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Na opinião de Freire, o diálogo está fundamentado numa relação em que as pessoas não têm pretensão de ser mais que as outras. Elas se comunicam buscando interagir uma na fala da outra, com o propósito de juntas descobrirem uma proposta para a ação. Sendo assim, as pessoas em diálogo necessitam nutrir-se de “elementos constitutivos”26 do diálogo como

amor, humildade, esperança, fé, confiança e pensar verdadeiro (práxis) para estabelecer uma relação de respeito mútuo entre os comunicadores. A receptividade da comunicação pode ser mais eficaz se os sujeitos participantes estiverem nutridos desses elementos constitutivos. Daí surge o conceito de diálogo enquanto ação para a prática da liberdade:

É uma relação horizontal de A com B. Nasce de uma matriz crítica e gera

criticidade (Jaspers). Nutre-se do amor, da humildade, da esperança, da fé, da confiança. Por isso, só o diálogo comunica. E quando os dois pólos do diálogo se ligam assim, com amor, com esperança, com fé no outro, se fazem críticos na busca de algo. Instala-se, então, uma relação de simpatia entre ambos. Só há comunicação (FREIRE, 1981, p.107).

26 Expressão do autor.

37 O diálogo é possível, segundo Freire (1975, p. 114), numa relação profunda de amor ao mundo e ao ser humano. Ao amar, acolhemos com mais disposição o que a pessoa amada sugere, embora seja diferente do que pensamos. Esse sentimento dá condições para as pessoas superarem os conflitos gerados no momento do diálogo até chegarem ao acordo previsto. Sendo fundamento do diálogo, o amor também é diálogo. E o amor não acontece numa relação de dominação, mas de trocas recíprocas e respeito entre as pessoas em diálogo. Além disso, ele é um ato de coragem, e não de medo; o amor é compromisso com as pessoas (FREIRE, 1975, p.114-5), principalmente aquelas que estão oprimidas, excluídas à margem da sociedade. Como a coragem e o compromisso são características pertinentes ao amor, quem as tem se lança em projetos educativos para promoção e realização dessas pessoas, cujos direitos de cidadão lhes são negados. Dessa relação amorosa dialógica, nasce mútua aprendizagem, ou melhor, quem está coordenando também aprende com os demais participantes do projeto. “Quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender” (FREIRE, 2003, p.26). É nessas relações de mútua aprendizagem que há a transformação da realidade desumana, e consequentemente, libertação do oprimido.

Para Freire a humildade também é uma das condições para dialogar. Ao pronunciar o mundo, o homem recria-o27, isto é, supera a antiga situação criando uma nova. E como essa recriação é constante, não pode ser um ato arrogante de algumas pessoas em particular. Para dialogar, necessário se faz enxergar-se como ser limitado e não perceber essa limitação apenas no outro. O diálogo torna-se impossível numa relação em que membros admitem-se como diferentes, virtuosos por herança e julgam os demais como seres inferiores. Dessa forma não reconhecem outros eus. O mesmo acontece, quando se sente participante de um gueto de pessoas puras, que possuem o poder sobre a verdade e o saber, e os demais são considerados seres inferiores. (FREIRE, 1975, p.115). Um comportamento assim fecha-se ao diálogo, negando perceber o quanto as pessoas consideradas inferiores são importantes na transformação do mundo. Num espaço onde o sujeito percebe o seu valor enquanto pessoa, o diálogo se fortalece e pode estabelecer uma comunicação mais madura e mais consciente do seu papel e de cada um em transformar o mundo. Mesmo que haja conflitos, inquietações, quando já estabeleceu essa relação, as pessoas não se fecham, mas tentam compreender-se.

Para Freire, a fé é outra condição para dialogar. “Não há também, diálogo, se não há uma intensa fé nos homens, fé no seu poder de fazer e refazer, de criar e recriar. Fé na sua

27 Quando as pessoas se pronunciam no mundo elas estão realizando esse processo de criação. Como o mundo é dinâmico, ou seja, as pessoas estão em constantes buscas, o que foi criado num determinado momento, precisaria ser recriado para ter ser num outro para continuar tendo sentido.

38 vocação de Ser Mais, que não é privilégio de alguns eleitos, mas direito dos homens” (FREIRE, 1975, p.116). O fato de as pessoas perceberem que podem apostar nelas contribui para acreditarem, com mais convicção, em si mesmas. Esse dado fortalece a militância em prol da luta para sair de esquemas que não condizem com o amadurecimento do ser. Com esse amadurecimento, as pessoas, no processo educativo, vão percebendo que o meio onde vivem é espaço de atuação também para elas.

