Toda análise do discurso implica uma perda de controle por parte dos Sujeitos, ela coloca em questão a própria categoria de Sujeito, que se encontra dispersa numa pluralidade de práticas discursivas reguladas e dominadas por um interdiscurso.
Dominique Maingueneau
Desde fins da década de 1980, a incorporação das discussões bakhtinianas acerca da “heterogeneidade constitutiva” (princípio dialógico) na/da linguagem tem sido uma das principais responsáveis por deslocar o foco epistemológico das análises discursivas do “mesmo” (FD) em direção ao tratamento do “outro” que lhe é constitutivo. Por meio do conceito de interdiscurso, a AD se reordena no que Pêcheux (2010a) define como terceira fase da Análise do Discurso. A partir de então, a realidade interdiscursiva passa a ser o locus da constituição dos sujeitos e da produção de sentidos, haja vista que ambos emergem na/da contradição imanente ao processo enunciativo (MALDIDIER, 2003; 2011; MAZIÈRE, 2007). Maingueneau (2007) se engaja nesse contexto teórico incorporando o conceito de “interdiscurso” como o ponto organizador das sete hipóteses fundamentais do seu trabalho, quais sejam:
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Essa abordagem se assemelha à reflexão feita por Maingueneau (2007; 2008; 2011) acerca dos gêneros discursivos.
(I) O discurso é constituído na interdiscursividade, de modo que este é o espaço constituinte daquele;
(II) A interação semântica entre os discursos é decorrente de um processo de
tradução de interincompreensão mútua regrada;
(III) O interdiscurso funciona por meio de um sistema de restrições semânticas
globais;
(IV) O sistema de restrições semânticas globais é concebido como um modelo de
competência interdiscursiva;
(V) A categoria de discurso não deve ser vista apenas como um conjunto de textos, mas como uma prática discursiva manifesta textualmente;
(VI) A prática discursiva funciona como prática intersemiótica, integrando, portanto, semioses como a pintura e a música;
(VII) Cada formação discursiva funciona como uma espécie de esquema de
correspondência com os outros campos de seu ambiente sócio-histórico, tidos,
inicialmente, como heterônimos.
Tais hipóteses estão intrinsicamente relacionadas, o que significa que, ao explorarmos qualquer uma delas, direta ou indiretamente, estamos nos detendo sobre as demais. Tendo isso por pressuposto, a seguinte ordem reflete de forma mais adequada o modo pelo qual almejamos reler a proposta de Maingueneau (2007) no presente trabalho, a saber: (I) competência (inter)discursiva → (II) sistemas de restrição do discurso (sistemas de restrição semânticas globais) → (III) prática discursiva → (IV) esquemas de correspondência → (V) tradução de interincompreensão mútua regrada → (VI) interdiscursividade. Organizando-as dessa forma, temos por intuito refletir sobre a possibilidade de cada indivíduo estar apto a “dominar”, tanto sucessiva quanto simultaneamente, diferentes competências discursivas.
Segundo Maingueneau (2007), no âmbito do senso comum, imagina-se que cada indivíduo possua apenas uma competência, pois, em geral, infere-se que, para cada corpo, exista apenas um sujeito. Para o autor, essa estabilidade pode até ser considerada (imaginada) verdadeira para algumas personalidades públicas, quando identificadas completamente a um
certo discurso. Não obstante, ela é facilmente contornada se postularmos a existência de competências que funcionam por meio de regras simples. Não se trata, contudo, de propor modelos de propriedades de “objetos empíricos” para os “saberes”, subvertendo a perspectiva foucaultiana que trata do sujeito na interface entre as regras históricas e as práticas discursivas.
