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Comparaison avec les méthodes de binarisation interactive par recherche des contours

Efetivamente, os enunciados não são morais, e a língua não conhece marcadores éticos92.

Marie-Anne Paveau

Uma das experiências mais básicas das relações humanas é a atribuição de sentidos a si e ao outro. Ao enunciarmos, colocamos em prática uma imagem que nos identifica enquanto sujeito de consciência, como o “eu” que pensa e que possui capacidade para interpretar os enunciados expressos por “si” e pelo “outro”. Em uma abordagem naturalista, os sentidos parecem claros e a linguagem transparente, decorrentes da coerência interna do ser em relação à organização externa do mundo. Tanto quanto parece ser evidente que uma coisa/um ente inumano existe e é portador de certas características, os entes humanos também o parecem. Trata-se da evidência ideológica fundante das relações sociais: é claro que “eu sou eu”, “ele é ele” e “o mundo é o mundo” (PÊCHEUX, 2009).

Nos termos de Pêcheux (2009), como já afirmamos, a ilusão do sujeito como origem do sentido é necessária à própria produção do sujeito na linguagem. Em termos cognitivos, como é o caso de Lakoff e Johnson (1985), nossas estruturas conceituais são formadas pela prática exercida no/pelo mundo. Ao experenciá-lo, aprendemos e categorizamos de uma forma específica, associando determinadas características a determinados conceitos a partir de estruturas metafóricas construídas. Em sua grande maioria, não acessíveis aos sujeitos nos momentos de uso.

Dito isso, podemos entender que a linguagem se organiza, majoritariamente, para além da nossa consciência, sendo a sua materialização linguística uma das formas privilegiadas pela qual podemos avaliar o seu funcionamento. Aproximando ambas as teorias, a AD e o Realismo Experencial, mantém-se a ideia de que o todo da língua(em) é impossível aos sujeitos. Quando apreendemos o mundo, o apreendemos por regionalizações da/na linguagem, com as quais tomamos contato a partir das nossas experiências em sociedade. Para a primeira, a conformação do sujeito se dá na historicidade. Para a segunda, esse sujeito constrói experencialmente os seus sistemas conceituais através de categorizações e esquematizações. Apesar das diferenças relacionadas ao trato dos aspectos biológicos do ser,

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Citação no original : « Effectivement, les énoncés ne sont pas moraux, et la langue ne connaît pas de marqueurs éthiques » (PAVEAU, 2013, p. 86).

pode-se dizer que a metáfora funciona como categoria fundante da linguagem e da produção de sentido para ambas.

Ainda de acordo com essa aproximação, afirmamos que, em toda e qualquer situação interativa, os sujeitos percebem o mundo através de imagens criadas pela organização regionalizada do pensamento da/na linguagem. Sendo assim, tanto quanto a metáfora, os estereótipos devem ser considerados como categoria determinante das construções semânticas que fazemos de nós mesmos, dos outros e do mundo. Pode-se entender, então, que os estereótipos são fundamentais à metaforização de si ou daquele de quem falamos a partir de determinados esquemas cognitivo-discursivos. Através deles associamos sentidos não- naturalizados aos interlocutores no intuito de individualizá-los como seres a quem se destinam as falas, adjetivados pelas relações de autoridade (imagens institucionalizadas) percebidas, seguindo o raciocínio de Pêcheux (2009). Nesse sentido, quando definimos alguém (ou algo) em uma dada situação, predicamo-lo pela forma como aprendemos a “vê-lo” através da sua associação a determinado significante, possível pelo nosso processo de regularização da/na memória humana (cognitivo-discursiva). No dizer de Pêcheux (2010c, p. 52. Grifos nossos):

Haveria, sob a repetição, a formação de um efeito de série pelo qual uma

“regularização” (termo introduzido por P. Achard) se iniciaria, e seria nessa própria

regularização que residiriam os implícitos, sob a forma de remissões, de retomadas e de efeitos de paráfrase (que podem a meu ver conduzir à questão da construção dos estereótipos). Mas, sempre segundo P. Achard, essa regularização discursiva, que tende assim a formar a lei da série do legível, é sempre suscetível de ruir sob o peso do acontecimento discursivo novo, que vem perturbar a memória: a memória tende a absorver o acontecimento, como uma série matemática prolonga-se conjeturando o termo seguinte em vista do começo da série, mas o acontecimento discursivo,

provocando interrupção, pode desmanchar essa “regularização” e produzir

retrospectivamente uma outra série sob a primeira [...]. O acontecimento, no caso, desloca e desregula os implícitos associados ao sistema de regularização anterior.

