• Aucun résultat trouvé

O período que seguiu o casamento de Cyro é uma incógnita. O que se sabe é que, depois

das bodas, ele foi morar com os Castro de Souza258. Por si só, o rapaz não tinha condições de

manter uma casa. Seria natural que ele se abrigasse onde pudesse contar com o auxílio de outras pessoas. A ajuda dos parentes e dos amigos não era algo estranho a Cyro, assim como não era estranha a divisão de uma casa. Desde pequeno, ele morava com alguém. Nos anos de Cerro do Marco, havia a família, os agregados e os viajantes, que passavam um dia ou semanas partilhando o espaço com os Martins. No internato do Anchieta, ele dormia ao lado de guris que vinham de todos os cantos do Rio Grande do Sul. Anos mais tarde, nas pensões, os companheiros de quarto – um espaço menor de intimidade maior – surgiam e desapareciam numa rotatividade incrível e isso não era problema para Cyro. No retorno a Quaraí, ele voltou a dividir a casa com os familiares. Em um primeiro momento, viveu com os pais, as irmãs e os poucos agregados que restaram; mais tarde, apenas com a mãe e a irmã.

O pular de casa em casa fez com que Cyro adquirisse uma incrível habilidade de adaptação. No lugar onde estivesse, tocava sua vida: estudava, lia, escrevia e se concentrava em si. Essa capacidade, no entanto, não valeu de nada quando Cyro foi morar com os Castro de Souza. Aquela situação era totalmente nova. Ele já não estava mais sozinho. Não poderia mais ser o rapaz que tinha olhos só para si, não poderia abandonar a nova casa se algo lhe desagradasse. Ele também não era obrigado a conviver com aquelas pessoas por causa dos laços sanguíneos. A obrigação do convívio com os Castro de Souza vinha por outros motivos. Depois daquela segunda-feira cinza de setembro, Suely fazia parte de sua vida e as decisões de Cyro tinham de envolver a esposa.

Cyro pode ter ido morar com os sogros por vários motivos. O primeiro e mais óbvio é Suely. Apesar de ansiar pela liberdade, talvez ela não quisesse deixar os pais. Ela era filha única e suas vontades, mais cedo ou mais tarde, seriam atendidas. Além disso, na sua casa, com Antenor e Lucinda, Suely teria o sustento garantido e não precisaria abrir mão de certos confortos. Com Cyro, nada era muito garantido. Seus problemas financeiros continuavam e se sustentar não era uma tarefa tão fácil. Ele vivia com a mãe e a irmã e era preciso fazer muita força para bancar as despesas mensais. Se a esposa fosse morar com eles, os gastos aumentariam na mesma proporção que o aperto. Conseguiriam sobreviver, como até então os Martins fizeram, mas nada seria folgado e tranquilo.

258 Essa informação encontra-se em: DE GRANDI, Celito; SILVEIRA, Nubia. Cyro Martins – 100 anos: o homem

Cyro e Suely não seriam os primeiros noivos a passar trabalho no início da vida a dois. Na verdade, isso era o mais comum. O que deu outro rumo ao casal foi o dinheiro dos Castro de Souza. Antenor e Lucinda, que criaram sua filha com tanto zelo, não se desprenderiam tão facilmente dela, não a libertariam para o mundo. Se eles tinham meios de bancá-la, se não se importavam com a dependência da moça e com a presença do genro, o melhor seria que ficassem todos juntos. Os pais também não deixariam que Suely saísse de casa para passar trabalho com os Martins. Sua filha pertencia a uma classe superior e precisava viver de acordo com tal classe, sem se rebaixar.

Cyro não tinha nada a perder. Era um rapaz pobre que mal tinha conseguido as vestes para as bodas. Ele possuía uns poucos livros, algumas roupas gastas e um diploma de médico. Estava em um ponto de sua vida em que, aparentemente, qualquer mudança seria lucro. Depois da morte de Bilo e do estabelecimento em Quaraí, Cyro se arrastava. No seu horizonte, quase não havia expectativas.

