Cícera detenham complexa
antes que Cícera enigmática
com o mordomo do rei fuja Com Cícera parlamentem decifrada
antes que Cícera transviada
o filho do rei seduza Demovam Cícera desmiolada antes que Cícera casta
o próprio rei conquiste (José Bezerra Gomes – Miragem)
A pequena Currais Novos, cidade conservadora do seridó oriental, pano de fundo para o romance de José Bezerra Gomes, se reencontra com o seu passado histórico numa narrativa que mistura ficção e memória. Há o registro de fatos que se sucederam e a menção a episódios que são mera criação do autor. Para a eleição dos fatos citados nos livros sobre a história da cidade, destacamos uma cena que se tornou parte do cancioneiro popular da região:
Algodão na folha estava dando um preção e haviam soltado tanto dinheiro nas feiras de Currais Novos que um homem das bandas da Zangareia tinha lavado o cavalo com cerveja e acendido um charuto com uma nota de cem mil-réis. (p. 15)
Quando se fala do período áureo do algodão, alguém sempre surge para relembrar a história de um sujeito que, tomado pela euforia da safra, esnoba feirantes e transeuntes na feira de Currais Novos.
A chegada do primeiro automóvel à cidade (no romance de propriedade de Seu Tota Alves), que tal qual impressionou os habitantes da ficção de José Bezerra Gomes, também chegou a amedrontar a população da Currais Novos do início do século XX, quando de passagem para Acari um rico senhor natalense descansou o motor do seu veículo juntamente com seu chofer, parando num dos bares no centro da cidade.
Sobre as personagens algumas são citadas nominalmente, outras tiveram a sua identidade preservada e outras mais são criação. Sabe-se que Os Brutos foi um livro que tumultuou o sossego dos poucos moradores da cidade, e em função desse fato a obra passou por uma espécie de processo inquisitório, chegou a ser
queimada por alguns como sinal de agravo ao autor. A grande queixa é a de que ele escondido por trás de um narrador sem isenção de opinião deixa transparecer seus ataques às suscetibilidades da comunidade, mesmo que no plano da ficção.
No enredo atua uma multiplicidade de seres que de vez em quando rouba a cena do narrador-protagonista. Para obter um melhor esclarecimento, faz-se necessário um detalhamento da participação desses atores que se movem no universo fechado da narrativa.
O primeiro deles é Lívio, o tio louco. Lívio é uma figura avessa aos padrões de conduta. Sempre às voltas num romance com a prostituta Rica, submetia-se às suas vontades e caprichos. Vivia cheio de doenças do mundo adquiridas com mulheres da vida.
O ápice da sua apresentação na obra concentra-se na cena que descreve o assassinato de Rica. Louco de ciúme do chofer Jesus, que andava cercando Rica de galanteios, Lívio, tomado pela insanidade, mata a sua amante com uma facada no peito.
A sua participação no romance ganha acentuado destaque pelo fato de o narrador ter uma certa predileção por esse personagem e por sua ação decisiva na formação do caráter de Sigismundo. O garoto orgulhava-se da vida mundana do seu tio, mentor e um dos principais responsáveis pela sua precoce iniciação:
Naquela casa eu era a única pessoa que se orgulhava de tio Lívio e tinha vontade de crescer, de ser homem, só para ser como ele: ter muitos filhos apanhados e muitas mulheres da vida.
Chamava-me para conversar, conversas de homem e isso cada vez mais nos ia ligando. (p. 24)
As tragédias na vida de Lívio sucedem uma a uma: a doença, o ciúme doentio, a loucura, o assassinato, a prisão.
A loucura de Lívio ganha relevo na prisão. Ele vê-se atormentado com a presença de um ser imaginário que passa a persegui-lo. Doido manso, vivia gemendo, rezando baixo ou falando sozinho. Sonhava com mulheres a noite toda. Dava pela falta de três dedos da sua mão e, mesmo que alguém lhe contasse os cinco dedos da mão, ele insistia em afirmar a existência de apenas dois:
Quando via alguém perto da cela, aproximava-se e mostrava a mão: – Tá... só tem dois dedos...
