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5.2 Mesures pr´ eliminaires
Voltamos a falar, para compreendê-lo melhor, do pensamento de Teilhard de Chardin. Observando os fenômenos, sobretudo no seu íntimo significado, ele chegou a uma visão do plano geral da existência, no qual domina o princípio da evolução, que faz do ser um transformismo em marcha. O conhecimento do passado hominal fez entrever a Teilhard as perspectivas em direção às quais se encaminha aquela marcha e, portanto, aquilo que o homem poderá no futuro realizar na Terra. Então Teilhard se sentiu iluminado por uma súbita luz orientadora. Se tudo caminha, é porque tudo se dirige a u’a meta que com este movimento se deverá alcançar; tudo tende a completar-se e aperfeiçoar-se, porque sobe de encontro a um centro, em direção ao qual tudo quanto existe se eleva à medida que vai evoluindo. Não se trata de um centro físico do universo, mas de um centro-síntese, no qual a pulverização fenomênica se coordena, se organiza, chegando assim, da dispersão periférica a um estado unitário, orientado em direção àquele centro. A evolução se nos revela como fenômeno múltiplo, se síntese, que realiza muitas coisas: não apenas a ascese, o aperfeiçoamento, o melhoramento; não só alcança a complexidade e a organicidade, mas também a unificação. O ponto de chegada é o todo-uno.
Quando a consciência de uma verdade tão vasta e poderosa lampejou no seu espírito, Teilhard não pôde deixar de gritar: Eureka! Tinha-o conduzido até ali a ciência com o seu passo seguro, apoiada nos fatos. Não podia, portanto, duvidar. Tudo isto lhe diziam os fatos com mil vozes concordantes e convergentes. Então ele, tendo-se dado conta que este era o significado da existência, não pôde deixar de ver as conseqüências desta sua descoberta. Eis como acabou por dedicar-se, além da ciência, à filosofia, à metafísica e à teologia.
Ora, todo grupo humano de qualquer espécie, toda escola filosófica, religiosa, teológica etc. têm o seu patrimônio de idéias e terminologia própria, a sua linguagem particular, a sua forma mental, que enquadram o pensamento, cristalizando-o; e dentro dela pretendem encerrar e limitar também o pensamento de quem ataque de frente os problemas por eles tratados. Se depois, aquele pensamento chegou a uma fase avançada de velhice e de conseqüente cristalização, e fixou-se numa codificação de normas mecânicas para uso de uma determinada organização humana, tudo se estanca e, naquele campo, a evolução pára. Então o novo é simplesmente julgado errado e portanto condenado. As verdades tratadas por aquele grupo e escola tornam-se propriedade sua, e portanto reservadas e intocáveis. De resto, isto é justo porque foram construídas por eles, que assim têm o direito de possuí-las em exclusividade e de defendê-las como coisa própria. O erro está em querer dar à posse da verdade um sentido diverso e maior do que de legítima propriedade reservada para uso e vantagem de quem a possua. O erro está no fato de que os grupos e escolas pretendem dar um valor universal, eterno, absoluto, às suas verdades particulares que, como tudo na Terra, não podem ser mais do que relativas e progressivas no tempo.
O que aconteceu então a Teilhard? Aconteceu o que acontece a todos inovadores que viram mais longe do que os outros aos quais quiseram fazer ver mais longe também, para além dos limites das verdades já vistas e codificadas por eles. É neste ponto que aparecem as condenações. Os precursores, desde Cristo a Galileu etc., são condenados como heréticos. Estamos observando imparcialmente um fenômeno que se apresenta o mesmo em todos os tempos e lugares, religiões e partidos, porque se trata de um fenômeno biológico que se verifica segundo uma lei da vida, toda vez que um indivíduo mais progressista queira arrastar os mais atrasados para frente no caminho da evolução. Eis o que aguardava Teilhard quando, uma vez iluminado pela visão de uma verdade muito mais vasta e convincente, se sentiu impulsionado a gritá-la ao mundo. Foram novos conceitos, com nova linguagem, porém dissonantes para os ouvidos habituados à velha terminologia tradicional, estranhos e inaceitáveis para a forma mental acostumada aos destilados processos lógicos da filosofia e teologia, um terremoto numa cidade adormecida, uma tempestade de absurdos sobre um lago tranqüilo ou sobre um jardim bem tratado. Então os conservadores se precipitam em levantar barreiras de defesa, para calar aquele escandaloso “eureka” que pretendia tudo resolver, fazendo abandonar a velha estrada sobre a qual caminhava tão bem a sua antiga sapiência.
