11. SINGLETONS, SAMPLES, AND STATISTICS
11.1 Methods of Collecting Samples
Quando entrou no Fronteira e sentou nas ripinhas duras e lustrosas que se juntavam para formar o banco do trem, Cyro teve uma certeza: voltava para casa. Aliás, essa era uma das poucas certezas que tinha naquele final de 1933.
Não era a primeira vez que partia rumo ao desconhecido. Antes dos 12 anos, já fizera uma jornada parecida. Daquela vez, porém, o trem levava-o na direção contrária e, ainda que estivesse com medo, havia esperanças. Agora, não. Mesmo que carregasse o diploma de médico, o maior objetivo desde a saída do Cerro do Marco, em 1920, Cyro não poderia espantar a sensação de incômodo. Havia muito que ele sabia da volta para casa. Bilo e Cyro nunca conversaram sobre o assunto nas horas do mate ou nos passeios a cavalo dos fins de tarde. A volta estava resolvida e não precisavam gastar saliva falando sobre outras possibilidades.
Para Bilo, a vida do filho se ligava à família e à cidade natal. Por isso, o pai não cogitava outras possibilidades. Para Cyro, era diferente. O rapaz desejava seguir outros rumos. Ele não queria estar no Fronteira, olhando pela janela as paisagens de sempre e refazendo a viagem que já conhecia de cor. Ele não queria se afastar de Porto Alegre e se internar em um distrito do interior. Se continuasse na capital, rolaria por outras pensões baratas, passaria fome, teria apertos de dinheiro e penaria para montar consultório e arranjar clientela. Não seria nada fácil e ainda haveria incertezas, mas talvez tivesse mais oportunidades e pudesse ampliar os estudos. Além disso, estaria em centro cultural e poderia levar adiante a ideia de ser escritor.
O que aconteceria em Quaraí, no Cerro do Marco? Dividiria a casa com a família, teria um teto e comida na mesa. Essas garantias, no entanto, não lhe diziam muita coisa e não respondiam às perguntas que se fazia enquanto o trem sacolejava. O que aconteceria em Quaraí? O que aconteceria com ele, com a sua vida? A volta não se pintava como temporária e isso aumentava os medos de Cyro. Ele imaginava que, se tivesse muita sorte, entraria naquela rotina de consultas em invernos cortantes e verões torturantes, de aperitivos no Clube Comercial, de caminhadas pela Praça General Osório, de possíveis namoros observados por pais zelosos, de briguinhas políticas por intendências e conselhos municipais e não conseguia evitar a tristeza. Aquilo não poderia ser o máximo de sua existência. Precisava de outro caminho, precisava de uma perspectiva melhor.
A noite cercava o Fronteira por todos os lados e Cyro se sentia cada vez mais sufocado pelo retorno. Seus desejos e suas vontades não o empurraram para o trem, não fizeram com que ele buscasse a posição menos incômoda para enfrentar a viagem longa e o banco duro. Foi pela obrigação com a família – principalmente com Bilo – que juntou as poucas malas e rumou para
casa. O senso de obrigação amarrou as mãos de Cyro e o perturbou por todos os quilômetros que separavam Porto Alegre do Cerro do Marco. Não o deixou ler, não o abandonou nas horas de baldeação nem nos instantes em que fingia dormir. Quando desceu no Cerro do Marco, ouviu a voz do pai e viu as lágrimas da mãe, Cyro teve outra certeza: a obrigação o levara para o lugar errado. Ali, para o jovem, não havia futuro ou esperanças.
