Para delimitação dessa pesquisa, optamos pela temática do amor, pois em minha trajetória como educadora deparei-me muitas vezes com situações em que o corpo docente desdenhava sempre que diretores ou coordenadores diziam-nos que tínhamos que amar os nossos educandos, tratá-los com amor. Parecia até que esse sentimento estava fora de moda. Analisando a pedagogia dialógica de Paulo Freire, percebi que ele dá grande ênfase ao amor no processo educativo.
Já dissemos antes que quem ama assume compromisso com o ser amado. Ao analisar a história de Freire, sua infância e adolescência em meio a grandes necessidades (chegando até a passar fome), seus primeiros anos como educador, suas primeiras experiências com seu método de alfabetização de adultos, sua prisão, exílio e volta ao Brasil, vemos um homem amoroso, comprometido com a educação problematizadora libertadora dialógica. Toda sua
42 luta pela pedagogia dialógica está imbuída de um sentimento que se pode denominar de amor. Em um de seus relatos sobre o tempo de exílio ele se expressa assim:
Então, aprendi a controlar bem a ansiedade, a espera, aprendi a me controlar. Porque, realmente, a gente tem que aprender essas coisas. Mas o grande aprendizado que eu fazia e que ia se ampliando em todo esse processo era o de como, na verdade, podia intensificar com o oprimido, meu compromisso com as massas populares, com as classes sociais dominadas (FREIRE, 1988, p.52).
Esse relato apresenta um Paulo Freire coerente com aquilo que fala. Se ele defende a educação dialógica que um dos seus fundamentos é o amor, amor esse que é compromisso, então, mesmo estando exilado, não esquece o que se ama. O exílio serve para ele como tempo de descobertas para intensificar esse compromisso, esse amor pelos oprimidos. E foi exatamente por defender uma educação em que os oprimidos podiam se libertar da opressão é que ele foi preso e exilado. Por que a consequência negativa da ação de Freire não o levou a desistir daquilo em que ele acreditava?
Talvez a resposta a essa questão seja justamente o fato de ele amar os oprimidos. Por isso mesmo, em outros espaços fora do Brasil, ele continuava atuando com a mesma ousadia. Em Cartas a Guiné-Bissau, ele se mostra preocupado com a população daquele país que sofreu por causa dos colonizadores que deixaram como herança para o povo local a crença de que o que é nacional não tem valor (FREIRE, 1978, p. 15). E Freire está junto com o povo para descobrirem o quefazer para sair dessa situação de opressão. Esse amor-compromisso que estava presente em Freire ultrapassou fronteiras para tornar-se ação em outros continentes. Então, esse sentimento não era simplesmente para seus conterrâneos, mas para os oprimidos, independentemente de onde eles estivessem.
No livro Extensão ou comunicação?, escrito no Chile, ele mostra como deve ser o comportamento do técnico diante do camponês ao passar as técnicas agrícolas para eles. Quer dizer, não era apenas uma inquietação diante do que via e não concordava, mas um desejo de ver quem ele amava feliz. Então, pode-se dizer que ele assumiu a causa do oprimido: onde quer que haja seres humanos em situação de opressão, ele poderia estar lá, uma vez que assumira compromisso com essa causa.
Em uma carta destinada a Paulo Cavalcanti28, Freire descreve-o como sendo um
homem que trata as pessoas com humanidade e não como seres abstratos fora do mundo. Ao falar sobre o amor, ele o apresenta como ato de libertação. “Para esse humanismo radical,
28 Paulo Cavalcanti foi autor do pedido de habeas-corpus de Paulo Freire junto ao Superior Tribunal Militar (STM), o qual foi concedido em maio de 1968.
43 amar não é um gesto, é um ato e um ato de libertação, que implica a comunhão dos sujeitos que amam e se amam”(FREIRE, 196829,p. 272). Esse trecho da carta oferece elementos para
discutir a relação entre amor e libertação. Isso implica dizer que, ao amar, a pessoa se liberta daquilo que a oprime. Como isso poderia ser dito em termos mais práticos? Que a pessoa só é capaz de amar quando se liberta daquilo que a destrói. E o que pode destruir uma pessoa? Hospedar o opressor dentro de si. Freire diz que o oprimido é hospedeiro do opressor (FREIRE, 1975, p.55). Parte deles, ao se tornarem patrões, age como o patrão opressor que ele tinha antes. Por meio da educação problematizadora libertadora dialógica, o oprimido pode se libertar desse sentimento, dialogando com o educador e com os outros educandos sobre como se dá esse processo de ser hospedeiro do opressor e sobre o que fazer para livrar- se dele ou prevenir-se. O assunto, ao ser problematizado em aula ou em outros espaços educativos, pode transformar a realidade opressora.
