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É inútil procurar, além das análises estruturais, formais, ou interpretativas da linguagem, um domínio finalmente liberto de qualquer positividade, onde se poderiam desdobrar a liberdade do sujeito, o labor do ser humano ou a abertura de uma destinação transcendental.

Michel Foucault

Após termos avaliado os efeitos de verdade/objetividade da forma “X é...”, nesta seção pretendemos aproximá-la das contribuições teóricas de Pêcheux (2009) acerca do pensamento e de Maingueneau (2007) acerca dos sistemas de restrição semântica. Com isso, propomos avançar na relação entre a(s) aquisição(ões) de competência(s) discursiva(s) e a

inculcação de imaginários sociais. De forma específica, propomos associar as marcas de

metalinguagem tanto à possibilidade de um dado sujeito “adquirir” competências quanto à forma pela qual os sujeitos estariam aptos a se posicionarem a respeito das propriedades gerais dos discursos. Dito isso, sustentamos que os usos do verbo “ser” como metalinguagem apontam para eixos de restrições semânticas passíveis de ser internalizados pelos sujeitos, conformando, com isso, as imagens de si, do outro e de seus papéis sociais.

Propomos, então, um deslocamento conceitual que expande as marcas de metalinguagem de Orlandi (2009) do âmbito específico do DP para retomá-las no quadro do funcionamento geral da linguagem71. Segundo Maingueneau (2007), os sistemas de restrições discursivos não visam engendrar frases gramaticais, mas definir quais são os operadores de individuação discursivos, que têm por função “filtrar” os critérios em virtude dos quais alguns textos conseguem se diferenciar do conjunto de textos possíveis em uma mesma formação discursiva. Baseando-se nas contribuições de Granger (1974), o autor define a língua como

71 Devemos esse termo a Pêcheux e Gadet (2011a), que defendem a existência de um “processo geral de

uma estrutura prévia que se impõe ao discurso, uma espécie de “código a priori”. A esse respeito, Possenti (2004, p. 20) salienta:

Um certo discurso, uma determinada ideologia se materializa ou é veiculada pela

seleção sistemática de uma ou de outra estrutura sintática, conforme os “fatos” de

que se trata. Ou seja: o discurso que se veicula neste texto se veicula exatamente pela seleção de determinados recursos da sintaxe. O mesmo discurso (a mesma posição ideológica) poderia, é certo, ser materializado/veiculado de outra forma, porque não há relação biunívoca entre discurso e gramática, assim como,

evidentemente, as mesmas manobras sintáticas podem servir a outros discursos.

Num certo sentido, cada caso é um caso, demandando, por isso, uma interpretação.

No caso de Maingueneau (2007), que analisa o discurso dos cristãos devotos, a

seleção de determinados recursos da sintaxe ou filtragem funciona por meio de dois

dispositivos: (I) o universo intertextual católico, tido como o espaço onde circulam os interlocutores, as relações, as axiologias e as narrativas; (II) os múltiplos dispositivos retóricos acessíveis à enunciação religiosa (gêneros literários, modos de argumentação, etc.). A hipótese do autor é de que o modo como esses dois dispositivos são tratados por um dado discurso são governados por um mesmo sistema de restrições: o da semântica global que remete à competência (inter)discursiva (MAINGUENEAU, 2007).

Hall (2003), por sua vez, analisa as diferenças étnicas em distintas sociedades no âmbito do senso comum, a “ideologia sem inventário” gramsciana. Partindo das suas vivências como negro em dois diferentes sistemas culturais, como é o caso da Jamaica (seu país de origem) e da Inglaterra (país no qual viveu a vida adulta), o autor assevera que a atribuição dos adjetivos “negro” ou “branco” para os sujeitos é responsável por inscrevê-los em distintas cadeias de significantes, associando-os, com isso, a diferentes status sociais de acordo com cada sociedade. As diferentes formas de categorizar negros e brancos nessas sociedades são marcadas, principalmente, pelo fato de, na Inglaterra, a oposição branco/não- branco ser mais evidente, revelando status sociais/étnicos diametralmente opostos e bem definidos. Diferentemente, na Jamaica, ser negro, apesar de consistir no mesmo significante, se relaciona com uma categoria a mais, a dos “de cor”, que gozam de maior status frente aos “negros”.

Logo, segundo o sociólogo, se a sua cor negra era “evidente” na sociedade inglesa, não apenas pela forma como percebia a si mesmo, mas também pela forma como era percebido (há uma relação intrínseca entre ambas), na Jamaica, entre os seus familiares, ele não era considerado negro, pois a sua família era oriunda de uma classe social mais abastada no sistema social do seu país. Assim, ser negro na Jamaica, tanto quanto na Inglaterra,

“impõe” uma marcação negativa, embora as cadeias de significantes “mobilizadas” sejam diferentes. A associação entre os “de cor” e os herdeiros do sistema colonial inglês no que diz respeito às classes dominantes jamaicanas eleva o seu status, diferentemente, dos negros, associados aos trabalhadores braçais colonizados. Na Inglaterra, essa variação inexiste, entre o branco e o negro não há uma categoria intermediária, portanto, os (herdeiros dos) colonizadores e (herdeiros dos) colonizados são marcados por uma dualidade radical.

