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Um arquitecto a viver na Europa supervisiona a construção de um prédio nos EUA utilizando como meio de comunicação um “ultrafax”.

Este exemplo apresentado em 1954 por Norbert Wiener45

no livro "The

Human Use of Human Beings: Cybernetics and Society" é identificado por

diversos autores como a primeira referência ao teletrabalho (Lemesle 1994, Buser 2002, CDC, 2003). Wiener referia que "the bodily

transmission of the architect and his documents may be replaced very effectively by the message-transmission of communications which do not entail the moving of a particle of matter from one end of the line to the other ". A substituição do deslocamento humano pela transmissão de

dados era suportada por fax.

Num plano meramente conceptual, já no final do século XIX o autor de ficção científica Jules Verne apresentava no seu livro “Day of An American

Journalist in the Year 2889”(188946

) o modo como um editor em Paris e um jornalista nos EUA colaboravam, recorrendo, para isso, a um "screen

medium". Este instrumento de comunicação permitia falar à distância e

trocar informação escrita em simultâneo47.

Estas referências ao conceito de trabalho à distância, possibilitando o trabalho em casa, eram marcadamente diferentes do conceito tradicional do trabalho em casa. De facto, o domus laborum sempre acompanhou o desenvolvimento dos povos, atente-se aos exemplos de proliferação desta

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Norbert Wiener (1894-1966) um matemático que se notabilizou como o “pai da Cibernética” após a publicação do livro “The Human Use os Human Beings” (1954) uma revisão do livro do mesmo autor, “Cybernetics”, de 1948.

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Data da primeira publicação deste texto no The Forum de Nova York. A 1ª publicação em livro é datada de 1891 em França (fonte:

http://julesverne.ca/vernebooks/jvbkjournal2890.html (20-09-2005 ). 47

Outros autores fazem referência à possibilidade da utilização das tecnologias para potenciar práticas de trabalho à distância ter sido efectuada por empresas já no século XIX. Kugelmass (1995) refere existirem indicadores que a empresa Estrada de Ferro Penn, EUA, utilizava, em 1857, um sistema de telégrafo para apoiar e gerir os trabalhadores distanciados geograficamente.

prática durante a Revolução Industrial quando famílias inteiras trabalhavam em casa, num regime de remuneração por peça criada. No entanto, este trabalho não compreendia interacções constantes, nomeadamente interacções síncronas mediadas por tecnologias de comunicação, com outros indivíduos, como sugeriam os exemplos de Jules Verne ou Norbert Wiener.

No início da década de 70 alguns autores propõem uma mudança na organização do trabalho numa crítica à sociedade e economia industrial caracterizada pela concentração em grandes cidades de numerosos trabalhadores. Autores como E. F. Schumacher no livro “Small is beautiful” (Schumacher, 1973) defendiam um modelo económico baseado na descentralização e criação de pequenas comunidades de trabalho apoiadas por comunicação de base tecnológica (Huws, 1991).

O nascimento do telecommuting

Contudo, é Jack Nilles que em 1973 atribui pela primeira vez o termo

telecommuting para classificar o trabalho realizado em casa por meio de

tecnologias de comunicação em alternativa ao deslocamento para o local convencional de trabalho.

Jack Nilles, em 1970, enquanto cientista da NASA, propõe num estudo de projecção de aplicações tecnológicas para os anos 80, actividades de Telemedicina entre os EUA e África, sugerindo a comunicação via satélite como alternativa à deslocação física dos médicos. Em 1972, Nilles, já na University of Southern Califórnia, procura aplicar as suas ideias para resolver os problemas de tráfego na Califórnia. Um ano depois obtém uma bolsa para um projecto do Center for Research of Southern University California, sobre a aplicação prática da substituição dos transportes pelas telecomunicações. O termo telecommuting surge na designação desse projecto (Nilles, 1994). O estudo tinha como propósitos de investigação dar resposta às questões: “Podem as telecomunicações substituir algumas viagens?; Pode o tráfico diário ser reduzido através desta substituição?...” Era demonstrado, pela primeira vez, com este estudo as vantagens que poderia ter este novo modelo de trabalho,

“telecommunications can represent an economically attractive alternative to commuting, both for the commuter and the company” (Nilles, 1976: 84).

Factores impulsionadores Este estudo surge na Califórnia como resultado de uma conjectura que se caracterizava por:

Economia: a crise petrolífera dos anos 70 ameaçava os transportes pela ameaça da subida do preço dos combustíveis;

68 | Caracterização, enquadramento e tecnologias de suporte ao teletrabalho

Tecnologia: a invenção do circuito integrado em 1968 permitia o desenvolvimento de computadores mais pequenos e acessíveis; Tráfego e ambiente: o aumento do congestionamento do tráfego e consequente acréscimo de poluição;

Tecido empresarial: a crescente concorrência obrigava à procura de soluções que permitissem melhorar o desempenho (pela redução de custos, retenção de empregados, ...).

