9. TWO FORMS OF COMPOSITION
10.1 Clock Issues
Entre 1926 e 1927, Cyro não frequentou nenhuma instituição de ensino e é difícil de saber, até mesmo, onde morava. Ele voltou a Quaraí após o trágico incêndio, mas é complicado afirmar que tenha ficado por lá até a data da inscrição no vestibular da Faculdade de Medicina
de Porto Alegre, em 12 de março de 192892.
Cyro não falou sobre esse período nos textos de Rodeio ou nos diálogos com Slavutzky em Para início de conversa. No volume da série Autores gaúchos dedicada a ele, 1926 e 1927 também não figuram na cronologia que traz momentos importantes de sua vida e de sua obra. Esses fatos mostram que, durante os dois anos nebulosos, foram poucos os rastros deixados por Cyro. Por que apagar 1926 e 1927? Por que fingir que não viveu nesses dois anos? As duas questões não têm respostas exatas, no entanto, é possível fazer algumas suposições em torno delas.
Quando se deu o sinistro no Cerro do Marco, Cyro quis interromper os estudos para auxiliar na reconstrução da casa e do armazém. A vontade de ajudar deve ter continuado até a chegada das férias e a saída do Anchieta. Os Martins só deixaram a estância emprestada pelo Coronel Prates em 1927, o que leva à conclusão de que a reforma no Cerro do Marco ocupou1926 e partes de 1925 e 1927. Nesse período, Cyro poderia estar na terra natal, trabalhando com Bilo e com o resto da família para reerguer o que haviam perdido. Se fizesse parte da reconstrução, Cyro não falaria sobre o fato? Tão ligado à figura do pai e à imagem do Cerro do Marco, Cyro não escreveria e não diria uma palavra sobre o momento de união familiar que levou ao reerguimento da moradia e da venda? O homem que tanto escrevia sobre si não lembraria de ter exercido um papel, por menor que fosse, naquele episódio tão importante para os rumos dos Martins?
A falta de comentários sobre o episódio também não é um indicador decisivo para a sua ausência ou a sua permanência no Cerro do Marco. Se ele não estava lá, poderia estar em Porto Alegre, o segundo lugar que mais conhecia. No entanto, nos tempos em que os Martins moraram de favor, a maioria de seus recursos era voltada para a reforma. Desse modo, pouco sobraria para a manutenção de Cyro em Porto Alegre. Ainda que ele utilizasse os serviços das pensões
92 Os documentos referentes ao período de Cyro na Faculdade de Medicina se encontram na secretaria da FAMED
da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Na caixa 122, que, na verdade, é um envelope, estão: a cópia autenticada da certidão de nascimento de Cyro, os boletins que comprovam as aprovações nas matérias cursadas no Anchieta, diversos requerimentos, solicitando inscrição para o vestibular, matrículas, inscrições para os exames finais, correspondências referentes à situação de Cyro na faculdade e uma folha datilografada, datada de 02 de junho de 1941, na qual aparecem todas as notas atingidas por Cyro durante o curso de Medicina.
mais baratas, comesse pouco e se vestisse mal, estar em Porto Alegre, sem compromissos acadêmicos e sem um emprego, seria um desperdício de dinheiro.
Algumas raras pistas apontam que o rapaz de dezoito para dezenove anos esteve em Porto Alegre em determinadas datas, principalmente naquelas próximas ao término do ano e aos exames finais dos preparatórios. Em 23 de dezembro de 1926, Cyro prestou, no Anchieta, exame para Geometria, sendo “aprovado simplesmente”, com nota 5. Já em 29 de dezembro de 1927, ocorreram as avaliações de Inglês, Latim, História Natural, Física e Química. Na primeira delas, Cyro teve seu melhor desempenho – “aprovado plenamente, com nota 8” –; em Latim e História Natural, voltou ao “aprovado simplesmente” e à nota 5; em Física e Química aconteceu o pior, foi reprovado93.
