4.2 R´ eseaux de d´ epressions sur 6H-SiC(0001)
4.2.2 Cr´ eation d’un r´ eseau de pores par gravure ionique r´ eactive
Em relação às transformações ocorridas em Portugal, a Exposição Mundial de 1998 (EXPO 98) marcou muito a mentalidade dos portugueses como um momento de grande viragem histórica para a modernidade. Uma área degradada da cidade foi inteiramente remodelada para albergar o evento, uma arquitetura nova revolucionou a noção de belo entre os habitantes da cidade. Entretanto nem todos viveram e perceberam esse momento da mesma forma, como descreveu muito bem a antropóloga brasileira Clara Mafra na introdução do seu livro Na posse da palavra - religião, conversão e liberdade pessoal em dois contextos nacionais:
"É opinião compartilhada entre os taxistas de Lisboa que Portugal mudou muito nos últimos dez anos. Uma Lisboa com obras por todos os lados, com desvios a cada nova instalação, uma cidade em polvorosa em função de uma Expo 98. Mas para o visitante das Américas – especialmente do sul do equador, crescido a sul dos «tristes trópicos», acostumados à renovação constante das fachadas das cidades e à formação de ruínas pelo passar de apenas uma década – a informação do taxista parecia inconsistente. Os casarios oitocentistas estendidos ao longo de ruelas intermináveis com os seus varais expostos ao vento, as praças com bancos de pedras e um movimento discreto, nalgum dos seus cantos, de um grupo de idosos, alguns vestidos de negro, os azulejos nas fontes e praças descrevendo os pontos altos do lugar e as suas atividades artesãs, eram alguns dos elementos que iam somando para agravar a sensação de que o passado estava bem vivo por ali" (Mafra, 2002 p.73).
Este relato da autora se contrapõe ao discurso do progresso e da valorização da mudança e, além disso, destacamos que essa perceção de uma autora brasileira sobre este acontecimento deve ter sido a mesma que muitos brasileiros tiveram ao chegar nesse período em Portugal. Muitos brasileiros nunca tinham estado no país antes de se tornarem imigrantes, por isso para eles, essa transformação pela qual Lisboa passou, não foi tão grande, como para um morador da cidade.
Mas não há dúvidas de que a EXPO alterou totalmente a vida da população de Lisboa de várias formas, quer pelas obras realizadas no local, quer durante o evento, que gerou grande adesão dos portugueses (Ramos, 2009). Finda a exposição as construções foram absorvidas e a cidade de Lisboa ganhou vários novos espaços, entre eles um novo centro de
115 convenções, um oceanário, uma sala de espetáculos, escritórios comerciais, novos restaurantes, parques, entre outros.
Outras mudanças decorrentes do evento foram a construção da nova ponte sobre o Tejo, chamada Vasco da Gama e o centro comercial com o mesmo nome, muito próximos do local da EXPO98. Aproveitando a data, outro centro comercial foi construído em Lisboa, próximo ao estádio do Benfica, chamado de Colombo, ambos foram e ainda são marcos arquitetónicos e espaços de sociabilidade dos lisboetas. Estes locais de consumo fazem também parte da sociabilidade dos imigrantes, mesmo aqueles que estão envolvidos em projetos migratórios sobretudo envolvendo a acumulação de dinheiro.
