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Como ocorreu com o conceito de paisagem que sofreu redirecionamento dos caminhos de abordagem durante o século XX, o pensamento musical também sofreu algumas modificações, dentre estas, destaca-se o interesse pelo estudo dos sons do ambiente. Alguns autores argumentam que esse redirecionamento foi influenciado pela grande quantidade de sons que surgiram a partir da revolução industrial.

Alguns pensadores dedicaram seus estudos ao tema do ambiente sonoro em suas obras. Entre eles Murray Schafer, que publicou em 1977 o livro “The tuning

of the world” que foi publicado no Brasil em 1997 com o título "A afinação do mundo: uma exploração pioneira pela história passada e pelo atual estado do mais negligenciado aspecto do nosso ambiente: a paisagem sonora".

Essa obra é o resultado dos estudos desenvolvidos a partir de 1969, por um grupo de pesquisadores: Murray Schafer, Bruce Davis, Peter Huse, Barry Truax e Howard Broomfield. Membros da “Simon Fraser University”, no Canadá, que formaram o Projeto Paisagem Sonora Mundial (World Soundscape Project – WSP)

que tinha por objetivo pensar a música como ciência e desenvolver um Projeto Acústico que visava entender os efeitos dos sons do ambiente sobre o homem, ter mais qualidade nos sons que nos cercam, usar os sons com finalidade educativa e produzir bibliografia que fundamentasse estudos futuros.

O livro “Afinação do Mundo” é resultado deste projeto, nele o autor recorreu a variados textos da literatura universal com a intenção de registrar as características dos ambientes sonoros (do mar, do vento e da chuva) que poderiam não ser percebidas no cotidiano. Dedica grande parte da obra à análise das transformações nos ambientes sonoros ocorridos devido a mudanças decorrentes da Revolução Industrial e Elétrica. O autor ainda deixa registradas metodologias para futuras e diferentes análises da paisagem sonora. Registra um alerta sobre os perigos à saúde promovidos pelo aumento do número e intensidade dos sons na paisagem sonora, dentre muitos outros temas que tornam a obra extremamente densa.

Este autor foi o responsável pela origem do termo "soundscape", que foi traduzido para o português como “paisagem sonora”. O autor é reconhecido como o sistematizador deste tema, através de reflexões e registros sobre os sons do ambiente urbano e rural.

Murray Shafer define paisagem sonora como todo e qualquer som que compõe um determinado espaço. “O termo pode referir-se a ambientes reais ou a construções abstratas, como composições musicais e montagens de fitas, em particular quando consideradas como um ambiente” (SCHAFER, 2001).

O autor indica três elementos principais na paisagem sonora e que se tornaram os pilares desta pesquisa: os sons fundamentais, os sinais e as marcas sonoras. Os sons fundamentais de uma paisagem sonora são aqueles que se originaram de elementos da natureza. Estes sons possuem um significado para cada pessoa que os escuta, um sentido único e com alto valor para este ouvinte. Os sinais formam a paisagem sonora demarcada por um sentido que adquire a condição de signo, o qual comporta um código compreendido através de convenções e por grupos específicos. O termo marca sonora possui um sentido muito próximo do que queremos explorar na aproximação do conceito de paisagem sonora e patrimônio, pois deriva da palavra marco com o intuito de tratar de um som que possui uma identidade com uma dada comunidade, este sendo reconhecido como particular em seu simbolismo social. O autor ainda considera que essa marca sonora ao ser reconhecida evoca uma proteção por sua singularidade. Sendo assim, esse conceito fortalece ainda a abordagem do patrimônio a partir do conceito de paisagem sonora.

Schafer se dedica também à explicação da relação de igualdade entre ruído e poder. Os ruídos de alta intensidade evocam no ouvinte a sensação de temor ou reverência e que a emissão de ruídos permitidos por um dado grupo social se estabelece a partir de estruturas de poder. Os sons naturais de alta intensidade eram, normalmente, associados a fenômenos sobrenaturais. A partir desta lógica os sons passaram a ser fabricados pelos homens remontando, principalmente, na perspectiva religiosa, a um som de dominação ou de autoridade.

Em relação ao aspecto social, M. Schafer trata o ruído e o poder no sentido daqueles que têm autorização para emitir os sons, essa autorização concedida socialmente para emitir determinado som pode nos permitir aproximar essa relação aos aspectos de patrimonialização que visam resguardar dada manifestação cultural.

Tais sons são explicados segundo o pensamento de Pierre Schaeffer (1966), o autor afirma que o som é uma experiência distinguível que pode ser classificada pela percepção e que antecede o conceito de música, pois um som só

se torna musical quando é isolado e categorizado. Podemos chegar à conclusão que segundo Shaeffer (1966), o sonoro seria o percebido e o musical só existiria quando esse conjunto de sons possui um valor atribuído.

