• Aucun résultat trouvé

Cinétiques sanguines du GHB

Dans le document The DART-Europe E-theses Portal (Page 185-190)

Chapitre 6 : Discussion

3 Acide gamma hydroxybutyrique

3.1 Cinétiques sanguines du GHB

A emigração, nas literaturas africanas de língua portuguesa, afigura-se uma realidade muito importante. Assume contornos diferenciados em cada espaço e momento. Obviamente, as realidades geográficas e os contextos históricos de Moçambique e de Cabo Vede não são coincidentes. As formas de emigração num território insular ocorrem em conformidade com as necessidades e as realidades da insularidade, da mesma maneira que as motivações num país continental assumem outras dimensões.

Apesar de a emigração ser um fenómeno que acontece em todo o mundo, ao nível dos países africanos, há duas razões que a fundamentam particularmente. A primeira tem que ver com o fenómeno da escravatura. Milhares de pessoas foram deportadas para realizar trabalhos forçados nas grandes plantações de sisal, chá e cacau, e para a exploração mineira, no Brasil, a partir do século XVI. A segunda relaciona-se com o início da prospecção mineira pelos boers e britânicos na África do Sul, a partir do século XX, atraindo muita mão-de- obra da região austral de África. Muitos homens passaram a trabalhar quer por contratos voluntários, quer por recrutamentos obrigatórios feitos pelas grandes

95

companhias mineiras. No norte, foram abertas outras frentes, principalmente pelas populações vivendo no arquipélago de Cabo Verde, que se deslocaram para a Europa e para a América do Norte em busca de oportunidades de trabalho para a melhoria das suas condições de vida.

Geralmente, as narrativas sobre o fenómeno da emigração usam a técnica da analepse, por causa dos contextos históricos, influenciando os processos de desenvolvimento dos países de origem dos emigrantes. Naturalmente, apesar dos recursos naturais disponíveis nos países africanos, a sua exploração está longe de alcançar os níveis médios atingidos pelas grandes economias mundiais e, na sua maioria, os seus povos continuam a viver abaixo da linha dos índices de desenvolvimento social e económico.

A analepse constitui, portanto, um meio através do qual as narrativas procuram descrever as viagens de aventura, muitas vezes audaciosas. De facto, tanto no romance de Manuel Lopes, em que o Padrim Joquinha, personagem importante na história, que escalara o Porto Novo, «instalando-se na pensão da Maria Lé, casinha de rés-do-chão» (CB: 134), como no de Mia Couto, em que a personagem Kindzu, que se estabelece em Matimati na sua viagem de barco, verifica-se uma certa interacção entre a narrativa de viagem e o romance. Estes fenómenos testemunham a assimilação da viagem pela aventura. Quer dizer, por detrás dos problemas que assolavam os dois países, as narrativas contemporâneas dramatizam um certo espírito de risco assumido pelas personagens. Álvaro Manuel Machado e Daniel-Henri Pageaux dizem que a «mítica» da viagem romanesca é:

[...] a garantia de um stock ilimitado de aventuras empreendidas pelo herói- viajante. Cada paragem – albergaria, casa, cidade –, cada encontro – sentimental, cómico, insólito –, cada país atravessado (ou, no século XIX, cada província), com os seus costumes e os seus usos, são outros tantos momentos, outras tantas ocasiões em que o herói é confrontado com um meio, com personagens estrangeiras que contribuirão para a formação textual e moral do herói. (Machado e Pagenaux, 2001: 45)

Curiosamente, estes fenómenos ocorrem de forma diferenciada nos dois romances, dadas as circunstâncias e os contextos em que são produzidos. Em personagens protagonistas, a emigração gera um certo cepticismo, uma dúvida que permite descortinar uma espécie de simbiose entre o sujeito e a história, tomando em consideração que as motivações e pretensões são delineadas com função simbólica. As personagens protagonistas como Mané Quim, em Chuva Braba, e Kindzu, em Terra Sonâmbula, simbolizam o sentimento das sociedades que, por causa dos problemas que enfrentam no seu dia-a-dia, procuram as soluções mais arrojadas, salvaguardando, porém, os valores morais e histórico- culturais.