Este foi o martírio de Teilhard, como o é de todos os inovadores: tropeçar nestes obstáculos colocados no meio do caminho para que a evolução se detenha. Tropeçar, cair, lacerar-se a carne, porque quem é velho teve tempo de tornar-se poderoso na Terra, e tem bem agarrado nas mãos o fruto do trabalho executado no passado, a propriedade adquirida de conceitos, doutrinas, organizações, instituições, leis, autoridades etc., e quem é velho, está por lei biológica, pronto a usar estas suas forças como arma para defender a sua sobrevivência.
Mas a visão de Teilhard é esplêndida. Ele a vê e fica por ela fascinado. Os outros não a vêem e a negam. Mas porque as autoridades condenam com tanta pressa? Talvez porque tenham medo do novo? Certamente que, dada a estrutura das leis da vida, o novo deve representar para o velho u’a ameaça contínua porque tende a superá-lo para substituí-lo.
É
a vida que avança. Assim se explica esta reação. Mas Teilhard viu e não pôde calar. Discute-se nos ambientes tradicionais se ele podia ou queria fazer teologia ou filosofia. Ora, se é justo que a solução de determinados problemas constitua uma propriedade reservada porque é o produto de certos ambientes particulares, nem por isso se pode declarar que tudo seja reservado como propriedade com o propósito de excluir os outros de um dado terreno fenomênico, de um dado tipo de investigações e conclusões, de um setor do conhecimento. Como é possível pôr limites ao pensamento humano, com que direito proibir ao cientista de ultrapassar os resultados imediatos, como impedi-lo de olhar mais longe do que eles e assim sair do terreno da ciência para expandir-se no da filosofia, metafísica e teologia? É impossível seccionar o conhecimento em compartimentos estanques, isolar um problema dos outros, deter-se no exame de um fenômeno e de uma lei sem ver em cada campo todas as conseqüências. Isso é impossível num universo unitário, regido por um princípio central único, mesmo que depois deste se vá tudo subdividindo em infinitas ramificações.Como pretender de quem tenha visto o novo não seja imediatamente levado a colocá-lo na vida, no lugar do velho? Impedi-lo é atentar contra o progresso, é delito de lesa-evolução. Quem viu é levado a transformar-se em reformador, para fazer progredir o mundo. Eis uma razão mais para reforçar a condenação por parte dos poderes constituídos.
O problema é que se trata de indivíduos mais evoluídos, e por isso mesmo é difícil que possam ser subitamente compreendidos e aceitos. Eles, porque mais avançados, vêem que muitas posições estão ultrapassadas e que necessitam renovar-se. Os outros, menos evoluídos, não se dão conta de nada. Para eles o mundo encontra-se bem, e deve permanecer como está. Ressurge sempre o princípio biológico da luta. Os jovens rebentos devem abrir caminho à força entre as ruínas das velhas árvores decadentes, que não cedem o posto à nova vida enquanto têm forças para resistir.
Como pode um cientista que viu, não fazer da sua ciência também uma filosofia e teologia, invadindo mesmo que não o queira, estes terrenos reservados? Ele sente que sua filosofia e teologia são as do futuro, aquelas que o mundo procura, porque quer viver e resolver cada vez melhor os seus problemas. Instintivamente sente que se renunciasse a ocupar-se deles, adormecendo sem lutar para avançar, ficaria abandonado, à margem do caminho da vida.
