O aprendizado consiste num processo de interações, formação de códigos e práticas comuns e compartilhamento de conhecimento. “Pode ser visto como a capacidade de
integrar diferentes tipos de conhecimento numa atividade industrial” (SCUR, 2006, p.
67). Os processos de aprendizado dependem de agentes e podem estar geograficamente circunscritos. Assim, pode-se afirmar que parte do conhecimento não é geral, nem universalmente disponível, mas extremamente contextualizado e localizado. Há, portanto, um estoque valioso de conhecimento tácito ligado a certas atividades em regiões, instituições ou pessoas.
O processo de aprendizado pode realizar-se por meio de instrumentos formais, como o ministrado em instituições de ensino; ou instrumentos informais, como a experiência adquirida na prática, muitas vezes relacionada também aos conhecimentos disponíveis no contexto local. Em ambos os casos, a proximidade geográfica pode desempenhar um
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papel fundamental para o aprendizado, pois ela reduz incertezas e custos das interações recorrentes, e permite acesso a parcelas de conhecimento que só estão disponíveis no contexto local, potencializando o processo inovativo.
Portanto, para aproveitar esse conhecimento disponível localmente, as firmas precisam de competências que demandam recursos e tempo. Ao estudar os padrões de inovação, Dosi (1988) sugere que o comprometimento de recursos inovativos depende da percepção das oportunidades tecnológicas por parte das empresas e da existência de incentivos que permitam que esses agentes extraiam lucros de seus investimentos em inovação.
Porém, o autor afirma que para tirar proveito dessas oportunidades tecnológicas, as empresas precisam compreender que “as características específicas, cumulativa e tácita
de parte do conhecimento tecnológico, implicam que tanto as oportunidades de inovação realizadas como as competências para alcançá-las são em boa medida locais e específicas à firma” (DOSI, 1988, p. 1137, tradução própria, grifo do original).
Dessa forma, quando um agente de um determinado setor ou em um aglomerado industrial – cluster – adota estratégias que o levam a uma trajetória tecnológica, há uma redução das incertezas no processo de inovação, estimulando um maior número de empresas a seguir certas opções tecnológicas. À medida que se empreende um maior esforço inovativo, maior é o corpo de conhecimento disponível e maiores são as oportunidades tecnológicas. Essa dinâmica funciona como um processo de retro- alimentação positiva, ou positive feedbacks, como descrito por Arthur (1990), que aumenta o ritmo de inovação em um determinado setor ou cluster.
Por esse motivo, Dosi (1988) afirma que “incentivos específicos, acoplados ao limite do paradigma [tecnológico], a cumulatividade, e a natureza local do aprendizado tecnológico podem explicar particulares taxas e direções do avanço tecnológico”
(DOSI, 1988, p. 1143). Sendo assim, quanto maior a adoção de inovações tecnológicas, maior será o investimento em esforços inovativos e tecnológicos.
No entanto, o conhecimento não é apenas o presente nas rotinas e na experiência dos funcionários de uma empresa, mas também o que subjaz em diversos outros elementos da empresa. Bell e Albu (1999), por exemplo, indicam que a tecnologia é um pacote complexo de conhecimento incorporado numa vasta gama de artefatos, pessoas, procedimentos e arranjos organizacionais. Esse conhecimento incorporado compreende
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especificações de produtos e projetos, propriedades de materiais e componentes, juntamente com vários tipos de know-how ou procedimentos operacionais disponíveis na localidade.
Para Bell e Albu (1999), a aquisição de uma nova tecnologia pode ser considerada um processo inovativo, porque diversos elementos tecnológicos adquiridos para uso na empresa são uma fonte de aprendizado. Isso se dá porque poucos componentes ou produtos tecnológicos são adquiridos e instalados prontos para o uso: normalmente, é necessário realizar diversas adaptações aos produtos comprados, ou pelo menos reconfigurar as atividades produtivas, o que exige esforços de mudança por parte do comprador. Isso significa que há um processo de aprendizado e não simplesmente a compra de uma nova tecnologia. Assim, não é possível idealizar as empresas como simples compradoras de tecnologia, mas sim como possuidoras de competências que permitem a mudança tecnológica.