Sendo Cabo Verde um arquipélago com características diferentes de Moçambique, as realidades estão em consonância com os contextos históricos em que os seus povos vivem. Desde sempre os cabo-verdianos mostraram-se favoráveis ao desafio, à determinação pelo trabalho e pela reconstrução da sua história intimamente ligada à Terra-Mãe. Por causa disso, Cabo Verde é um lugar onde a vida se divide entre o residir na ilha e o apartar das cercanias do mar para o continente, abrindo-se para o mundo material e psicológico, se quisermos corroborar os depoimentos de António Carreira quando afirma que

[...] nós cabo-verdianos, nos assemelhamos ao cavalo alado: não fincamos os pés na terra, nem chegamos ao céu, vivemos (e muito bem) de idealismo – uma característica dos ilhéus. Fazemos poesia e ficção (bastante válidos), mas descuramos, em regra, as coisas positivas, reais, os ensinamentos da história social e económica, cuja análise permite conhecer melhor o que foi a vida dura, a luta enorme travada com as forças da natureza e com os homens. E a melhor prova de ânimo valoroso do ilhéu é dada quando emigra e trabalha em outras terras. (Carreira, 1983: 17)

António Carreira confirma neste trecho a ideia de que o povo cabo-verdiano vive dois paradigmas diferentes, mas considera ser imprescindível prestar-se atenção ao trabalho feito na perspectiva da luta contra as forças da natureza. A falta de unidade territorial do ponto de vista da constituição física do arquipélago é motivo para as alterações constantes do regime climático e consequente

97

inconsistência das condições da natureza para a produção e desenvolvimento de actividades vitais para a sobrevivência das pessoas. Daí o surgimento do tal dilema que impele à dicotomia de forças interiores que se fundem na contradição entre o desejo de «sair» e a dúvida de «ficar».

A fácil navegabilidade do mar permitiu que, desde cedo, a emigração de Cabo Verde fosse possível. A partir do século XVI verificam-se as primeiras manifestações de saídas massivas para o Brasil, e dois séculos mais tarde abriu- se a frente dos Estados Unidos da América, encorajada pelos baleeiros e facilitada pela grande circulação local de navios de longo curso.

A partida para os EUA iniciou-se, em fins do século XVIII, quando os baleeiros norte-americanos começaram a pescar nas encostas de Cabo Verde. É por isso que, ao longo do século XIX, se criaram imensas comunidades cabo- verdianas em Boston, Providence, New Bedford, e outras regiões dos Estados Unidos da América. Portanto, assume-se que a fase mais importante do fluxo das comunidades emigrantes verificou-se durante o século XIX. Na sua maioria, deslocaram-se para o continente americano, fixando-se, para além dos Estados Unidos da América (país mais privilegiado), na Argentina e no Uruguai. O segundo país preferido pelos emigrantes cabo-verdianos é Portugal, onde imensas comunidades se fixaram, conforme testemunha o estudo feito por Carlos Fontes49.

O outro fenómeno que mais terá contribuído para aumentar o índice de diáspora dos cabo-verdianos relaciona-se com o fim da escravatura no século XIX, quando vários milhares de pessoas são movidos pela falta de mão-de-obra, principalmente no Brasil e em S. Tomé, onde trabalharam como contratados.

Nestes termos, e por causa da sua importância na transformação da estrutura da sociedade cabo-verdiana, o problema da emigração torna-se um tema fundamental para a classe intelectual, que dele tira partido e importantes ilações nos seus estudos, sobretudo literários e sociológicos.

Se, em Terra Sonâmbula, se descreve um tipo de emigração de natureza histórica, por causa da guerra, já em Chuva Braba são problemas de índole económica que levam Mané Quim a ter de partir com o Padrim Joquinha, por

causa de uma prolongada seca e falta de mantimentos que se abateram sobre Cabo Verde.

Muitas personagens testemunham uma vida marcada pela instabilidade e pela inquietação. A descrição que Manuel Lopes faz da natureza, do espaço e das próprias pessoas, bem como o isolamento das diferentes ilhas do arquipélago fazem crer que Chuva Braba surge como uma voz metonímica dos diferentes problemas do arquipélago.

