Por vezes, a cultura globalizada nos coloca diante do diverso. Antes da era digital, a possibilidade de visualizar uma notícia internacional iria depender da gravidade do acontecimento e dos recursos técnicos disponíveis para a transmissão
dessa mensagem. A notícia fluía por vias restritas e seu grau de penetração nas rugosidades do espaço social era menor. O espaço e o tempo ainda representavam barreiras a serem ultrapassadas pela comunicação. Mesmo com o rádio, a televisão e o telefone, a oralidade mantinha um nível de importância maior nas relações humanas. Não que a comunicação oral tenha deixado de ser importante. Ela continua sendo, por meio da linguagem, uma das melhores (senão a melhor) formas de expressão que o indivíduo pode desenvolver. Mas é inegável que a comunicação digital, via mensagens de texto em plataformas, ocupou um grande lugar na vida dos indivíduos e diminuiu a utilização oralidade face a face. Uma pessoa que exerça suas atividades pela internet, por exemplo, pode se comunicar com diversas pessoas, particular ou publicamente, sem que emitir uma única palavra sonora, tudo via mensagens.
Hoje, todavia, a generalização dos fluxos de comunicação nos coloca constantemente em contato com notícias e informações de realidades alheias. Ao obter conhecimento de outras culturas, de outros modos de vida, poderíamos supor que as comunidades humanas passariam a se entender melhor, seriam mais diplomáticas e menos violentas umas com as outras. Não apenas aquelas que habitam em locais diferentes, mas que possuem características físicas, culturais e religiosas diferentes. Já que todo tipo de informação é mais acessível que antes, poderíamos estar próximos a eliminar todo tipo de preconceito, que tem a ignorância como terreno fértil. Com o acesso à informação, as pessoas passariam a adquirir mais conhecimento e deixariam de ser intolerantes. Entenderiam com mais facilidade que existem outros modelos de vida e que o respeito é um valor verdadeiramente global. O que estamos querendo dizer é que a humanidade conectada por redes poderia ser o princípio de uma humanidade conectada por valores, pois estamos focando o pensamento na comunicação enquanto essência, e não necessariamente enquanto prática. É bem verdade que:
Novas palavras surgem para rotular velhas práticas ou velhas palavras são ressignificadas para caracterizar a nova força de práticas sempre existentes. Comunicação e informação dão nova potência a um dos mais sólidos arcaísmos: estar em relação. Mesmo se agora se trata de relações mediadas tecnologicamente. As ditas ciências da comunicação e da informação têm dificuldade para pensar o mundo sensível e compreender essa vibração em comum. Prefere-se então focalizar coisas aparentemente mais objetivas, deixando-se de lado o cerne da questão: o que
comunicar quer dizer? Estar junto, estar em relação, estar em vibração comum. (MAFFESOLI, 2003, p.16)
O pensamento do autor expressa bem o conceito amplo e pleno da comunicação, e parece não haver impedimentos técnicos para que ela prospere. Entretanto, nem tudo é técnica. Wolton (2006) observa a questão de outro ponto de vista, mostrando que o fato de estarmos mais visíveis e mais acessível, parece estar exercendo um outro tipo de influência sobre as pessoas. O contato com o diferente pode estar aumentando a tensão entre grupos e isso começa também a influenciar os espaços. Santos reconhece que “o período histórico atual vai permitir o que nenhum outro período ofereceu ao homem, isto é, a possibilidade de conhecer o planeta extensiva e profundamente.” (2001, p. 31). Essa possibilidade faz com que as diferenças culturais se evidenciem a ponto de gerar conflitos entre diferentes grupos sociais. Santos reconheceu que “as novas condições técnicas deveriam permitir a ampliação do conhecimento do planeta, dos objetos que o formam, das sociedades que o habitam e dos homens em sua realidade intrínseca.” (2001, p. 38), mas realizando um diagnóstico atual, podemos dizer que salta aos olhos novos movimentos de repressão, opressão, de crimes de ódio, separatistas ou ultraconservadores, que também se consolidam com base nas novas técnicas unificadas de comunicação digital, sendo que muitas vezes seus atos em si acontecem inteiramente dentro do ciberespaço. Da mesma forma como grupos se organizam através das redes para realizar manifestações em busca da liberdade ou da melhoria da qualidade de vida, há grupos que se utilizam das ferramentas para propagar atos de violência. O ponto é que, ao mesmo tempo que o acesso à informação nos dá conteúdo para sermos melhores enquanto humanos, também alimenta aqueles que procuram brechas para realizar atos vis.
Os movimentos terroristas, por exemplo, também passam a se apropriar da internet para mobilizar seus seguidores, propagar conteúdos de ódio, organizar ataques e conseguir informações estrategicamente valiosas de seus alvos. Unificar globalmente as bases técnicas de informação e comunicação é algo que apresenta benefícios surpreendentes, mas ao mesmo tempo vulnerabiliza questões de segurança internacional e individual, pois os meios de obter informações e programar os sistemas que realizam a vida passam a ser os mesmos em qualquer lugar do mundo. Casos emblemáticos como o de Julian Assange e os vazamentos do seu site, WikiLeaks, ou do grupo de hackers que se autointitula Anonymous,
revelam perspectivas importantes do novo cesto de possibilidades que a unicidade das técnicas de informação e o avanço da globalização trazem consigo. O acesso ao conhecimento é um recurso que serve a todos e ele pode ser utilizado tanto para fazer prosperar a compreensão mútua entre os povos, quanto para promover atos que declinam as relações diplomáticas. São consequências aparentemente inevitáveis da fase que a sociedade atravessa, que demanda uma série de novas reflexões.
Se busca-se abastecer globalmente a sociedade com uma série de objetos e sistemas técnicos que são unificados em suas aplicações e modos de uso, é preciso estar ciente dos aspectos negativos que isso pode trazer ao próprio sistema estabelecido.