O primeiro evento que destacamos aqui, relatado com mais detalhes, é a comemoração do Dia Nacional da Poesia, na perspectiva de que essa análise auxilie na compreensão do que é a “Poetas e Prosadores de Mossoró”. A POEMA sempre procura realizar atividades nesse dia, como já foi dito, definido em homenagem ao nascimento do poeta Castro Alves em 14 de março. Em 2013, contudo, a prefeitura municipal de Mossoró divulgou uma programação
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Curiosamente, as experiências na casa de Antônio Francisco e Rogério Dias foram semelhantes. Antônio, assim como Rogério, fez questão de mostrar a casa e objetos antigos que guarda, como bolsas, sandálias e pedras. Além disso, ele expõe na casa vários quadros e prêmios que ganhou devido aos seus cordéis. Ele também enfatizou que a sua casa é “viva”: no quintal, tem um tanque no qual está fazendo um aquário, com vários peixes e um jabuti; na cozinha, há uma gata com vários filhotinhos, “gata de rua” segundo ele; na frente da casa, várias árvores, dentre as quais ele diz se orgulhar muito da pitangueira.
Imagem 4: Caio César Muniz recitando versos na Escola Dinarte Mariz. Fonte:
http://emdinartemariz.blogspot.com.br/2013/04/13032013- específica, que deveria durar uma semana, para celebrar a poesia, com atividades da POEMA, do governo do Estado e da AFLAM.
Segundo a programação divulgada, entre 11 e 13 de março, os poetas passariam em escolas fazendo a divulgação do Dia Nacional da Poesia e distribuindo encartes especiais do jornal O Mossoroense. Como o encarte ficou pronto apenas no dia 13 de março, a divulgação foi feita somente em três escolas, dentre as quais, a Escola Municipal Dinarte Mariz, na qual foi feita uma apresentação.
A performance realizada na escola difere das demais trabalhadas aqui por não ter sido previamente marcada. No contato entre a diretora da instituição e membros da POEMA – Caio César Muniz, Genildo Costa e Josué Damasceno – surgiu a ideia de juntar alguns alunos no pátio para que eles pudessem fazer melhor a divulgação da programação. Logo, duas turmas
de alunos estavam em cadeiras colocadas apressadamente no pátio, ouvindo Caio César Muniz falar sobre o Dia Nacional da Poesia. Caio recitou alguns poemas e Genildo Costa cantou músicas buscando interagir com os alunos. O músico utilizou como estratégia performática o estímulo à participação dos alunos na música:
Genildo Costa –
Todos –
Eu lembro assim quando eu tinha essa faixa etária, o professor, às vezes, por ter lido tanto essas coisas de cordel, da música, me ensinou uma canção que é mais ou menos assim: “Menino, vem brincar de mar
Ô mar, vem lavar pé de menino” Aí eu repetia com ele.
“Menino, vem brincar de mar Ô mar, vem lavar pé de menino” Vamos lá! Bem alto!
“Menino, vem brincar de mar Ô mar, vem lavar pé de menino”
[enquadre de início: o cantor busca identificação com a audiência]
[começa a cantar]
[performance corporal: incentiva os alunos a cantarem]
Então, ele faz os alunos repetirem várias vezes: “mais alto!”, “só os homens!”, “só as meninas!”. Depois que os estudantes estão de fato cantando o refrão, ele canta a música toda
Imagem 5: Poetas comemoram Dia da Poesia na Praça de Convivência. (O menino e o mar, de João Bá), sempre pedindo para os alunos cantarem o refrão. O resultado foi uma forte interação com os alunos, que aplaudiram enfaticamente e, ao final das duas músicas, insistiram para que se cantasse mais com o grito de “mais uma!”.
O principal evento divulgado na programação da POEMA foi a apresentação cultural na Praça de Convivência da cidade – espaço do Corredor Cultural – que ocorrera no dia 14 de março, à noite, após as eleições. O evento consistiu em uma apresentação de música ao vivo, com declamações de poema entre as canções.