De acordo com Freire, não há diálogo verdadeiro se não há nos seus sujeitos um pensar verdadeiro (práxis) (FREIRE, 1975, p.118). Mas o que é um pensar verdadeiro? É aquele pensar crítico que vê o mundo como um processo, uma realidade a ser transformada constantemente se essa oprime o povo, principalmente o povo pobre. Essa realidade deve-se transformar, e o pensar verdadeiro deve conduzir essas pessoas oprimidas a se libertarem dessa opressão, procurando, junto com seus companheiros, alternativas para sanar essa problemática que eles atravessam (FREIRE, 1975, p.118).

O pensar verdadeiro demanda uma profundidade na compreensão e na interpretação dos fatos. Isso implica uma disponibilidade à revisão dos achados, reconhecer não somente a possibilidade de mudar de opção, apreciação, mas o direito de fazê-la e assumir a mudança operada. Quando as pessoas estão nesse processo não é possível mudar e fazer de conta que não mudou. Para pensar verdadeiro exige-se coerência nas ações (FREIRE, 1975, p. 33-34).

Freire acreditava que o diálogo despertava a pessoa a ter esperança e consequentemente a buscar – não uma busca estritamente individual, mas uma busca em comunhão com as outras pessoas. Para que isso ocorresse, o diálogo precisava ser verdadeiro: não aceitar a dicotomia mundo-pessoa e reconhecer entre eles uma inquebrantável solidariedade. Além disso, só um diálogo que implica num pensar crítico é capaz de fazer esse processo (FREIRE, 1975, p.117-119).

O diálogo motiva os sujeitos a terem esperança, pois lhes mostra a possibilidade de um mundo melhor. E enquanto espera, busca, por isso não pode ser uma esperança de cruzar os braços e esperar as coisas caírem prontas nas mãos; é uma esperança de lutarem juntos e vencerem juntos. Sendo o diálogo um encontro de pessoas que têm como objetivo querer Ser Mais, esse encontro precisa criar meios de despertar-lhes a esperança (FREIRE, 1975, p.117- 118).

Ao falar de esperança, Hubert Announ parte do pressuposto de que ela é uma aposta. Para ele, existem dois tipos de apostas: a expectante e a enactante. Ele esclarece que “a aposta que propomos na verdade e no valor dos pressupostos da educação não é a expectante. Não

39 apostamos nem por indiferença nem por cálculo. Fazemos uma aposta enactante que implique, ao mesmo tempo, a representação de um projeto e a ação prática para sua realização” (ANNOUN, 1998, p. 131). A proposta de educação freireana é uma aposta enactante: ao mesmo tempo em que ele apresenta um projeto de educação libertadora, ele enfrenta os desafios para pô-lo em ação. O pensamento de Announ é semelhante ao de Freire no que se refere à mobilização para a ação:

a aposta enactada, que fundamenta princípios da educação, é [...] portadora de uma esperança mobilizadora. É pensamento-ação. É um mesmo ser que tem uma face que é pensamento como projeto teórico e outra que é ação como realização das condições de realização do projeto, portanto do sucesso da aposta (ANNOUN, 1998.p.145).

Partindo desse ponto, percebemos que a aposta enactada é justamente essa proposta de educação que Freire defende: uma educação que leve os educandos a apostarem em dias melhores, a acreditarem que são seres inacabados com a vocação ontológica de Ser Mais, descobrindo assim o sentido de suas vidas. Dessa forma, a aposta educacional não pode ser expectante, ficando apenas na expectativa e não partindo para ação. Freire espera uma mobilização da educação para acionarem as pessoas a irem além do que elas são: a Ser Mais.

Além disso, vale salientar que, para Freire, se a fé é um dado do diálogo, a confiança também faz parte dele. A confiança é suporte para os sujeitos dialógicos serem cada vez mais companheiros ao pronunciar o mundo. Se a confiança for falha, é porque falharam as condições discutidas anteriormente. Um falso amor, uma falsa humildade, uma falsa fé nos homens não podem gerar confiança. A confiança se estabelece no testemunho que alguém dá aos outros de suas reais e concretas intenções. Sendo assim, a confiança não pode existir quando se prega uma coisa e os atos da pessoa afirmam outra. Se a palavra não é levada a sério, não pode ser estímulo à confiança (FREIRE, 1975, p.117).