A presença de Cyro nessas avaliações é relevante. Ele não buscava as notas finais apenas com a intenção de concluir o Curso Ginasial, ele pretendia ingressar em uma faculdade e, para que isso acontecesse, aquela etapa era necessária – assim como era preciso que ele se preparasse para os exames. Onde aconteceu essa preparação, em Quaraí ou em Porto Alegre? É mais provável que na capital. Em Para início de conversa, quando responde a Slavutzky sobre alguns de seus amigos da época de estudante, Cyro fala de um tal Chico, Francisco de Almeida Maciel, também natural de Quaraí e um dos poucos que fez Cyro “experimentar a vibração do gênio”.Chico entrou na Faculdade de Medicina em 1927, era dotado de grande inteligência e
possuía “dons didáticos”, pois deu muitas aulas de Física, Química e Geometria a Cyro94. Como
Cyro foi aprovado no exame de Geometria no final de 1926 e participou das avaliações de Física e Química em dezembro de 1927, as lições sobre as disciplinas devem ter ocorrido ao longo desses dois anos.
Embora a fragilidade da hipótese, é plausível pensar que as aulas de Chico aconteciam esporadicamente e, por isso, podiam se dar em algumas viagens de Cyro a Porto Alegre ou de Chico a Quaraí. Os rapazes atravessariam o Rio Grande do Sul por umas poucas horas de Física e Química? Provável que não. Além disso, há outros rastros que alimentam a ideia da permanência de Cyro na capital. Em julho de 1926, surgiu a Vibração: revista de literatura e illustração. Victor Graeff, César Santos e Alexandre Ribeiro eram os editores do periódico e, logo na primeira página, afirmaram que a Vibração nasceu do “entusiasmo de uma falange de moços estudantes”95. Cyro estava entre esses moços, pois, no número inaugural da revista, entre
93 Notas de Cyro no Anchieta segundo os boletins do envelope 122.
94 MARTINS, Cyro. Para início de conversa. Porto Alegre: Movimento, 1990, p. 36.
95 GRAEFF, Victor; RIBEIRO, Alexandre; SANTOS, César. Editorial. Vibração: revista de literatura e ilustração,
os textos de José Salgado Martins, João Otávio Nogueira Leiria e fotografias dos “Templos de Ensino” do Estado, apareceu, com assinatura de Cyro dos S. Martins e dedicatória a André Carrazzoni, uma narrativa curta intitulada “Viagem noturna”.
A publicação de Cyro é importante por diversos aspectos – inclusive o de sua presença em Porto Alegre. O texto de Vibração mostra o crescimento das aspirações literárias de Cyro e não é apenas por criar e por publicar que as ambições se tornam perceptíveis. Entre os dois atos, há outro, ligado à inserção do autor iniciante em um determinado sistema. Cyro, Dante de Laytano, José Salgado Martins, Percy de Abreu Lima, Francisco de Almeida Maciel e Aparício Cora de Almeida liam e discutiam suas produções em prosa e verso em um grêmio literário. Segundo as informações do fascículo “Cyro Martins”, da série Autores gaúchos, o grêmio foi fundado em 1923 e, através dele, surgiu a Vibração96. De fato, textos de Cyro e de outros membros do grupo, como José Salgado Martins, saíram na revista, mas ela não era dirigida por nenhum deles. Também é difícil conceber que aqueles jovens divididos entre pensões baratas tivessem recursos para imprimir e fazer circular um periódico que beirava as 80 páginas e trazia ilustrações. Essas questões, mesmo que pouco claras, não apagam o episódio no qual Cyro se envolveu com grupos de aspirantes a intelectuais. Era preciso estar no meio dos acontecimentos e entre aqueles que se movimentavam. Ao ingressar em grêmios e colaborar em jornais ou revistas, Cyro demarcava, de forma lenta e gradual, seu espaço. A dedicatória a André Carrazzoni é mais um sintoma do estabelecimento de relações e da busca por espaços. O diretor de A Liberdade já publicara um artigo de Cyro e oferecer-lhe o conto era uma maneira de agradecê-lo pela oportunidade e de manter as portas do jornal abertas.