Ao contrário de Cyro, os outros Martins colocavam fé naquela chegada. Eles esperavam que, ao desembarcar na frente do armazém com o título de médico, Cyro salvasse o clã da complicada situação financeira na qual estavam afundados. Em dezembro de 1933, os Martins enfrentavam um dos seus piores momentos. A venda estava parada, com as prateleiras vazias. Bilo não podia fazer encomendas e nem mandar trazer carretas de mercadorias, estava quebrado. Muitos fatores contribuíram para a derrocada de Bilo. Desde 1923, ele vinha capengueando. As pessoas abandonaram a campanha e não voltaram. Isso foi um grande choque nos negócios. Também em 1923, pensando na causa libertadora, Bilo empregara recursos que nunca retornariam. Um par de botas, uma bombacha ou umas libras de feijão entregues a possíveis eleitores representavam prejuízo. Como se não bastassem os acontecimentos de 1923, houve o incêndio de 1925 e a perda da casa e do armazém. Esse golpe foi o mais forte. Por mais que o bolicho não estivesse vendendo a todo vapor, era dele que os Martins tiravam o sustento. Sem ele, as coisas ficaram feias. Além desses fatos maiores, havia outros, não tão grandes em tragédia, mas longos em duração. A seca não dava trégua, aparecia em quase todos os verões, levava a água, o pasto e o gado e trazia mais prejuízos. Desde 1920, com a ida de Cyro para o Anchieta, Bilo tinha que lidar com os gastos da educação dos filhos. Não eram poucos os recursos empenhados na tarefa. Esse dinheiro, porém, era bem empregado. Na formação dos jovens, só se mexia em últimos casos. Se quebrasse por ter educado os filhos, teria quebrado por convicção e obrigação. Bilo sabia que os tempos eram outros. Era melhor deixar-lhes estudos do que um armazém e umas poucas vacas e ovelhas. Depois que os filhos tivessem diplomas, seria diferente. Com um médico e um advogado, a situação mudaria, precisaria mudar.
Os Martins esperavam que Cyro, o médico da família, voltasse para casa e tirasse todos do aperto. Ele poderia dar consultas na venda mesmo e atender aos chamados dos arredores. Uma hora ou outra, os cobres começariam a pingar e eles se aliviariam. Talvez Bilo e Felícia até vislumbrassem Cyro como doutor já estabelecido, com consultório na cidade, boa clientela e, até mesmo, com um lugarzinho na política municipal. Bilo vibraria se isso acontecesse, mas o presente se mostrava mais urgente. Eles precisavam de dinheiro e contavam com Cyro. Logo
depois da formatura, ele teria de retornar. Era pegar o canudo e embarcar no Fronteira. Havia muito que o guri estava longe de casa. Já era tempo de voltar.
Ele saíra do Cerro do Marco antes dos 12 anos e voltava com mais de 25. Passara metade da vida longe. Aquela casa não era mais a sua. Aquele lugar não era mais o seu. Antes, precisou se adaptar ao internato e à distância. Agora, precisaria se adaptar a um novo cenário. Quando viajava de férias, o ambiente era outro. Embora soubesse das dificuldades da família, o clima parecia menos carregado. Além disso, em determinado dia, ele partiria. O convívio familiar era diferente e o compromisso de Cyro era mais leve. Ele tinha de estudar e se formar. No retorno ao Cerro do Marco, ele precisaria exercer a profissão e levar dinheiro para casa. A leveza dos períodos de férias desaparecera e o peso da realidade se consolidara.
Como aquele jovem e inexperiente médico seria a salvação da família? Ele não tinha certezas em relação à carreira. Estudara e se formara em Medicina porque esse caminho lhe foi apresentado. Não lhe deram muitas escolhas. Depois de seis anos, desempenharia a prática médica sem muita segurança. Fora os receios do profissional recém-formado, havia o peso das expectativas da família e a necessidade de uma resposta rápida. Se ele estava formado, já estava apto a trabalhar. Os pais não entendiam que, para Cyro conquistar um espaço, levaria tempo. Na cidade, havia médicos como o Robertinho, José Salánky, o Reverbel e o Osório Júnior. Eles tinham estrada e eram conhecidos. Entre eles e um guri, os doentes ficariam com a primeira opção. Muitas pessoas também colocavam pouca fé nos médicos e preferiam as benzeduras e as simpatias. Outro fator que deixava as perspectivas de Cyro mais sombrias era o dos honorários. Nem todos tinham dinheiro para pagar as visitas e alguns nem se importavam de enrolar o médico com desculpas e postergações.
Cyro sabia que não enfrentaria um cenário fácil. Os medos em relação ao futuro embarcaram com ele na estação de Porto Alegre e, quando chegaram ao Cerro do Marco, ganharam um tamanho espantoso. Em Para início de conversa, ao falar da volta para casa, Cyro
disse que encontrou “um quadro desolador”168. A seca daquele final de ano estava se mostrando
das piores. Se não chovesse logo, a família ficaria sem água, pois as vertentes a que recorriam estavam morrendo. O bolicho, quebrado, dava os últimos suspiros na beira da estrada. Para arranjar uns poucos réis, Bilo carneou um dos raros porcos gordos do chiqueiro e encarregou o cunhado Danilo de vender os pedaços entre os operários que trabalhavam na obra da Viação Férrea169. Aqueles réis seriam decisivos para a passagem de ano.