A abordagem fenomenológica dessa pesquisa e o estudo da paisagem cultural, baseada na intencionalidade dos sujeitos e no sentido da paisagem, respectivamente, permitem fazer a aproximação necessária entre paisagem sonora e uma geografia do patrimônio religioso. Isso possibilita pensarmos a formulação de uma paisagem sonora que contribui com a formação de um patrimônio imaterial evangélico, já que para Shaeffer (1966) o som existe antes de qualquer forma de comunicação, porque a comunicação é realizada a partir da habilidade de formar e decifrar um código sonoro estabelecido sobre um conjunto de sons.

As paisagens sonoras são estudadas há algumas décadas em variados campos da ciência, tendo maior destaque em pesquisas realizadas por musicólogos, antropólogos e mais recentemente por geógrafos. A paisagem sonora compõe a marca de um lugar, pois evoca memórias e imagens mais duradouras do que aquelas que capturamos com nossa visão.

A visão captura a superficialidade do espaço de acordo com a velocidade da refração da luz sobre os objetos. Enquanto a audição reage aos estímulos cerebrais promovidos pelas ondas sonoras que levam maior tempo que a luz para se propagar, tal fenômeno físico parece ter influência sobre marcas sonoras que se apresentam, muitas vezes, mais duradouras que as visuais.

Os sons seriam então o meio de reforçar a identificação dos sujeitos com um determinado espaço, através do estabelecimento de memória e imaginação. Forma-se uma paisagem sonora que estabelece valores diferenciados para cada sujeito envolvido no processo, contribuindo para criação do sentimento de pertencimento devido a apresentarem sonoridades que estabelecem familiaridade na paisagem.

As paisagens sonoras são concebidas no subjetivo de cada indivíduo, construídas a partir das vivências dos sujeitos, quando esses sons tornam-se parte do cotidiano de uma dada coletividade conferem uma identidade ao indivíduo e ao grupo. Esta identidade é sempre acompanhada de um construto portador de um discurso. Assim:

A paisagem, além de conter o indivíduo, contém também as histórias e os discursos, tanto do indivíduo quanto da coletividade. Expressa, dessa

maneira, as memórias individuais e coletivas, os valores construídos ao longo do tempo, e, principalmente, a comunicação dessas memórias e valores. Os discursos decorrentes da paisagem, e nela presentes, podem estar contidos em uma ou mais formas simbólicas, o que garante o sentido

atribuído a cada paisagem e a cada elemento que a compõe. (TORRES,

2015, p.44)

A paisagem religiosa evangélica dificilmente é perceptível a partir de materialidades. Elementos do sagrado vinculados a essa matriz religiosa podem não ser percebidos através do sentido da visão, o que poderia fragilizar ou incapacitar o estudo da paisagem religiosa evangélica se o conceito de paisagem fosse restrito ao sentido do que se percebe apenas com o sentido da visão.

A espacialidade sagrada do movimento evangélico carrega consigo a concepção de que a manifestação da religiosidade está apenas no indivíduo, que por sua vez atua no espaço e que se apresenta como se fosse um produto final na paisagem. Podemos dizer que o estudo da paisagem sonora é dinâmico e eficiente para evidenciar que a paisagem religiosa não é um produto final, mas que está em constante mutação, progresso numérico e mediático.

As sonoridades de um dado espaço são compostas por uma grande diversidade de sons. Há os naturais, como os provocados pelos ventos, mares, canto de pássaros; e humanos, como os provocados por carros, fábricas, composições musicais e muitos outros. Esse conjunto de sons torna-se responsável pelo que podemos chamar de sonoridades locais, que atuam entre uma enorme quantidade de ruídos e sons diversos, fazendo surgir as paisagens sonoras.

A percepção sonora foi, por muito tempo, subjugada pela percepção visual. Pesquisas científicas mais recentes têm identificado que o sentido auditivo relacionado a seus aspectos físicos, culturais e até mesmo sociais, discursos analíticos no campo das ciências humanas, ainda estão muito centrados no visual/imagético. São poucos os trabalhos que sobrepõem a discussão sobre o som à predominância da visualidade (MINAMI, 2001)

Foi a partir da publicação de Murray Schafer (2001), “A afinação do mundo", que se iniciou um movimento para a percepção do meio ambiente sonoro no qual o ser humano está inserido, sendo ele também responsável por esta composição paisagística. Este autor foi responsável pela sistematização de grande parte dos estudos referentes ao, até então termo, paisagem sonora.

A partir deste estudo, demonstra-se que “paisagem sonora” poderia ser mais que um termo. Foi, a partir dessa publicação, criada uma categoria de análise dos sons, responsável por orientar a análise de determinados ambientes acústicos e pela análise e interpretação de sentidos presentes na paisagem.