A associação entre regularização, paráfrase, memória e acontecimento são fundamentais para a construção das imagens dos sujeitos em interação, as quais se constituem enquanto estereótipos (no sentido positivo, assim como a ideologia em Henry (1992) e o poder em Foucault (2004)). Seguindo esse raciocínio, os estigmas, as imagens, os rótulos (termos que podemos associar à estereotipia) são retomados nos processos de identificação produzidos pelas interações sociais em práticas discursivas específicas. Cada prática acontece pela retomada parafrástica, pela remissão explícita ou implícita, de imaginários constituídos anteriormente e atualizados na tensão entre o mesmo e o outro na memória dos coenunciadores. Ademais, a analogia entre memória, série matemática (aproximação parcial) e acontecimento discursivo parece se assemelhar às reflexões que realizamos a respeito dos

sistemas não-lineares. Cada acontecimento é absorvido ao recriar pela sua emergência a série de implícitos e paráfrases93 que podem manter ou interromper a regularidade prévia, reconstruindo de forma contingente uma série sobre outra. O acontecimento em relação à memória, portanto, “desloca e desregula os implícitos associados ao sistema de regularização anterior” (PÊCHEUX, 2010c, p. 52).

No caso da nossa pesquisa, entenderemos se tratar de um estereótipo positivo quando ele supõe o seu interlocutor numa “relação de igualdade”, autorizando a voz do outro e valorizando a sua imagem em decorrência da forma como o “eu” se identifica com o lugar do “outro”. Quando se trata de uma “relação de inferioridade”, isto é, da desautorização do “outro” em relação à imagem do próprio enunciador, entenderemos se tratar de um

estereótipo negativo. Curiosamente, estamos realizando aqui um duplo processo metafórico:

primeiro, o gerado por nós, como pesquisadores, pois associamos o termo positivo à valorização e o negativo à inferiorização; e, segundo, o dos sujeitos analisados, que são analisados pela forma como os seus ditos estão dispostos de acordo com o nosso dispositivo teórico.

Rego e Pinzani (2013), por exemplo, analisam os estereótipos acerca da pobreza no Brasil a partir da situação social das mulheres contempladas com o Programa Bolsa Família do Governo Federal brasileiro. Segundo os autores, o rótulo de membros perigosos e inúteis dado aos pobres no Brasil é responsável pela manutenção das estruturas de exclusão, não apenas através das condições materiais concretas da pobreza – ou seja, econômicas, mas também das simbólicas, na qual os pobres – ou excluídos, de forma geral – são responsabilizados e culpabilizados pela sua própria situação. A forma como os imaginários sociais veiculados reforçam ou atenuam o status quo é fundamental para a manutenção ou transformação da situação da pobreza no Brasil. Nesse sentido, os pobres vivem uma situação paradoxal: de um lado, são excluídos e humilhados pelo sistema econômico e jurídico do qual fazem parte; de outro, são “chamados” a se identificarem com o sistema que os exclui, sendo avaliados de acordo com o respeito às regras e às normas sociais que instituem a sua própria exclusão (REGO; PINZANI, 2013). A respeito da ausência de uma maior organização social em prol dos interesses dos pobres, os autores afirmam:

93No dizer de Pêcheux (2009, p. 165. Grifos do autor): “o espaço de reformulação-paráfrase que caracteriza uma formação discursiva dada aparece como o lugar da constituição do que chamamos imaginário linguísitico (corpo

Uma das razões principais disso consiste na interiorização da imagem negativa que o resto da sociedade, ou sua parte mais poderosa do ponto de vista ideológico, constrói da pobreza e dos pobres. Negatividade que passa pela atribuição aos

indivíduos da responsabilidade pela sua situação (como se eles tivessem escolhido

ser pobres, nascer em uma família pobre, ou que não cuida deles) a uma espécie de racismo que os vê como indivíduos antropologicamente ou – em termos mais

“modernos” – geneticamente diferentes do resto da população. No melhor dos casos,

a pobreza é estigmatizada como uma situação humilhante que – quaisquer que

sejam as suas causas – impõe silêncio e vergonha aos que nela se encontram. [...] A

privação de voz equivale à falta de reconhecimento do indivíduo como sujeito por

parte daqueles que o silenciam ou não querem ouvi-lo ou até não querem vê-lo, como se além do silêncio lhe fosse imposta a invisibilidade [...] (REGO; PINZANI, 2013, p. 35. Grifos nossos).