Estes factores permitiram que o telecommuting despertasse grande entusiasmo quer na comunidade científica, quer no tecido empresarial. Desta forma, não surpreendiam previsões datadas de 1985 de 15 milhões de telecommuters nos EUA para o ano de 1990 (Cano, 1999).

Paralelamente ao termo telecommuting surge a designação teleworking. Nilles, em 1982, diferenciava os dois termos:

Telecommuting vs teleworking

“telework – the use of computers as a primary communications tool in the workplace - can be conducted from centralized location just as easily as from a decentralized one, telecommuting implies decentralization” (Nilles, 1982: 58).

As duas designações48

partilhavam o conceito do suporte ao trabalho por via de telecomunicações, no entanto, telecommuting implicava, necessariamente, que esse trabalho fosse desempenhado a partir de casa.

Posteriormente, em 1994, Nilles classificava os dois termos:

“Teleworking: ANY form of substitution of information technologies (such as telecommunications and computers) for work related travel.

Telecommuting: the partial or total substitution of telecommunications

technologies, possibly with the aid of computers, for the commute to work” (Nilles, 1994: 12).

A diferença tornava-se menos evidente, telecommuting, com uma definição mais restrita, assumia-se como uma modalidade de telework. Assim, telework engloba não só a substituição parcial ou total da deslocação ao local de trabalho (telecommuting), mas, também, o trabalho complementar desenvolvido em casa após o período laboral e outras modalidades de trabalho à distância. A distinção não sendo clara, como Nilles afirma, torna-se menos clara na Europa, “in Europe, the situation is

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Outras designações para o mesmo paradigma eram utilizadas por diferentes autores. Destas destaca-se o conceito de “electronic cottages” utilizado por Alvin Toffler no livro “The Third Wave” (1980).

somewhat more confusing” (Nilles, 1994: 12). A Europa adopta desde

cedo a designação telework, e consequentes traduções para outras línguas49

face à ausência de um termo com significado equiparado a

commuting50

. Face ao enunciado, no decorrer da década de 80 e 90, registou-se uma utilização pouco rigorosa de ambas as terminologias, sendo a designação telework mais frequente na Europa e Ásia, mantendo os EUA preferência pela terminologia telecommuting.

Definições de telework Contudo, o conceito de telework não permaneceu inalterado ao longo do tempo. Diferentes autores classificavam o telework de diferentes formas:

“Teleworking’ therefore covers a broad spectrum of activities and can be used to describe any job that uses telecommunications outside the normal office situation to transfer work-related information back to the workplace” (Cano, 1999: 28).

A Comissão Europeia, que adoptou inicialmente o termo telework, classificava-o da seguinte forma em 2001:

“a method of organising and/or performing work in which a considerable proportion of an employee’s working time is: away from the firm’s premises or where the output is delivered; and when work is done using information technology and technology for data transmission, in particular the Internet” (in Schallaböck, 2003: 2).

eWork Recentemente, foi introduzido na Europa o conceito de eWork. O termo surgiu no âmbito da iniciativa eEurope lançada em 1999, sendo aplicado em substituição do termo telework.

A Comissão Europeia apresenta uma definição genérica para eWork decorrente da definição de telework:

“The use of computers and telecommunications to change the accepted geography of work” (DG INSFO, 2003: 252).

O projecto Emergence51

apresenta uma definição detalhada de eWork como:

“any activity that involves the processing of information and its delivery via a telecommunications link that is carried out away from the main premises of an

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A tradução portuguesa é reflexo desta situação: tele + trabalho (work). 50

Commuting refere-se à deslocação física para um local e consequente regresso, no caso específico da aplicação à área do trabalho, refere-se à deslocação para as instalações da empresa e regresso a casa.

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Projecto Europeu conduzido pelo Institute for Employment Studies, Reino Unido, e liderado por Hursula Huws. Classificação de ework disponível em:

70 | Caracterização, enquadramento e tecnologias de suporte ao teletrabalho organisation. This might be carried out in-house (ie by an employee of the organisation) or outsourced (ie by a subcontractor). It may also be carried out either away from traditional office-type premises by an individual working in isolation (eg at home or from multiple locations) or in office-type premises by a group of workers working together in a shared space.”

Apesar das diferentes designações indicadas para esta modalidade de trabalho, este documento, doravante, adopta a designação correspondente à tradução portuguesa: teletrabalho. Na apresentação de dados estatísticos poderá ser utilizado outro termo já referido. Nestes casos, e sempre que justificável, apresenta-se a respectiva definição tida em conta no estudo.

Neste sentido, o documento adopta a seguinte definição de teletrabalho: Definição adoptada

“desempenho de actividades de trabalho, de forma regular, em local distinto das instalações da organização ou organizações com as quais o trabalhador tem relações ou interacções laborais, mediando essas actividades por tecnologias de comunicação.”

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