Houve um tempo em que o indivíduo até podia debater alguns assuntos sem fazer conexões profundas entre mídia, cultura e consumo. Porém, hoje, essas esferas estão intrinsecamente ligadas, principalmente nas últimas décadas, nas quais a indústria cultural tem possibilitado a realização de inúmeros espetáculos através da inauguração de novos espaços e criações.
Douglas Kellner (2004, p. 05), em A cultura da mídia e o triunfo do espetáculo, argumenta que “o próprio espetáculo está se tornando um dos princípios organizacionais da economia, da política, da sociedade e da vida cotidiana”. Esse avanço tem sido intensificado pela tecnologia, que atende, cada vez mais, os anseios do público por informação.
Antes dos adventos da televisão e da internet, a informação era basicamente divulgada pela rádio e impressos. Atualmente há um leque maior de difusores de informação e, gradativamente, uma tendência surgiu: a de um meio de comunicação pautar o outro. O conteúdo gerado por sites pauta programas de televisão; a programação televisiva, por sua vez, é divulgada em impressos; o ator de determinado filme é capa de uma revista e fala de seu personagem, enquanto o programa de TV fala de sua vida pessoal; o cantor da música mais tocada na rádio divulga seus trabalhos e shows nas mídias sociais e interage com seus fãs.
Além dessa “troca de informações”, surgiram novas multimídias que sintetizam tudo o que é divulgado em diversos veículos de comunicação e ações de entretenimento e, de forma objetiva, ajudam a intensificar a forma-espetáculos da cultura da mídia. O número de meios de comunicação impressos comercializados no Brasil é muito inferior em comparação aos de sites de informação; isso revela o crescimento bombástico do ciberespaço, que tomou uma dimensão comunicacional elevada
Em A inteligência coletiva: por uma antropologia do ciberespaço, o filósofo francês Pierre Lévy (2003, p. 32) aponta um caminho que associa a construção do laço social baseado no saber, entendendo a reunião dos indivíduos não mais por motivos que pertença a um lugar ou ideologias e sim pelo possível compartilhamento de seus saberes individuais. Para ele, “o núcleo da engenharia do laço social é a economia das qualidades humanas”.
O saber do qual trata Lévy não está associado ao saber científico, mas o saber de informações relacionadas ao dia a dia de um indivíduo, seus afazeres, relações humanas e informações recebidas e transmitidas. Para ele, o saber é a base principal da inteligência coletiva, que é “[...] distribuída por toda parte, incessantemente valorizada, coordenada em tempo real, que resulta em uma mobilização efetiva das competências” (2003, p. 28). As habilidades dos indivíduos são reconhecidas e coordenadas com o uso das tecnologias da informação e comunicação, a fim de serem utilizadas em prol da coletividade.
Ao mesmo tempo em que o conceito de coletividade se expande, a mídia se torna cada vez mais presente na vida cotidiana. Voltando ao texto de Kellner (2004, p. 05), é justamente a mídia que propaga os espetáculos envoltos em uma influência de uma “cultura imagética multimídia”. Ele ainda cita que “o entretenimento popular naturalmente teve suas raízes no
espetáculo, enquanto a guerra, a religião, os esportes e outros aspectos da vida pública se tornaram terrenos férteis para a propagação do espetáculo por muitos séculos”.
Com as novas multimídias, os espetáculos têm alcançado um número maior de pessoas, agindo de forma determinante, ao menos nos países capitalistas avançados, na formação dos trajetos percorridos pelas sociedades e culturas modernas. Para Rocha e Castro (2009), o “entretenimento é o principal produto oferecido pela cultura da mídia e espetaculariza o cotidiano de modo a seduzir suas audiências e levá-las a identificar-se com as representações sociais e ideológicas nela presentes”.
O francês Guy Debord (1997, p. 13), em sua primeira tese da obra A sociedade do espetáculo, revela que o que antes era vivenciado pelas pessoas passou a ser representado. Ele também é contra a propagação de imagens na sociedade, pois acredita que elas estimulam a passividade e a aceitação do capitalismo.
O pensamento do autor possui perspectiva marxista e apresenta crítica ao fetichismo da mercadora. Para ele, o que era autêntico passou a ser ilusão mediante as relações de aparências vividas na sociedade; pensa ainda que “o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre as pessoas, mediada por imagens” (DEBORD, 1997, p. 14).
Debord acredita que por meio do espetáculo ocorre a construção das necessidades de consumo na sociedade. Na lógica do autor, quando um novo produto da indústria cultural é lançado, a publicidade se encarrega de estimular a necessidade de consumo, fato que leva à alienação do público, que se revela acrítico e passivo. É justamente essa publicidade que pode contribuir com a obtenção de lucro por parte dos organizadores dos produtos culturais, Debord (1997, p. 34) diz:
O espetáculo é a outra face do dinheiro: o equivalente geral abstrato de todas as mercadorias. O dinheiro dominou a sociedade como representação da equivalência geral, isto é, do caráter intercambiável dos bens múltiplos, cujo uso permanecia incomparável. O espetáculo é o seu complemento moderno desenvolvido, no qual a totalidade do mundo mercantil aparece em bloco, como uma equivalência geral àquilo que o conjunto da sociedade pode ser e fazer. O espetáculo é o dinheiro que apenas se olha, porque nele a totalidade do uso se troca contra a totalidade da representação abstrata. O espetáculo não é apenas o servidor do pseudo-uso, mas já é em si mesmo o pseudo-uso da vida.
O conceito de espetáculo de Debord (1992, p. 32), está atrelado ao crescimento do número de “ícones e imagens, principalmente através dos meios de comunicação de massa, mas também dos rituais políticos, religiosos e hábitos de consumo, de tudo aquilo que falta à vida real do homem comum [...]” As produções do teatro musical brasileiro fazem parte do universo que abraça esse conceito de espetáculo de Debord. Em um musical podem ser encontrados ícones diversos, e esses ícones podem ser representados desde o personagem interpretado ao artista que o interpreta. São inúmeras as imagens que um enredo pode transmitir de acordo com o tema, com as escolhas das letras e com os estilos musicais das canções. Todo esse turbilhão de imagens e significados é absorvido pelo espectador.