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A Literatura moderna e pós-moderna, partindo das mudanças sociais que a cercam apresentam o rompimento com padrões e fronteiras do comportamento, evidenciam uma arte mais independente, o individualismo entra em cena nas narrativas contemporâneas. O individualismo é apontado como característica de personagens e surge compondo o perfil psicológico de personagens modernos. (PERRONE- MOISÉS, 2016). O caráter individualista estudado nessa pesquisa não é a representação inicial que temos como característica das obras do romantismo, em que os personagens assumiam essa tendência na exposição de seus pensamentos, pontos de vista e até mesmo para evidenciar as emoções enquanto eu lírico. Aqui observamos um individualismo apresentado por uma outra perspectiva, que tendo mesma base de comportamento, tem- se um exacerbamento, um exagero que se reflete pela conduta totalmente liberta dos personagens, uma análise desse comportamento proposto por teorias pós-modernas da filosofia e crítica literária.

Gilles Lipovetsky anuncia que o individualismo é cada vez mais explorado pelo capitalismo como forma de consumo, moda, escolha de serviços e produtos que atendam as expectativas dos sujeitos fazendo-os experimentaram um atendimento personalizado em amplos aspectos, e coloca como uma dádiva do contemporâneo o sujeito moderno ter direito de escolha e respeito à sua liberdade em evidencia.

O ideal moderno de subordinação do indivíduo à regras racionais coletivas foi pulverizado, o processo de personalização promoveu e encarnou maciçamente um valor fundamental: o da realização pessoal, do respeito à singularidades subjetiva, da personalidade incomparável,

quaisquer que sejam as novas formas de controle e de homogeneização realizadas simultaneamente. O direito de ser absolutamente si mesmo, de aproveitar a vida ao máximo é, certamente, inseparável de uma sociedade que instituiu o indivíduo livre como valor principal e não é mais do que a manifestação definitiva da ideologia individualista; mas foi a transformação dos estilos de vida ligada à revolução de consumo que permitiu esse desenvolvimento dos direitos e depois do indivíduo, essa mutação na ordem dos valores individualistas. Salto adiante da lógica individualista: o direito à liberdade – teoricamente ilimitado, mas até então circunscrito à economia, à política, à cultura – ganha os costumes e o cotidiano. Viver livre e sem pressões, escolher seu modo de existência são os pontos mais significativos no social e no cultural do nosso tempo, pontos de aspiração, do direito mais legítimo aos olhos dos nossos contemporâneos. (LIPOVETSKY, 2005, p. XVII, XIII)

A sociedade em constante evolução apresenta suas rupturas sociais e experimenta as incertezas, o filósofo contemporâneo Zygmunt Bauman em sua Modernidade Líquida (2001), compreende a pós-modernidade como modernidade líquida, ou modernidade tardia, faz analogia a capacidade dos líquidos se moldarem rapidamente aos espaços em que estão inseridos, adaptando-se aos contextos, e tem a fluidez para as rápidas mudanças provocadas por variações externas, expõe como se deu esse processo que gestou a individualização dos sujeitos modernos,

Ao contrário da maioria dos cenários distópicos, este efeito não foi alcançado via ditadura, subordinação, opressão ou escravização; nem através da “colonização” da esfera privada pelo “sistema”. Ao contrário: a situação presente emergiu do derretimento radical dos grilhões e das algemas que, certo ou errado, eram suspeitos de limitar a liberdade individual de escolher de agir. A rigidez da ordem é o artefato e o sedimento da liberdade dos agentes humanos. (BAUMAN, 2001, p.11)

Bauman cita como grilhões as amarras sociais, as imposições de limites comportamentais que detinham os direitos de escolhas pessoais, as revoluções industriais e tecnológicas proporcionaram um novo ambiente dispondo reflexões que gestaram mudanças nos sujeitos, os estatutos da foram rompidos e as pessoas começaram a experimentar a individualização e passaram a agir sem a orientação de religiões, políticas, ou metas traçadas anteriormente.

Na verdade, nenhum molde foi quebrado sem que fosse substituído por outro; as pessoas foram libertadas de suas velhas gaiolas apenas para ser admoestadas e censuradas caso não conseguissem se realocar, através de seus próprios esforços dedicados, contínuos e

verdadeiramente infindáveis, nos nichos pré-fabricados da nova ordem: nas classes, as molduras que (tão intransigentemente como os estamentos já dissolvidos) encapsulavam a totalidade das condições e perspectivas de vida e determinavam o âmbito dos projetos e estratégias realistas de vida. A tarefa dos indivíduos livres era usar sua nova liberdade para encontrar o nicho apropriado e ali se acomodar e adaptar: seguindo fielmente as regras e modos de conduta identificados como corretos e apropriados para aquele lugar. (BAUMAN, 2001, p.13, grifo nosso)

Após deixarem suas gaiolas, como pontua Bauman, os indivíduos então passaram a olhar para si mesmos, buscando identificação, autorreflexão, refletindo sobre a sua condição na sociedade, questões como queriam ocupar os espaços e quais seriam estes, pois já não havia imposição, passam a permear as dúvidas de como agir com a liberdade. Diante desta complexidade o sujeito sofrerá uma transformação, passa a não ter uma identidade única, o teórico cultural e sociólogo Stuart Hall em A identidade Cultural na pós-modernidade (2006), observou e pontuou as fases de transformação social do indivíduo, ele explica esse processo, como criador de múltiplas identidades,

É agora um lugar-comum dizer que a época moderna fez surgir uma forma nova e decisiva de individualismo, no centro da qual erigiu-se uma nova concepção do sujeito individual e sua identidade. Isto não significa que nos tempos pré-modernos as pessoas não eram indivíduos, mas que a individualidade era tanto "vivida" quanto "conceptualizada" de forma diferente. As transformações associadas à modernidade libertaram o indivíduo de seus apoios estáveis nas tradições e nas estruturas. Antes se acreditava que essas eram divinamente estabelecidas; não estavam sujeitas, portanto, a mudanças fundamentais. O status, a classificação e a posição de uma pessoa na "grande cadeia do ser" - a ordem secular e divina das coisas - predominavam sobre qualquer sentimento de que a pessoa fosse um indivíduo soberano. (HALL, 2006, p. 24-25, grifo nosso)

As transformações sociais e a modernidade emanciparam o indivíduo enquanto senhor de si mesmo, segundo Hall havia uma liberdade politicamente instalada, mas não amplamente exercida pelos sujeitos. As tradições e imposições sociais começaram a ser escolhas e não mais imposições, assim, os indivíduos iam escrevendo uma nova história em um novo tempo. Suas próprias narrativas.

Nesse sentido, a arte começa a criar narrativas e representações ficcionais que evidenciem essa nova era, os personagens surgem sem amarras de padrão social. Experimentam em aventuras novos destinos, são desnudos de certezas e fazem da

reflexão sua base de escolha individual, a religião, Deus e a política se tornam instituições que podem ser escolhidas para sua existência, essa liberdade de escolha possibilitou à arte a representação de personagens desconstruídos dessas certezas, ateus, agnósticos, sem posicionamento político, e por vezes sem inclinação para viver situações estáveis e monótonas, tais quais passar anos em mesmo emprego, carreira, casar-se, ter filhos, viver na mesma cidade, construir patrimônios, a arte nos apresenta o sujeito liberto e existencialista, busca agradar a seus impulsos e desejos, o sujeito é representado por vezes, de maneira narcisista e hedonista.

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