As perspetivas socioculturais em literacia incluem várias teorias focalizadas nos diferentes modos em que as pessoas usam a literacia em contexto, que inclui uma forte enfase nas relações de poder. Estas teorias têm importantes diferenças entre si e muitos no campo da literacia ainda não as diferenciam claramente (Perry, 2012).Segundo esta autora, as abordagens socioculturais da literacia estão relacionadas com conceções linguísticas dos modos como a linguagem representa a cultura, os modos como a linguagem varia com os contextos, as relações entre o uso da linguagem e o poder, e a etnografia da comunicação. A autora cita Halliday (1973), proveniente duma perspetiva funcional da literacia, sugerindo que a cultura se realiza através da linguagem. Assim, a linguagem nunca é independente do mundo social, como ocorre sempre moldada pelo contexto cultural. A literacia como uma forma de uso da linguagem reflete todos os aspetos com que se encontra relacionada (o poder, os modelos culturais, as relações sociais, valores, atitudes, entre outros). Os sociolinguistas têm descrito os vários modos como a linguagem é modelada de acordo com o contexto, que de acordo com Perry (2012) corresponde aos speech genres de Bakhtin (1986), aos discursos como “ identity kit” de Gee (1996) ou à linguagem como conjunto de práticas sociais de Bourdieu (1979). Segundo Perry (2012), a ênfase na cultura, na atividade, na identidade, no poder e nos contextos socioculturais em que a linguagem ocorre, gera abordagens que alinham com este ponto de vista ideológico. Respondendo aos apelos de uma compreensão situada da linguagem e da literacia, muito do trabalho empírico que levou ao desenvolvimento das perspetivas socioculturais emergiu da investigação etnográfica, análise do discurso, e outros estudos de casos situados de prática de literacia.
Embora não haja apenas uma teoria sociocultural em literacia, os académicos, por vezes, tratam as perspetivas socioculturais como unificadas e permutáveis. Uma vez que as diferenças entre as teorias se encontram unidas sob a capa de sociocultural, seria mais correto falar em perspetivas socioculturais como um conjunto de teorias relacionadas que incluem uma ênfase significativa
nos contextos culturais em que a literacia é praticada (Perry,2012; Nocom & Cole, 2009). As principais teorias dentro deste paradigma incluem a literacia como prática social, as multiliteracias e múltiplas literacias. As perspetivas socioculturais também têm em comum a ênfase nas relações de poder.
As principais abordagens socioculturais da literacia
A literacia como prática social já apresentada anteriormente é uma abordagem fundamentada nos trabalhos de Street (1985) realizados no Irão, e descreve os diferentes modos e propósitos como as pessoas utilizam a leitura e escrita. Esta abordagem opõe-se ao modo tradicional, estritamente técnico, neutro e descontextualizado em que a literacia é utlizada. Assim, Street posicionando-se no modelo ideológico considera a literacia como um conjunto de práticas, dependendo dos contextos em que as pessoas estão inseridas e intrinsecamente ligadas às estruturas culturais e de poder na sociedade. Isto implica o reconhecimento de múltiplas literacias que variam no tempo e no espaço e contestando o poder e questionando quais as literacias dominantes e quais as marginalizadas ou resistentes. Neste sentido, o New Literacies Studies (NLS) aparece como equivalente a literacia como prática social, opondo-se ao paradigma baseado na psicologia (Lankshear & Knobel, 2003). Assim, do ponto de vista da literacia como prática social, a literacia é o que as pessoas fazem, e porque o fazem, como a leitura, a escrita e textos em contextos de vida real. E, de acordo com Barton e Hamilton, (2000), salientando que estas práticas são mais do que ações com texto. São práticas ligadas e partilhadas por valores, atitudes, sentimentos e relações sociais. As relações sociais são cruciais, sendo as práticas de literacia melhor compreendidas nas relações com as pessoas, dentro de grupos e comunidades, mais do que como um conjunto de atributos do indivíduo.