A Praça de Convivência é um aglomerado de bares e restaurantes rodeados por mesas e cadeiras, tendo em uma das extremidades um palco, que foi utilizado pelos poetas. As pessoas estavam espalhadas ao longo da praça, de modo que, em mesas ao redor dos poetas e interagindo com pedidos e aplausos havia cerca de 50 pessoas que não eram constantes – pessoas iam embora e outras chegavam.
O público mais constante era de poetas, associados à POEMA e muitos ligados ao movimento literário Novos Poetas. Isso nos remete a uma observação feita por Ângela Rodrigues Gurgel durante sua entrevista, quando ela chamou atenção para a falta de público e reconhecimento: “...a gente escreve pra quem? Pra alguém ler. Quem são os leitores? Os mesmos que escrevem. É meio complicado”. A autora reclamou que só quem conhece a Ângela poetisa são os poetas; fora do meio, ela é conhecida por outras atividades profissionais ou relações familiares – “é Ângela ouvidora da FACENE, é Ângela da AFLAM, é a menina de seu Chico Bonifácio lá de Caraúbas... mas Ângela poetisa, pouquíssimos”.
Portanto, parte dos poetas que compunham esse público também participaram da apresentação. Eles recitaram principalmente poemas de autoria própria, mas também de outros artistas locais. Genildo Costa coordenou a maior parte da apresentação, chamando os poetas, divulgando a programação dos dias seguintes e interagindo com o público, por exemplo, quando citava diretamente alguém ou algum grupo da audiência: “Estão todos convidados, inclusive a primeira turma de Engenharia Química da UFERSA!” (que estava em uma mesa próxima).
As músicas cantadas por Genildo eram muitas vezes poemas musicados de artistas da região – incluindo nomes famosos como Patativa do Assaré e Luiz Campos. Também
privilegiou composições de João do Vale. O outro músico que dividiu o palco com ele durante a noite foi Airton Cilon, com um estilo diferente, cantando principalmente pop rock. Genildo enfatizou muito a beleza do revezamento de artistas no palco e ambos lembraram constantemente entre as músicas os 16 anos da POEMA.
Uma questão interessante, que foi percebida em outros eventos, é como se aproveita estrategicamente a presença de alguém famoso, como Antônio Francisco, para manter o público. A participação de Antônio Francisco é anunciada de forma a gerar grande expectativa. À certa altura da noite, por exemplo, Genildo Costa pede a ele “uma preliminar” e lembra que temos na praça “a presença da Academia Brasileira de Literatura de Cordel!”. Antônio recita apenas um cordel e Genildo volta a cantar, mas pouco depois ele insiste para voltar ao palco, dizendo ao cantor que “pode ir beber sua água” e diante da relutância de Genildo ele brinca: “Confia em mim não?!”.
No dia seguinte, a palestra do poeta Thiago de Mello foi o único evento da programação divulgada na semana que foi promovido de fato pela prefeitura de Mossoró, com o apoio do governo do Estado. Assim, foi mais formal e contou com a presença de muitas autoridades. O evento ocorreu no Auditório da Estação das Artes Elizeu Ventania, marcado para iniciar às 17 horas.
Havia um pouco mais de 100 pessoas no auditório (sua capacidade máxima), estando muitas pessoas em pé, entre eles poetas como Caio César Muniz e Nildo da Pedra Branca. Apesar do fato principal consistir em uma palestra, muito tempo do evento foi destinado a uma “Janela Poética”, que antecedeu a preleção do artista convidado. Assim, Zé Lima coordenava um momento de apresentação cultural com o revezamento de artistas: Marcos Leonardo, Nildo da Pedra Branca, Damásio Costa, Socorro Fernandes, Margareth Freire, Antônio Francisco e crianças que representavam escolas municipais da cidade (Luana Beatriz, João Batista Neto, Samara Costa e Pâmela da Costa).
O encerramento da Semana da Poesia consistiu em um “Amanhecer Poético” na Cobal, iniciado às 5h30 da manhã. A apresentação na Cobal, em meio à feira de domingo, tem um significado especial para os poetas, como veremos, pois é, segundo Caio, um momento de maior aproximação com o povo – o espaço deles, de fato.
