A população activa em Portugal ascendia a 50% em 2000 sendo que 23% dos trabalhadores se incluíam no regime de auto-emprego ou trabalho independente (eWork, 2002). A significativa percentagem de trabalhadores independentes vem demonstrar que a implementação de práticas flexíveis de trabalho não deverá ser vista apenas do ponto de vista organizacional, mas igualmente do ponto de vista do profissional independente. O crescimento do teletrabalho na variante SOHO (ver Gráfico 12) é sintomático da importância que o grupo de trabalhadores independentes representa no conjunto de teletrabalhadores europeus. Procurando uma caracterização mais detalhada da posição de Portugal face às novas tecnologias, nomeadamente ao teletrabalho, esta tarefa reveste-se de alguma dificuldade fruto do reduzido número de estudos realizados para a especificidade do território português. Este facto pode ser verificado pela inexistência de informação detalhada e dedicada sobre Portugal em alguns dos estudos Europeus de referência como o eWork Report 2003 (DG INSFO, 2003). Os principais indicadores surgem nas estatísticas gerais para os diferentes países da União Europeia.
Contudo, e apesar das limitações em termos de dados estatísticos relativamente a aspectos específicos do teletrabalho, importa fazer uma resenha de alguns aspectos paralelos da dimensão nacional, nomeadamente a caracterização do perfil dos utilizadores de Internet. Esta clarificação assume premência no sentido de se clarificar a literacia digital, neste caso, de utilização da Internet dos actuais, futuros ou potenciais teletrabalhadores.
4.2.3.1 O perfil do cibernauta português
Na sequência da identificação de alguns indicadores sócio-económicos Europeus decorrentes do uso das TIC, ver ponto 4.2.1, importa, ainda, caracterizar sucintamente os utilizadores de Internet de Portugal.
Relativamente à distribuição etária dos utilizadores de Internet verifica-se que 61% regista idade inferior aos 30 anos (Vector21, 2003). A apelidada “geração Internet” encontra-se maioritariamente ainda fora da população activa ou a entrar nesse grupo. Desta forma, é expectável que a entrada desta geração na população activa importe novas práticas e hábitos no
que concerne ao uso da Internet como ferramenta de apoio ao desempenho do trabalho e a consequente difusão de práticas flexíveis de trabalho.
As habilitações literárias e profissionais
O mesmo estudo caracteriza os cibernautas quanto às habilitações literárias e profissões. A Tabela 7 demonstra uma tendência para a diminuição do predomínio dos utilizadores de Internet com habilitações literárias elevadas. De facto, estas práticas difundem-se pela população em geral.
Habilitação literária 2001 2002
Pós-graduação/mestrado/doutoramento 7% 4,3%
Com ou a frequentar o Ensino Superior 42% 32,5% Com ou a frequentar o Ensino Secundário 43% 45,5%
Com ou a frequentar o 9º ano 9% 17,7%
Tabela 7 – Habilitação literária dos utilizadores de Internet em PT (fonte: Vector21, 2003).
Relativamente às profissões com maior percentagem de utilizadores de Internet, os estudantes lideram com 42% seguidos de Professores, Quadros Superiores, Empregados do sector dos Serviços e Quadros Médios com 10%, 8%, 7% e 6% respectivamente. Exceptuando o caso particular dos estudantes, são os Quadros Médio-Superiores que registam um maior número de cibernautas, naturalmente, quadros com maior habilitação literária e literacia digital ou tecnológica.
Locais de acesso A Tabela 8 apresenta os locais preferenciais para acesso à Internet. Não se distinguindo nesta tabela os objectivos que motivam o acesso à Internet, a casa surge como local preferencial.
Local de acesso 2002
Casa 85,7%
Local de trabalho 36,8%
Escola 20,3%
Outro local 3,9%
Tabela 8 – Locais de acesso preferencial para acesso à Internet (fonte: Vector21, 2003).
Tarefas desempenhadas Atendendo às tarefas desempenhadas no acesso à Internet verifica-se que não são as actividades declaradamente lúdicas que lideram. A Tabela 9 refere que a Internet é utilizada, em maior número de vezes, para a troca de e-mails. O correio electrónico surge, assim, como a ferramenta de comunicação preferida dos cibernautas. De destacar que, aproximadamente, 50% dos cibernautas indicam que recorrem à Internet para apoiarem as suas actividades académicas e/ou de Formação. A este
84 | Caracterização, enquadramento e tecnologias de suporte ao teletrabalho facto não será alheia a proliferação de soluções de Ensino a Distância quer como complemento ao Ensino Presencial quer como solução para cenários de Formação Contínua, permitindo a designada formação ao longo da vida.