Quando num terreno encontramos escrito: “propriedade reservada”, “proibido o ingresso a estranhos”, seguimos para outro lado. E a bela propriedade fica intacta e deserta. Mas ela se torna vazia e morta, porque então a vida que ninguém pode deter, vai desenvolver-se noutro lugar, porque não é habitável uma casa que foi reduzida a um museu de antigüidades. Foi para evitar tudo isto, se bem que, por obediência, lhe era proibido, que Teilhard quis entrar nos terrenos reservados à filosofia e teologia, e entrar neles como cientista, com conceitos novos e vivificantes.
A teoria evolucionista dá-nos um conceito novo do universo e da existência. O todo não foi feito por Deus de uma só vez para sempre, de improviso, num dado momento, mas antes se está continuamente formando. O todo é resultado de uma criação contínua, obra de um Deus sempre ativo e presente, não de um Deus que uma vez o construiu, se afastou da criação para ficar inerte a contemplá-la do alto da Sua glória, separado do fruto do Seu trabalho, que continua estaticamente a existir por si mesmo, agora independente da obra do Seu criador. Para imaginar a atividade de Deus, o homem não tinha na sua mente outro modelo senão aquele que ele podia ver na Terra, quando alguém constrói qualquer coisa; e o homem inconscientemente aplicou a Deus esta sua concepção antropomórfica, da qual de resto não lhe era possível sair, porque não lhe era possível superar os limites dentro dos quais estava encerrado o seu concebível, fixados pela sua experiência.
Hoje a concepção antropomórfica e estática da Bíblia tende-se a substituir outra dinâmica, mais verossímil, que melhor convence a mente moderna, mais madura. É certamente laboriosa mas fatal a superação dos velhos conceitos tradicionais. O homem não é já considerado segundo uma concepção egocêntrica, que o torna único objetivo da criação, situado num planeta que é o centro do universo. O orgulho pode ser considerado culpa quando há um rival que por ele se sente lesado, e por isso o condena. Mas quando o orgulho é de todos, torna-se uma auto-exaltação coletiva; ao faltar a reação contrária ele é aceito por consenso universal e, sendo vantagem para todos, torna-se verdade. Hoje vemos o homem como elemento de uma imensa unidade orgânica. Ele não nasceu de uma vez, feito num só momento, é antes o resultado de um longo caminho percorrido, de formas biológicas inferiores superadas, que o precedem e que encontram nele a razão da sua existência, a continuação do seu caminho, a coroação da sua obra evolutiva.
Concepção nova, tanto mais vasta e dinâmica e que nos abre a mente para horizontes imensos. Ora, já que a ciência no-lo mostrou,
saibamos que existe um caminho evolutivo, e que grandiosa visão se abre diante de nós se pensarmos até onde aquele caminho poderá levar-nos! Religião, ética, espiritualidade, ideais, tudo adquire um significado positivo, uma possibilidade de atuação concreta. Estas abstrações entram vivas e atuantes em nossa existência, não só como aspirações, mas para se realizarem em função do grande fenômeno da evolução. Só assim poderemos retirar as velhas concepções filosóficas e teológicas das estantes poeirentas, onde têm sido respeitosamente conservadas, e trazê-las para junto de nós para que se transmudem em formas de vida. Deveríamos compreender que o novo não surge para matar o velho, mas somente para substituí-lo, a fim de que a vida, que fatalmente lhe escapa, continue em novas formas, que não o excluem, mas somente o completam e fazem avançar o passado. Não há doutrina religiosa que possa deter estas leis, que são as leis da vida. Eis o que querem os inovadores, e através deles com seus instrumentos, eis o que irresistivelmente impõe a evolução.
