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Para fazer essa análise, partamos do momento em que Freire foi preso. A razão de sua prisão estava justamente no fato de ele defender uma educação que libertava as pessoas da opressão em que elas viviam. Então ele foi visto como um subversivo, foi preso e depois exilado, porque dentro da prisão ele não demonstrou que tinha mudado de ideia. Pelo contrário, a prisão serviu para que ele elaborasse melhor sua pedagogia de educação problematizadora libertadora. “Então, no fundo, foi lá na cadeia que comecei a pensar no que eu tinha que aprofundar do ponto de vista pedagógico” (BETO & FREIRE, 1988, p.52).

Era inacreditável para Freire ser preso por ser um educador do povo. Só que a educação que ele defendia estava mexendo com as bases do sistema brasileiro. A educação estava deixando de ser bancária para ser problematizadora libertadora dialógica. Os educandos já não recebiam mais um conteúdo pronto do educador, como já descrevemos anteriormente ao nos referirmos à educação bancária. Agora o educador problematizava o conteúdo em sala de aula dialogando com os educandos para juntos chegarem à ação e assim transformar a realidade deles se essa não estava condizente com a dignidade humana. Então era preciso calar a voz desse homem que estava incitando o povo a perceber seus direitos e lutar por eles.

Vemos até aqui não apenas um educador idealista que queria a todo custo levar em frente sua proposta de educação, mas um homem comprometido com a população oprimida do seu país. Por que tudo isso? O que levou Freire a lutar tanto assim? Freire era um educador que partia do princípio de que a educação era algo prático. Ele aprendeu em sua vida prática a dor de perder seu pai e ver sua família passando fome enquanto outros esbanjavam o que tinham. Foi aí que ele aprendeu sobre a divisão de classes. “Minha condição social não permitia que eu tivesse uma educação. A experiência me ensinou, mais uma vez a relação entre classe social e conhecimento” (FREIRE & SHOR, 2008, p.52). Ele lutou a vida toda, com muito sacrifício, para ter o que tinha. Mas, apesar do sacrifício, ele nunca desistiu de

51 lutar por aquilo que ele sonhava e acreditava. Além disso, na sua vida encontrou sempre pessoas que o ajudavam, pois acreditavam nele, como expõe no depoimento a seguir:

Eu fiz a escola primária exatamente no período mais duro da fome. Não da fome intensa, mas de uma fome suficiente para atrapalhar o aprendizado. Quando terminei meu exame de admissão, era alto, grande, anguloso e feio. Já tinha esse tamanho e pesava 47 quilos. Usava calças curtas porque minha mãe não tinha condições de comprar calça comprida [...] Eu consegui fazer, Deus sabe como, o primeiro ano de ginásio com 16 anos [...] Fiz esse meu primeiro ano de ginásio num desses colégios privados, em Recife; em Jaboatão só havia escola primária. Mas minha mãe não tinha condições de pagar a mensalidade, e, então foi uma verdadeira maratona para conseguir um colégio que me recebesse com uma bolsa de estudos. Finalmente ele encontrou o Colégio Oswaldo Cruz, e o dono do colégio, Aluízio Araújo34, que fora antes seminarista, casado com uma senhora extraordinária, a quem eu quero intenso bem, resolveu atender ao pedido da minha mãe (FREIRE, 1985, p.5).

Essa reflexão mostra um Paulo Freire que, em sua vida, percebeu que ser pobre não significa ficar eternamente condenado à opressão, ficar à margem da sociedade. Na adolescência, sua barriga roncava de fome “tentava ler ou prestar atenção na sala de aula, mas não entendia nada porque a fome era grande” (FREIRE & SHOR, 2008, p. 52). Mas ele acreditava em dias melhores, como mostra o depoimento acima. Pensamos que seja isso que o levou a lutar com tanta veemência a favor da população carente, oprimida. Ele acreditava numa transformação da realidade por meio da educação, isto é, se os problemas da população se transformassem em temas geradores para ensinar a ler e escrever. Se para ele foi possível reverter o quadro de pobreza no qual se deparou, era sinal que as outras pessoas pobres, também, poderiam fazer o mesmo processo.