Esses mecanismos de aprendizado, portanto, são especialmente importantes para o sucesso inovativo das regiões. O processo de aprendizado nas empresas “abrange as
relações usuário-produtor, colaboração formal e informal, mobilidade dos funcionários qualificados entre as empresas, e o spin-off de novas empresas a partir das empresas existentes, universidades e centros públicos de pesquisa” (BRESCHI; MALERBA,
2001, p. 819, tradução própria).
Do ponto de vista da empresa, a capacidade de aprendizado local depende da sua habilidade de estabelecer e manter ligações sociais efetivas e linhas de comunicação com as demais entidades presentes no aglomerado. Quanto melhores forem essas ligações sociais, melhor será o aproveitamento por parte da empresa da base de conhecimento local. Do ponto de vista do conjunto dos agentes, a eficácia do compartilhamento de conhecimento é condicionada à existência de normas comuns, convenções e códigos para a troca e interpretação de conhecimento, o que pode ser
chamado de uma “cultura local”. Nesses casos, formam-se vínculos mais fortes,
derivados ou mediados pela proximidade geográfica. Um exemplo desse fenômeno, descrito por Saxenian (1994) e bastante citado na literatura é a região do Vale do Silício.
“Nessa perspectiva, a proximidade geográfica frequentemente sobrepõe-se e combina- se com a proximidade técnica, organizacional e institucional para promover processos de aprendizado coletivo” (BRESCHI; MALERBA, 2001, p. 820, tradução própria).
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Sob essa perspectiva, é interessante ter em conta o que Rosenberg (1982) apontou sobre o papel dos esforços inovativos das empresas. Segundo o autor, os departamentos de P&D das firmas são propriamente o locus da inovação. Isso porque esses departamentos são os locais nos quais os esforços de geração e combinação de novos conhecimentos para geração de produtos ou processos inovadores se concentram.
No entanto, o conhecimento produzido com esses recursos e por esses profissionais não fica restrito ao âmbito da empresa e transborda para o entorno local. Dessa maneira, os esforços locais de P&D industrial beneficiam não apenas a empresa, mas um conjunto mais amplo de atores locais com acesso à parcela de conhecimento que extravasa das empresas.
Nesse sentido, muitos dos trabalhos que buscam avaliar o nível inovativo das regiões incluem medidas do P&D das firmas, não apenas como uma medida agregada dos esforços locais, mas partindo do pressuposto teórico de que esses esforços beneficiariam todos os atores locais. É o caso, por exemplo, do trabalho pioneiro de Jaffe (1989) que aponta que os esforços locais de P&D estão associados a um número maior de patentes nas regiões. De modo semelhante, muitos trabalhos posteriores como os de Acs, Audretsch e Feldman (1994), Feldman e Audretsch (1999) e Crescenzi, Rodríguez-Pose e Storper (2007) encontram a mesma evidência.
Por outro lado, os fluxos de conhecimento locais não se restringem àqueles oriundos de outras firmas. Como aponta Nelson (1996), a pesquisa universitária pode ser uma importante fonte de inovação para o setor industrial e espera-se que localidades com mais conhecimento universitário disponível apresentem maior desempenho inovativo. Essa temática também foi abordada por Jaffe (1989) com o intuito principal de avaliar os efeitos da pesquisa acadêmica sobre a inovação nas firmas, especialmente sobre a forma de spillovers mediados pela proximidade. O autor encontrou evidências que regiões que possuem dispêndios mais altos em P&D universitário apresentam maior número de patentes. Novamente, diversos estudos replicaram com sucesso os resultados de Jaffe (1989) em diferentes países e níveis regionais, como os trabalhos de Anselin, Varga e Acs (1997) e Fischer e Varga (2003).
Além disso, Audretsch e Feldman (1996) mostram que, devido aos transbordamentos de conhecimento, a propensão da atividade inovativa aglomerar-se geograficamente é significativamente maior que a atividade produtiva. Esse resultado mostra que a
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atividade inovativa (atividades de engenharia, P&D, etc.) está geograficamente mais concentrada que a produção industrial.
Portanto, a difusão de conhecimento e consequentemente os processos inovativos possuem expressiva dimensão local e são mais facilmente transmitidos quando há proximidade geográfica entre agentes. Essa proximidade não só facilita o próprio contato entre os agentes, mas também constitui um contexto específico que muitas vezes acelera e torna mais eficiente a transmissão do conhecimento local.