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Méthodes de dosage

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Chapitre 1 : matériels, techniques et méthodes

3 Méthodes

3.5 Méthodes de dosage

A originalidade da obra de Mia Couto constitui motivo de apreciação e admiração por críticos literários de vários países do mundo. O contacto do jovem escritor com as diferentes realidades de Moçambique terá sido fundamental para o seu interesse10 pela literatura como forma de comunicação interventora. Neste sentido, foi crucial o seu regresso à universidade, em 1985, e o reencontro com um ambiente de jovens estudantes preocupados com o desenvolvimento de uma consciência cultural mais consentânea com a realidade moçambicana, numa

ao apropriar-se da linguagem literária (exclusiva e particular), estará nesta lógica de análise perante um processo de reincarnação e aquisição de linguagem mítica, literária.

9 Na interpretação sociológica de Caudwell, citado por Giovanni Ricciardi (1971: 81), na sua obra intitulada Sociologia da Literatura, as palavras desempenham um papel fundamental na escrita narrativa, na medida em que elas são dispostas de maneira a representarem [o] fragmento da realidade [...], sacrificando-se a criação emocional à estrutura que dele deve resultar».

10 Ao tornar-se num escritor ou intelectual comprometido, que, de «plano teórico, a sua acção [desce(u)] ao plano de aplicação prática», Mia Couto cumpriu o preceito da sociologia do conhecimento ou do saber sobre a função do intelectual, defendido por Giovanni Ricciardi (ibid: 82).

altura em que se impunha a edificação da matriz simbólica da nação de acordo com os fundamentos da moçambicanidade.

No romance em estudo, é perceptível esse timbre nacional para o qual contribuiu o pai11 do escritor – o poeta Fernando Couto. Com efeito, o tipo de discurso com que Mia Couto constrói o romance parece sustentar a ideia defendida por Pires Laranjeira (1995b: 314), segundo a qual alguns escritores das ex-colónias procuram inventar uma linguagem literária diferente da língua usada pelo «colonizador». Na verdade, verifica-se tal tendência inventiva por parte do autor, tanto em poesia, como no conto e, particularmente, em Terra Sonâmbula, onde radicam expressões que mostram esse cunho de inspiração e que emergem do discurso quotidiano do povo, do universo ancestral do vasto território linguístico moçambicano. Moçambicanidade, nesta formulação, «não é uma essência mas um processo. O processo de expansão da língua, as rupturas daí decorrentes são pressupostos que tem (sic) permitido experimentar os limites da inventividade do idioma» (Saúte, 1998: 232). Significa também orgulho nacional e, como é óbvio, o orgulho tem que ver com a valorização de aspectos regionais transmitidos pelas línguas faladas no território moçambicano. E Mia Couto foge ao regionalismo, integrando, na sua escrita, elementos provenientes das várias regiões, conseguindo assim um alcance nacional e internacional.

Quando Mia Couto publica Terra Sonâmbula, estava-se, em termos literários, num período de transição. Pretendia-se destruir os factores residuais tanto da literatura colonial como da chamada literatura evocatória da guerra libertadora, esta última produzida nos primeiros anos da independência nacional, em substituição da poesia de combate. A invenção autoral era fundamental, pois acontece neste momento a duas vozes: uma exaltando a liberdade de imaginação de um país outro, explorando resolutamente dimensões expressivas da linguagem de forma peculiar, sem preocupação com a estética da «arte pela arte».

11 Mia Couto, numa entrevista a Fernanda Pratas, lembra a importância que os pais tiveram na sua formação intelectual, permitindo-lhe desenvolver com «sucesso a escrita e a oralidade», porque, conforme afirma, seu pai, poeta, era «um homem da escrita [...] e sua mãe, transmontana, era uma pessoa do universo da oralidade, com uma grande riqueza do ponto de vista de contar histórias» (cf. Ferreira, 2007: 64).