Desse excerto, interessa-nos destacar três questões inter-relacionadas, a saber: (I) a interiorização da imagem negativa acerca da pobreza e dos pobres; (II) a relação entre as escolhas dos indivíduos e a sua responsabilidade pela própria situação na qual se encontram; por último, (III) a relação entre voz, silêncio e invisibilidade. No que diz respeito ao primeiro, gostaríamos de retomar os argumentos que vimos defendendo até o presente momento. As imagens não são oriundas das estruturas naturais – inatas – dos indivíduos. Elas são interiorizadas, adquiridas na/pela linguagem pela forma como os sujeitos se relacionam em sociedade e aprendem a categorizar pessoas, grupos e coisas através das experiências vividas, sejam elas escolares, profissionais, familiares, etc.

Com relação à segunda questão, o imaginário hegemônico presente na sociedade brasileira incorre sobre uma perspectiva individualista de sociedade, típica dos sistemas político-econômicos liberais, que incutem nos indivíduos o imaginário de que são esses mesmos indivíduos os responsáveis pelos seus próprios méritos ou fracassos (pressuposto do sistema de meritocracia). Nesse sentido, independentemente das situações desiguais entre os indivíduos, eles são julgados pelo seu esforço para se incluir no sistema (de trabalho), sustentado pela ótica do trabalho produtivo (intelectual ou laboral) como impulsionador da lógica do sistema econômico (POCHMANN, 2003; 2004).

De acordo com Pochmann (2004), a marginalização social exclui os indivíduos das mais variadas formas de apropriação dos produtos sociais, dentre estes, o próprio conhecimento. No sentido contrário, a inclusão no sistema escolar de alguns grupos marginalizados economicamente não garante necessariamente a inclusão no sistema de produção, haja vista este se sustentar por uma lógica econômica, necessariamente, excludente. Essa lógica gera uma espécie de paradoxo entre inclusão e exclusão nas sociedades capitalistas: o da inclusão excludente.

No Brasil atual, a exclusão de parte da população brasileira do espaço escolar fundamenta a conformação de discursos como o da inclusão social. Dentre outros objetivos, esse discurso propõe a inclusão na escola para uma (possível) melhor inclusão no mercado. Sem a Escola, logo sem os conhecimentos técnicos, os indivíduos estariam desprovidos da capacidade técnica e das habilidades necessárias para a sua boa inclusão na sociedade de mercado, na qual o “ser” se associa ao “ter”, logo, o “ser cidadão” se associa à “capacidade de consumo” (POCHMANN, 2003; 2004). Assim, dispositivo fundamental de reprodução e difusão dos saberes nas sociedades ocidentais, tal instituição assumiu um papel de extrema importância na regulamentação, organização e legitimação dos imaginários sociais dominantes (ORLANDI, 2009).

Segundo Bauman (2008), quando nos remetemos à globalização, detemo-nos sobre uma sociedade individualizada, para a qual “a incompletude da identidade e a responsabilidade individual para a sua conclusão estão intimamente relacionadas a todos os outros aspectos da condição moderna” (BAUMAN, 2008, p. 183). E mais, “a ‘individualização’ consiste em transformar a ‘identidade’ humana de uma ‘coisa dada’ em uma ‘tarefa’ – e encarregar os atores com a responsabilidade de desempenhar essa tarefa e de arcar com as conseqüências [...] de seu desempenho” (BAUMAN, 2008, p.183). Em suma, “a modernidade substitui a determinação da posição social por uma autodeterminação compulsiva e obrigatória” (BAUMAN, 2008, p.184).

Destarte, na atualidade, o indivíduo se reforça como o “ser” transcendente, assemelhando-se, metonimicamente, à célula básica do corpo maior do sistema econômico, o qual parece assumir a lógica do a priori formal, pois as suas causas parecem ser imutáveis. Semelhante à determinação dos sujeitos pelas estruturas nos termos do estruturalismo94, no qual o social se sobrepõe ao individual – típico de alguns modelos teóricos marxistas, aqui há a determinação paradoxal dos indivíduos pelas estruturas de uma sociedade que sobrepõe o indivíduo ao social – típico dos modelos teóricos liberais no período da Globalização.