A Cobal é constituída por dois ambientes diferentes: um espaço aberto, com pequenas barracas que vendem frutas, verduras, etc.; e, ao lado, um prédio com diversas lojas que vendem produtos variados, além de pequenas lanchonetes. O palco foi montado entre esses dois espaços, próximo às lanchonetes e às mesas – como uma espécie de praça de alimentação. Ali, os poetas atraíam os olhares de quem estava passando para fazer compras na
Imagem 6: Poeta Pedro Melo, recitando versos no Amanhecer Poético na Cobal
Imagem 7: Maurílio Santos e Genildo Costa cantando
na Cobal
feira, assim como de quem estava tomando café da manhã ou bebendo e conversando com amigos. Muitos paravam para olhar e assistir a apresentação por alguns minutos. Por volta das 9 horas, o espaço já estava cheio com um público bastante variado – homens, mulheres, jovens, velhos e crianças.
A apresentação também consistiu em um revezamento de artistas, como na Praça de Convivência. As intervenções dos poetas, no entanto, eram mais constantes. O evento teve a participação de Caio César Muniz, Genildo Costa, Nildo da Pedra Branca, Maurílio Santos, Antônio Francisco, Pedro Melo, Cid Augusto e Rogério Dias. Atrás do palco, Nildo da Pedra Branca vendia os CDs e os cordéis dos artistas que se apresentavam, principalmente dele e Maurílio Santos. Além da apresentação, como estratégia para a venda do material, os artistas lembravam o tempo todo que a música, o poema ou o cordel estavam no CD.
Muitas histórias eram contadas entre uma música e outra, principalmente sobre a sua produção, atribuindo significados à canção que se seguia. Por exemplo, quando Genildo Costa cantou Caminhos Opostos, Caio contou que a ideia desse poema, feito pelo seu amigo Marcos Ferreira, surgiu quando ele encontrou uma ex-namorada em um ônibus e comentou o desdém dela com Marcos: “a história era minha, ele fez o poema e Genildo musicou”.
Caio César Muniz fez um agradecimento à prefeitura, ressaltando que era preciso reconhecer o apoio, mas sem esquecer o que aconteceu em anos anteriores: “Nós já fomos expulsos daqui. Ontem me ligaram para saber se a gente queria um palco. Foi preciso haver uma ruptura pra gente ser respeitado”. O encerramento foi marcado por essa história de resistência e de necessidade de valorização da poesia:
“Estamos encerrando aqui o Dia Nacional da Poesia. A Semana, na verdade, porque Mossoró é bem atrevida e ela não consegue fazer as coisas em um dia só. Então hoje
a gente está encerrando toda uma programação, gostaria agora de agradecer à prefeitura de Mossoró. Não tem como negar que a poesia alcançou uma certa respeitabilidade e esperamos que isso continue, porque, apesar de qualquer coisa, os poetas de Mossoró são artistas. Artistas também comem, também tem dívida, também tem filho, todo mundo. 5 horas da manhã a gente tava aqui! Não são todos que estão aqui que acordaram de 5 horas da manhã. Eu acordei de 3 e meia, pra fazer poesia de graça pra vocês. Então, o mínimo que a gente pede é respeito pela arte, respeito pela poesia! Se tiver isso, já vai estar bom demais! Então, obrigado e se Deus quiser no ano que vem estaremos aqui de novo. Esse espaço aqui, as pessoas perguntam “Por que Cobal? Por que Cobal? Por que vocês insistem em Cobal?” Porque essa aqui é nossa feira livre, cara! É a segunda maior cidade do Rio Grande do Norte e aqui é a nossa feira livre. Onde é que a gente tem outra feira livre? Não tem. E aqui é onde o povo está, é onde a arte deve estar. Então a gente vai insistir sempre na Cobal. E os que não gostarem, é tão simples [risos]... É simples demais: os incomodados que se retirem!” (Caio César Muniz)