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No chamado período de «consolidação da literatura», segundo Pires Laranjeira, a literatura moçambicana começa a ganhar uma dimensão crítica e questionadora, principalmente por causa do alheamento da vida pelo desassossego resultante dos conflitos armados, interno e externo, que se instalaram após a independência. Desta feita, a literatura procurava corresponder à emergência da liberdade que se implantava no país, como prolongamento dos ventos que sopravam das Zonas Libertadas, substituindo pouco a pouco a «poesia protestatária e combativa» (Hamilton, 1984: 51) produzida na frente da guerrilha libertadora. Nessa altura, e conforme Nelson Saúte, citando Mia Couto, «a poesia tinha que ser militante, o poema devia servir» (Saúte, 1998: 225). Na verdade, a missão fundamental da escrita tinha que ver com a edificação de um país que lançava a sua semente no terreno da independência, exaltando, no cômputo geral, o «nós», o espírito de festividade colectiva representado pelo plural da modéstia que se sobrepunha ao valor do «eu» lírico. Por outro lado, a escrita surgia como instrumento de repúdio da guerra «que se movia internamente». Essa escrita representava um grito dos cidadãos anónimos que pareciam não compreender os motivos da guerra, pois, como podemos ler em Terra Sonâmbula, «a razão deste mundo estava num outro mundo inexplicável» (TS: 18).

Mia Couto encarna essa filosofia e utiliza a literatura para a libertação das almas alheadas. A exaltação dos sacrifícios sofridos por pessoas comuns faz ecoar a voz produzida pela palavra e pelo discurso empregados na obra literária. Porém, esta forma de produzir a literatura não só está enraizada na escrita literária de Mia Couto, como se revela fundamental para todo o seu percurso ideológico enquanto crítico social.

O autor de Vozes Anoitecidas vive de certa forma inconformado com a realidade social e cultural de Moçambique, por isso considera que «agora há que procurar o país real, esgravatar no chão quotidiano», tal como declarou na entrevista que concedeu a Nelson Saúte (1998: 228), «abandonando» a cultura tradicional da poesia. Na sua forma de ver e encarar o mundo, a prosa revela ser uma expressão mais ajustada que permite embarcar para um mundo de imaginação para elaborar e desvendar os mistérios da realidade moçambicana,

numa altura em que o materialismo aberrante causou miséria moral, a incapacidade de criar, uma espécie de paralisia obsessiva da inventividade artística.

Na sua obra, Mia Couto revela ser um escritor humanista que deplora a violência desumanizadora imposta pela guerra, pela fome e pela miséria. Ele tem um olhar imponente, assumindo-se como um viajante que usa o seu bloco de apontamento para registar os momentos mais sórdidos da jornada. Concordamos com Nelson Saúte quando afirma que Mia Couto é «irrepetível pelos obscuros e telúricos subsolos da humanidade», um autêntico «construtor de esperança» (Saúte, ibid.: 229) no terreno dos que perderam a perspectiva de viver. Nessa sua viagem pelo cosmos da criatividade, Couto constrói imagens que interpretam o mundo, recorrendo, várias vezes, à palavra e ao som que melhor reproduz as línguas e tradições moçambicanas. Em Terra Sonâmbula, o autor consolida o processo de uma escrita imaginária sobre um país também imaginário. É, na verdade, um escritor polimorfo não só no plano simbólico da sua escrita, como também na estrutura linguística dos seus textos.

Tzvetan Todorov, em Teoria dos símbolos, lembra-nos a história dos «rascunhos» saussurianos que se preocupavam com a «frase fónica»12, porque na sua óptica, a semiótica da imagem «não existe senão na imaginação do crítico que chega tarde de mais e ajuíza mal» (Todorov, 1979b: 293). Evidentemente, não obedecendo aos padrões formalistas, a narrativa da actualidade está preocupada não apenas com o significante, mas também com o significado, propiciando as imagens impressivas do mundo, resultantes das sensações que a memória favorece e que a leitura convoca.

Por isso, o pensamento criativo da literatura coutista orienta-se sob uma expressão compósita, rendibilizando as capacidades expressivas do significante e do significado, de modo a reificar um sonho que incentiva o inconformismo, tanto no plano literário, como no domínio sociopolítico.

Nota-se, igualmente, no romance em análise, uma escrita narrativa enraizada numa linguagem essencialmente baseada na fonética popular, o que,

12 «O que lhe interessava é a configuração formada por elementos do significante» (Todorov, 1979b: 292).

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muitas vezes, pode ser norteado por premissas de fundamentação identitária e pelo reflexo de expressão autêntica do realismo, do lirismo e da tradição. Veja-se, por exemplo, o seguinte passo de Terra Sonâmbula:

Escuta uma coisa de vez por todas: nunca houve nenhuns outros meninos, nunca houve nada. Ouviste? Fui eu que te apanhei, baboso e ranhoso, faz conta

tinhas sido dado parto assim mesmo13. Nasceste comigo. Eu não sou teu tio:

sou teu pai. (TS: 40)

A idiossincrasia da escrita literária de Mia Couto fundamenta-se, por assim dizer, nos modelos da gramática empírica do Português de Moçambique, partindo daí para a reinvenção lexical e sintáctica, em conformidade com a natureza das imagens que o autor pretende construir nas suas narrativas. A palavra, a língua e o discurso são recursos recorrentes nas isotopias14 da construção de imagens, que permitem moldar um território imaginário, um país possível no contexto político da guerra.