Em “Viagem noturna”97, o leitor de Vibração encontrou uma narrativa simples e telúrica. O protagonista de nome desconhecido troteia com seu pingo através do pampa, que se revela ainda mais amplo na escuridão da noite, e se deslumbra com a beleza do lugar. O uso dos adjetivos, empregados sem vergonha pelo escritor iniciante, serve para desenhar e particularizar esse espaço tão conhecido de Cyro. O pampa noturno daquele viajante solitário era silencioso, sonolento, adormecido, iluminado. O texto de Cyro é dotado de poeticidade, mas seu ponto alto é o da relação entre o homem e a paisagem, entre o ser pequeno e o campo imenso. Se, por um lado, o texto possui singularidade pela busca da beleza, por outro, não traz novidades quanto ao espaço focalizado e ao uso de certas construções vocabulares. Como lugar
96 A informação sobre o grêmio encontra-se em Autores gaúchos – Cyro Martins, 1997, p. 11.
97 MARTINS, Cyro. Viagem noturna. Vibração: revista de literatura e ilustração, Porto Alegre, n. 1, p. 25, julho
primordial do Rio Grande do Sul, o pampa era abordado com exaustão pelos escritores gaúchos – no pampa os personagens viviam, peleavam, churrasqueavam, troteavam, amavam. Cyro poderia fugir do pampa, do seu lugar original? Ele já era um rapaz da cidade, mas a marca do pampa fora feita na infância, nos respiros livres das férias e qualquer espaço se torna mais bonito quando saboreado com liberdade e inocência. Cyro, um aspirante a escritor, ainda inocente naquele conto de 1926, poderia ter escapado das palavras espalhafatosas e das construções rebuscadas? Em “o cenário colosso do pampa iluminado pela lâmpada sidérea do astro”, “como uma borboleta fantástica de azas ígneas que se alasse vaporosa” e “envolto na ebúrnea palidez lunar” nota-se a presença do autor que não foge do seu tempo e, antes disso, do leitor voraz de Alcides Maya.
Como a “falange dos jovens estudantes” se sentia entusiasmada pela cultura e pela socialização de suas produções, era natural que aparecesse outro número de Vibração. Entre setembro e outubro de 1926, sem muitas modificações no elenco dos colaboradores e beirando as 150 páginas, a nova edição da revista veio a público. Cyro contribuiu com outra narrativa
curta – pouco maior do que a primeira. “Na estrada”98 retoma a influência de Alcides Maya99,
o cavalo, a viagem e o cenário pampeano, mas vai por rumos diferentes. Nesse conto, o ambiente cede lugar para a relação entre o homem e a passagem do tempo. Ainda que a abordagem não seja dotada de grande originalidade, é interessante o fato de Cyro ter mudado de temática e de foco – em “Na estrada”, o autor se descola do narrador homodiegético e opta pelo heterodiegético. Durante a jornada, o velho Jango, protagonista, sente as distâncias e sente, mais ainda, a fuga do tempo e a chegada da idade ao perceber que não é mais resistente como na juventude, não pode ver a noite chegar em campo aberto, dormir em qualquer parte, pegar sereno ou sol a pico. O leitor do conto entende, logo nos primeiros parágrafos, que Jango é uma vítima do irreversível. O tempo é o grande inimigo: já tirou sua juventude, sua saúde, sua “china arisca e querendona” e traz, aos poucos, em galope lento, os contornos da morte.
Não obstante o entusiasmo dos rapazes, a Vibração durou pouco. O segundo número foi o último. Embora a quantidade significativa de anúncios trazidos pelo periódico, eles não puderam custear outras edições e manter a regularidade da revista. Colaboradores não faltavam, o problema era dinheiro.
98 MARTINS, Cyro. Na estrada. Vibração: revista de literatura e ilustração. Porto Alegre, v. 1, n. 2, p. 139-140,
setembro/outubro de 1926.
99 Influência explicitada, inclusive, no título do conto, pois, em Tapera, de 1911, Alcides Maya tem uma narrativa
Em outubro de 1926, enquanto a Vibração fenecia, iniciava, em Porto Alegre, na
Faculdade de Medicina, o IX Congresso Médico Brasileiro100, organizado pelos membros da
Sociedade de Medicina de Porto Alegre – Annes Dias, Guerra Blessmann, Felicissimo Difini e Renato Barboza – e que teve como convidados Fernando de Magalhães e Miguel Couto. Embora Cyro ainda não estudasse medicina, o congresso fez aparecer outro rastro da presença do rapaz na capital. Em um dos textos de Caminhos: ensaios psicanalíticos, ele contou
que,desde antes de entrar para a faculdade, “já andava rondando o que acontecia por lá”101,
através de outros acadêmicos companheiros da Rua da Praia. Cyro soube do evento pelos amigos. Também por eles, soube do peso político que cercava o congresso e não perderia a chance de ver uma bandeira erguida contra a doutrina de Borges de Medeiros.
