Design Of The Beam Halo Counter
9.2 Calculation of Channel Sizes
Outro fator a ser considerado para a múltipla classificação ao número total de línguas que integram a Família Linguística Nambikwára, possui suas raízes atreladas a questões legais, referentes à Educação Indígena.
O distanciamento geográfico entre as aldeias, somados ao seu contingente populacional de cada uma delas e a dificuldade de mobilidade para ter acesso à escola, podem ser fatores relevantes para compreender as razões que levam cada grupo indígena Nambikwára a fazer uso dos nomes dos seus grupos correspondentes para designar o seu leto/ sua língua.
De acordo com o Caderno de Instruções do Censo Escolar da Educação Básica, publicado pelo INEP e Ministério da Educação (BRASIL. Ministério da Educação, 2017)85, a educação escolar indígena:
84 Oberg (1953) não expõe claramente os critérios para a sua classificação. No entanto, uma vez que ele faz uso
da localização geográfica dos diferentes grupos, consideremos que sua classificação foi baseada em critérios geográficos.
é oferecida exclusivamente para alunos indígenas. As escolas indígenas podem estar localizadas em terras ocupadas pelos índios, em qualquer processo de regularização ou até em áreas urbanas. Os professores dessas escolas são prioritariamente indígenas, e o ensino pode ser ministrado em língua portuguesa ou indígena e, de preferência, utilizando materiais didáticos específicos e diferenciados. As escolas indígenas são consideradas pelo Conselho Nacional de Educação (Resolução n° 03/CEB-CNE/1999) uma categoria específica de estabelecimento escolar e, por isso, possuem autonomia pedagógica, organizacional e gerencial. (BRASIL, MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, 2017, p. 46)
Ainda no mesmo documento, as línguas faladas pelos povos Nambikwára do Sul são tratadas como distintas, havendo atribuições de códigos de línguas diferentes, a serem utilizadas nas escolas indígenas, como está indicado no quadro abaixo86.
Figura 9: Línguas indígenas Nambikwára do Sul e seus respectivos códigos de acordo com o Ministério da Educação. Língua Código Mandúka/Nambikwára do Campo 231 Alaketesú 287 Hahaintesú 289 Halotesú 290 Kithaulú 291 Sararé 292 Sawentesú 300 Waikisú 301 Wakalitesú 302 Wasusú 303 Nambikwára 304
Fonte: Censo Escolar 2017 (BRASIL, MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, 2017, p. 95)
Como pode ser observado na tabela acima, as línguas indígenas Nambikwára do Sul totalizam um grupo de 11 línguas distintas. Esta divisão faz uso de termos diferentes das designações encontradas em textos que lidam com as línguas dos povos Nambikwára e
85
Fonte: http://download.inep.gov.br/educacao_basica/censo_escolar/caderno_de_instrucoes/caderno_de_instru coes_censo_escolar_2017.pdf , acessado em 01 de outubro de 2017
86
Por integrar o terceiro ramo linguístico da família Nambikwára, sem divisão interna, omitimos os
podem, portanto, causar confusão. Salienta-se que, em muitos casos a confusão é dada através da atribuição de nomes semelhantes ou mais de um nome a grupos distintos.
Dois exemplos que podem ser notados através da leitura dos dados presentes na tabela acima são:
1) a atribuição/ equiparação dos dois grupos do Cerrado, Mandúka com Nambikwára do Campo. Do ponto de vista das classificações linguísticas existentes, Manduca e Campo são grupos indígenas distintos, pertencentes a dois aglomerados linguísticos distintos, embora aparentados, pertencentes ao Ramo Nambikwára do Sul, habitantes da região do Cerrado mato- . , q ú, “ ” nomenclatura étnica semelhante, essa classificação torna a tarefa de decifrar o sistema, as convergências e divergências do que é língua e o que é variação dialetal ainda mais nebulosa; 2) A separação das línguas Halotesú e Nambikwára também pousa outro cenário difícil de ser discernido. Historicamente, todos os estes grupos indígenas são tratadas de Nambikwara, especialmente devido ao seu parentesco linguístico.
No entanto, como Reesink (2003) lembra, cada grupo tem autonomia de se autodenominar como tal. Os Halotesú, um grupo Nambikwara do Campo, se autodenomina como os Nambikwara. Seriam, assim, as línguas Nambikwara, Halotesú e Nambikwara do Sul a mesma língua ou de fato elas sugeririam línguas distintas por questões políticas, sociais e autônomas?
Apesar da divergência relacionada às línguas faladas pelos índios Nambikwára do Sul, a situação com o outro ramo de línguas Nambikwára, o Nambikwára do Norte, é bem distinta, uma vez que línguas desta família têm sido estudadas. Para o documento do censo Escolar 2017 as línguas Nambikwára do Norte são consideradas línguas distintas:
Tabela 14: Línguas indígenas Nambikwára do Norte e seus respectivos códigos de acordo com o Ministério da Educação. Língua Código Negarotê/Negarote 120 Lakondê 228 Latundê 229 Mamaindê 230 Tawandê 242
Fonte: Censo Escolar 2017 (BRASIL, MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, 2017, p. 94 e 95)
(2009) e Braga (tese em andamento), corroboram cientificamente com esta divisão. A mesma afirmação não pode ser feita com relação aos letos do Sul, uma vez que ainda não há estudos suficientes para mapear as proximidades e distanciamentos linguístico das línguas Nambikwára do Sul, a ponto de categoriza-los como línguas ou grupos dialetais efetivamente distintos.