Sua carreira profissional, por exemplo, não saía do lugar. Se tirasse vinte ou trinta mil réis nos atendimentos feitos na farmácia pela manhã e nas visitas a domicílio da tarde poderia considerar o dia um sucesso. Essa estagnação colocava o jovem frente a duas alternativas: esperava, por um bom tempo e com paciência, que os médicos experientes da cidade se aposentassem e lhe repassassem os melhores clientes ou se distanciava de Quaraí, se jogava no mundo e buscava novos caminhos. Em 1935, ele não tinha recursos para correr mundo e é provável que ainda lhe faltasse ousadia para tomar uma decisão tão arriscada. Assim, o remédio era esperar por clientes que lhe pagassem mais – ou que simplesmente lhe pagassem.

Depois da perda de Bilo, a atmosfera familiar dos Martins ficou carregada e silenciosa. Cyro, a mãe e a irmã trocavam poucas palavras, se restringiam a alguns comentários sobre causos da vila e, sempre que dava, cada um se refugiava nos próprios afazeres. Os irmãos liam e Felícia costurava ou arranjava qualquer outro serviço de mão que prendesse sua atenção. O ambiente da casa dos Martins devia ser como aquele experimentado pelo jovem Carlos, de Mensagem errante259 – “pesado de melancolia” – e Felícia talvez sofresse da mesma “tristeza

inalterável” da qual a mãe de Carlos era vítima. Cyro sentia a morte de Bilo e não seria estranho se ele quisesse escapar de uma casa que, em muitos momentos, trazia a lembrança da ausência do pai.

Ele ainda continuava a viver de modo apertado, apressando os dias para que o dinheiro não acabasse antes do mês. Ir morar com os Castro de Souza poderia lhe oferecer uma

desconhecida folga financeira. Os sogros sustentariam o genro e, provavelmente, repeliriam todas as ajudas que ele quisesse dar para a manutenção da casa. Ao mesmo tempo em que se livrasse do aluguel, Cyro se distanciaria de outras despesas. Com a situação mais relaxada, ele poderia começar a pensar em um futuro e em novos rumos para a sua vida profissional. É possível que o rapaz não tenha pensado nessa questão financeira, mas, ao se unir com Suely, ele ascendia social e economicamente.

Apesar de que qualquer mudança na vida de Cyro pudesse parecer positiva, havia indicativos de que a convivência com os Castro de Souza não seria fácil. Antenor e Lucinda eram de uma religiosidade extrema e educaram Suely de acordo com os preceitos católicos.

Cyro, por sua vez, era um ateu convicto. Em Para início de conversa260, ele chegou a dizer a

Abrão Slavutzky que o ensinamento fundamental transmitido a ele pelo pai foi o ateísmo e “nem os anos de internato no colégio dos jesuítas” conseguiram demoli-lo. Embora esse ateísmo ferrenho, alimentado pelas leituras da juventude e pelas conversas com os amigos, Cyro casou no religioso. Não foi uma concessão feita aos sogros, mas a Suely. O rapaz, no entanto, não continuaria a ceder em outros aspectos nem abriria mão de seu ateísmo. A postura religiosa de Cyro era apenas uma das particularidades que o distanciava dos Castro de Souza.

A diferença mais clara entre eles era a econômica. Ao falarem sobre o casamento, De Grandi e Silveira afirmaram que não se atribuía muita importância ao fato de serem “ela rica,

ele um pobretão”261. Cyro tinha estudos, era médico e isso talvez equiparasse socialmente o

casal. Porém, Antenor e Lucinda sabiam da situação profissional do genro e, consequentemente, dos seus poucos rendimentos. Será que os pais da moça não se preocupavam com o futuro da filha? Será que não temiam a possibilidade de terem de sustentar o genro pelo resto da vida? Preocupações e temores desse tipo até poderiam assombrar os Castro de Souza, mas o que mais lhes incomodava eram o ateísmo de Cyro e suas opções políticas.