Os médicos gaúchos, sobretudo os oposicionistas, prometiam bradar contra a liberdade profissional declarada pela constituição castilhista de 1891. Quando Francisco Simões, “talentoso médico pelotense”, apresentou a questão e “fundamentou grande parte de sua argumentação no Código Penal, que ‘qualificava crime o exercício da Medicina sem estar o agente habilitado, de acordo com as leis e regulamentos’”102, as promessas se cumpriram.
Houve rebuliço no auditório e a sessão foi encerrada. Parte do público carregou Francisco Simões, o “herói do dia”, nos ombros. Cyro foi um dos carregadores e as lembranças sobre o episódio não se apagaram com os anos: “A estrondosa ovação que ecoou pelos corredores do edifício foi a mais emocionante que já ouvi. Sim, senhores, eu ouvi, eu estava lá [...]. De sorte
que isso que lhes estou contando não é uma história lida, é uma história vivida”103. Mais uma
vez, Cyro era testemunha da história.
Os rastros depõem a favor da permanência de Cyro em Porto Alegre, já a dificuldade financeira da família Martins, contra. Entretanto, tendo conhecimento das ideias de Bilo quanto à educação, não é absurdo pensar que ele tenha feito esforços hercúleos para sustentar o filho na capital. Cyro precisava prestar os exames e, antes disso, se preparar para eles. Fazer as duas
100 Os Archivos Rio Grandenses de Medicina (ano V, n. 4, p. 89, 30/12/1926) trazem a notícia de que a Sociedade
de Medicina de Porto Alegre fez uma recepção solene aos congressistas na noite de 25 de outubro de 1926. Já no documento História do associativismo médico do RS, elaborado por Nicolau Laitano e Genaro Laitano e disponibilizado pelo Centro de Memória da Associação Médica do Rio Grande do Sul (http://www.amrigs.org.br/centromemoria/associativismo.htm#_Toc261891737), existe a indicação de que o evento ocorreu em 21 de junho de 1926 e que a comissão organizadora era composta por Protásio Alves, José Flores Tavares, Sarmento Leite, Ulysses Nonohay e Renato Barboza. Diante das informações divergentes, opto pela dos Archivos, órgão oficial da Sociedade de Medicina.
101 MARTINS, Cyro. Acontecimentos e vultos históricos da medicina sul-rio-grandense. Caminhos: ensaios
psicanalíticos. Porto Alegre: Movimento, 1993, p. 121.
102 MARTINS, Cyro. Acontecimentos e vultos históricos da medicina sul-rio-grandense. Caminhos: ensaios
psicanalíticos. Porto Alegre: Movimento, 1993, p. 129.
103 MARTINS, Cyro. Acontecimentos e vultos históricos da medicina sul-rio-grandense. Caminhos: ensaios
coisas em Quaraí era difícil. Então, que se tocasse para a cidade. Era necessário estar em Porto Alegre para virar doutor.
Durante esses dois anos, Cyro poderia ter dividido um quarto de pensão com Ivo, porém, o silêncio sobre a relação com o irmão mais velho não ajuda muito no esclarecimento de seus caminhos. Apesar disso, em Para início de conversa, Cyro deixa uma pista do que aconteceu com Ivo depois daquele trágico setembro de 1925. Graças ao pistolão de uns amigos gremistas104, ele conseguiu a vaga de cronista esportivo no Correio do Povo. Ivo, que ficava na
reserva nos tempos de futebol no Anchieta, era um aficionado pelo esporte e pelo Grêmio Foot- Ball Porto Alegrense, time de cores azul, preto e branco, que se opunha ao Sport Club Internacional, time vermelho e branco. A dualidade da política gaúcha era transposta para o futebol. Era necessário eleger entre Grêmio e Inter, assim como se escolhia entre chimango e maragato, entre Borges e Assis. Ivo escolheu seu lado e, por causa dele, virou cronista. De suas funções no Correio do Povo, ficou a sigla GRENAL, criada em 1926 com o objetivo de identificar o enfrentamento entre os clubes de cores diferentes.