As possibilidades de individuação dos discursos são diferentes, pois, como afirma Hall (2003, p. 177), “é a posição dentro das distintas cadeias de significantes que ‘significa’, e não a correspondência fixa, literal entre um termo isolado e uma posição qualquer denotada no espectro de cor”. No caso jamaicano, há ainda algo mais interessante, a forma como nos tempos atuais, em uma sociedade tipicamente capitalista, duas cadeias de significados diferentes parecem se aproximar para conformar uma nova sobredeterminação sobre o ser negro em uma nova cadeia, quais sejam: (I) negro - preguiçoso - invejoso- traiçoeiro, conformada no período da escravidão e responsável pelos sentidos expressos acima, no comparativo com a sociedade inglesa; e (II) negro - escuridão ou “negrume” - inferno - diabo - pecado - condenação, conformada no discurso religioso evangélico. Ambas reforçam os aspectos negativos da negritude e têm se associado na atual sociedade de classes jamaicana como forma de manutenção da exclusão desses grupos étnicos em detrimento dos demais. A esse respeito, Hall (2003, p. 211) salienta:

Somos obrigados a dizer que há um conjunto complexo de articulação entre os dois sistemas de articulações entre os dois sistemas de discurso. A relação de equivalência entre eles não é fixa, mas tem se alterado historicamente. Tampouco é

“determinada” por uma causa única, mas resulta de uma “sobredeterminação”. Na

articulação entre os discursos de classe e raça-cor-etnia (e o deslocamento efetuado

entre elas que possibilita isso), este último é constituído como o “discurso dominante”, as categorias pelas quais as formas predominantes de consciência são

geradas, o terreno dentro do qual os seres humanos “se movem, adquirem

consciência de sua posição, lutam, etc” (GRAMSCI, 1971, p. 377), os sistemas de representação pelos quais as pessoas “vivem a relação imaginária com suas reais condições de existência”.

Diferentemente de Foucault (2008), que considera o conceito de ideologia subjetivista, haja vista que o mesmo pressupõe a existência de um sujeito que a adquira, Hall (2003) propõe, a partir da releitura da ideologia althusseriana, que ele funciona como meio representante e representado do mundo, não sendo possível a ninguém ter acesso a este sem estar imerso em uma visão ideológica. Cada pensamento está necessariamente vinculado a uma prática social e cada prática se refere a uma formação social específica. Ademais, para o sociólogo, os sentidos variam de acordo com a forma pela qual os diferentes sistemas de

representação se relacionam com os sistemas ideológicos em uma dada sociedade, estes não mais tidos como ideias falsas do mundo, como se faz presente no marxismo ortodoxo, mas como uma forma, dentre outras, de representar o mundo.

Esses sistemas são complexos e comportam cadeias discursivas, campos semânticos e formações discursivas, envolvendo diferentes séries de conotações, isto é, de cadeias discursivas. Assim, para o autor, discurso, sentido e ideologia se entrelaçam inseparavelmente nas disputas sociais que envolvem a afirmação das identidades, ou seja, nos embates em torno da legitimação de uma dada identidade frente à outra (o que eu sou o que o outro é), haja vista que o simples fato de um discurso enunciar (ser enunciado) mobiliza uma dada cadeia de significantes, responsável por definir a si e ao outro, atestando, com ela, a luta ideológica no campo da linguagem (HALL, 2003).

Não obstante, se estabelecermos correlações entre os estudos de Hall (2003) com os de Foucault (2008), torna-se possível ponderar que as diferentes identidades ocasionam, por meio da/na linguagem e de acordo com cada sociedade, uma maior ou menor inclusão no sistema político, econômico e cultural. O não-dito é tão importante quanto o dito quando nos referimos à inflexão dos significados nos discursos, pois o “ausente” é essencial para que o dito possa existir. Sendo cada enunciado descontínuo e singular, torna-se necessário avaliar qual o motivo de sua emergência e não de outro em seu lugar dentro de uma mesma condição de enunciação (FOUCAULT, 2008)72

. Na citação a seguir, como podemos notar, Hall (2003, p. 169) se utiliza do termo formações discursivas (FDs), atestando a sua proximidade com a filosofia foucaultiana.

O importante sobre os sistemas de representação é que eles não são únicos. Existem diversos deles em qualquer formação social. Eles são plurais. As ideologias não operam através de ideias isoladas; mas em cadeias discursivas, agrupamentos,

campos semânticos e formações discursivas. Ao ingressarmos em um campo

ideológico e escolhermos qualquer ideia ou representação nodal, imediatamente acionamos uma cadeia inteira de associações conotativas. As representações ideológicas conotam- convocam- umas as outras (sic).