Perto do ano de 1935, Cyro já não era um libertador convicto. Aliás, libertadores e borgistas tinham ficado pelo caminho, engolidos pela voracidade de Getúlio Vargas e Flores da Cunha. Naqueles tempos, Cyro tentava acreditar em algo maior, em algo que tornasse o mundo mais igual e tivesse forças para se impor aos ventos fascistas que sopravam da Alemanha e da Itália. Ele não se interessava pelo conservadorismo nem pelos extremos. Simpatizava com as ideias socialistas e comunistas, mas não se filiou a nenhum partido. Seu jeito de erguer bandeiras era mais discreto. Ele queria que um homem olhasse para outro homem e lhe

260 MARTINS, Cyro. Para início de conversa. Porto Alegre: Movimento, 1990.

261 DE GRANDI, Celito; SILVEIRA, Nubia. Cyro Martins – 100 anos: o homem e seus paradoxos. Cachoeira do

respeitasse, lhe reconhecesse como igual e tentasse entendê-lo. Dessa maneira, a harmonia e a igualdade poderiam ser atingidas. Era um pensamento utópico em uma época de utopias.

Os Castro de Souza pensavam de outra maneira. Seus hábitos religiosos e a condução da educação da filha davam uma mostra de seu conservadorismo. A família de Suely vivia de modo confortável. Eram proprietários rurais e, além dos preços dos impostos sobre a terra e o gado, nada tinham a reclamar dos governos. Como latifundiários, a situação lhes era favorável e, naquele momento, não pensavam em divisão de terras, em mudança política, em igualdade entre os homens. Se Vargas e Flores perseguissem alguém, se pretensos revolucionários – como Ripoll – aparecessem mortos, fossem presos ou sumissem, era porque tinham culpa no cartório, porque pregavam a quebra da ordem. Os Castro de Souza tinham uma lógica de pensamento bem diferente da de Cyro e isso colocava os sogros e o genro em lados opostos.

O ateísmo de Cyro e suas ideias políticas causavam apreensão em Antenor e Lucinda. Não era exatamente com o genro que eles se preocupavam. O que lhes interessava era a filha. Convivendo com Cyro, conhecendo suas ideias, a moça poderia começar a pensar como o marido. E se ela deixasse de frequentar as missas e de fazer as preces diárias? E se principiasse a simpatizar com os vermelhos? E se desse para falar em dividir as terras, logo ela, herdeira única? De Grandi e Silveira dizem que os Castro de Souza tinham “o medo de perder o domínio

mantido sobre a filha”262. É possível que os pais tivessem esse temor, mas, talvez, seu medo

fosse aquele comum a todos os demais: liberar o filho para o mundo. Ainda que morassem na mesma casa, Suely não seria mais como era antes. Ela entraria em um mundo diferente daquele forjado pelos pais. Com a presença de Cyro, novos caminhos se abririam e ela deixaria de ser a moça da família para se tornar uma mulher.

É difícil pensar que Suely sairia da ascendência de Antenor e Lucina para cair na de Cyro. Ela devia ser uma mulher com ideias próprias, com pensamentos independentes. Ela devia querer escolher seus rumos. Ela não decidira abandonar o piano depois da formatura? Não decidira casar com Cyro mesmo ele sendo pobre e não tendo nada? Suely não poderia ser aérea e alienada a tal ponto que precisassem levá-la pela mão. Ela respeitava os pais e seus hábitos, lhes obedecia porque não queria fugir do papel de boa filha. Ela conhecia as ideias de Cyro – quase todos em Quaraí conheciam-nas – mas isso não queria dizer que fosse convencida e tomasse partido do rapaz, não significava que não pudesse discordar do marido.

262 DE GRANDI, Celito; SILVEIRA, Nubia. Cyro Martins – 100 anos: o homem e seus paradoxos. Cachoeira do

Suely ficou em uma posição delicada quando Cyro foi morar com os Castro de Souza. Ela era o único ponto em comum entre o marido e os sogros. Eles discordavam em quase tudo, menos no afeto que nutriam pela moça. Cyro devia se sentir mal na casa dos sogros, se mexer na cadeira ao ouvir opiniões que lhe pareciam absurdas, mas não podia fazer nada. Ele estava sob o teto daquelas pessoas, partilhava de sua comida, dormia nos seus lençóis. Como reclamar? Como discordar? Tinha de ficar em silêncio. É provável que, nas horas em que encontrasse a sós com Suely, tocasse nos assuntos reprimidos, fizesse reclamações e dissesse que os sogros estavam errados, que pensavam apenas em si. Suely ouvia as queixas de Cyro, mas estava sem ação. Como ela bateria de frente com os pais? Ela sabia como eles eram, sabia que não mudariam e que, se tentassem ir contra os seus argumentos, seria pior. Os pais da moça também deviam reclamar do genro, de suas posturas políticas, de seu comportamento silencioso. Talvez se preocupassem com o que as pessoas de Quaraí falariam sobre o genro e sobre eles, que lhe entregaram a filha e o abrigaram. Suely, diante dessas outras queixas, voltava a se calar. Cyro talvez fosse tão irredutível quanto Antenor e Lucinda. Suely devia ouvir as lamentações dos dois lados e engolia tudo, na tentativa de que a convivência ficasse mais amena com o passar do tempo.