168 MARTINS, Cyro. Para início de conversa. Porto Alegre: Movimento, 1990, p. 70. 169 MARTINS, Cyro. Para início de conversa. Porto Alegre: Movimento, 1990, p. 70.
Os Martins estavam quase sem ação diante do “quadro desolador”. Bilo tentava algumas providências, como a dos porcos, mas era sempre algo parcial e breve, que os tiraria de um aperto momentâneo e não resolveria os problemas da família. A chuva traria um pouco de alívio – pelo menos, não morreriam de sede. No entanto, não podiam fazer nada em relação a isso. Só restava olhar para o lado chovedor, o lado dos castelhanos, e torcer para que a água viesse.
A carga da situação estava pesada e o retorno de Cyro parecia o único fio de esperança capaz de ligar os Martins à possibilidade de melhoras, de futuro. Era uma missão ingrata para um rapaz inexperiente e inseguro, que mal tinha despido as vestes de estudante. Anos mais tarde, Cyro falaria da delicadeza do momento em que voltou para casa: “Estávamos vivendo no limiar duma era familiar que terminava em desastre e o vago clarão de esperança que
representava o jovem médico iniciando a carreira”170. A reflexão foi feita quase sessenta anos
depois dos acontecimentos e, passado dos 80, Cyro sabia que o verão de 1933 e 1934 tinha mudado completamente sua vida. Contudo, durante aquele verão, ele sentia que a tragédia se aproximava? Em meio a todas as dificuldades, muitos receios deviam brotar. Todo o clã reconhecia que as coisas não estavam boas, mas eles realmente sentiam que um desastre se avizinhava? Tinham medo da seca, da falta de comida e da falta de dinheiro, não de um desastre. Se fossem obrigados a se desfazer da casa e da venda, seriam socorridos por parentes. As famílias de Bilo e Felícia eram grandes, mesmo que ninguém fosse muito abastado, de algum jeito, ajudariam.
Depois que 1934 tomou conta do calendário, Cyro começou a atender alguns pacientes e as esperanças de Bilo cresceram. Cyro atendia aos chamados de pessoas dos arredores ou procuravam-no na venda. Na ausência de um consultório, tudo era improvisado. Os homens eram examinados na cama de solteiro do próprio Cyro. Antes do exame, Felícia, no papel de
mãe silenciosa e prestativa, “providenciava um lençol limpo, com muito orgulho”171. Quando
consultavam mulheres, os procedimentos eram “mais recatados”. A paciente era levada para o quarto dos pais e se deitava na metade da cama arrumada por Felícia.
Os clientes apareciam, pois como Cyro costumava dizer, “o pessoal gosta de consultar,
principalmente estando com um médico à mão”172. Eles eram, na maioria das vezes, pobres e
os pagamentos pelas consultas, quando vinham, vinham mirrados. Daqueles primeiros dias de clínica, Cyro citou apenas alguns casos. Em um dos dias quentes do início de 1934, um Chevrolet parou na frente da venda. Do automóvel, desceu uma senhora que aparentava ter
170 MARTINS, Cyro. Para início de conversa. Porto Alegre: Movimento, 1990, p. 70. 171 MARTINS, Cyro. Para início de conversa. Porto Alegre: Movimento, 1990, p. 70. 172 MARTINS, Cyro. Para início de conversa. Porto Alegre: Movimento, 1990, p. 72.
posses. Procurava pelo médico novo, saído havia pouco da faculdade. Cyro logo percebeu a “dona bem posta, de roupa e corpo”173. Ela já visitara médicos em Quaraí e Livramento e
ninguém lhe dava um diagnóstico. Aquele Doutor novo – ela gostava, especialmente, dos novos –, conhecido através de conversas, talvez, resolvesse seus problemas. Cyro a examinou no quarto dos pais. Ouviu queixas, auscultou, percutiu e apalpou. Nada. Ela não sofria de nenhum mal. Não havia nada a receitar, não precisava voltar para novos exames. A mulher pagou a consulta a contragosto e foi embora decepcionada. Esperava mais do jovem profissional. Tempos depois, Cyro soube da fama de sua cliente. Ela “pertencia ao tipo das sedutoras de
médico” e, por tê-lo “achado muito sério ou muito bobo”174, nunca mais o procurara.