"Lazer? Ah lazer era quando a gente tinha folga, ai gente ia pro Colombo e ai gastava, gastava… Olha pra falar bem a verdade eu já não tava gostando muito daquela história... por que o lazer tem custo sabe? É verdade a gente fazer compra, ir no cinema, passear é custo, imagina ir todo final de semana no Colombo ou no Vasco da Gama é gasto, sempre é gasto. Por que aqui se você não tá ganhando, você tá gastando... mas se não for lá é chato também… "
O imigrante brasileiro em Portugal, e também em outros países, tem acesso a uma série de possibilidades de comprar roupas e aparelhos eletrónicos que não teria se estivesse no Brasil. Marcelo, um imigrante brasileiro que chegou em 2001 em Portugal, diz: “Cara aqui com um salário mínimo de 480 euros eu consigo comprar um Nike de 50 euros, no Brasil com o salário de 600 reais eu não consigo comprar o mesmo tênis”. Como argumentam Junior e Dias sobre o contexto dos imigrantes brasileiros em Londres:
"Os indivíduos são expostos e seduzidos pelos benefícios do consumo moderno, mas, ao mesmo tempo, são-lhes negados os meios económicos para atingir tais níveis de consumo. Assim, a migração aparecia para alguns como uma das saídas encontradas para conseguir capital fora e obter um padrão de consumo quando retornassem. De certa forma, essa perspetiva aproxima-se, inicialmente, do caso de brasileiros que encontraram na migração para Londres um meio de atingir determinadas expectativas de consumo na sociedade de origem, que dificilmente conseguiriam apenas trabalhando no Brasil, dada a sua situação económica. Quando ouvimos as histórias daqueles que migraram para Londres nos anos 2000, com o intuito inicial de trabalhar, acumular capital económico e retornar ao país de origem, vários casos se assemelham aos dos estudos sobre redes sociais e migração: alguns pioneiros migraram no período de crise e depois retornaram ao país de origem com muito dinheiro e consumindo produtos que demonstravam o seu sucesso no exterior" (Junior e Dias, 2013, p.818).
Esse consumo para muitos desses imigrantes brasileiros no exterior gera um enorme empoderamento. Vários desses sujeitos não conseguiriam comprar esses objetos se estivessem vivendo no Brasil, pela grande concentração de riqueza e valorização excessiva de alguns bens de consumo, como equipamentos eletrónicos e algumas marcas de roupas. Estas
116
possibilidades de posse agem na mentalidade dos imigrantes gerando uma sensação de vitória por conseguir adquirir esses bens, e também como os autores declaram no final do trecho, quando esses imigrantes exibem esses bens no Brasil eles se afirmam em suas comunidades como vencedores.
Outra questão em relação à EXPO98 foi que ao celebrar as grandes navegações e os feitos dos portugueses, despertou uma difícil questão: a conciliação entre o passado colonial e as suas consequências para os povos colonizados. Como celebrar algo que deixou como rescaldo milhares de mortes e escravidão? As celebrações e rememorações são extremamente complexas e cheias de contradições como destacam tantos autores (Hobsbawn e Ranger, 1984, Chauí, 2000, Le Goff, 2013). A memória na nossa sociedade não é algo neutro, muito pelo contrário, a memória é utilizada para justificar uma série de ações no presente, com discursos e leituras sobre o passado.
Nenhum historiador comprometido com a verdade pode negligenciar, ao abordar a EXPO98, a outra grande exposição que o país promoveu antes dessa, em 1940. Foi um dos maiores atos de propaganda do império colonial português, a chamada a Exposição do Mundo Português, que alterou toda a arquitetura em volta do Tejo à frente do Mosteiro dos Jerónimos e que pretendia exaltar a colonização portuguesa e o Estado Novo. Rui Ramos abordou essa relação entre os dois eventos:
"A Exposição Internacional de 1998 em Lisboa, coincidindo com o quito centenário da viagem de Vasco da Gama à Índia por via marítima (1948), foi o contraponto democrático à Exposição ao Mundo Português de 1940, que assinalara o Duplo Centenário da formação da nacionalidade (1140) e da Restauração (1640). Uma Lisboa Ocidental, através de construções precárias perto do Mosteiro dos Jerónimos e da Torre de Belém, a outro em Lisboa Oriental, urbanizando a antiga área industrial, ambas foram a montra do país a que as elites governantes aspiravam: o império do Minho a Timor, voltando sobre sua própria História, existindo como um mundo à parte num planeta em guerra – ou o actor moderno de um espaço global, de comunicação e de intercâmbio, que acolhe todas as culturas e se tenta projectar sobre elas. Entre um momento e o outro, manteve-se a ligação ao passado dos Descobrimentos, desta vez, porém reimaginados como «encontro de culturas» através dos oceanos, sem menção de guerreiros e missionários" (p.774).