Foi a experiência de vida de Paulo Freire que o transformou em um homem amoroso a ponto de doar sua vida para defender as pessoas oprimidas. Além disso, ele também se empenhava nessa educação problematizadora libertadora dialógica em outros países onde fora exilado. Então, dá para perceber que foi um amor além das fronteiras. Mesmo exilado, ele continuou defendendo a educação na qual acreditava. Isso nos leva a perceber que ele não era um louco que queria fazer barulho, mas um homem amoroso, comprometido com a libertação do oprimido.

Talvez seja ousadia nossa, mas até aqui as reflexões apresentadas mostram que esse amor que Paulo Freire tinha pelo povo é ágape. Um amor doação de si. Um amor de doar a própria vida por uma causa, um amor que enfrenta o sacrifício para não desistir da pessoa

52 amada. Um amor que deixa de viver seus sonhos particulares para se empenhar em viver o sonho libertador de um povo. “Você recua um passo, ao mesmo tempo ele avança o mesmo tanto [...] para não esbarrar em você, para não o invadir, não o oprimir [...] para não impor sua potência, nem mesmo sua alegria ou seu amor [...]” (SPONVILLE, 1995, p.297).

Freire não impunha ao povo seu projeto de educação. Ele tinha meios de conquistar, seduzir o povo e mostrar que ele era capaz de transformar a sociedade se unissem e se empenhassem nessa missão. Quantas vezes voltara pensativo para casa por não ser entendido, aliás, por não entender como falar para determinado grupo de pessoas. O que ele falava precisava de um estar junto, de ver a realidade mais de perto e entender por que as pessoas tinham aquele tipo de comportamento, como era o caso dos pais que batiam nos filhos. Ao ser mostrada a realidade de Freire, que tinha o suficiente em casa, e daquele pai que não tinha nada para levar aos seus filhos no final do dia, Freire, de forma humilde, aceitou aprofundar a questão e ouviu aquele pai de família com atenção. Esse gesto é típico de quem ama (CORTELLA & VENCESLAU, 1992, p. 25-29). Ele não quis impor sua potência diante desse fato. Mostrou, sim, sua capacidade de saber ouvir e aceitar refletir melhor sobre o que ele estava falando para aquele grupo.

Uma das descrições que achamos que mais se aproxima do amor que Freire sentia pelo povo é de “um reencontro da paixão, mas não no sentido de Eros; é a paixão de Cristo, dos mártires; um amor louco que não é dos amantes, mas da cruz” (SPONVILLE, 1995, p.295), da doação da própria vida. Esse amor é que leva Freire a se comprometer em nome da educação problematizadora libertadora dialógica, em nome da população que ele tanto amava. É um amor louco, sim, mas esse amor louco que se preocupara com o bem estar da pessoa amada. É o amor ágape. Pode ser que se partirmos de outros pontos, encontremos dados que nos apontem para os outros tipos de amor na vida e na obra de Paulo Freire, mas o fato de ele doar a própria vida em prol de uma educação que tinha como proposta libertar os oprimidos já nos leva a pensar que esse amor seja ágape: o amor de doação até o extremo, porque tem um compromisso com quem ama:

Não mais a falta, a paixão, a cobiça (eros), não mais a potência alegre e expansiva, a afirmação comum de uma existência reciprocamente aumentada, o amor a si mesmo duplicado pelo ao outro (philia), mas a retirada, mas a doçura, mas a delicadeza de existir menos, de se afirmar menos, de se estender menos, mas a autolimitação de seu poder, de sua força, de seu ser, mas o esquecimento de si, o sacrifício de seu prazer, de seu bem estar, ou de seus interesses, o amor que não falta nada mas que, nem por isso é cheio de si [...] (SPONVILLE, 1995, p.298).