O estudo feito por Mónica Maria Serpa Cabral sobre a emigração açoriana mostra que, nas condições de uma vida caracterizada pela insularidade, «a viagem torna-se [...] um destino a cumprir, a consequência inevitável da condição arquipelágica»50 (Cabral, 2010: 281). O homem transforma-se em objecto de mobilidade perante as forças impulsivas da vida. A personificação das atitudes de Mané Quim salienta a construção de um imaginário social que a ficção literária procura proporcionar. Este facto é similar à realidade portuguesa aludida por Álvaro Pina:

[...] alguns dos romances admiráveis da literatura realista portuguesa da época contemporânea representam «os seus protagonistas singulares ou colectivos, no processo mesmo de pela mudança no espaço procurarem viver melhor, pelo transporte a uma terra distante procurarem satisfação de necessidades materiais e espirituais urgentes». (Apud Ferreira, 2004: 193)

A correlação deste facto com a realidade cabo-verdiana leva a confirmar a ideia de que Manuel Lopes terá sido naturalmente influenciado pela leitura de obras de escritores portugueses. Essa analogia reside igualmente no facto de que a proposta de Padrim Joquinha consiste na preocupação de levar Mané Quim para o Brasil, onde ele possa satisfazer as suas necessidades vitais, como se pode ler na seguinte passagem: «Estou-te abrindo o caminho do futuro» (CB: 187). Há uma percepção de que a emigração é um recurso para que o homem prepare o seu futuro. Manuel Lopes afirma em entrevista que o que afinal se

50 Esta situação é similar ao que Padrim Joquinha pretendia fazer com o seu afilhado, Mané Quim, partindo para o Brasil onde se presumia haver melhores condições de vida.

99

passou com Mané Quim aconteceu igualmente com ele próprio51, foi como que o afiar de uma espada com a qual ele sofreria o golpe fatal.

Para lograr os seus objectivos, Joquinha subvaloriza a chuva que cai, porque constitui entrave à sua viagem com o afilhado, usando uma retórica argumentativa nos seguintes termos: «Que valor tem uma chuvinha destas para a vida de um homem, rapazinho? Que valor tem, me dize? A vida não é só isso, não é um aguaceiro que passa» (CB: 187). Note-se, de passagem, que a fundamentação de natureza realista da narrativa é feita com recurso a expressões apropriadas como o uso do diminutivo «chuvinha» e «rapazinho» pretendendo demonstrar a afectividade e sensibilidade do padrinho para com os problemas que o afilhado tinha naquele momento.

Esta tentativa de saída de Mané Quim ocorre como «errância do sujeito em busca da identidade»52, considerando que Joquinha toma isso como trunfo heróico essencial para convencer o afilhado, como forma de resolver esse problema imposto pela natureza e que grassa na ilha toda.

Para Joquinha, a justificação de Mané Quim e/ou de Lourencinho não tem o mesmo valor que a travessia para o Brasil, porque para ele, «Quanto a chuva, como também quanto a muita coisa, o mundo está mal dividido» (CB: 188). Mas o protagonista de Chuva Braba descreve de forma depreciativa a crença do Padrim como que para sustentar a ideologia de pôr os pés fincados sempre no mesmo lugar.

Trata-se de uma realidade imaginária e psicologicamente marcada pelo amor à terra,53 que ajuda a construir o universo ficcional da narrativa de Manuel

51 António Loja Neves e Maria Armandina Maia (s/d.: 76): «Quando escreveu Chuva Braba tinha consciência de estar a retratar o drama imenso dos cabo-verdianos, ter que partir quando deseja é ficar? Apercebia-se desse drama? - Claro que sim, o drama existia. Até comigo, a outra escala, deu-se o mesmo quando fomos enviados para Coimbra e não era preso. Sofria a mesma dor, embora por razões diversas».

52 Expressão usada por António Manuel Ferreira (2004: 193) a propósito das personagens de Branquinho da Fonseca.

53 A terra deve ser entendida como uma totalidade complexa física/biológica/antropológica, onde a vida é uma emergência da história da Terra, e o homem uma emergência da história da vida terrena (Morin, 1993: 50).

Lopes. A realidade não é para o escritor um facto apenas material, é também esse agregado de sonhos e imaginação com que erige os pilares da vida, os planos do futuro, e marca, por assim dizer, a sua identidade subjectiva. Neste sentido, o que mais identifica o cabo-verdiano não é o ser material em si, não é o vazio individual e infinito da vida, mas a sua profundidade identitária. Foi isso que fez Mané Quim duvidar da oferta do Padrim Joquinha – que prometera encantamento no Amazonas onde há todas as condições para o prosseguimento da vida do jovem, tributário da «ribeirinha mansa», sua terra natal54 – com as célebres expressões «quem vai longe perde a alma» (CB: 190); e «Quando não há alma, não há triunfo» (CB: 174).