A sociedade em geral tem se interessado pouco em refletir sobre os fundamentos organizacionais da própria sociedade, como a inclusão excludente necessária ao sistema produtivo, seja pelo status que se pode adquirir na hierarquia de trabalho (mão-de-obra braçal ou intelectual), seja pela ausência de possibilidades de adquirir o status mínimo (desemprego – necessário à manutenção dos baixos custos de produção). Há, portanto, uma associação

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Para uma análise comparada da perspectiva estruturalista nos diversos domínios da matemática, da biologia e da linguística, consultar Piaget (2003).

entre mérito ↔ responsabilidade do indivíduo ↔ escolha do indivíduo ↔ esforço produtivo ou improdutivo ↔ posição social inferior ou superior ↔ status social inferior ou superior. Nesse viés, a inclusão significa a adaptação às estruturas imutáveis do sistema econômico vigente, tidas como naturais. No que diz respeito às contradições simbólicas no âmbito da linguagem, Bourdieu (2013, p. 28. Grifos do autor. Tradução livre) sustenta que:

A visão do mundo social, e, muito especialmente, a percepção dos outros, da sua hexis corporal, da forma e do volume do corpo, e especialmente do seu rosto, e também da sua voz, da sua pronunciação e do seu vocabulário, se organiza, com efeito, segundo oposições interconectadas e parcialmente independentes das quais podemos ter ideia identificando os recursos expressivos arquivados e conservados na língua, especialmente no sistema de pares de adjetivos que os usuários da linguagem legítima empregam para classificar os outros e julgar suas qualidades e nos quais o termo que designa as propriedades imputadas aos dominantes representa sempre o valor positivo95.

O excerto acima é clarificador no que concerne à relação entre linguagem, axiologia e sociedade. Para Bourdieu (2013), todos os aspectos da percepção dos outros, incluindo a forma como o “eu” valora o “outro” de acordo com a própria significação que este dá à sua existência social (no sentido de valor social atribuído a si mesmo - hexis corporal) e o modo como o “eu” atribui sentido ao corpo, ao rosto, à voz, à pronunciação e ao vocabulário deste “outro”, são definidos por uma espécie de paridade adjetiva que valora o “outro” negativamente sempre que este passa a ser simbolizado como oposição aos valores dos grupos sociais dominantes em uma dada sociedade. O poder de evidência (simbólico) surgiria, portanto, da internalização de valores dicotômicos que opõem os identificados como dominantes (não necessariamente possuem essa posição real no mundo, pois a posição é essencialmente imaginária e contraditória) àqueles posicionados como dominados (BOURDIEU, 2007).

Isso nos leva ao terceiro ponto, se a imagem não decorre da natureza dos indivíduos em si, pois interiorizada, tampouco está no objeto imaginado em si, o pobre e a pobreza. Estes são silenciados e invisibilizados pela forma como lhe cassam a voz. Sem voz, sem perspectiva do outro possível, há a dominância de um imaginário sobre o outro. O apagamento da voz do outro possibilita a sua dominação, pois tendendo ao mesmo, ao parafrástico, diminui-se a

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La vision du monde social, et, tout spécialement, la perception des autres, de leur hexis corporelle, de la forme et du volume de leur corps, et spécialement de leur visage, et aussi de leur voix, de leur prononciation et de leur

vocabulaire, s’organise en effet selon des oppositions interconnectées et partiellement indépendentes dont on

peut se faire une idée en recensant les ressources expressives déposées et conservée dans la langue, spécialement dans le système des couples d’adjectifs que les usagers du langage légitime emploient pour classer les autres et juger de leur qualité et dans lequels le terme désignant les propriétés imputées aux dominants représentent toujours la valeur positive (BOURDIEU, 2013, p. 28).

possibilidade de ressignificá-lo, ou seja, de privilegiar a abertura do referente ao polissêmico, às imagens-outras possíveis, no sentido em que aponta Orlandi (2009).

O ser sem voz e invisível é, portanto, um ser tornado “mudo” e “sem visibilidade”, fruto de um processo social ativo, e não decorrente da natureza passiva de um indivíduo ou grupo, da constatação genética ou antropológica da sua inferioridade. Não há identidade, há identificação. Logo, estereotipia é estereotipação, decorrente dos processos materiais de construção do “eu” e do “outro” na/pela linguagem em cada sociedade (REGO; PINZANI, 2013, p. 35). Ainda segundo os autores:

O sofrimento social é naturalizado, ou remetendo-se à natureza individual (as características do indivíduo em questão o levam a ser pobre: ele é fraco, é uma criança, é um idoso, é doente, tem deficiências etc.), ou apelando-se para leis

econômicas que são apresentadas como sendo leis naturais, imutáveis e independentes da ação humana. [...] Às vezes as causas sociais do sofrimento

humano não são observáveis e identificáveis imediatamente. Elas podem encontrar- se num passado longínquo, a tal ponto que a questão da responsabilidade pelo sofrimento fica sem resposta. Ou podem estar profundamente enraizadas na estrutura de uma sociedade (como no caso da escravidão no Brasil). Nesses casos se pode afirmar que o sofrimento foi institucionalizado. Quem provoca não são já os indivíduos por meio dos seus atos, mas instituições (REGO; PINZANI, 2013, p. 44. Grifos nossos).