Motivações para a utilização 2002
Troca de e-mails 73,6%
Divertimento e lazer 63,6%
Pesquisa pessoal académica/Formação 48,5%
Fins profissionais 46,3%
Leitura de jornais 30,7%
Tabela 9 – Motivações para a utilização da Internet (fonte: Vector 21, 2003).
4.2.3.2 Alguns projectos de referência em Portugal
Numa sucinta caracterização de aspectos específicos que caracterizam Portugal ao nível das práticas de teletrabalho importa, ainda, identificar os principais actores e projectos que se têm afirmado nos últimos anos.
APDT | www.apdt.org
A promoção em Portugal do teletrabalho e das práticas a ele associadas tem sido liderada pela Associação Portuguesa para a Promoção do Teletrabalho. Do trabalho desta associação destaca-se a realização de vários projectos Europeus e a promoção de um importante evento de teletrabalho levado a cabo em 1998, o Telework 9866.
Figura 4 – Página de apresentação do site oficial da APDT em: http://www.apdt.org.
66
A APDT tem-se afirmado como parceira em diversos projectos dos quais se destacam pela sua dimensão ou mediatismo:
Projecto de integração profissional de deficientes pelo recurso ao teletrabalho
Projecto PORCIDE II / THINK: A versão 2 do projecto PORCIDE, cujo sucesso e mediatismo o tornaram no primeiro caso de sucesso a nível do teletrabalho a ser referenciado em Portugal. A versão II deste projecto Europeu tinha como principal objectivo a criação e apoio de uma rede de teletrabalhadores deficientes que desenvolveriam a sua actividade em áreas como: Help Desk de
Software, desenho de páginas web, programação, gestão de
processos, contabilidade e redacção. Através da sua participação neste projecto, cada teletrabalhador teria a possibilidade de adquirir as competências necessárias para colocar os seus serviços no mercado de forma regular, promovendo assim a sua integração profissional. Como principais parceiros contavam-se a PT Comunicações, S.A., Telemanutenção, Lda., Hewlett Packard Portugal, Telepac, Price WaterHouseCoopers67
.
Projecto para a
dinamização das regiões remotas
FLEXWORK: Projecto Europeu que pretendia dotar as empresas de regiões mais remotas de instrumentos que permitissem a concorrência em condições iguais às das grandes cidades. O projecto disponibilizava um conjunto de publicações que serviam como guias práticos de adopção de novas formas de trabalho flexível em pequenas empresas em áreas rurais e regiões remotas68;
Um portal e uma incubadora de empresas
Projecto Info-Viveiros: Projecto Europeu, em execução, destinado à criação de um produto empresarial que reúna as características de um portal com as de uma incubadora de empresas. Pretende reforçar a colaboração entre os sectores público e privado e dirige-se para a articulação de uma rede de entidades locais/regionais. O projecto procurará melhorar o acesso à informação de referência de âmbito e interesse empresarial. Procurará, ainda, facilitar o processo de criação de micro-empresas de serviços na área das TIC. De iniciativa, na implementação portuguesa, da APDT e a ANJE – Associação Nacional de Jovens Empresários o projecto conta, ainda, com parceiros espanhóis e franceses (fonte: http://www.apdt.org ).
67
Informação detalhada sobre o projecto em: http://www.apdt.org/docs/porcide.pdf
(13-12-05). 68
Informação detalhada sobre o projecto em: http://www.flexwork.eu.com/ (13-12- 05).
86 | Caracterização, enquadramento e tecnologias de suporte ao teletrabalho Vários outros projectos de dimensões variáveis foram e continuam a ser apoiados por esta associação.
Telecentro | www.telecentro.pt
Portal de informação de apoio a teletrabalhadores e empresas interessadas em implementar o teletrabalho. A face informativa de uma empresa de serviços na área do Teletrabalho, a Interwork69
. Disponibiliza informação variada e dá suporte à prestação de serviços em regime de teletrabalho.
Figura 5 – Página de apresentação do portal de informação telecentro.
O portal dispõe ainda de uma versão optimizada para apoiar teletrabalhadores com deficiência em http://www.telecentro.org.
Telemanutenção | www.telemanworld.com
A TELEMANutenção, S.A. tem desenvolvido a sua actividade como parceira próxima da APDT. Esta empresa privada cujas áreas de negócio incluem a venda de serviços de apoio à gestão e marketing de empresas, utilizando para isso uma rede de profissionais, que operam em regime de teletrabalho, foi das primeiras empresas portuguesas a assumidamente recorrer ao teletrabalho e a disponibilizar serviços a ele associados.
69
Figura 6 - Página de apresentação do sito web da empresa Telemanutenção.
Outros projectos e empresas têm sido referenciadas pela seu contributo para o desenvolvimento do teletrabalho em Portugal. A própria Portugal Telecom tem-se assumido como dinamizadora desta prática, quer pela participação em projectos, quer pela organização de eventos70
.