A pessoa contava os cinco dedos da mão dele e lhe dizia que não faltava nenhum.
– É mesmo... tem cinco...
Encolhia a mão. Pegava no meio da cabeça e a abaixava mostrando: – A dor que eu sinto é bem aqui apertando...
A pessoa saía, já estava longe e ele continuava de cabeça baixa, olhando para os tijolos e falando sozinho. (p. 36)
Em Os Brutos, o personagem Lívio representa uma desestabilização de um modelo social. O seu drama pessoal é um estigma familiar:
Tio Jeremias (...) também tinha sido um gastador e um jogador. (...) para Tio Lucas era que não havia conserto. Não endireitava nunca. Vivia pelo mundo jogando e fazendo dívidas (...) Tio Abdon era outro que só não estava na miséria, porque tinha uma estrela que o guiava e protegia. Perdia rios de dinheiro em jogo... (p. 44)
O narrador recorda o episódio do seu tio Dino, que fora estudar em Recife e voltara assobiando tango argentino, e o suicídio de tio André, que, assim como Lívio, foi vítima da paixão por uma mulher.
Analisando a morte de André e a loucura de Lívio como decorrência do envolvimento de ambos com mulheres, verifica-se a intenção de corroborar com a antiga idéia de que a mulher é portadora do carma da destruição do homem:
Tinha ocorrido que tio Lívio estava avariado, pois só mesmo um doido era que fazia o que ele fazia. Conversava sozinho o dia inteiro e de noite não dormia vendo sonhos de mulheres a noite toda.
Era o rapaz solteiro mais alegre de Currais Novos, conversando e rindo com todos, e agora ali na cadeia, depois que tinha matado Rica dormindo com uma facada no peito, era aquilo assim: alesado, contando os tijolos da cela, sem responder as perguntas e se escondendo das visitas e falando sozinho, quando eles se iam. (p. 39)
Sob essa ótica, a mulher é retratada como agente do mal, enquanto que o homem é sempre vítima e prisioneiro do jogo por ela criado:
Meu avô sabia de tudo e de desgosto não lhe botava mais a benção. Minha avó pensava que fosse coisa feita e estava fazendo novenas para o filho largar a puta. (p. 18)
Veja a esposa do Barão, que nem um nome possui. Ela transforma o marido num homem sem amor próprio:
(...) contavam até que seu Barão se vestia com os cortes de roupa presenteados pelos machos de sua mulher. Prestava-se a tudo. Eram quem levava e trazia recados dos homens para ela e muitas vezes ficava assobiando na sala, fingindo que não ouvia os suspiros da mulher vadiando
mais os outros na cama, dentro do quarto, ali pertinho dos seus ouvidos. (p. 17)
Ou a moça da cidade, que é acusada de empurrar André para a morte, quando rejeitou o seu amor:
Tio André demorou-se pouco e voltou com a dor fechada no coração (...) (...) um dia o seu cachorro voltou sem ele dos matos e foi direto se deitar nos pés de Mãe Zefinha.
Acharam o corpo pelos urubus. (p. 59)
Ou mesmo, a fogosa Rica, que era a amante de Lívio e objeto de adoração do narrador. Sigismundo nutre um sentimento afável, uma certa paixão oculta por essa personagem:
Meus olhos podiam olhar para onde olhassem: era Rica que eles estavam vendo, lá longe, nas cadeiras toda de encarnado, bonita como eu achava. (...) o sentido preso em Rica, gostando de estar assim, vendo Rica sem Rica me ver. (p. 17)
(...) não podia mais ver Rica que o meu coração se enchia logo de medo e de alegria e um grande desejo de estar vendo Rica sem Rica me ver tomava conta do meu corpo todo. (p. 19)
O seu papel no romance não possui grande dimensão. Ela morre no capítulo 12. O seu assassinato é uma banalidade nessa sociedade ficcional. As pessoas não lamentam, nem comentam a sua morte, com excecão das mulheres do Aterro: “A casa de Rica no Aterro estava repleta de povo que tinha vindo olhar a morta. Assim num canto da sala, chorava Ondina, chorava Chica Xenxém, chorava Maria dos Homens, choravam juntas todas as mulheres do Aterro...” (p.