Diferentemente disso, trata-se de teorizar sobre as infinitas variações possíveis de esquemas semânticos elementares, numa tentativa de discursivização da proposta chomskyana de competência, para quem a linguagem funcionaria como um módulo cerebral. Se os conteúdos dos conhecimentos, isto é, as categorias semânticas consideradas através dos sistemas que as articula, são historicamente determinados e os sujeitos não escolhem “livremente” os seus discursos, deve-se explicar ainda como cada discurso manifesta uma estrutura una em meio à sua constituição na diversidade (MAINGUENEAU, 2007). Embora assuma a necessidade de renegar a naturalização da linguagem, tal como posta pelo Gerativismo, consoante Maingueneau, a AD precisa explicar ainda como cada indivíduo consegue produzir, de forma singular, inúmeros enunciados inéditos a partir de uma mesma FD. Nos termos de Hall (2003), resta à tradição estruturalista solucionar o problema dos processos de subjetivação da ideologia e dos discursos.
Nesse intento, Maingueneau (2007) retoma os raciocínios da externalidade, da descontinuidade e da raridade das regras discursivas em relação aos indivíduos, tal como desenvolvidos por Foucault (2008), para supor que, embora haja variação nos enunciados, torna-se possível sustentar que a maior parte deles não se modifica, o que corresponderia a levar ao extremo o “princípio de raridade” da filosofia foucaultiana. Tratar da competência na AD não significaria, portanto, subverter os postulados da discursividade historicizada. Ao contrário disso, representaria o avanço radical sobre o pensamento arque-genealógico dessa filosofia, de modo que a “raridade” mais extrema com a qual podemos contar, segundo Maingueneau (2007), é justamente a de propor sistemas de competência discursiva pautados na máxima restrição entre forma e sentido.
De tão pobres, esses sistemas de restrição (inter)discursivos (sistema de restrições semânticas globais) seriam passíveis de ser dominados pelos indivíduos, enquanto sujeitos, pois só agem e existem concretamente em decorrência das distintas práticas discursivas nas quais se engajam socialmente na/pela linguagem. Caso contrário, a completa opacidade da linguagem impossibilitaria a produção, interpretação e enunciação por parte dos interlocutores envolvidos em cada situação enunciativa.
Concordamos com Maingueneau (2007) que desconsiderar o relativo domínio da linguagem de cada sujeito no processo produção de sentidos é marginalizar as questões que busquem avaliar a complexa realidade vivida pelos sujeitos no âmbito da linguagem ordinária. Ao sustentar o conceito de “competência discursiva” e criticar uma espécie de “impregnação misteriosa para explicar a sua aquisição” (MAINGUENEAU, 2007, p. 54), o pesquisador reconhece a necessidade de se problematizar, em alguma medida, a “aquisição da linguagem” no quadro teórico da AD. Por um lado, cada enunciado carrega consigo a possibilidade de assumir um sentido-outro62, considerando que o tempo e o espaço (condições de enunciação) nunca são os mesmos e que cada emergência traz consigo a possibilidade do erro e do equívoco63, por outro, a associação histórica entre a forma do enunciado e o seu funcionamento64 semântico representam os “ditos” cristalizados como “já-ditos” por diferentes instituições sociais, trazendo consigo a possibilidade tanto de repetição quanto de transformação (MAINGUENEAU, 2007).
Assim, deve-se fazer uma distinção entre o possível e o certo a respeito do que se considera adquirir competências discursivas. O certo demanda simetria entre o significante e o significado, a total criação e controle do sentido, de modo que, paradoxalmente, o criador poderia causar a si mesmo enquanto criatura. Como se fosse possível criar algo a partir do nada, o sujeito criaria a linguagem e a colocaria em movimento, entre a emissão65
e a recepção. Diferentemente disso, o possível existe no campo do potencial, à medida que o sujeito, na “ilusão” da criação do sentido, em uma dada situação de interação, constitui as formas imaginadas de si e do outro. Utiliza-se, para tanto, de alguns sistemas de restrição discursivos adquiridos ao longo das suas vivências concretas, os quais os tornam competentes
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A ambiguidade na linguagem é constitutiva das línguas naturais, como nos ensina Pêcheux (2009). 63
Intencionalmente, fazemos aqui uma espécie de leitura pêcheutiana da proposta trazida por Maingueneau (2007). Entendemos que ela não é incoerente, pois ambos compactuam de uma mesma epistemologia discursiva anti-humanista.
