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MAINTENANCE PHILOSOPHY

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3.1 MAINTENANCE PHILOSOPHY

A tecnologia não atende apenas aqueles que preferem permanecer em casa quando podem escolher. Ela também busca facilitar a locomoção no espaço das pessoas que precisam ir à algum lugar. Muitas grandes cidades passaram a se equipar de maneira a fornecer dados para que seus munícipes transitem com mais eficiência. Mais uma vez trazemos a ideia dos “meios para conhecer” de Santos, quando o autor diz que “numa região desprovida de meios para conhecer, [...] a mobilização dos mesmos recursos técnicos, científicos, financeiros e organizacionais obterá uma resposta comparativamente mais medíocre.” (1997, p. 193). Nesse quesito, talvez o melhor exemplo de um meio para conhecer que, além de coletar dados, os torna estruturados, processa e entrega pronto ao usuário na forma de uma informação extremamente útil e inteligível, é o aplicativo para dispositivos móveis

Waze.

Para os pouco familiarizados, o Waze é um software gratuito em formato de aplicativo para dispositivos móveis que calcula e traça rotas de trânsito para seu usuário, após este informar seu destino. O conjunto de dados processados e os sistemas de comunicação digitais envolvidos nesse processo são surpreendentes em seus resultados. O Waze utiliza a localização por GPS (global position system), juntamente com um vasto banco de dados colaborativo, criado pelos próprios

usuários, para realizar o cálculo de rota, considerando informações determinantes, como tráfego congestionado, acidentes no caminho, comandos policiais, e uma série de outros eventos que podem atrapalhar o percurso. Assim, ele sugere a rota mais rápida, mesmo que seja uma rota alternativa. Também é possível escolher a rota por proximidade, mas no geral a rota orientada pelo menor tempo é a sugerida pelo padrão do aplicativo. Dentre as funcionalidades, também é possível visualizar outros usuários no mapa em tempo real, ver o tempo estimado de congestionamento, encontrar estabelecimentos, cadastrar seus locais preferidos como “casa” e “trabalho”, adicionar mais de um destino à uma mesma viagem, tornar-se visível ou invisível para os demais usuários, entre outras coisas que facilitam muito o transporte por veículos no ambiente urbano.

O sistema do Waze também é programado para estudar e “memorizar” os hábitos de seus usuários, tornando-se uma poderosa ferramenta personalizada. Após alguns dias realizando o mesmo percurso no mesmo horário, por exemplo, ele “entende” esse movimento como um hábito e manda alertas sugerindo o caminho. Ele também se integra à agenda virtual da pessoa e monitora o trânsito, enviando alertas que avisam com antecedência a hora que o usuário deve sair de casa para chegar ao compromisso no horário marado.

Quando analisamos o Waze como um serviço que ajuda indivíduos a encontrarem caminhos pelas tramas de um mapa urbano, pode parecer que sua função é a mesma que a de um aparelho GPS comum. Enxergamos, porém, dois principais motivos que fazem do Waze um ótimo exemplo de como as tecnologias de comunicação digital estão exercendo influência na realidade espacial das cidades:

1) o Waze é um software social e colaborativo: ele permite que as pessoas se comuniquem e colaborem umas com as outras. Se um Wazer (nome dado ao usuário do aplicativo) presencia um acidente, ele pode cadastrar com poucos toques esse evento no mapa real da cidade. Com isso, um alerta é disparado aos usuários próximos e o sistema passa a considerar essa informação no cálculo das rotas solicitadas à partir de então. Ele se encarrega de avisar a todos que pretendiam passar naquela rua. Dentro ainda sua sua característica social colaborativa, também é possível compartilhar caminhos e rotas com amigos, familiares ou a quem possa interessar, para que saibam para onde você está indo, de onde está vindo, como

está o caminho e a que horas o usuário vai chegar. O sistema mantém as pessoas atualizadas com informativos disparados de tempos em tempos.

2) a popularização dos usuários de Waze faz dele um sistema que rege o trânsito das cidades: tirando o fico do usuário individual e ampliando para todos os usuários, que em 2014 já somavam 50 milhões em todo mundo, o que temos é um sistema gerenciando o trânsito de veículos nas cidades, alterando rotas automaticamente e dividindo os fluxos de automóveis. O poder representado nessa atividade é gigantesco, pois atribui-se a um algoritmo, um sistema criado e programado por uma empresa privada, a função de administração do tráfego urbano. Ele pode criar ou dissipar congestionamentos, desviar rotas e causar uma série de outros acontecimentos imprevisíveis. No geral, podemos dizer que o Waze sempre busca amenizar aglomerações de veículos em uma única via, distribuir melhor a ocupação das vias públicas e engrenar melhor os fluxos de automóveis, mas os desdobramentos da utilização massiva do aplicativo são diversos. Positivos como uma pessoa que chega mais cedo ao trabalho, duvidosos como a possível alteração no número de acidentes de trânsito (para mais ou para menos?), ou negativos, como sugerir uma rota rápida, mas urbanamente insegura, como nos casos na cidade do Rio de Janeiro em que usuários foram guiados por caminhos dentro de favelas e acabaram assaltados ou mesmo mortos3.

Todas essas percepções de alterações efetivas na reorganização dos espaços acarretadas pelo uso de tecnologias de comunicação digital são pertinentes pois, quando falamos em “alterar o espaço”, não há necessariamente uma alteração física na cidade, uma edificação como um monumento representativo da mudança. O espaço, como visto no capítulo primeiro nos conceitos de Santos (1997) é justamente um conjunto de fixos e fluxos, de sistemas de objetos e sistemas de ações, com profundo valor social, ou seja, que depende da atividade humana, não apenas uma paisagem concretizada em objetos naturais ou artificiais. O autor explica que “o sentido que têm as coisas, isto é, seu verdadeiro valor, é o fundamento da correta interpretação de tudo que existe” (SANTOS, 2001, p. 32). Uma leitura semelhante é feita por Gabrioti:

Quando a sociedade age sobre o espaço, ela não o faz sobre os objetos como realidade física, mas como realidade social, formas- conteúdo, isto é, objetos sociais já valorizados, aos quais ela (a

sociedade) busca oferecer ou impor um novo valor. (GABRIOTI, 2012, p. 65).

Se consideramos a atribuição de novos valores à objetos do cotidiano como uma reorganização do espaço, assumimos que os símbolos e conteúdos presentes nos objetos representam parte importante na ontologia do espaço. Isto é, uma racionalidade que habita cada objeto, que apresenta uma proposta de uso, mas que varia com a interpretação subjetiva de cada indivíduo. A racionalidade do indivíduo e do objeto se chocam e resultam em uma outra, que por sua vez influencia o espaço. Portanto, o valor do espaço não é objetivo, mas varia com os conteúdos racionais atribuídos pelos que o habitam. Por isso, são diversos: “Há espaços marcados pela ciência, pela tecnologia, pela informação, por essa mencionada carga de racionalidade; e há outros espaços. Há os espaços do mandar e os espaços do obedecer. (SANTOS, 1997, p. 242).

Começam a tomar forma no horizonte tecnologias ainda mais novas que passam a trabalhar com o conceito e aplicação de realidades virtuais atribuídas aos espaços reais. São alterações tão profundas na percepção cognitiva humana, que é difícil prever quais serão os novos desdobramentos sociais e o que passaremos a assumir, enquanto sociedade, como realidade.

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