Roland Barthes considerava que «era absurdo apresentar imagens sem palavras» (apud Martins, 2011: 130). Ora, como que comprovando este pensamento, é notória, na escrita coutista, a preponderância da invenção lexical acerca das imagens de desolação, de esperança e do mosaico cultural tradicional, metonimicamente produzido em Terra Sonâmbula.

O romancista Mia Couto demarca-se, desta forma, de tantos outros escritores, não só ao nível do estilo peculiar, mas, sobretudo, na forma como ele se apropria dos recursos proporcionados pela estratificação dos níveis da língua portuguesa falada em Moçambique15. Ele procura englobar os diferentes grupos

13 O negrito é nosso.

14 Entenda-se «isotopia» (cf. Greimas, 1975: 87) como agregado de categorias semânticas que permitem leituras interpretativas da história no contexto imagético da guerra. Obviamente, serão múltiplas as interpretações e diversificados os significados gerados pelo texto que retrata situações desoladoras num tom imanentemente pragmático-literário, porém, carregado de «mistérios» e surpresa criativa através da palavra, da língua e do discurso.

15 Hildizina Norberto Dias (2002: 175) identifica três grandes grupos falantes de Português em Moçambique: o primeiro usa a língua portuguesa para as transacções comerciais e sociais, como língua de contacto; o segundo usa frequentemente a língua por causa da escola, é

linguísticos nacionais, colorindo a sua língua literária através de sistemas de fala com marcas regionais e populares.

Importa, por conseguinte, referir que, enquanto escritor cujas narrativas exprimem uma visão do mundo e, muito concretamente, do mundo em seu redor, procurando interpretá-lo através da construção de imagens diversificadas da moçambicanidade, Mia Couto fica dividido em dois parâmetros fundamentais na utilização da língua. Aproveitando os ensinamentos dos gramáticos Lindley Cintra e Celso Cunha, poderíamos talvez dizer que «ao lado da força centrífuga da inovação» contrapõe-se a «força centrípeta da conservação» (Cunha & Cintra, 1984: 4), uma realidade que, a nosso ver, parece pretender expandir e salvaguardar, ao mesmo tempo, a unidade da língua portuguesa, idioma falado por diferentes povos do território moçambicano16.

Terra Sonâmbula é um romance polifónico. Esta é, aliás, uma das características fundamentais da estética narrativa coutista, o que justifica a produção de uma textura melódica, influenciada, como referimos anteriormente, pela estrutura das línguas bantu, libertando-se assim, das tendências prevalecentes de utilização de um único tipo de discurso. Repare-se na complexidade semântica de um extracto como o seguinte:

basicamente constituído por estudantes, funcionários públicos e privados nos seus contactos quotidianos; e o último é formado por falantes que têm a língua portuguesa como instrumento normal de comunicação, procurando aproximar-se de uma forma europeizada da língua. Neste grupo estão os falantes que ocupam o estatuto da elite culta de Moçambique, constituída basicamente por académicos.

16 A língua portuguesa conheceu várias fases de evolução em Moçambique. No início, durante a fixação dos colonos, penetrou de forma tímida, receando a perda da identidade dos portugueses, porque «deixavam de lado os seus hábitos e costumes, adoptavam hábitos cafreais (sic)» (cf. Rosário, 1989: 27). O segundo momento ocorre, segundo Lourenço do Rosário (ibid.: 29), com a intensificação da actividade das trocas comerciais no interior da «colónia», para além da introdução das jornadas agrícolas nas plantações, sobretudo de sisal, algodão, chá, entre outras culturas. Outros factores que contribuíram para a expansão da língua portuguesa consistiram na fixação dos habitantes dos colonatos e no desenvolvimento da actividade dos missionários, para além da eclosão da luta armada a partir da década sessenta do século XX, adoptando o Português como língua da Unidade Nacional.

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Muito-muito eu queria lhe mostrar a existência de um outro ser, um outro comedor de seus jantares. Provar a total ausência de meu pai era para mim uma vitória. Entrei na luz do pátio vi minha mãe surdinando um canto. Nem eu disse nada, já ela se adiantou:

– Era ele! Era seu pai...