Às vezes, o convívio com Cyro se mostrava difícil e distante. Ele continuava a ser uma figura solitária. Ele já dividira muitas moradias e a solidão e a concentração em si não o abandonaram em nenhuma delas. Na casa dos Castro de Souza, apesar da presença da mulher, ele também era um solitário. É claro que Cyro dividia muitos momentos com Suely. Afinal, eram recém-casados e, juntos, faziam diversas descobertas. Não é que Cyro se recusasse a estar sempre com Suely. O fato é que ele não abria mão dos seus próprios momentos. Quando tinha tempo, lia e escrevia. Era a essas duas atividades que dedicava suas horas mais produtivas. Como sua vida profissional se encontrava estagnada naquela primavera de 1935, Cyro tentava fugir através da literatura.

Um ano antes, a publicação de Campo fora o empolgara. Seus contos em letra impressa, com o selo da Livraria do Globo, no entanto, não garantiam nada. Ele não tinha certeza se a carreira de escritor vingaria. A concorrência era grande. Em Porto Alegre, por exemplo, os candidatos se espalhavam pela Rua da Praia, pelos cafés e pelos quartos das pensões. Muitos buscavam seu lugar ao sol e com Cyro não era diferente. Vontade não lhe faltava. Queria escrever e publicar, mas, com a ida para Quaraí, ele ficara distante do centro dos acontecimentos. Restava-lhe a leitura e a prática da escrita. Cyro refletia sobre sua produção e tinha a certeza de que precisava melhorar. Os contos de Campo fora carregavam algum

potencial, mas não poderiam ser o seu teto. Talvez fosse a hora de se aventurar em uma narrativa mais longa, em algo que tivesse uma dose maior de ousadia.

A partir da década de 1930, o conto, até então o gênero rei da literatura do Rio Grande do Sul, começou a ceder espaço para os romances. Clarissa, de Erico Verissimo, surgiu em 1931, e, naquele 1935, Caminhos cruzados, também de Erico, e Os ratos, de seu conterrâneo Dyonélio Machado, não indicavam apenas a ascensão de uma outra forma narrativa, também mostravam que o olhar da literatura produzida no Estado se voltava para o espaço urbano. Emborativesse trazido algumas inovações no trato da linguagem e dos personagens, Campo fora estava marcadamente ligado à tradição das histórias curtas, “vivenciadas” no ambiente campeiro. Cyro não queria deixar de escrever sobre o campo e seus habitantes. Aquela era a sua temática e ele se sentia mais à vontade quando falava sobre as pessoas e os espaços conhecidos. O momento literário, porém, era outro e, se quisesse dar seguimento à carreira, era preciso se adaptar.

Ele não se jogaria nos romances urbanos. Conhecia as cidades e sabia como suas gentes viviam, mas isso não significava que pudesse escrever sobre elas. Além disso, se tentasse criar narrativas que se desenvolvessem naqueles espaços, correria o risco de ser mais um a fazê-lo. Não haveria originalidade em seguir os passos de Erico Verissimo e Dyonélio Machado, assim como não houve originalidade em trilhar os mesmos caminhos de Simões Lopes Neto, Alcides Maya e Darcy Azambuja. O melhor rumo para Cyro talvez fosse o meio termo: o homem do campo que se perde ao ir para a cidade. Afinal, aqueles gaúchos a pé a quem ele se referia em tantas oportunidades não eram esses indivíduos perdidos?