Sendo assim, quem ama é uma pessoa livre, e essa liberdade acontece na comunhão das pessoas que amam e são amadas. Portanto, é um ato de reciprocidade em que os sujeitos se encontram e estabelecem essa amorosidade30 libertadora. “E essa é a tarefa que esse amor
impõe aos segundos, uma vez que a libertação de uns e de outros não pode ser feita a não ser por esses” (FREIRE, 1968, p. 272).
Nesse sentido em que o amor é apresentado como ato libertador, consequentemente a pessoa que ama e é amada não participa mais de uma situação de opressão. Ela agora tem condições de ser sujeito atuante na sociedade e pode lutar pelos seus direitos em parceria com os outros sujeitos. “Por isso é que não é possível amor entre antagônicos, como também aí está a razão pela qual se impõe a superação da contradição dominadores-dominados para que haja amor verdadeiro” (FREIRE, 1968, p. 272). Quando se ama, um não domina o outro, mas ambos usufruem da relação horizontal. Nessa relação não existe quem pode mais, mas podemos juntos. A relação é de parceiros, de pessoas que querem lutar juntas e vencerem juntas. Portanto não há uma prescrição31 de quem determina o que os demais devem fazer
(FREIRE, 1975, p.111). Há a liberdade de dialogarem e agirem em conjunto. O contrário Freire denomina como sendo a patologia do amor: “isto é, sadismo em quem domina; masoquismo nos dominados” (FREIRE, 1975, p.114). Nessa estreita relação, não há espaço
29 A data referente (1968) é o ano em Paulo Freire escreveu esta carta a Paulo Cavalcanti. 30 Termo usado por Freire nos seus textos mais recentes para se referir ao amor.
44 para o amor defendido por Freire e, consequentemente, a libertação fica comprometida. Nesse ambiente patológico, o dominador determina o que o outro irá fazer; e quem dá as ordens também não é livre sendo ele prisioneiro desse sentimento de dominador que o impede de ter uma relação horizontal com a pessoa dominada. “Nessa sociedade há uma ânsia de impor-se aos demais uma espécie de chantagem de amor. Isto é uma distorção do amor. Quem ama o faz amando os defeitos e as qualidades do ser amado” (FREIRE, 1979a, p.15).
No ambiente da sala de aula, Freire também chama atenção das educadoras para o amor que liberta. Mas é preciso saber amar para haver libertação, pois amar de qualquer forma pode levar a opressão:
É preciso, porém, saber amar. O fato de só amar, não basta. Para amar como
educadora você precisa cientificamente saber como amar, saber como você pode fazer-se mais eficaz e tornar seu amor mais eficaz para que ele seja meio de libertação e não prática de opressão32 (FREIRE, s/d p.18).
Como amar cientificamente? Como se ama? O que fazer para ser mais eficaz e tornar o amor mais eficaz para ser instrumento de libertação? Esses são alguns questionamentos que levantamos diante dessa afirmação de Freire. A reflexão feita anteriormente em relação à patologia do amor pode iluminar essa discussão de como se deve amar. A educadora que ama os educandos e, por meio do diálogo, cria um ambiente de aprendizagem onde os educandos têm espaço de amadurecimento e crescimento enquanto seres humanos, está amando cientificamente. Essa relação educativa pode despertar nos educandos a consciência de serem agentes da própria história. Dessa forma, é um ato libertador. Quando o contrário acontece, isto é, a educadora tem medo de os educandos saírem do seu controle e estabelece com eles uma relação de submissão, ela não está sabendo amar. O fato de serem submissos não os leva à libertação, porque o ato libertador se dá numa relação horizontal na mesma proporção do diálogo.
No que se refere à temática do amor, Humberto Maturana parte do pressuposto de que toda ação humana é dotada de emoção. Por isso, para contribuir na relação das pessoas de estaremjuntas, há uma emoção “fundadora particular”, sem a qual essa relação não é possível, que é o amor (2005, p.22). Dessa forma, o pensamento de Maturana é semelhante ao de Freire. Para ambos, o amor, enquanto emoção que constitui a base dos seres humanos é
32
Esta citação refere-se ao textoA prática à altura do sonho. s/d. Disponível em Instituto Paulo Freire, Textos
45 indispensável na relação entre eles. O outro é um ser de fundamental importância quando a relação está baseada nessa emoção. Sendo assim, o amor “é a emoção que constitui o domínio de ações em que nossas interações recorrentes com o outro fazem do outro um legítimo outro na convivência e é esse modo de convivência que contamos quando falamos do social” (MATURANA, 2005, p. 22).