Literacia Crítica. Tanto as multiliteracias como a literacia crítica, têm em
consideração as relações de poder. Os trabalhos de Street salientam a natureza ideológica da literacia enquanto Barton e Hamilton (2000), observam os modos
pelos quais as práticas da literacia são moldadas pelo poder. Kress, Jewitt, Ogborn, e Tsatsarelis (2001), dentro do campo das multiliteracias, criticam aqueles cujo foco se encontra na literacia da imprensa, sugerindo que este modo semiótico pode ser excessivamente privilegiado nas sociedades ocidentais. Em contraste, as teorias críticas enfatizam tanto o poder como o empoderamento, e recentemente têm-se expandido para incluir assuntos como a agency e a identidade.
Definindo literacia como leitura tanto do mundo como acerca do mundo, Freire (1989) reconheceu que a literacia é mais do que uma competência cognitiva e que inclui relações de poder. Para este autor, a literacia vai para além do domínio psicológico ou mecânico das técnicas da leitura e escrita. De acordo com este posicionamento a aquisição da literacia envolve uma atitude de criar e recriar conduzindo à autotransformação e a uma postura interventiva dos indivíduos nos seus contextos. Neste sentido a literacia é considerada como um processo de consciencialização, ou consciência, que significa tomar a palavra impressa, liga-la ao mundo e posteriormente utilizá-la com uma intenção de empoderamento. Para Freire, a literacia apenas tem sentido se levar o ser humano a refletir acerca da sua capacidade de reflexão, acerca do mundo, acerca da sua posição no mundo, acerca do encontro com a tomada de consciência.
Para além de Freire, outros teóricos críticos, também empregaram enquadramentos semelhantes. Através do trabalho etnográfico Brandt (2009) usou o conceito de sponsorship (patrocínio) para explorar os modos em que a literacia individual desenvolve ligações, em larga escala, a forças económicas. Para esta autora o sponsor (patrocinador) é qualquer agente local, ou distante, concreto ou abstrato, que suporta, regula, modela ou retém a literacia, ganhando vantagem através dela. De acordo com este posicionamento, os patrocinadores recordam-nos que a aprendizagem da literacia ao longo dos tempos tem requerido permissão assistência e negociação, entre outros aspetos relacionados com o exercício e detenção do poder.
Embora alinhando de várias maneiras com as teorias da literacia como prática social, Brandt traz as questões de poder para a primeira linha. Esta autora
salienta os modos em que a literacia atua como uma comodidade, algo que os indivíduos e os grupos se podem apropriar, sonegar, ou mesmo rejeitar. Ela sugere que os teóricos da literacia como prática social exageraram o poder do contexto local na determinação do significado e formas que a literacia assume. De acordo com Perry (2012), Brandt pretende restabelecer a somethingness da literacia em que a literacia é ela própria participante nas práticas e eventos literários.
Perry (2012) considera que embora esta perspetiva forneça um contributo muito importante no campo da literacia, também tem as suas limitações. Uma das críticas que pode fazer-se à abordagem da literacia como prática social é que a ligação entre literacy events e prática da literacia tem sido no mínimo vaga. A autora questiona como é que se pode inferir as práticas a partir dos events. No sentido de responder a esta questão, desenvolveu um estudo de casos múltiplos em várias comunidades marginalizadas, o Cultural Practices Literacy Study juntamente com Purcell-Gates tendo a utilizando a teoria da literacia como prática social como enquadramento teórico. O processo de análise que decorreu ao longo de oito anos permitiu desenvolver o modelo que representa a relação entre
literacy events e literacy practices. Assim, os académicos que trabalham nesta
tradição apresentam um conjunto alargado de modos de definir a literacia. Os que se situam na teoria da literacia como prática social tendem a focar-se numa definição de literacia que envolve a imprensa ou textos escritos. Os que defendem as multiliteracias não limitam a sua definição ao impresso e expandem a definição de literacia incluindo todos os sistemas semióticos. Do mesmo modo, enquanto o trabalho de Freire (1989) envolve literacia do impresso, ele também expande a sua definição de literacia para incluir a relação de quem aprende com o mundo, incluindo o processo de consciencialização, ligando o impresso ao mundo real com intenções de empoderamento.