Mesmo que tentasse uma via original, os contos de Cyro continuavam vinculados ao regionalismo. Com data de 28 de setembro de 1935, o número 169 da Revista do Globo fazia, já na capa, referência ao centenário da Revolução Farroupilha. Um gaúcho de semblante sério, com lenço vermelho no pescoço e lança com as cores sul-rio-grandenses na mão parece enfrentar o vento e qualquer inimigo que ameace sua terra. O tom de comemoração da Revista do Globo se repetia em suas páginas. Dentre elas, havia um destaque para “Os melhores regionalistas do Rio Grande do Sul”: João Simões Lopes Neto, Antônio Vieira Pires, Darcy Azambuja, Roque Callage, Vargas Neto, Homero Prates e Cyro Martins. Não se sabe como foram escolhidos esses “melhores regionalistas” nem o porquê de Cyro, um rapaz quase desconhecido do público, estar entre eles. Os critérios de seleção, no entanto, pouco importavam, assim como não importava que tivessem escrito Ciro no lugar de Cyro, que tivessem excluído o velho Alcides Maya do time dos melhores. Interessava que ele estivesse

naquele chamativo número da Revista do Globo, ao lado de alguns autores lidos desde a sua adolescência.

Seguindo a tradição da literatura produzida no Rio Grande do Sul por muitos anos, os textos dos melhores regionalistas se concentravam, em grande parte, no gênero conto. Vargas Neto e Homero Prates, com trabalhos poéticos, formavam as exceções. Pelo histórico e o peso do nome, Simões Lopes Neto abria a extraordinária seção da revista com “Duelo de farrapos” e era o único a ter três contos publicados – “Boi velho” e “O mate do João Cardoso” eram os outros dois. Antônio Vieira Pires colaborava com “A agonia do caudilho”, que integrou o livro Querência: contos regionais, editado pela Livraria do Globo em 1925. “Fogão gaúcho”, de Darcy Azambuja, fazia parte do premiado No galpão: contos gauchescos, também da Globo e de 1925. O conto de Roque Callage, “Ritoca”, era outro publicado nos anos 1920 – 1927, em Quero-quero: cenas crioulas – e impresso pela Livraria do Globo. Das contribuições poéticas, “Carreteiro”, “Aquela china”, “Cousa velha” e “Gaúcho”, de Vargas Neto, vinham de uma produção da Globo – Tropilha crioula: versos gauchescos, de 1925. “Ronda dos heróis”, de Homero Prates, compunha o ainda inédito Ao sol dos pagos, que sairia em 1937, mas não pela Globo.

O “Conto sem nome” foi publicado por Cyro em Campo fora, de 1934, e, anos depois, receberia o título de “Amor caipora”. Como na maioria das ocorrências de “Os melhores regionalistas do Rio Grande do Sul”, Campo fora teve edição da Livraria do Globo, fato que diz muito sobre a escolha dos textos que compuseram a seleção. Sem variações linguísticas quanto aos demais contos de Campo fora, a narrativa de “Conto sem nome” se concentra no personagem de Pedro Ajala, um tropeiro entrado em anos que se ajusta às lidas campeiras, mas não consegue se ajustar às lidas amorosas. Já no início, aparece o tom saudosista que perpassa toda a história. Troteando, com os “olhos cravados pra dentro”, Ajala assobia “uma marca

quase esquecida, de outro tempo, sim, de outro tempo!”263. O “outro tempo” suscitado pela

música até pode se referir a uma suposta grande época do Rio Grande do Sul. Entretanto, o desenrolar de “Conto sem nome” trata de um tema ao mesmo tempo universal e individual. O saudosismo de Pedro Ajala se manifesta em relação a ele mesmo, ao que fora na juventude e às possibilidades que tivera quando rapaz.

O que desperta esse olhar para trás, comum em certos momentos da vida de qualquer

sujeito, é a paixão de Ajala pela “delgada, guapa, leve”264 e moça Jovita, filha do amigo João

263MARTINS, Cyro. Conto sem nome. Revista do Globo, Porto Alegre, n. 169, p. 36, 28/09/1935. 264MARTINS, Cyro. Conto sem nome. Revista do Globo, Porto Alegre, n. 169, p. 36, 28/09/1935.

Martim. Havia muitos obstáculos entre Pedro e Jovita. Além da diferença de idade, Jovita era

Documents relatifs