35), mas se compadeciam de Lívio, o pobre homem que enlouqueceu, seduzido por uma rameira: “Mas meu tio estava cada vez mais de cabeça virada e só via terra que Rica pisava” (p. 18).
Percebe-se em tal fato o predomínio de uma visão carregada de preconceito, fruto de implicações sociológicas compreendidas na relação homem/mulher.
Nos romances de José Bezerra Gomes, observa-se a criação de diferentes tipos femininos. Em Os Brutos circulam prostitutas, beatas, mulheres santas, submissas, ousadas, marginalizadas e mártires. Em sua maioria elas têm uma pequena participação, embora ganhem destaque atuando nos bastidores na narrativa. Elas não possuem voz, mas são a todo tempo comentadas na narrativa.
O narrador atribui-lhes características vivas e as classifica em duas categorias, utilizando o critério do valor moral. Não importa se é rica ou pobre, casada ou mulher do Aterro. Ele mostra uma contradição existente no senso comum: A mulher do Barão, esposa exemplar aos olhos da sociedade, traia o marido de forma libidinosa: “Cortava o marido abertamente...” (p. 17). Enquanto que: “As mulheres da vida do Aterro eram mais fiéis aos seus homens e muitas pertenciam a um homem só (...) Eram putas, moravam de casa aberta, mas respeitavam mais os seus amores do que ela (a mulher do Barão), que era casada no padre e na igreja” (p. 17).
Outro personagem que chama a atenção do leitor é o sacristão. Usando uma visão de terceira pessoa, o narrador relata o episódio de João, o sacristão, e os pormenores do seu mundo psicológico. Fiel devoto dos preceitos cristãos e satisfeito em sua missão religiosa, porém infeliz com o fato de todos o chamarem
“Zé Munheca”, em virtude de ele não exibir sua virilidade para as mulheres do Aterro:
Apesar de tudo seu João, o sacristão, não estava satisfeito com uma coisa. (...)
Nos domingos vinha todo de branco, a roupa lustrosa de engomada, da casa do padre e entrava na igreja. Só vendo a sua satisfação na hora da elevação. Ficava todo orgulhoso e radiante, vendo que as moças e as mulheres e até os homens reparavam que era ele quem estava ajudando o padre na missa. E se sentia feliz, considerado cheio da graça de Deus e do respeito do povo. Porém o sacristão tinha um desgosto na vida. Os rapazes diziam que ele nunca tinha feito e lhe chamavam “Zé Munheca”. ( p. 25)
O narrador permite que o leitor se aproxime desse personagem ao ponto de penetrar na esfera do seu pensamento, o qual revela o perfil da sua sociedade revestido num drama particular. O fio condutor desse capítulo é a ida do sacristão a uma das casas do Aterro à procura de prazer sexual, senão por vontade própria, apenas para desfazer a imagem do “Zé Munheca”, apelido adquirido nas rodas de conversas dos rapazes da cidade. A repetição e inversão de termos dão à cena um certo realismo descritivo:
Ondina começou a tirar o vestido e ficou de combinação por cima do seu corpo cheirando a ela. O corpo era moreno e os cabelos pretos. O sacristão viu que o corpo da puta era moreno e os cabelos pretos, bem pretos.
(...)
Ondina deitada na rede olhou para o sacristão parado no meio do quarto. O sacristão parado no meio do quarto olhou para Ondina deitada na rede. (p. 25-26)
A linguagem utilizada é direta e enfática. Ao acompanhar os passos do sacristão até a casa de Ondina, o leitor tem a nítida impressão de estar presente a esse cenário.