Measurement of the Inelastic Cross-section at √
7.4 Measurement of the Cross-Section
Pouco se sabe sobre a origem dos povos indígenas no Brasil. Registros históricos e achados arqueológicos são muitas vezes escassos e de difícil acesso. O trabalho interdisciplinar entre arqueólogos, historiadores, linguistas e profissionais de outras áreas tem contribuído para compreender a origem, desenvolvimento e os movimentos de dispersão e povoamento dos territórios das Américas.
No caso dos índios Nambikwára, o cenário não é diferente. Além das fontes citadas nesta seção, pouco ainda foi dito sobre sua origem histórica. Apesar de os grupos que integram a família de línguas Nambikwára terem seus territórios reconhecidos entre os estados de RO e MT, Lévi-S (1948), “Sur certaines similarités structurales des
20 As listas de palavras em Nambikwara publicadas, de acordo com Price (1978) são: 1) Albuquerque (1910,
p.145-14); 2) Anônimo (19 ) ) (1960, p. 89- 11); 4) Campos (1936, p. - 8) ) -Strauss (1948a, p.187-191); 6) Oberg (1953, p. 124-126); 7) Rondon (1947, p. 52-53); 8) Rondon e Faria (1948, p. 91- 113); 9) Roquette-Pinto (1913, p. 386) e (1935, p. 344-349); 10) Schmidt (1928, p. 102); 11) Souza (1920, p. 406-410). No entanto, apesar dessa diversidade de 12 listas distintas escritas por 11 pesquisadores diferente, como lembra Price (1978), as listas são atribuídas a grupos cujas denominações são bastante imprecisas ou confusas, sendo, portanto, uma tarefa árdua ou quase impossível verificar quais destes grupos correspondem aos grupos Nambikwára existentes presentemente.
langues Chibcha et Nambikwara. Actes du XXVIIIe Congrès lnternational des Américanistes”21 sugere que os Nambikwára se originaram do Norte da América do Sul.
No artigo, o autor demonstra certas semelhanças estruturais entre a língua Chibcha22 e uma variante Nambikwára. Além da aparente semelhança linguística postulada por Lévi- Strauss, o autor também utiliza de outros critérios como a semelhança física destes povos distintos para fundamentar a sua hipótese.
Apesar da postulação de Lévi-Strauss (1948), linguistas (PRICE, 1978; RODRIGUES, 1986; TELLES, 2002) consideram a Família Nambikwára como uma família linguística isolada, o que vai de encontro à hipótese do antropólogo francês, ao menos com base nos critérios linguísticos. Esta informação corroboraria assim, para o fato de as origens do povo Nambikwára ainda continuarem nebulosas para a comunidade científica.
No entanto, em povos, dentre os quais os Nambikwára, cuja perpertuação de suas histórias e tradições dependem da memória através de contos, mitos e histórias oriundas e perpetuadas através da tradição oral, é possível contar com as narrativas e seus lembradores para nos auxiliar a entender suas raízes históricas e possíveis desdobramentos decorrentes destas.
Em nossa pesquisa de campo, foi nos contada o mito de origem Nambikwára, o qual também oferece uma possível justificativa para o distanciamento e variação linguística entre línguas da família Nambikwára, corroborando também com critérios de classificações linguísticas apresentados para a família.
Narrada em português e em Nambikwára por dois lembradores distintos, para o presente trabalho, nos deteremos à versão contada por nosso contador de histórias Clério Wakalitesú. A história é bastante semelhante à história anteriormente registrada pelo Pe. Adalberto Holanda Pereira na segunda metade do século XX, no volume sobre mitos e lendas dos Nambikwára (cf. O Pensamento Mítico Nambikuara, 1970):
Antes de os Nambikwára aparecerem, existiam apenas animais na mata: pássaros, plantas e outros seres que podiam mudar de forma. Nessa época, bem antigamente, os índios Nambikwára moravam numa pedra, dentro da montanha sagrada, que fica perto de Campos Novos. Um dia, o macaco escutou barulho saindo da pedra. Todos os animais, a onça, o macaco, a anta, todo mundo queria saber o que era aquele barulho dentro da pedra. Então todos os animais tentaram abrir a pedra, a onça, o macaco, o jabuti, todo
21 Acerca de certas similaridades estruturais das línguas Chibca e Nambikwara.
22 A língua Chibcha é uma língua extinta falada no território da atual Colômbia, falada pelo povo Muisca, uma
“ ” z -colombianas. Este povo habitou a região alta central chamada Altiplano Cundiboyacense e foi extinta aproximadamente no fim do século XVIII (ADELAAR & MUYSKEN, 2004).
mundo, mas ninguém conseguiu. Então veio um beija-flor, daquele grande preto e branco, e voou bem alto e depois enfiou o bico feito uma lança dentro da pedra e ela quebrou. Os Nambikwára saíram tudinho da pedra.
Após índios Nambikwára terem saído da pedra, eles se arranjaram em grupos distintos, os quais passaram a habitar regiões diferentes após a dispersão original. Apesar de o mito não explicar diretamente o porquê da diversidade linguística presente na família Nambikwára, o distanciamento geográfico decorrente da decisão de grupos distintos originários da mesma rocha pode corroborar com o pressuposto de distanciamento geográfico como critério para distanciamento linguístico das línguas da família. Pode-se especular também, a partir deste mito, que todas as etnias de grupos Nambikwára eram falantes de uma mesma língua (o Proto-Nambikwára) enquanto conviviam num mesmo espaço comum dentro da pedra original e que, com o passar do tempo, tendo em vista o distanciamento geográfico, a língua original foi modificada em línguas distintas que compõem o conjunto atual de línguas da família.
Pereira (1974), em sua coletânea de mitos dos Nambikwára, apresenta um mito referente à diversidade de línguas. Este é transcrito a seguir:
Dois moços fizeram facas. Tiraram leite de mangava, aprontaram algumas flechas e chamaram uma velha para ir caçar.
Encontraram uma perdiz e uma siriema. Perguntaram para a velha: -Essa perdiz aqui, como é que canta?
- Assim: aluterali... aluterali... - E essa seriema ali?
- Talá... talá...
- Como que você chama a perdiz? - Yalay.yalay.ralatia.
- E a seriema? -Yalay.ralaya.
Outro dia, os moços foram caçar e trouxeram uma ema e um veado. Perguntaram para a velha:
- Você sabe como ronca a ema? -Ela ronca assim: h h h - E o veado como faz?
- Bem assim: põk... põk... põk... - E como você chama a ema?
- Wayxhewayheri.yalay.ralatia. - E o veado?
- wayxhewayxheri.yalay.ratia.
Assim como essa velha fala diferente, assim Nambikwára, Branco, Iránxe, Paresí falam também diferente. (PEREIRA, 1974, p. 28-29)
O mito acima não nos foi contado em nossa pesquisa de campo, apesar de realizarmos tentativas para eliciá-lo. Decidimos inclui-lo por ele poder integrar a seção destinada à história dos Nambikwára deste trabalho e pelo fato de, apesar de ele não explicar a origem das línguas dos Nambikwára, ele pode expor justificativas para a diversidade de línguas na região.