Em 1926, Ivo trabalhava e tinha uma renda, por menor que fosse. Por certo, não teria condições de ajudar o irmão, mas devia aliviar um pouco o peso das costas de Bilo. Caso Cyro estivesse em Porto Alegre naqueles anos – e essa é a opção mais provável –, não trabalhava. Na ocasião em que foi perguntado por Slavutzky sobre o porquê de não arranjar um emprego nos tempos de apertos, de pensões ordinárias, roupas velhas e pouca comida, Cyro respondeu: “Não era por espírito de vagabundagem que não lutei por um emprego. Me ocupava cem por
cento com o meu trabalho, que era o meu estudo”105. Com essa resposta, Cyro se referia ao
período do curso de medicina, contudo, partes desse pensamento deviam rodear a cabeça do Cyro envolvido nos preparatórios. Sua tarefa era a de ser aprovado nos exames, de entrar para a faculdade. Logo, os estudos eram o seu trabalho.
É claro que ele poderia arranjar emprego e dividir sua rotina entre a preparação e outra atividade. Estava acostumado a uma ferrenha rotina de compromissos, os anos de interno do Anchieta comprovavam isso. Ivo fazia-o, escrevia para o Correio e lidava com a vontade de cursar direito. No entanto, destinar seu tempo e seus esforços para os estudos e deixar de lado uma atividade remunerada não apresenta nenhum demérito para Cyro. É preciso lembrar o fato de que Bilo via a educação como o principal e relegava as outras coisas a planos menos importantes. Apesar dos pesares, ele sustentava o filho. Se o rapaz quisesse estudar, enquanto
104 MARTINS, Cyro. Para início de conversa. Porto Alegre: Movimento, 1990, p. 89.
pudesse, Bilo daria estudos. Também é imprescindível notar que Cyro não levava uma vida fácil em Porto Alegre. Comia pouco, dormia e se vestia mal, andava muito a pé, para economizar as moedas do bonde. Não vivia na folga ou na festa. Estudava para os preparatórios e, quando se desviava deles, era pelos livros, pela prosa, pela poesia.
A preparação para os exames contava com dois obstáculos: a Física e a Química. A avaliação dessas matérias era realizada conjuntamente e resultava em uma só nota. No final de 1927, Cyro atingiu o grau 3, que significava reprovado. Ele não conseguiria prestar vestibular se não fosse aprovado. Na primeira quinzena de março de 1928, Cyro voltou ao Anchieta para realizar os exames de segunda época. Nessa segunda tentativa, as aulas de Chico ajudaram e Cyro chegou a um 4 – “aprovado simplesmente”. Foi pouco, mas o suficiente para que ele se inscrevesse, em 12 de março, no vestibular.
Na inscrição, Cyro começou a lidar com a burocracia acadêmica e os custos do nível superior. Ele teve de apresentar todos os comprovantes de aprovação nos exames de Aritmética, História do Brasil, História Universal, Português, Álgebra, Francês, Geometria, Inglês, Latim, História Natural, Geografia, Física e Química. Além do histórico escolar, também precisou de uma segunda via da certidão de nascimento e de 153$000 réis, que cobririam os valores da própria inscrição e de certas “taxas de certidões”, não especificadas e estranhas, pois todos os documentos eram fornecidos pelo candidato.
O ato da inscrição ganhava contornos mais significativos por representar um passo crucial na vida de Cyro. Ao entregar a papelada, ele escolheu a medicina. Sua decisão não surgira de repente, e, talvez, nem tenha sido somente dele. Bilo desejava e tinha a “mania” dos filhos doutores. Ele queria que os seus rapazes tivessem boas oportunidades, ascendessem socialmente, se colocassem entre os graúdos. Duas carreiras eram as mais chamativas na época: direito e medicina. Ter um bacharel ou médico era motivo de orgulho para qualquer família. Bilo achava que a primeira profissão era mais bonita, mais propícia aos discursos e à vida política, duas coisas das quais ele tanto gostava. Já Felícia acreditava que a vida de médico era a mais bela e sonhava com um dos filhos ajudando os enfermos de casa em casa, sendo envolvidos pelos agradecimentos por ter salvado esse e auxiliado aquele.
Era importante que cada um dos meninos fosse para um lado. Investir em duas profissões diferentes aumentava a chance de acerto e não haveria concorrência dentro de casa. Nesse cenário familiar, Ivo e Cyro se dividiram. Nos tempos de Anchieta, Ivo pendia para a