A sedutora não foi a única a sair desiludida com o jovem Doutor. Em certa ocasião, o capataz de uma estância próxima foi levado até Cyro. Não havia sintomas aparentes e o homem não tinha dificuldades em se expressar. Não era do tipo calado, até falava bastante, mas não se queixava de nenhuma dor. Seu único incômodo era uma “ânsia” que lhe apertava o peito. Essa ânsia, porém, não era nada que atingisse o físico. Cyro percebia que alguma questão psíquica afetava o capataz e lhe causava angústia, inquietação e insatisfação. Como explicaria para o
cliente, “um homem grande, forte e com fama de valente”175, com crenças nas forças do corpo
e não nas da mente, que as origens de seus problemas estavam na cabeça? Cyro não tinha experiência para contornar a situação e, ao dizer que receitaria “um remédio muito bom para os nervos”176, perdeu a confiança e o dinheiro do cliente.
Os casos que mais deixavam Cyro apreensivo eram aqueles nos quais ele precisava usar as mãos. Uma coisa era apalpar os pacientes, outra era abri-los e costurá-los. Cyro não tinha habilidades manuais e temia fazer barbeiragens por causa disso. Quando, em um domingo de noite, chamaram-no para o atendimento em um bolicho, ele sabia que haveria cortes e pontos seriam necessários. Durante o domingo, as carreiras e a cachaça corriam soltas e acabavam em brigas e facas. No bolicho, Cyro viu que seus temores se tornavam realidade. Dois homens estavam cortados e ele precisou fazer pontos no ombro de um e na perna de outro. Cyro disse que fez a costura como a sua cara177, como deu e sem nenhum jeito. Ele deixou os feridos
“animados com a afirmação de que os talhos não haviam atingido nenhum nervo” e se mandou para casa o mais rápido possível.
173 MARTINS, Cyro. Para início de conversa. Porto Alegre: Movimento, 1990, p. 71. 174 MARTINS, Cyro. Para início de conversa. Porto Alegre: Movimento, 1990, p. 71. 175 MARTINS, Cyro. Para início de conversa. Porto Alegre: Movimento, 1990, p. 72. 176 MARTINS, Cyro. Para início de conversa. Porto Alegre: Movimento, 1990, p. 72. 177 MARTINS, Cyro. Para início de conversa. Porto Alegre: Movimento, 1990, p. 73.
Os episódios das primeiras práticas de Cyro evidenciam a insegurança e a inexperiência do rapaz. Isso, contudo, era normal. Ele estava no início da carreira e, mesmo que não tivesse muita confiança e habilidade, enfrentava as situações que apareciam pela frente. Outra vez, Cyro estava diante de um caminho sem escolhas.
Além dos atendimentos, Cyro ajudava em outras tarefas da casa. Cuidava de uns poucos animais e buscava água na vertente de Florindo Vieira, o vizinho. A falta de chuva causava muitos problemas e a caça pela água era apenas um deles. Durante o amanhecer dos dias de janeiro de 1934, quando os Martins abriam os olhos e avistavam “o solão vermelho, prometendo mais um dia tremendo”178, a angústia voltava com força. Nos tempos secos, Bilo e Cyro
levavam a pipa, uma bordalesa de quinhentos litros que, antes, se enchia de cachaça, até a bica
do Florindo. A cacimbinha e a “fonte de confiança, do potreiro grande”179, se finaram e era
necessário recorrer às aguadas do vizinho. Nessas pequenas viagens, pai e filho já não trocavam tantas palavras. Havia muito para conversarem, Bilo sabia de inúmeras histórias e Cyro estava disposto a escutá-las. O momento, porém, não era de leveza e o peso do silêncio era o mais adequado.
Bilo e Cyro deviam estar em silêncio no final de uma tarde da segunda quinzena de janeiro. Ao voltarem do Florindo, carregados com mais alguns litros de água, os dois viram que uma nuvenzinha escura se metia no entardecer alaranjado. A tal nuvem vinha dos castelhanos e apontava chuva. Ela era um sinal. Naquela noite, o céu verteria água. Se fosse abundante, alguns dos problemas dos Martins se resolveriam. Lembrando-se da passagem da nuvem, Cyro disse que ela era “a própria antevisão da felicidade” e que, em um repente, “se abriu uma baita
esperança, a chuva”180. Diante da visão, a tarefa se tornou passeio, houve conversa e leveza.
Depois da nuvenzinha e dos sinais de chuva, pai e filho poderiam falar e ouvir. Não era só a água que viria. Também viria a esperança e a fé na melhora da situação.