Com base nas informações supracitadas e lançando mão da experiência advinda do trabalho de campo junto a grupos Nambikwára do Sul, utilizamos a proposta realizada por Telles (2013), a mais criteriosa e aceita na comunidade científica, e a subdividimos com base nas informações coletadas com nossos professores da língua. A presente subcategorização proposta pode ser observada na figura seguinte:
Figura 10: Família Linguística Nambikwára
Fonte: Elaborada pelo autor.
Família Nambikwára
Sabanê
Complexo Nambikwára
Ramo Nambikwára do Sul Ramo Nambikwára do Norte
GRUPO DO ROOSEVELT GRUPO DO GUAPORÉ CAMPO Nutajensú GUAPORÉ MANDUCA SARARÉ GRUPO DO CERRADO GRUPO DO VALE Hukuntesú Siwaisú Nensú Niyahlosú Wakalitesú Kithãulhú Halotesú Sawentesú Manairisú (Hahãintesú) Alantesú Waikisú Wasúsu Mamaindê Negarotê Tawendê Latundê Lakondê Tawandê Sowaintê
O presente rearranjo linguístico para o Ramo Nambikwára do Sul lança mão dos seguintes critérios: 1) distribuição e aproximação geográfica dos diferentes grupos em dois biomas distintos (Cerrado e Floresta Amazônica); 2) nível de inteligibilidade relatado por pesquisadores (PRICE, 1978) e pelos índios entrevistados87 em nosso estudo.
The Nambiquara region may be divided into three districts in accordance with the direction of drainage, and each has forest and savanna in different proportions. The Campo, which is drained by the Rio Juruena, contains poorland, where savanna and scrub predominate. Only about 5 per cent. of the area is forested. Many rivers flow through open country with hardly a single file oftrees along their banks. Small patches of forest at the source of tributaries look, in aerial photographs, like leaves along the fluvial stem. To the west, the savanna stops abruptly where the plateau falls away into the broad Guapore' Valley. Forest covers 85 per cent. of the region between the escarpment and the river. It is tallest where fertile soil has accumulated at the foot of the escarpment, and it becomes less exuberant to the west, with swamps and seasonal flood plains nearthe Guapore. In the North, in an area drained by the Rio Roosevelt andJi-Parana, riverine forests along medium- sized streams account for about 30 per cent. of the land surface. (PRICE, 1987, p.4)88
Assim, o Ramo Nambikwára do Sul seria constituído por no mínimo dois grandes complexos linguísticos (Nambikwára do Cerrado e Nambikwára do Vale), os quais comportariam diferentes grupos étnicos, e estes seriam, a depender da posição no contínuo a seguir, mais ou menos inteligíveis que os outros.
87 Durante a condução do presente estudo, um dos nossos professores desenhou um infográfico com base em sua
intuição e experiência com outros grupos Nambikwára traçando os diferentes graus de inteligibilidade linguística. Por motivos diversos, não houve possibilidade de ficarmos com o desenho realizado em uma de nossas seções e, uma vez que haveria uma possibilidade de não representar fidedignamente a proposta realizada pelo professor ao tentarmos reproduzi-lo no trabalho, decidimos omiti-lo. Apesar do não acesso do professor aos estudos científicos sobre as diversas línguas, sua representação afastava os grupos de línguas do Norte, do Sabanê e dos grupos do Sul. Estes eram organizados de acordo com suas distribuições geográficas e, por consequência, dificuldade de compreensão.
88 A regiãoNambiquara pode ser dividida em três distintos ao considerarmos a direção de drenagem, e cada um
deles apresentam floresta e cerrado em diferestes proporções. O Campo, o qual é drenado pelo Rio Juruena, contains poorland, onde o cerrado e arbustos predominam. Somente 5% da área é coberto por floresta. Muitos rios escoam pelo interior dificilmente com uma única fila de árvores ao longo de seus bancos. Pequenas parcelas da floresta nos mananciais dos rios afluentes parecem, em fotografias aéreas, como folhas ao longo do tronco fluvial. A oeste, o cerrado cessa abruptamente, na região onde o planalto se esvai em direção à imensidão do Vale do Guaporé. As florestas cobrem 85% da região entre o talude e o rio. É na região mais alta onde o solo fértil foi acumulado aos pés do talude, e ele se torna menos exuberante a oeste, com pântanos e planícies inundadas sazonais próximas ao Guaporé. Ao Norte, em uma área drenada pelo Rios Roosevelt e Ji-Paraná, florestas ribeirinhas de tamanho médio ao longo de riachos contabilizam cerca de 30% da superfície da região (PRICE, 1987, p. 4, tradução nossa).
O Grupo Nambikwára do Cerrado abarcaria dois grandes subgrupos dialetais 1) o Nambikwára do Campo (Halotesú, Kithãlhú, Sawentesú e Wakalitesú) e 2) Nambikwára Manduca (Hukuntesú, Nensú, Niyahlosú e Siwaisú).
Já o grupo Nambikwára do Vale, presente plenamente no bioma amazônico, englobaria os subgrupos dialetais do Guaporé (Alantesú, Manairisú, Waikisí e Wasúsu) e do Sararé (Nutajensú).
Cada grupo étnico pode possuir marcas linguísticas próprias de cada grupo em nível morfossintático e semântico. No entanto, uma vez que são relatadas possíveis diferenças no modo de falar de diferentes grupos, é provável que diferenças marcantes entre as variantes dialetais faladas por grupos étnicos distintos se dá por questões prosódicas e morfofonológicas.