Dito isso, se aproximarmos a problemática da ideologia, tal como pretende Hall (2003), do pensamento em Pêcheux (2009) e do corpo como dispositivo construído nas/pelas práticas discursivas de saber e poder(isto é, pelas experiências discursivas, de acordo com o

72 Em consonância com Pêcheux (2009), Hall (2003, p. 178) assinala: “[...] termos positivamente marcados

‘significam’ por causa de sua posição em relação àquilo que está ausente, não marcado, não dito, que é

impronunciável. O significado é relacional dentro de um sistema ideológico de presenças e ausências [...]” (HALL, 2003, p. 178).

raciocínio de Henry (1992)), como pretende Foucault (2004), torna-se possível propor a seguinte relação conceitual, tomando por base a citação acima: qualquer formação social → ingressarmos/escolhermos [experiência discursiva] → ideia ou representação nodal → sistemas de representação → cadeias discursivas → agrupamentos → campos semânticos → formações discursivas → cadeia inteira de associações conotativas.

Pode-se entender, então, que, em qualquer formação social, ao escolhermos uma ideia ou representação nodal entre as múltiplas existentes, estaremos apontando, necessariamente, para um sistema de representação social pensável em uma dada sociedade, sendo este definido pelas cadeias discursivas, agrupamentos, campos semânticos e formações discursivas que mobilizam a cadeia inteira de associações conotativas. Essa escolha não ocorre por um sujeito separado do mundo em si, mas pela forma pela qual ele está apto a representar parcialmente alguns sentidos possíveis pela associação entre essas marcas linguístico-discursivas/sistemas de restrição do discurso/ideia ou representação nodal e os sistemas de representação nos quais elas se encaixam em uma dada sociedade e em uma dada condição de enunciação.

Se metaforizarmos o interdiscurso (o conjunto total dos discursos em uma dada sociedade em um dado período histórico) na imagem de uma rede, seria possível supor que, independentemente do signo ou discurso enunciado, ele sempre estará em relação com o restante da rede, pois há uma conexidade externa constituinte entre a parte e o todo, de modo que seria impossível pensar a rede sem os pontos e os pontos sem a rede. Direta ou indiretamente, todos os discursos estão em relação, seja por oposição, seja por simples diferenciação, embora uns possam estar em relação mais privilegiada do que outros na constituição de um desses pontos em específico.

Seja na posição do sujeito que se percebe como enunciador, seja na do sujeito que se percebe como destinatário, o “discurso escolhido” não é coincidente consigo mesmo, de modo que o sentido desejado, materializado como prática de uma posição-sujeito, não condiz com uma posição fixa da formação discursiva. Retomando os termos de Maingueneau (2007), a tradução semântica opera na forma de tradução de interincompreensão mútua regrada e sua “interpretabilidade” seria possibilitada pelos esquemas de correspondência semântica. No caso da nossa investigação, o verbo “ser” marca a objetivação subjetivada do sujeito com o mundo, como se fosse possível perceber algo independente do real pensado (PÊCHEUX, 2009). Logo, conforme já foi exposto, tal verbo, ao funcionar como um marcador do

apagamento da subjetividade, possibilita a objetivação imaginada das identidades73 . Ao “internalizá-las”, o fazemos por meio de vivências que delimitam o nosso campo do poder, do dizer e, acrescentamos, do compreender. Vejamos a citação a seguir:

O que o professor diz se converte em conhecimento, o que autoriza o aluno, a partir de seu contato com o professor, no espaço escolar, na aquisição da metalinguagem, a dizer que sabe: a isso se chama escolarização [...] Enquanto ele for aluno “alguém” resolve por ele, ele ainda não sabe o que verdadeiramente lhe interessa, etc. Isso é a inculcação. As mediações, nesse jogo ideológico, se transformam em fins em si mesmas e as imagens que o aluno vai fazer de si mesmo, do seu interlocutor e do objeto de conhecimento vão estar dominadas pela imagem que ele deve fazer do lugar do professor (ORLANDI, 2009, p. 31. Os sublinhados são nossos).

Desse excerto, interessa-nos, especialmente, a menção de Orlandi (2009) à aquisição

da metalinguagem. A nosso ver, o uso do termo aquisição pela pesquisadora indica a

necessidade de a AD enveredar por trabalhos que tratem da aprendizagem e da aquisição. Se a AD, no período de sua emergência, privilegiava os trabalhos de caráter estritamente político, entendemos, no entanto, que, atualmente, se coloca a necessidade de ela enveredar por outras questões, como é o caso da cognição. Para tanto, atrelamos o “como se diz” (como se está escrevendo ou falando), referente à organização conceitual dos sujeitos sobre os seus conhecimentos (manifestação das imagens construídas/internalizadas), ao funcionamento discursivo do pensamento através de marcas linguístico-discursivas, tais como as marcas de

metalinguagem.

Avaliaremos no capítulo a seguir como a produção de sentidos está diretamente vinculada à organização metafórica da linguagem, de modo que definir algo é colocá-lo não só em relação com o que não está dito, mas também valorá-lo de acordo com um esquema metafórico internalizado.

73

Sobre o papel da história na naturalização dos sentidos e sua relação com a ideologia, consultar Robin (1977) e Gadet e Pêcheux (2010).

CAPÍTULO IV - A METÁFORA INATINGÍVEL: ANÁLISE DO DISCURSO, REALISMO EXPERENCIAL E SISTEMAS COMPLEXOS