Freire também chama a atenção para as ações em que o diálogo não acontece. Esse fato ele denomina antidiálogo. O antidiálogo, sendo o oposto do diálogo, acontece numa relação em que uma pessoa se sobrepõe à outra. Há uma mera transmissão de informações por parte de quem domina, deixando de lado a reflexão da ação (práxis). Dessa forma, não se gera criticidade, pois não há oportunidade de refletirem juntos sobre o objeto de discussão. Sendo assim, o amor, a humildade e a fé, a esperança e a confiança são elementos ausentes nessa relação:

O antidiálogo que implica numa relação vertical de A sobre B é o oposto a tudo isso. É desamoroso. É acrítico e não gera criticidade, exatamente porque é desamoroso. Não é humildade. É desesperançoso. Auto-suficiente. No antidiálogo quebra aquela relação de “simpatia” entre seus pólos, que

40 caracteriza o diálogo. Por tudo isso, o antidiálogo não comunica. Faz comunicados (FREIRE, 1975, p.108).

O antidiálogo também acontece quando pessoas não fundamentadas nas ações discutidas anteriormente confundem a “discussão guerreira, polêmica entre sujeitos, que não aspirarem a comprometer-se com a pronúncia no mundo nem como a busca da verdade, mas como impor a sua” (FREIRE, 1975, p.113-114). O sujeito que não é amoroso, humilde e não tem grande fé nos outros, certamente quererá impor sua verdade em qualquer discussão. E isso gera sempre um mal estar, pois tem alguém querendo ser superior aos demais e não companheiros de luta na pronúncia ao mundo. Quando há uma relação de dominação, em que a patologia amorosa se faz presente, isto é, sadismo em quem domina e masoquismo em quem é dominado, essa relação é extremamente antidialógica. Nesse sentido, o diálogo é impedido pelo fato de haver um sujeito que se julga superior ao outro, querendo dominá-lo. Quem domina, domina porque sente prazer nessa ação; e quem é dominado também gosta dessa acomodação. Num ambiente que se fundamenta em laços tão doentios, não há espaço para desenvolver uma ação dialógica fundamentada nos princípios defendidos por Freire (1975, p.114).

Freire também parte do pressuposto de que ações que não motivam as pessoas a permanentes buscas são antialógicas, pois a esperança é um fator de fundamental importância na inclusão dos sujeitos na sociedade. Além disso, a desesperança conduz o indivíduo ao silêncio, à negação do mundo e ao isolamento. Como buscar se não se tem nada a esperar? Embora vivam em um mundo desumano as pessoas necessitam de motivações que o despertem para esperar sempre algo melhor. Um fator como esse não deve ser motivo para perder a esperança, mas motivo para mais esperança. Não concordando com essa forma como a realidade está e procurando mudá-la, enquanto a pessoa espera, luta; se luta com esperança, espera (FREIRE, 1975, p.117-118).

Outro fator antidialógico é o pensar não-verdadeiro que não leva os sujeitos a uma criticidade: é um pensar que percebe a realidade não como um processo, mas como algo estático. Dessa forma, incapaz de haver mudanças significativas para a vida das pessoas, é um pensar ingênuo, que vê o tempo histórico como um peso, meras informações do passado sem significado algum para o tempo presente. O presente deve ser algo normalizado e bem comportado, pois é importante ser acomodado a esse hoje normalizado (FREIRE, 1975, p.118).

Refletimos antes que a humildade é um elemento forte de quem se dispõe a dialogar. Sendo assim, a auto-suficiência, que é antônimo de humildade, contribui para o antidiálogo.

41 Quem não é humilde não deve se aproximar do povo, não pode ser seu companheiro de pronunciar o mundo, pois vê os outros como seres inferiores e não como companheiros de luta (FREIRE, 1975, p.116). O auto-suficiente pode sentir-se participante de um gueto de homens puros, donos da verdade, como vimos antes, e isso impedem o diálogo, pois os que estão fora são pessoas consideradas inferiores. Quem pensa assim, consequentemente pode acreditar que somente ele deve se pronunciar o mundo. Dessa forma, a presença das massas na história é visto como negativo, portanto deve-se evitar (FREIRE, 1975, p.115-116). O auto-suficiente se fecha para a contribuição dos outros e até se sente ofendido com elas (FREIRE, 1975, p.117). Nesse sentido, se a luta de pessoas dialógicas parte do princípio de comunhão nas ações em que ninguém deve querer sobressair-se, a pessoa que é auto- suficiente não tem disposição para lutar junto com pessoas que partilham ideias e ideais, pois está fechado a tudo isso.

Percebemos então que, para o diálogo acontecer, ele precisa estar inserido num contexto de possibilidade, as quais implicam em as pessoas dialogantes terem amor, fé, humildade, confiança esperança umas para com as outras. Além disso, dialogar também implica um pensar verdadeiro (práxis). Fora desse contexto, acontece somente o antidiálogo, que não é amoroso, que não tem fé no outro, é auto-suficiente e desesperançoso. E talvez a virtude que mais destacou a obra freireana tenha sido o amor, que parece ser o fundamento das outras. É nessa perspectiva que ela será destacada no próximo tópico.

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