53 Em tudo isso está presente a pessoa de Paulo Freire e a educação que ele defendia. Se o que ele pregava era o que aprendeu junto a sua família, aqui está todo o retrato de uma vida familiar coberta de amor e vontade de viver, como é descrito nesses depoimentos de seus filhos:

Paulo Freire, nosso pai, não tinha medo de amar. O amor para ele não se limitava tão-somente ao amor pelas mulheres; tinha um conteúdo muito mais amplo, muito mais universal. Amar para ele significava amar as pessoas, as

árvores, os pássaros, os animais e as crianças que, às vezes, na época do

Natal e do frio da Suíça, confundiam-no carinhosamente com Papai Noel. O seu método não pode ser entendido, na sua forma mais ampla, se não se levar em consideração o seu conteúdo eminentemente amoroso; amoroso porque a sua proposta de libertação dos oprimidos não é uma proposta piegas de quem, em um dia, sentindo-se culpado por explorar os oprimidos, procura uma redenção, tentando ensinar o povo a ler e a escrever.

Paulo Freire era radicalmente o oposto disso; dizia que não cabia aos apressores libertar os oprimidos, mas aos oprimidos libertarem a si mesmos e aos opressores. Não se pode entender essa afirmação sem se levar em consideração a sua dimensão amorosa.

Nós, seus filhos e suas filhas, amigos e amigas, temos o imenso desafio de dar continuidade a esse legado de amorosidade, reinventando-o, a cada dia. (FREIRE, Lutgardes & FREIRE, Joaquim – 2ª orelha do livro Educação e Atualidade Brasileira)

Além disso, também é pertinente acrescentar que para Freire o amor é algo que quanto mais se doa, mais aumenta. Em entrevista ao professor Carlos Alberto Torres, ao se referir à morte de sua primeira esposa que tanto amava, Elza, e ao se casar com Nita, ele assim se expressou:

Um dia, porém, mesmo mergulhado em muita dor, decidi viver de novo. Viver se pôs diante de mim como dever, como direito e como gosto também. Viver e amar. Descobri então alguma coisa que é, para mim, hoje, óbvia: quanto mais você amou e ama, tanto mais você pode amar. Quanto menos você amou e ama tanto menos você pode amar. Amo de novo. Outra mulher me ajudou a voltar à vida a que tenho direito. E ante a qual tenho deveres. [...] Amar outra vez não significa nem exige de nós matarmos as lembranças, afogar as memórias, negar a vida que se viveu com o outro, negar o passado. Amar outra vez, como gesto são e legítimo, requer apenas que não se deixe

“insepultado” o bem-amado que partiu (FREIRE, 2001, p.102)

Percebemos aqui um ser humano com uma capacidade infinita de amar e superar a dor das perdas. Um homem que deixou como herança para as gerações futuras exatamente capacidade de amar e ser amado:

Qual herança que posso deixar? Exatamente uma. Penso que poderá ser dito quando já não esteja no mundo: Paulo Freire foi um homem que amou. Ele não podia compreender a vida e a existência humana sem amor e sem a

54 busca do conhecimento. Paulo Freire viveu, amou e tentou viver. Por isso mesmo, foi um homem curioso (FREIRE, 2001, p.140).

Os dados que apresentamos até aqui nos apontam para um amor ágape presente na pedagogia e vida de Paulo Freire. Porém, Peter Park, ao se referir ao amor na pedagogia de Freire, ressalta que há a presença dos três tipos de amor estudados: “eros, philia e ágape que se unem para criar um poderoso veículo pedagógico” (2001, p.201). Não descartamos essa possibilidade, pois quando nos referimos a esses três tipos de amor percebemos que um complementa o outro. Porém, seria equivocado dizer que na pedagogia de Paulo Freire predomina somente eros, ou eros e philia sem o ágape. Por quê? Porque os amores eros e philia não têm energia suficiente para doar-se em prol dos outros. Desse assunto trataremos no segundo capítulo ao nos debruçarmos sobre o tema do amor na abordagem do teólogo Juan Luis Segundo.

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