Realizar uma análise profunda da reprodução, tradução e adaptação no mundo globalizado consiste em absorver os conceitos do hibridismo cultural, afinal as culturas antes tidas como intocáveis e puras estão cada vez mais entrelaçadas, híbridas. Para Cevasco (2006, p.135), é ingênua a visão de que o hibridismo cultural é uma força que traz o pluralismo, a convivência saudável das diversidades, do crescimento por meio do contato com o todo de todos. Esse conceito exclui a interferência das relações de produções. Não há como filtrar 100% o que nos é oferecido culturalmente com o intuito de promover a “democratização” das vivências híbridas. O que nos é oferecido vai muito além de uma pureza de intenções, há ideologias por trás de cada produção, intenções que estão além do nosso alcance barrar ou padronizar.
Essas produções se instalam, querendo-se ou não, concordando-se ou não; por mais que se fique longe do seu consumo, isso não impede que ela chegue por meio dos desdobramentos da popularização dessa obra e, consequentemente, respinga no consumo, moda, alimentação, temas de conversas, personagens em evidência, etc.
Citado em Cevasco, Canclini afirma que há diferenças entre os produtores e os consumidores diante da rede de decisões culturais e econômicas, mas, “essas desigualdades são quase nunca impostas de cima para baixo como pretendem os que estabelecem oposições maniqueístas entre classes dominantes e dominadas, ou entre países do centro e da periferia” (CANCLINI apud CEVASCO, 2006, p.135).
Ocorrem críticas do público em relação às produções culturais, como as novelas realizadas pelas emissoras de televisão brasileiras, principalmente a Rede Globo, que tem suas novelas sendo criticadas há anos, no entanto, obtendo satisfatória audiência. Pessoas que acreditam que os reality shows trazem conteúdo apelativo, contudo, sabem os nomes de cada participante e as situações em que se envolvem. Cevasco (2006, p. 135) nos diz que essa aceitação “se dá porque noções contemporâneas como hibridismo ou entre-lugar são elaborações conceituais de aspirações reais. Num certo sentido, formulam o que todos querem ouvir”.
Não podemos deixar de concordar com o pensamento da autora, entretanto, quando o texto foi escrito, em 2006, não havia tantos casos de protestos com relação ao conteúdo passado na TV aberta ou, no mínimo, não eram tão divulgados como agora com a propagação das redes sociais nos últimos anos, permitindo que a difusão das opiniões alcancem números maiores de pessoas. Estamos todos conectados, as pessoas que antes omitiam suas opiniões agora passam a expô-las.
As mídias sociais não acabaram com a escolha e com a promoção da mescla cultural. Não ocorreu uma ditatória imposição das produções culturais, mas estamos cientes do que escolhemos como produtos, como defendido por Cevasco (2006). Acredita-se que ainda é muito cedo para medir, se é que se pode medir as mudanças nessa percepção frente ao poder das redes sociais; todavia, é claramente perceptível que a união de pessoas, em uma rede com a mesma opinião pode modificar cenários políticos e sociais.
Para melhor compreendermos a cultura contemporânea, poderemos debater o hibridismo cultural atrelado ao desenvolvimento tecnológico, e também nos pautarmos na hermenêutica negativa ou de suspeita – com o trabalho de desmistificar ou destruir ilusões das tentativas de fazer com que nossas experiências de vida façam sentido; e a hermenêutica positiva – que valoriza a restauração do significado das experiências vividas.
Temos as condições técnicas para a “criação coletiva de uma riquíssima cultura mundial baseada na troca e na interação das diferenças, uma cultura que, enfim, tornaria a noção abstrata de humanidade concreta” (CEVASCO, 2006, p. 136). Apesar do crescimento de uma cultura mundial, vivenciamos, ainda, um dilema sobre o que apoiar e incentivar ou do que combater e adiar. Devemos assimilar nossa cultura nacional com a global ou defender a autonomia da cultura mais tradicional de nossa nação?
Se pensarmos em classificar as iniciativas não somente artísticas, mas também as educacionais e críticas, e em quais desses dois lados estão, teríamos um grande trabalho pela frente em razão da grande mixagem de sentidos e intuitos dessas ações. Para este fim, a hermenêutica negativa ajudaria muito mais do que a hermenêutica positiva ao trazer à luz os temas de debate e ao desmistificar sentidos que não são reais, mas, ilusórios. Há uma tendência no crédito de que há apenas duas saídas, a da permanência ou a da aniquilação total do que conhecemos. Isso nos revela uma falta de imaginação criativa e de crença de que, no híbrido, haja crescimento, conhecimento e um futuro.
Atualmente as nações apresentam em suas segmentações, heterogeneidade e fraturas, além de uma comunicação de ordem transnacional de informação. Há uma constante troca e surgimento de códigos que se unificam e nos fazem entender o lado de onde vem a informação. A compreensão do que é vivido por outros povos se revela cada vez menos relacionada com etnia, classe, região de nascimento e história política dos países.
O consumo vem pautando o entendimento do que é vivido por estrangeiros, seus hábitos tradicionais, tais como alimentares e linguísticos que podem levá-los a interagir de forma diferenciada na formação de redes internacionais. O primeiro contato com costumes culturais diferentes é tido com estranheza, mas, com o decorrer da troca de informações, os símbolos vão sendo identificados e decodificados e, cada vez mais, a sensação de se estar confortável ao compreender determinados assuntos, antes estranhos, fazem com que novos costumes sigam um caminho que leva ao sentido de pertença.
Esse processo que leva ao sentido de pertença ocorreu e ocorre na história do teatro musical brasileiro com relação ao público. Primeiro temos, na época que tange ao Teatro de Revista, um formato francês, que aos poucos vai chamando atenção, ganhando público; gradativamente, elementos nacionais são inseridos no formato ao ponto de se tornar um gênero diferenciado.
O mesmo acontece com o teatro musical brasileiro na atualidade; vemos, nos palcos, histórias passadas em outros países, não são os brasileiros que estão sendo retratados nos palcos, geralmente são histórias ocorridas nos Estados Unidos da América ou em países europeus. O fato de o público ir ao teatro e não se ver retratado pode gerar incômodo para alguns e, para outros, curiosidade em face à oportunidade de ter contato com uma cultura
diferente, seja pelas características de um personagem, seja pelo conhecimento de um gênero teatral estrangeiro.
Os formatos teatrais estrangeiros com suas constantes apresentações vão gerando um “sentido de pertença” em muitos espectadores que passam a confrontar/unir a gama cultural recebida dos espetáculos com as que já possuem, formando novas vertentes e pareceres. Os musicais biográficos que vemos nos teatros nacionais de alguns anos para cá, nada mais são do que produtos culturais híbridos que, apesar da temática brasileira, possui muito do formato americano comercial de teatro. Não dá para tratar essas recentes manifestações artísticas com temáticas brasileiras como frutos “puros” da cultura brasileira, que não sofreu influência de outras culturas; muito pelo contrário, o teatro musical brasileiro, em todos os seus períodos de “auges”, apresentou processos híbridos culturais em seus formatos.