Asseveramos que não se trata de considerar o certo e o errado no âmbito do verdadeiro ou do falso. Ao se propor que “a raiz da pobreza é a preguiça”, por exemplo, ancora-se num sistema de verdades (e de crenças) que adquire coerência axiológica em uma dada perspectiva de mundo; a qual é ideológica, pois se constitui através da forma como os grupos sociais organizam, dispersam e hegemonizam os seus imaginários sociais. Ela é real na medida em que é a forma pela qual determinados grupos constroem um real imaginado e experenciado como real, partindo das relações concretas de submissão e opressão de uma classe sobre a outra, bem como da dominância dos sentidos vinculados às classes mais abastadas, os quais se dispersam como tendencialmente hegemônicos.

Interessa-nos destacar que a valoração interpretativa (podendo ser positiva ou

negativa) tanto ocorre por parâmetros sociais internalizados por aquele que “estereotipa”, na

dependência das suas posições sociais, quanto por aquele que é “estereotipado”. Enunciar, portanto, significa também atualizar axiologias na memória discursiva em uma dada situação de enunciação, uma vez que a interpretação está sujeita à atribuição de valores sociais a cada imaginário na tensão entre a paráfrase e a polissemia, os quais incorrem sobre qualquer processo enunciativo.

Se considerarmos tal raciocínio nos termos de Pêcheux (2009), a verdade é fruto do trabalho dos sujeitos no/sobre o real necessário transformado em real pensado e construído como real necessário (efeito de evidência e naturalização dos sentidos). Para Maingueneau (2007), é a forma pela qual uma dada FD possibilita a identidade entre o sujeito e a forma enunciativa. Orlandi (2009) fala em aquisição da metalinguagem, a qual poderia explicar a seguinte imagem “pobre é preguiçoso”. Assim, se o enunciado “a raiz da pobreza é a preguiça” é real, ele não representa a realidade como o real-em-si. É como se fosse um real buscando se tornar o real pelo trabalho dado na/pela linguagem, no/pelos sujeitos e grupos sociais.

De acordo com Orlandi (2009), é preciso supor a relativa estabilidade da/na linguagem para que possamos significar. Se o sentido jamais é inteiramente o mesmo, tampouco ele é inteiramente novo. As condições de enunciação pressionam para o novo enquanto a forma do enunciado o liga ao passado. O sentido é sempre uma possibilidade, mas uma possibilidade dentro de condições que não são aleatórias. Segundo Maingueneau (2008), o gênero discursivo funciona como um inibidor dos possíveis semânticos, estabelecendo as imagens possíveis para os enunciadores e, por consequência, constrangendo as possibilidades do dizer e do fazer, isto é, daquilo que irrompe, consciente ou inconscientemente, em relação constituinte com o que poderia ser o outro.

Do entrecruzamento entre essas considerações, pondo em relação o pensamento, conforme desenvolvido por Pêcheux (2009), a memória discursiva, como discutida em Courtine (1981), a competência discursiva, tal como sugerida por Maingueneau (2007), a paráfrase e a metalinguagem, nos sentidos apontados por Orlandi (2009), as axiologias metafóricas, nos termos de Lakoff e Johnson (1985), e os valores sociais tidos como positivos ou negativos, de acordo com Rego e Pinzani (2013) e Bourdieu (2013), consideramos interessante refletir sobre a internalização do discurso e, com ele, de axiologias no que concerne ao domínio de uma memória discursiva relativamente estável que os sujeitos possuem de determinadas marcas linguístico-discursivas (que se impõem ao cognitivo), tornando-os aptos a produzirem inúmeros enunciados a partir de uma mesma ou várias formações discursivas em um dado momento.

A identidade que cada sujeito possui de si mesmo e dos outros, bem como os gêneros discursivos, tendem a certa estabilidade que lhe possibilita o reconhecimento das posições que cada um deve exercer em uma dada situação, bem como dos dizeres que identificam a própria