Neste trecho, Ramos elabora as motivações dos dois momentos com grande perspicácia, no entanto em nenhum momento critica essa reconstrução histórica que criou um “encontro de culturas”, apenas descreve o momento. Este momento abordado pelo autor ressalta a ideia que em Portugal, como em qualquer sociedade contemporânea, existem
117 batalhas sobre memórias e discursos históricos.53 Como destaca Quintas em Para as ciências da memória, o esquecimento não se afirmava necessariamente como uma ausência, mas antes como algo que se traduzia por um encobrimento. O que esquecemos é antes o que ocultamos ou encobrimos dos outros e sobretudo, de nós próprios (2000, p.66). O esquecimento não é natural, é um processo semelhante ao da lembrança, onde existe um diálogo com um passado, mas este é intermediado pelo presente.
Para a maioria dos imigrantes que chegavam a Portugal nesse período, brasileiros e africanos falantes da língua portuguesa, o seu passado foi ter sido colonizado pelos portugueses. Ou seja, não entrando na questão delicada e de difícil medição da coincidência proposital, ou não para estes dois processos, foi inegável que a publicidade estatal e privada sobre esse tema do império colonial influenciou a população que recebeu esses imigrantes na década de 1990. Vários autores abordam a questão de como Portugal precisou repensar sua identidade enquanto nação ao perder o seu império, uma vez que durante muitos anos o discurso oficial privilegiava a singularidade do povo português. Essas versões imperialistas de grandiosidade e importância de Portugal em relação aos outros, continua na mentalidade de vários governantes e provavelmente na mentalidade de vários segmentos da sociedade. O presidente da república Aníbal Cavaco Silva se empenhou no seu último governo em defender um novo mapa para Portugal, onde se incluiria a costa marítima que, devido a uma série de ilhas e arquipélagos, criaria um espaço contínuo de 3.800.000 quilómetros54. Com esta
configuração, o antigo slogan do Estado Novo “Portugal, não é um país pequeno” continua presente.
53 O historiador António Costa Pinto em seu texto: Ajustando contas com o passado na transição para a
democracia em Portugal. Exemplifica duas operações realizadas na história recente: “Os sucessivos presidentes
da República concederam aos antigos militares oposicionistas a Ordem da Liberdade, ou reintegraram, a título póstumo, vítimas da ditadura. Um exemplo disto foi o general Humberto Delgado, cujas honras militares seriam postumamente reconfirmadas. Os nomes de importantes individualidades oposicionistas, republicanos, socialistas e comunistas seriam introduzidos na toponímia e o nome de Salazar apagado de monumentos e praças, nomeadamente na primeira ponte sobre o Tejo (Pinto, 2004, p.106). Existem algumas pessoas (de mais idade) em Lisboa que não utilizam o nome Ponte 25 de Abril, utilizando ainda o antigo nome de Ponte Salazar ou ponte sobre o Tejo, essa escolha não é inocente ou sem significado. Pelo contrário, ela representa uma postura política por defender uma memória que foi apagada e recriada. Existe em Portugal uma batalha sobre a memória deste período do Estado Novo muito grande em vários setores.
54 “Mapa onde se mostra que 97% de Portugal é mar chega hoje às escolas. Novos territórios marítimos estão na
proposta - entregue nas Nações Unidas em 2009 - de extensão da plataforma continental portuguesa para lá das 200 milhas.” Disponível em http://www.publico.pt/ciencia/noticia/mapa-que-mostra-que-97-de-portugal-e-mar- chega-as-escolas-1630635 consultado em 29.12.2015.
118