Do evolucionismo nasce u’a moral dinâmica para o lugar da velha moral estática. A nova ciência diz-nos que a vida evolui em direção à espiritualização e que nela consiste o nosso futuro. O passado mostra-nos qual deverá ser o futuro, porque este não pode ser senão o prolongamento daquele, a sua continuação lógica. Eis que a nossa vida adquire um significado profundo porque existe na direção de u’a meta que podemos racionalmente prever qual seja. Caminha-se e sabe-se para onde vai. Do que nos mostra a nossa história geológica e paleontológica, podemos positivamente deduzir qual será o nosso futuro. Caminhamos em direção a novas grandes afirmações no campo intelectual e espiritual, com infinitas conseqüências de todo o gênero. Tudo assume um valor construtivo. O processo evolutivo tem as suas leis, mas o trabalho de realizá-lo está em nossas mãos. Somos nós que temos de executá-lo. Nós próprios somos os construtores de nós mesmos, cooperando com a contínua obra criadora de Deus. Nunca estamos sozinhos. Todas as outras formas de existência estão junto de nós e vão avançando conosco no mesmo caminho. A ciência já começa a coser os retalhos da especialização em que se ramifica e subdivide, e se dirige para uma síntese. Ligando os vários momentos do conhecimento, orienta-se em direção à unificação de todos os fenômenos num princípio central. Fatos isolados, dos quais primeiramente não se conhecia o nexo recíproco, se integram numa complexidade orgânica e funcional até formar uma imensa sinfonia, na qual se sente que deve consistir a suprema visão do universo.
Será irreligioso tudo isto? Mas esta é precisamente a mais elevada religião do futuro, a do homem inteligência e consciente, que substituirá o homem ignorante e instintivo de hoje. E a ética se transformará paralelamente. A esta religião maior, será possível que as atuais façam resistência. Vivemos hoje no momento crítico do emborcamento, isto é, no ponto em que o homem, por haver avançado ao longo da evolução, se vê obrigado a inverter a sua posição, porque não gravita mais em direção ao pólo negativo do ser, representado pelo fundo da involução que chamamos de anti-sistema (AS), mas em direção ao pólo positivo, representado pelo vértice da evolução, seu ponto de chegada, que chamamos sistema (S). Isto é, o homem, à força de subir, evoluindo do anti-sistema para o sistema, acaba por entrar no campo gravitacional prevalentemente positivo, saindo e afastando-se cada vez mais do que é prevalentemente negativo.
Esta é a mais profunda revolução da vida, porque agora muda o seu centro de atração e se inverte do negativo ao positivo o sinal do seu campo de ação. De hoje em diante tenderá a prevalecer o positivo sobre o negativo. Positivo e negativo significam dois tipos de existência oposta, sendo o segundo o dos planos inferiores, e o do primeiro o dos planos superiores, mais evoluídos.
Claro que se trata de conceitos novos, que também nós, junto com Teilhard, sustentamos, diferentes apenas nos detalhes, e não é de surpreender que desconcertem as velhas formas mentais que a eles não estão habituadas. Se bem que a maneira de ver de cada um seja diferente, o pensamento fundamental que rege o universo é uno, e não pode deixar de se perceber uma vez que o indivíduo tenha os olhos adaptados e saiba abri-los para ver. É natural que conceitos e terminologia sejam diferentes. Não mais oposição entre espírito e matéria. Estes não são mais do que pontos diversos de um mesmo transformismo fenomênico. Física e moral baseiam-se num princípio comum. Ciência e espírito, conhecimento e moral, têm as mesmas raízes. E Teilhard não podia deixar, ele também, de ver a unidade fundamental de todas as coisas. Quem viu compreende, e ama a Teilhard porque também viu. Quem não viu não compreende e condena porque não sabe usar a sua pequena e velha medida feita para medir limitados conceitos antropomórficos da Terra, e não as ilimitadas concepções galáticas do homem do futuro.
