aproveitar esses momentos de tensão identitárias no cotidiano foi utilizado todo o tipo de fonte que contribuía para o melhor entendimento dessas questões. Em alguns casos foram utilizados registros históricos que também serão utilizados e mais bem detalhados em outros momentos da pesquisa, por entendermos que deve existir um diálogo entre todos os capítulos da tese, mas sem que isso exija um congelamento de temas ou assuntos.

Por meio de uma série de fontes, buscamos evidenciar a relação do imigrante com o espaço, para além de perceber como se deu essa interação e, conseguir algumas possibilidades de entendimento sobre o cotidiano desses imigrantes. Estes dois aspetos são tão importantes quanto os que serão analisados na última parte, quando procuraremos perceber como essas negociações se deram em momentos latentes de disputas e negociações identitárias entre os imigrantes brasileiros e a sociedade portuguesa na esfera pública, por meio da análise dos meios de comunicação.

30Um dos exemplos utilizados pelo autor foi: “Se antes as visões sobre a emigração internacional brasileira eram

catastróficas, exotizadas, desfocadas, agora o fenômeno passa a ser tratado com mais cuidado e com alguma pretensão já historiográfica. O exemplo dessa normalidade, que torna “velha”, é a nada mais nada menos que a novela da Rede Globo de televisão, “América”, em que a emigração para os EUA é parte natural do cenário onde se desenvolve a trama dos personagens principais. O fenômeno da emigração é assumido como um fato irreversível e como parte de um Brasil diferente” (Machado, 2006, p.10).

79 A História tem buscado novas formas de diálogo com as outras ciências humanas no intuito de aumentar as ferramentas de análises. No caso da Geografia essa transformação foi considerada como a “virada espacial”, que representou, justamente, uma mudança de foco que abriu mais um campo nos estudos históricos nomeadamente Winthers (2008), Müller e Torp (2009), Knowles (2009), entre outros. Da mesma forma que a História atual não aceita a condição de ser só datas e grandes feitos, a Geografia igualmente não é apenas mapas e escalas. Estas determinações estão ligadas ao modelo positivista de ensino.

Este trabalho de história propõe identificar e problematizar como se deu este processo, no tempo e no espaço. Existem várias definições para o termo espaço, aqui entendemos espaço como o local onde os sujeitos estabelecem relações, a partir do seu cotidiano. Esta definição não é inovadora, na verdade dialoga com outras como: lugar, não-lugar, paisagem, territorialidade ou desterritorialização. Parte-se do pressuposto de que o estudo da história é baseado nos registros deixados pelos seres humanos sobre o seu cotidiano. Por essa razão, não pode existir uma separação do tempo vivido - objeto da história - do espaço ao redor – objeto da geografia. Por isso a história tem que dialogar com a geografia e as suas diversas formas de interpretar o espaço. Afinal este espaço foi o resultado das ações dos seres humanos e portanto uma fonte de pesquisa histórica extremamente valiosa.

A imigração brasileira para Portugal, como foi dito na introdução, foi extremamente diversa, em relação à origem de partida desses imigrantes. Não se pode abordar um único “tipo” de imigrante brasileiro. Essa opção weberiana pouco contribui para interpretação da realidade deste fenómeno. Por exemplo, um imigrante que saiu de São Paulo em 1991 convivia com 9.646.185 pessoas e encontrou em Lisboa uma realidade de 663.394 pessoas, enquanto um imigrante que saiu de Governador Valadares em 1991 convivia com 230.524 pessoas (IBGE e INE). As relações que estes imigrantes brasileiros tiveram com a cidade de Lisboa foram sem dúvida realizadas em escalas diferentes.

Daí que, nesta pesquisa, se tenham buscado as mais variadas fontes históricas, para tentar assim traçar e esmiuçar as múltiplas relações estabelecidas entre os diversos imigrantes brasileiros e o espaço da Área Metropolitana de Lisboa ao longo do período estudado. Por ser a capital administrativa do país e em função da larga e vasta área metropolitana, neste trabalho consideramos enquanto objeto de estudo a AML como uma metrópole, devido às suas características descritas e, além disso, comparativamente com o restante Portugal, a Área Metropolitana de Lisboa assume esta posição. Sobre as diversas relações que os seres

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humanos estabelecem com as metrópoles, destacamos as reflexões do antropólogo José Magnani que alargam o debate e a interpretação sobre este fenómeno:

“As grandes metrópoles contemporâneas não podem ser vistas simplesmente como cidades que cresceram demais e desordenadamente, potencializando fatores de desagregação. Elas também propiciaram a criação de novos padrões de troca e de espaços para a sociabilidade e para os rituais da vida pública. De pouco vale generalizar o desaparecimento da velha rua, tida como símbolo por antonomásia do espaço público, nem se limitar a proclamar que sua função foi ocupada pelas "tiranias da intimidade" ou por zonas desprovidas de sociabilidade: se em determinados contextos ficou inviável