– Não era ele, mãe!(TS: 24)

Tendo em conta o nível de inspiração artística que fecunda a obra coutista, Pires Laranjeira (1995b: 314-318) esquematiza o «modo de moçambicanidade» no domínio da criatividade textual, considerando quatro aspectos importantes: «a criatividade linguística», «o realismo no traçado de acções e caracteres», «a intromissão, de chofre, do imaginário ancestral, que transforma o realismo social em realismo animista17» e, finalmente, o «humor», tópicos que retomaremos no capítulo sobre realismo e ficção em prosa literária.

Com Terra Sonâmbula, Mia couto parece estar a responder, por antecipação, às questões levantadas por Patrick Chabal, em Vozes Moçambicanas: Literatura e Nacionalidade (1994). Chabal coloca nesta obra duas questões essenciais. Uma tem que ver com a «origem da literatura», ou melhor, ele questiona os mecanismos como se processa a literatura numa dada região ou país que possa sustentar a sua existência efectiva, como pertença dessa região ou país. A segunda relaciona-se com o «papel que a literatura pode ter na identidade cultural e política num moderno estado-nação» (Chabal, 1994: 14). Afirmámos isto porque, se a literatura é a consumação do processo de construção da «identidade cultural de todos os estados-nação», o romance coutista participa entusiasticamente nesse processo reivindicando uma estética da cultura literária que fundamenta a autonomia de pensamento e de manifestação da sociedade, apesar da sua relação com a literatura eurocêntrica:

17 Na verdade, apesar de na sua maioria evidenciarem, através da língua, uma dívida impagável para com as culturas metropolitanas, os autores africanos têm consciências assentes nas temáticas e formas idiossincráticas das culturas africanas e dos seus próprios países. Ou melhor, as literaturas africanas vivem mergulhadas numa relação cosmogónica com a realidade folclórica do imaginário ancestral, representando uma parcela considerável da sua singularidade africanística.

As raízes das literaturas africanas actuais são deste modo complexas, e, em todo o caso, muito diferentes das literaturas europeias. Dado que o caso de Moçambique é ainda mais intrincado do que o de muitos outros países africanos, é importante discutir primeiro a génese e as características gerais da literatura africana contemporânea. Quero salientar aspectos principais: a questão da língua; a natureza da relação entre a literatura africana e a metropolitana; o laço existente entre a cultura e a literatura africanas. (Chabal, 1994: 16-17)

No caso de Moçambique, a construção da nação pressupunha transpor diversificadas barreiras residuais do sistema colonial. As divisões étnicas e as limitações linguísticas que caracterizam a maioria do povo moçambicano, as guerras que se impuseram após a independência roubaram a moçambicanidade18 que estava nascendo. Estes factores foram protelando o surgimento de uma nação, a família e a imaginação moçambicanas.

É importante sublinhar o facto de, ao nível da literatura e da arte, o processo de construção da nação pressupor a materialização de todo um imaginário linguístico, cultural e social. Na verdade, a arte e a literatura, como pressupostos que sustentam e sistematizam as características identificadoras do povo, da cultura e de outras formas de ser e estar, particularizam-se pela sua peculiaridade, pelo «seu conteúdo estético», como sustenta Álvaro Pina (1979: 9). Por conseguinte, podemos concluir com esta afirmação que a narrativa coutista não existe como um fim em si mesma, uma vez que é concebida em torno da comunicação entre o autor e o público, e se destina à comunicação artística. Ao recorrer a elementos de natureza humanística directamente ligados aos estratos sociais mais desfavorecidos, pretende representar sentimentos nacionais mais alargados. Terra Sonâmbula surge efectivamente na dialéctica de «criação-

18 Nelson Saúte (1998: 229), em Os habitantes da memória: entrevista com escritores moçambicanos, põe em evidência a indignação de Mia Couto, caracterizada pelo retrocesso verificado nas artes moçambicanas durante o período da guerra, pois «para a grande maioria, a guerra não representou nenhum estímulo de criatividade. Pelo contrário, apenas trouxe a morte, a ruptura com a terra natal, transformou milhões de moçambicanos em deslocados. [...] Morreu parte do projecto de construção da moçambicanidade [...] com alma própria».

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recepção», uma forma de comunicação artística que coloca o autor numa idiossincrasia estética precursora.

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