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Courtine (1981) desenvolve um interessante raciocínio acerca das sequências discursivas de referência (SDR) e a memória discursiva. O autor retoma, para tanto, a contribuição saussuriana acerca das relações paradigmáticas e sintagmáticas da língua para propor um eixo vertical e horizontal nos estudos da memória discursiva.
65De forma semelhante, Orlandi (2009, p. 33. Grifos da autora) ressalta: “Como considero que a apropriação da linguagem é constituída socialmente, esse sujeito do qual falo não é, pois, o sujeito-em-si, abstrato e ideal, mas o sujeito mergulhado no social que o envolve, e preso, pois, da contradição que o constitui. Por isso, prefiro a noção de processo, de interlocução. Desse ponto de vista, diria que considero inadequada a terminologia que distingue condições de produção e condições de recepção, pois acredito que a noção de condições de produção abrange, como um todo, a emissão e a recepção. Se distinguimos emissão e recepção é por uma questão de fato e não de direito. Isto é, tanto emissor quanto receptor são, de direito, produtores da instância de interlocução,
à apreensão e distribuição parcial dos sentidos ao reconhecerem e falarem de acordo com as distintas FDs, as quais são capazes de transformar o possível em provável.
Assim, conforme Maingueneau (2007), um enunciador possui uma dupla característica: (I) ser capaz de reconhecer enunciados como “bem formados”66 a partir da formação discursiva da qual emerge; (II) ser capaz de produzir um número ilimitado de enunciados inéditos a partir dessa mesma formação discursiva. Cada sujeito está apto a agir em uma dada situação interacional, bem como a jogar, parcialmente, com as regras de um jogo no qual ele é efeito de identificação de uma posição-sujeito a uma dada posição discursiva67, a qual se define como: a) interdiscursiva, logo, não-hermética, fragmentada, descontínua; b) restrita, ou seja, rara, submetida a uma espécie de “princípio de pobreza” que a simplifica frente ao todo das suas relações (o interdiscurso é uma idealização, isto é, inapreensível); c) prática, isto é, materializada em uma dada situação de interação específica; d) esquematizada por correspondência, não-natural, não-arbitrária e não-biunívoca, o que quer dizer que não há transparência entre o dito e a FD na/da qual emerge; e) traduzível, representável68
, simbolizada intersubjetivamente por regras que compõem a enunciação; f)
plurisemiótica, pois pode ser linguística, imagética e sonora.
As reflexões de Maingueneau (2007) acerca das competências discursivas dos sujeitos nos usos da linguagem demonstram a necessidade de se retomarem as problemáticas que envolvem o sujeito e a cognição, abrindo possibilidades para se pesquisar suas capacidades de aprendizagem sem propor um retorno ao sujeito como mestre de si. Apesar disso, curiosamente, o autor não retoma tal discussão em seus textos subsequentes, de modo que as suas investigações não desenvolveram uma perspectiva discursiva que possa dar conta dos processos mentais em relação aos processos histórico-linguísticos.
Nesse sentido, os avanços trazidos por Maingueneau (2007) a respeito da relação entre os sistemas de restrição dos discursos e as competências discursivas não foram sentidos na mesma medida no esclarecimento de como os sujeitos conseguem “adquirir” discursos, quais mecanismos cognitivos estão envolvidos e como se organizam no pensamento humano. Na seção seguinte, analisaremos a manifestação do verbo ser como metalinguagem, em especial, através da forma “X é”, tal como proposta por Orlandi (2009), a qual, segundo
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Por analogia à competência chomskyana, definida pela capacidade intuitiva de cada indivíduo reconhecer quais proposições são gramaticais ou agramaticais na sua língua natural (CHOMSKY, 2010).
67 Esse conceito será relido por Maingueneau em trabalhos posteriores como “posicionamento”. Consultar o
verbete “Formação Discursiva”, em Maingueneau (2004a).
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Fazemos menção ao raciocínio de Pêcheux (2009), conforme apresentado na seção anterior, acerca do sistema da língua enquanto sistema representável.
pensamos, pode funcionar tanto como mecanismo linguístico de restrição discursivo/semântico, no sentido de Maingueneau (2007), quanto como metáfora ontológica, no sentido de Lakoff e Johnson (1985).