A partida para outras terras como meio de salvação torna-se uma estratégia utilizada por Manuel Lopes para explorar o lado utópico da emigração, recorrendo a dois elementos da crítica realista que julgamos fundamentais aferir. Por um lado, o papel reivindicativo do protagonista em relação às circunstâncias da vida e ao desejo de encontrar uma solução possível para dirimir os problemas, para ultrapassar os impasses que apoquentam a sociedade; e, por outro lado, a sua ancoragem na realidade substantiva, recusando as políticas de abandono da ilha. E parece ser esta uma característica essencial a reter ao analisarmos a obra de Manuel Lopes, enquanto poeta, contador de histórias e, sobretudo, como romancista, sonhador e co-fundador da literatura modernista cabo-verdiana. José Manuel Leite Teixeira, em O realismo na escrita poética de Manuel Lopes, pondera esta atitude como «Viagem de sentido utópico (...) conduzida pela mão da própria poesia» (Teixeira, 2007: 82), caracterizando o autor de Chuva Braba como personalidade que inventou a expressão «fincar os pés na terra», no intuito de empenhamento cívico e literário como objectivo programático inquestionável.

Com a sua obra, Manuel Lopes convida-nos à imaginação, ao pensamento criativo, e a encarar a sua acção, enquanto escritor, com uma consciência crítica empenhada. Ele distancia-se da atitude de muitos outros que «falavam de tudo

54 Gaston Bachelard (2002: 9) considera que a «terra natal é menos uma extensão que uma matéria; é um granito ou uma terra, um vento ou uma seca, uma água ou uma luz. É nela que materializamos os nossos devaneios; é por ela que nosso sonho adquire sua exata substância; é a ela que pedimos nossa cor fundamental».

101

menos do povo, do seu meio ambiente, dos hábitos, da sua problemática», como ele próprio diz em «Reflexões sobre a Literatura Cabo-verdiana ou Literatura dos Meios Pequenos» (Lopes, 1959: 15), um artigo inserto em Colóquios cabo- verdianos.

Em contrapartida, Kindzu é uma personagem cuja deslocação ocorre dentro do território moçambicano, com o propósito de encontrar condições adequadas não só de sobrevivência, mas, sobretudo, movido pelo espírito de busca de soluções para acabar com a guerra que dilacerava o país e destruía a sociedade. Diferentemente de Mané Quim, cuja tentativa de emigração é motivada por factores de natureza económica55, em Terra Sonâmbula, as movimentações, quer internas, quer para além fronteiras, são produto de motivações humanas com forte expressão histórica, por causa da guerra. O objectivo de Kindzu não se limitava ao voluntarismo individual; pelo contrário, queria «ser naparama»; isto é, queria juntar-se a homens mágicos para combater o inimigo que movia a guerra. Desejava juntar-se aos «guerreiros de justiças» (TS: 31), dividindo-se «entre a escolha de um caminho de briga e a procura de um caminho calmo, onde residisse a paz» (TS: 31). Na sua óptica, e como que a deplorar a acção belicista, prefere distanciar-se, ensaiando uma fuga inteligente perante a razão de ser e não ser da revolta: «Afinal, eu estava como dizia o cantor da aldeia: no sossego sou cego; na timaca56 não vejo» (TS: 31-32). O principal propósito era mesmo encontrar uma solução definitiva, percorrendo o caminho da paz, da serenidade, sem medo de si próprio nem dos outros e da guerra.

55 Luís Romano, um cabo-verdiano no Brasil, considera ser lamentável que as secas ou as estiagens periódicas tenham sido motivo de desaparecimento tanto das tradições como de muitos homens, na medida em que «os campos tornam-se desertos, o homem, quando escapa, irradia-se ou, por força das circunstâncias, é irradiado para outros pontos diferentes e às vezes [...] embarca para longe, à procura de um pão seguro e uma sombra de paz» (Romano, 1954: 79).

56 Nas línguas locais da zona sul de Moçambique, «timaca» significa conflito, provocação que, muitas vezes, resulta em desinteligências entre pessoas, o que Mia Couto considera, no seu glossário, de «confusão, briga». Henri Junod (1996: 378), em Usos e Costumes dos Bantu - tomo I, dá exemplo dos «timhaka» que eram resolvidos ao nível dos pequenos distritos ou eram levados à capital, caso o dono da povoação não fosse capaz de os apaziguar.

Dans le document The DART-Europe E-theses Portal (Page 185-190)