Freire, ao escrever para um teólogo, quando se refere ao tema de amor e libertação, faz a seguinte afirmação: “o contrário do amor não é, como se pensa muitas vezes, o ódio, e sim o medo de amar, que é o medo de ser livre” (1979b, p.91). Assim, quem não ama é uma pessoa que traz em si o medo de amar e esse medo de amar está justamente na resistência em ser livre. Acreditamos que esse é um dado que a pedagogia dialógica freireana nos aponta como elemento de fundamental importância para aprofundamento da temática do amor. Se medo de amar (medo de ser livre) é o contrário de amor, quando passamos a amar alguém, nossos educandos, pessoas de nossa convivência diária, pessoas excluídas da sociedade, passaremos a ser livres e sem medo. Assim teremos a ousadia de sonhar com os que sonham com a transformação da sociedade e lutar por isso. Talvez esse dado leve a compreender melhor quando Freire diz que para dialogar é preciso amar as pessoas com as quais estamos dialogando. Só quem ama seria capaz de fazer algo com o outro para sua libertação. Se as pessoas em diálogo têm como objetivo a transformação do meio onde vivem, essa transformação só pode acontecer se houver amor. Esse amor libertador é suporte para indignar-se diante da sociedade injusta e desumana na qual vivemos e, inquietos com essa situação movermo-nos à ação.
Talvez possamos falar também de um amor que não espera nada em troca. É muito comum dizer que quem realiza um ato por amor não espera retribuição da pessoa amada. Para Freire, essa afirmação é falsa. Em relação a isso ele diz o seguinte:
O amor é uma tarefa do sujeito. É falso dizer que o amor não espera retribuições. O amor é uma intercomunicação íntima de duas pessoas que se respeitam. Cada um tem o outro, como sujeito do seu amor. Não se trata de apropriar-se do outro (FREIRE, 1979a, p.15).
Que retribuição é essa que Freire diz que quem ama espera da pessoa amada? Partindo da citação anterior, podemos começar pela expressão de que o “amor é uma intercomunicação de duas pessoas que se respeitam”. Dessa afirmação, já nascem duas exigências do amor para ele poder existir: intercomunicação e respeito. Se amamos, queremos nos comunicar com o outro, com a pessoa amada. Se falamos, queremos que ela nos ouça. E também queremos
46 ouvi-la. Há então a exigência da intercomunicação. Nessa intercomunicação é necessário que haja respeito para que um saiba ouvir o outro.
Outro elemento é a inapropriação do outro: “não se trata de apropriar do outro”. Isso quer dizer que a pessoa amada não é posse do amado. O oprimido não é posse de Freire. Outras pessoas podem também lutar com eles em prol da libertação. É um amor libertador, como já foi dito anteriormente. Ao amar, Freire dá essa liberdade aos que querem também aderir a essa causa.
O mesmo pode acontecer em qualquer espaço educativo. Na sala de aula, o educador amoroso quer ver a si mesmo e aos educandos aprendendo, a cada vez desenvolvendo mais suas potencialidades, dando uma resposta ao conteúdo problematizado em sala de aula. Se não se esperar isso, não há amor. Como amar se não se espera da pessoa amada uma resposta ao amor que lhe foi dado?
Um líder religioso amoroso também espera dos fiéis a libertação através da problematização dos problemas da comunidade. Se ao realizar esse ato educativo os fiéis não se libertarem, ele ficará decepcionado. Ao amar, exigimos que a pessoa amada esteja sempre bem, feliz, realizada. Essa é uma exigência de quem ama.
A mãe que ama o filho está constantemente preocupada com seu bem estar. Mesmo quando o filho cresce, o amor de mãe tem essa preocupação com o seu bem estar. É um amor que não adormece, está sempre acordado para ver as necessidades do filho.
Falar de amor, ao mesmo tempo em que é polêmico, complexo, é um tema que desde os primórdios da antiguidade é tratado pela humanidade. Paulo Freire deu a ele um lugar especial no diálogo, além de ter sido um homem amoroso pronunciando-se o mundo. Observando o que dissemos até aqui sobre Freire, fica evidente que o amor que ele defendia na pedagogia problematizadora libertadora dialógica, que ele sentia pelas pessoas, pela educação, não era qualquer tipo de amor. Isso nos leva a perceber que, para descobrir que tipo de amor é esse que ultrapassou fronteiras, precisamos nos apoiar em quem estudou sobre essa temática.