Relacionando Diversidade e Literacia
Nocon e Cole (2009), analisando as relações entre literacia e diversidade, consideram que a perspetiva sociocultural em literacia fornece lentes uteis para analisar as complexidades dinâmicas do desenvolvimento de literacia dentro e fora da escola. De acordo com estes autores, as ideologias sobre a diversidade moldam as teorias/literacias baseadas na escola, em resposta às relações de poder e condições sociais subjacentes à escola. Na tabela 3.1 apresentamos a uma síntese das relações entre as ideologias da diversidade e a evolução do conceito de literacia de acordo com Nocom e Cole (2009).
Tabela 3.1 Relação entre Diversidade e Teoria da Literacia
Literacia como progresso Literacia como GateKeepeer Literacia como discurso Literacia como prática/ferramenta Diversidade como défice É um marcador do progresso cultural e étnico e de superioridade Pertence às elites que se tornaram membros do clube e que restringem o acesso aos membros da cultura dominante Diversidade como diferença A literacia é acessível a todos mas os caminhos da literacia académica devem ser abertos pela cultura dominante (Ex. mudanças na escola) São os discursos em que todos participam mas o acesso ao discurso escrito da cultura dominante deve ser negociado entre os educadores e os estudantes não pertencentes ao mainstream para alargar as oportunidades As literacias são iguais em valor e produzem mudanças ontogénica e culturalmente situadas na cognição e na prática de ferramentas da literacia respetivamente. Diversidade como recurso O controlo de mais do que um discurso permite a metaconsciência e o acesso enquanto os respeitáveis discursos de casa fortalecem a identidade A negociação de múltiplas literacias por todos, propicia o acesso de todos e fortalece e enriquece a aprendizagem e a prática de ferramentas de literacia
Esta tabela, corresponde a uma matriz que lida em diagonal, de cima para baixo e da esquerda para a direita representa um continuum atitudinal aparecendo nos extremos a diversidade como défice/problema e a diversidade como recurso no desenvolvimento da literacia. Para os autores supracitados, estes polos têm subjacentes outras dicotomias com elas relacionadas, sejam elas linguísticas (gramática prescritiva ou descritiva, segunda língua como aditiva ou subtrativa) ou epistemológicas (realidade objetiva ou subjetiva). Estas dicotomias e os dois polos estão associados com o controlo pelos grupos dominantes em oposição à ação individual e contribuição dos grupos.
A leitura da tabela 3.1 também nos permite perceber que concebermos a diversidade como um recurso implica uma atitude de aceitação e negociação das múltiplas literacias facilitando o sentimento de identidade e o acesso de todos à aprendizagem.
Perante o apresentado parece-nos, tal como Nocom e Cole (2009) referem, que uma abordagem à diversidade como recurso e um entendimento da literacia como ferramenta nos proporciona uma base útil de análise e posicionamento sobre a diversidade dos estudantes do ES.
Sintetizando, ao longo deste capítulo apresentámos os pressupostos básicos da perspetiva sociocultural; analisamos um posicionamento do ES como um contexto de múltiplas literacias que os estudantes precisam de dominar para serem bem-sucedidos, o que nos obrigou a clarificar o conceito de literacia e terminámos procurando estabelecer uma relação entre diversidade e diferentes abordagens à literacia.
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PARTE II
Estudo Empírico
CAPÍTULO 4
Como refere Coutinho (2011) uma investigação resulta da necessidade de resposta a uma questão ou questões que aquele que se propõe investigar pretende encontrar. As opções metodológicas por sua vez dependem dos objetivos do estudo e da natureza das questões de investigação. No sentido de uma melhor compreensão das opções metodológicas que nortearam este estudo começamos por apresentar os nossos objetivos, questões de investigação e faseamento do estudo.
4.1 Apresentação do estudo e Opções Metodológicas