No primeiro capítulo do manual, intitulado “Primeiras Lições de Coisas”, Calkins (1950) sinaliza que o princípio do ensino é conhecer a natureza da criança e saber como ela se desenvolve, sendo assim, apresenta nove passos que são a base para o ensino intuitivo:
a) É pelos sentidos que conhecemos o mundo exterior;
b) A percepção é o princípio da inteligência, por isso, necessário é estimular o desenvolvimento dela por meio da visão;
c) Uma noção nasce da percepção de semelhanças e diferenças, e isto permite discernir, associar e classificar as coisas, experiências e fatos; As faculdades podem ser debilitadas ou sobrecarregadas se aplicados exercícios que não estão ao alcance da criança;
d) Algumas capacidades mentais, como a percepção e a imaginação, podem ser alcançadas pelas crianças pequenas, outras, como a razão e generalização, somente são alcançadas por crianças maduras;
e) Um incentivo para que a criança aprenda é a associação entre ensino e recreação;
f) O bom ensino deve inspirar contentamento na criança;
g) A atenção é essencial para a aprendizagem, portanto, para torná-la um hábito é necessário que se aguce a curiosidade, satisfaça o amor pela atividade, sem sobrecarregar as faculdades e sem concentrar-se por muito tempo num mesmo alvo;
h) O ensino deve partir do simples para o complexo, ou seja, dos fatos para as causas, das coisas para os nomes, das idéias para as palavras e dos princípios para as regras.
Estes princípios apresentados por Calkins podem ser tanto relacionados com os de Comenius, contidos na Didática Magna, como também, vão ao encontro da proposta de Pestalozzi, que acrescentou aos princípios de Comenius uma feição afetiva, defendendo uma educação não repressiva. Estes três autores estão ligados
pela concepção de que o princípio da aprendizagem é a experiência, que a partir das impressões sobre os objetos, ou seja, pela utilização dos sentidos se chega à ideia ou concepção.
Como bem define Valdemarin (1998) ao estudar o manual “Lições de Coisas”, os sentidos são as janelas e portas que se abrem para o mundo, ou então, nas palavras de Calkins, “portas e janelas do espírito” (1950, p. 41). São eles os canais que possibilitam a comunicação do homem com o mundo exterior. Calkins (1950) explica a sua importância afirmando que os sentidos permitem as percepções e estas conduzem as idéias até a memória que as retém. A imaginação dá às idéias novas formas e o raciocínio confere-lhes o juízo. Também das percepções se tem a atenção que conduz à observação. “Enfim, graças à observação, à comparação e classificação das experiências e dos fatos, alcançamos o conhecimento” (CALKINS, 1950, p. 31).
Segundo o manual “Lições de Coisas”, a observação atrelada com a sede de saber da criança é a primeira coisa que o professor deve cultivar no aluno, pois a observação bem treinada produz hábitos de lucidez, de perceber e classificar, que permitem a aquisição de novas noções.
Ora, bem se evidencia que utilizada essa vontade de saber, ao passo que se satisfaz um desejo natural, estabelecem-se hábitos de observação, incuta-se grande soma de conhecimentos, a pari passu cultivam-se as faculdades de concepção, comparação, imaginação, raciocínio e juízo, avigora-se o talento de classificar e associar, lançam-se os fundamentos de uma educação profundamente prática. (CALKINS, 1950, p. 37)
O educador deve aproveitar a sede da criança em aprender para induzi-la a utilizar os sentidos, vendo, cheirando, manuseando, ouvindo ou saboreando. A seqüência sugerida por Calkins (1950) é iniciar pelo estudo e observação das coisas, depois passar às palavras (a identificação) e em seguida ensinar os símbolos representativos ou os sinais das coisas.
O manual, como já mencionado anteriormente, também era destinado aos pais, por isso, Calkins (1950) dedica-se em escrever sobre a educação doméstica dos sentidos. Em casa devem ser adestrados todos os sentidos, já que a escola, com seus exercícios, se limita à visão e à audição. Sendo assim, o manual traz exemplos de exercícios que podem ser feitos em casa para educar a vista, o ouvido,
o gosto, o olfato, o tato e a mão. Também nesta linha, há orientações sobre o ensino doméstico das formas, das cores e dos números.
No ensino doméstico dos números, Calkins (1950) recomenda que se ensine a criança a contar até dez utilizando os dedos ou objetos como maçãs ou botões. Para a familiarização com os números sugere que contem os passos, vidros da vidraça, árvores, etc. Estando a criança habituada a contar até dez que se ensine até o vinte, sempre contando objetos, sem contar mentalmente. Depois é necessário levar a criança a reparar as diferenças entre um, dois, três, etc.
Quanto ao ensino escolar, o primeiro item apresentado é lições para desenvolver a faculdade de observação e o uso da palavra. Considerando a importância da observação e a expressividade do aluno em todas as lições posteriores, evidencia-se porque Calkins (1950) coloca o tema em primeiro lugar. Nesta parte todas as lições se tratam de conversações que são conduzidas pelo mestre, portanto, com temas que partem do interesse dos alunos e logo, diálogos sobre objetos que lhes são conhecidos.
O manual pode ser dividido em treze grandes temas: forma, cor, número, tamanho, desenho, escrita, tempo, som, leitura elementar, qualidade das coisas, lições de coisas, corpo humano e educação moral. No início de cada tema há, antes de iniciar as lições propriamente ditas, uma breve introdução que contextualiza a importância do assunto, expõe os sentidos que serão desenvolvidos nos exercícios e traz orientações ao professor sobre a maneira que deve introduzir o assunto.
Dos treze temas do manual dois deles interessam a esta pesquisa por fazerem parte da Aritmética ministrada no ensino primário paranaense, são eles número e tamanho.