É natural, partindo de gigantescas premissas, que já não seja possível concluir unicamente em favor de um grupo particular humano. Superada a forma mental egocêntrica, que criou para si um universo antropomórfico, já não é possível dos princípios ideais fazer um meio para sustentar interesses humanos. Deverá assim automaticamente desaparecer o sectarismo partidário e o separatismo religioso. Estas são as fases primitivas do pensamento religioso que para descer à Terra, foi obrigado a submergir-se na sua lei, que é a luta de todos contra todos pela sobrevivência. A religiosidade do futuro transcende a Terra, o nosso mundo, as suas organizações, e não pode encerrar-se nas fórmulas de uma qualquer particular religião, isolada das outras, num clima de divisionismo, pela sua diversa interpretação da mesma verdade, rivais, dispostas a combater-se umas às outras. A cosmogênese não pode culminar e exaurir-se num só profeta. Trata-se de uma religiosidade tão vasta que pode abarcar todas as formas de vida, incluindo a que se encontra na matéria, incluindo a dos outros seres que vivem nos planetas das mais longínquas galáxias. Os conceitos tradicionais não servem mais. Mas isto não significa destruição; é ampliação. Está para surgir um novo testamento de todas as religiões, que inicialmente, as fundirá, ou, pelo menos, as aproximará uma das outras, irmanando-as como se constituíssem aspectos diversos e complementares da mesma verdade. Sem destruí-lo, este novo testamento não só continuará o velho, respeitando-o, mas o ampliará, completando-o ele será oferecido pela ciência a uma humanidade que sentirá a necessidade e terá a capacidade de compreender, a qual sucederá à humanidade do passado, que sem tal necessidade e capacidade, e não sabendo fazer outra coisa, limitava-se a crer.
O que pode impressionar o homem é a angustiosa sensação de sentir-se um átomo perdido na imensidade do universo. No passado foi o medo das feras, do inimigo, dos elementos desencadeados. Hoje a ciência lhe fez ver um infinito cheio de novos mistérios, de vazios, de possíveis perigos ainda maiores. E quer chegar até à lua para saber o que lá existe. Deste medo nasceram as religiões para nos dar uma proteção, tornando-se propícia a divindade; foi delas que nasceu a fé para consolar-nos, suprindo com isso tudo que ainda não se sabe. Mistérios, religiões e fé estão de fato unidos por estrito parentesco.
Ora, a tarefa da evolução humana é aquela que a ciência hoje está realizando, isto é, a de substituir cada vez mais o mistério e a respectiva fé pelo conhecimento; é a de mudar a posição do homem afastando-o cada vez mais das trevas, da ignorância (AS), em direção à luz e ao conhecimento (S). Crer segundo as religiões, mas conhecer cada vez mais segundo a ciência; isto é, crer
cada vez menos com os olhos fechados, como ignorantes, e cada vez mais com os olhos abertos, conhecendo; empurrar sempre o mistério para mais longe de nós, iluminando a estrada com a nossa inteligência. Fazer isto significa descer Deus cada vez um pouco mais à Terra, e nós não ficamos passivos na expectativa. Devemo-nos tornar ativos, manifestando a nossa vontade e esforço de conquista. No entanto vemos que do mistério se procurou fazer um cômodo refúgio para que nele se aninhem os preguiçosos, inimigos de toda a febre de pesquisa e de toda a novidade que perturbe o seu sono. Mas Deus quer o nosso progresso, quer que seu pensamento e sua vontade se realizem cada vez mais em nossa vida; quer que O compreendamos e com ele colaboremos como seus operários, para subir. Mas Deus não desce a Terra gratuitamente. O homem deve realizar o esforço de elevar- se em direção a Ele, para Dele extrair aquilo que pode sentir e compreender. Cabe- nos subir a montanha da evolução com nossas pernas. Devemos carregar a cruz da redenção em nossos ombros, porque é absurdo servirmo-nos dos ombros de Cristo para que seja ele o crucificado em vez de nós.
A ciência é um esforço da inteligência para subir a Deus, mesmo quando O nega, porque nesse momento ela representa a tarefa de resolver os problemas e descobrir a verdade com seu próprio trabalho, por si mesma, em vez de aceitar tudo pela fé, gratuitamente, já resolvido, sem labor a não ser o de abandonar-se passivamente nas mãos de um Deus, invocado por nós para nos socorrer. A época da concepção estática do universo e da vida está superada, a que encorajava a nossa inércia mental, qualificando-a como virtude. Hoje abre-se o caminho para a concepção dinâmica, que nos diz que o paraíso não se conquista só negando a vida terrena com a renúncia, mas sobretudo afirmando-se de um modo positivo, com o trabalho e a conquista no terreno do pensamento e do espírito. Então, se a ciência foi em princípio considerada inimiga das religiões, porque perturbava o sono de quem se tinha dentro delas acomodado (inimigo das