Em casa, de noite, ouvindo as trovoadas e o vento, cheirando a terra molhada, sentindo a chuva e sorrindo para os clarões dos relâmpagos, Bilo falou da proximidade do seu aniversário e da possibilidade de convidarem uns parentes para comemorar o natalício. Ele sempre gostou de seu aniversário e dali a pouco mais de uma semana, em 26 de janeiro, chegaria aos 56 anos. A festa não seria somente para Bilo, aproveitariam a ocasião para celebrar a formatura de Cyro que, até o momento, fora deixada de lado por causa do aperto da família. Os festejos não seriam
178 MARTINS, Cyro. Para início de conversa. Porto Alegre: Movimento, 1990, p. 73. 179 MARTINS, Cyro. Para início de conversa. Porto Alegre: Movimento, 1990, p. 78-79. 180 MARTINS, Cyro. Para início de conversa. Porto Alegre: Movimento, 1990, p. 73.
grandes, teriam alguns assados e bastante alegria. Com o passar daquela chuvarada, a alegria não poderia faltar. Uma nova época surgiria e as dificuldades começariam a ficar para trás.
“Os campos amanheceram empapados d’àgua. A cacimbinha transbordava”181. Foi essa
a descrição que Cyro fez da manhã que sucedeu a noite chuvosa. O solão vermelho já não colocava tanto medo. A seca passara e os tempos prometiam ser outros. Como o Cerro do Marco estava abastecido, Bilo achou que as idas ao Florindo não eram mais necessárias. Eles poderiam se virar com a água da cacimbinha. Assim, evitavam a mão de obra de carregar a bordalesa por um caminho longo e não incomodavam o vizinho que se mostrara tão prestativo. Agora que poderiam prosear à vontade, pai e filho não troteariam juntos, rumo à invernadinha do fundo. A viagem à cacimbinha era curta, mas, nem por isso, causava menos faceirice em Bilo, Cyro e nos outros Martins. Quando a bordalesa retornou cheia da cacimbinha, “foi saudada como uma vitória sobre a seca”182. A água dos Martins voltara e não seria daquela vez que eles morreriam
de sede.
Aquela tão esperada água, no entanto, não trouxe tranquilidade. Poucos dias depois da chuvarada, Iná ficou febril. Como médico da família, Cyro começou a tratar da irmã “com escassos recursos” e “muito incerto quanto ao diagnóstico”183. A febre era um sintoma de
muitos males e Cyro ainda não tinha certezas e experiência suficientes para perceber que a doença de Iná poderia ser grave. Enquanto Cyro, Bilo e Felícia se debatiam para saber do que Iná sofria, Morena, prima e irmã de criação que andava pela adolescência, perguntou a Cyro se “‘aquilo’ não seria tifo”184. Com o toque de Morena, o rapaz se deu conta, avisou os pais e
tomou providências. Iná precisava ser levada para a cidade e um médico experimentado, como o Doutor Robertinho, precisava ser chamado.
Novamente, os Martins recorreram aos vizinhos. Alguém lhes emprestou um velho Ford
e, assim, “numa madrugada de 23 ou 24 de janeiro”185, Cyro partiu para Quaraí com a irmã
doente. Havia passado pouco mais de um mês de sua formatura e Cyro se via em um momento terrível. Não sabia direito o que fazer para salvar Iná, só sabia que rapidez era fundamental. Era necessário trata-la o quanto antes. Nisso, estavam suas chances. Na cidade, Cyro levou Iná para a casa de parentes. Causariam incômodos na propriedade alheia, mas não tinham dinheiro e,
181MARTINS, Cyro. Para início de conversa. Porto Alegre: Movimento, 1990, p. 79. 182MARTINS, Cyro. Para início de conversa. Porto Alegre: Movimento, 1990, p. 79. 183MARTINS, Cyro. Para início de conversa. Porto Alegre: Movimento, 1990, p. 79. 184MARTINS, Cyro. Para início de conversa. Porto Alegre: Movimento, 1990, p. 79. 185MARTINS, Cyro. Apenas uma tapera. Rodeio. Porto Alegre: Movimento, 1982, p. 26.
além disso, o prédio do hospital estava “caindo aos pedaços”186. O Doutor Robertinho atendeu
ao chamado de Cyro e confirmou as suspeitas de Morena – era febre tifoide.
Foi a segunda vez que a Salmonella typhi cruzou o destino de Cyro Martins. Antes,