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: Localisation de la parcelle de compensation par rapport au projet

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possível da psicose, um de seus Escritos, Lacan refere-se mais uma vez

às contingências, especificamente o sexo e suas implicações no problema da existência do sujeito: ―‗Que sou eu nisso? ‘, concernente a seu sexo e sua contingência no ser, isto é, que por um lado ele é homem ou mulher e, por outro, que ele poderia não sê-lo, ambos conjugando seu mistério e enlaçando-o aos símbolos da procriação e da morte‖35 (LACAN, 1998/1957, p. 555). O sexo, a morte e a procriação enquanto

questões do ser parecem extensões das contingências destacadas

anteriormente por Lacan (a morte, a mulher, o pai). E, ainda mais, o que aparece como absolutamente contingencial é o sexo (feminino ou masculino), que pode ser, mas também pode não ser – ideia

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No original: Ce qui est de l'ordre de l'événement à proprement parler, c'est ce qui ne pourrait pas arriver, tout ce qui sort du cercle du possible. C'est le sens exact que Lacan donne à la contingence.

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Para solucionar a ambiguidade que a tradução brasileira do trecho para a língua portuguesa pode ocasionar, recorrer ao original: ―‗Que suis-je là?‟, concernant son sexe et sa contingence dans l‟être, à savoir qu‟il est homme ou femme d‟une part, d‟autre part qu‟il pourrait n‟être pas, les deux conjuguant leur mystère et le nouant dans les symboles de la procréation et de la mort.” (LACAN, 1995/1957, p. 549).

originalmente exposta por Freud (1905), essencialmente em seus ensaios sobre a sexualidade36.

Considerando a incerteza do sexo e situando a discussão nos dois importantes (e contemporâneos) trabalhos sobre a psicose – sendo o outro, justamente o Seminário sobre as psicoses, de 1955-1956 –, Lacan situa a mulher como uma questão, ou, em outras palavras, como um campo de questionamento do ser (seja ele masculino ou feminino). Nesse momento de suas reflexões teóricas, destaca a importância simbólica37 das experiências subjetivas. Assim, trata-se do modo de inscrição desses elementos numa série de significantes e significados que determinarão o funcionamento do sujeito diante de seu sexo (e também dos mistérios da morte e da procriação). Insistindo na distinção sexual como algo a ser admitido, recalcado ou negado38 pelo sujeito que se dirá homem ou mulher, Lacan (1981/1955-56, p. 98) acentua o caráter simbólico do Complexo de Édipo, colocando assim em evidência a importância do modo como ocorre a integração subjetiva da ―bissexualidade primitiva‖.

Cabe ainda lembrar que, neste Seminário, Lacan fala de Schreber39 e seu delírio – transformar-se na mulher de Deus, com quem

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Dedicando-se, na primeira parte, às ditas ―aberrações sexuais‖, na segunda, à descrição das variações e desenvolvimento da sexualidade infantil e, na terceira, ao estudo da puberdade, Freud abandona a concepção sexológica da sexualidade em favor de uma abordagem psíquica do sexual. (ROUDINESCO; PLON, 1998). A ampla noção de psicossexualidade, incluindo os conceitos de pulsão, libido e objeto, permitiu-lhe relativizar a concepção da sexualidade como inata e enfatizar seu caráter móvel (plástico) e originalmente bissexual.

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Ver nota 29. 38

Bejahung, Verdrängung; Verneinung (LACAN, 1981/1955-56, p. 97). 39

Daniel Paul Schreber, de família ilustre da burguesia protestante alemã, foi um jurista renomado e presidente da corte de apelação da Saxônia. Em 1884, aos 42 anos, apresentou sinais de distúrbios mentais acompanhados pelo neurologista Paul Flechsig, que o internou duas vezes. Schreber chegou a ser promovido a presidente do tribunal de apelação de Dresdem nove anos mais tarde, mas foi interditado depois de sete anos. Foi quando redigiu as Memórias de um doente dos nervos, publicadas em 1903, demonstrando em sua escrita que sua loucura não poderia ser compreendida como motivo jurídico de interdição, o que lhe possibilitou sair do manicômio e recuperar seus bens. Lacan também se serviu desse material, assim como da elaboração freudiana do caso. Schreber acreditava estar se metaforseando em mulher e esperava engravidar de Deus. Acreditava sofrer de um complô armado por Dr. Flechsig, que teria dele abusado sexualmente. Enquanto Freud (1911)

geraria uma nova raça – quando destacou essas questões do ser, discutindo mais este elemento fundamental para o tema: a procriação. Na lição sobre o fenômeno psicótico e seu mecanismo, descreve o efeito (psicótico) que resulta da emergência na realidade de uma significação que não foi simbolizada, que não pode ser ligada a nada, por jamais ter entrado no ―sistema de simbolização‖ (LACAN, 2010/1955-56, p. 105). No caso do presidente Schreber, essa significação rejeitada estaria estreitamente ligada à bissexualidade primitiva, uma vez que nenhuma espécie de forma feminina fora por ele integrada. É aí que Lacan destaca a procriação como o único ―nível‖ em que é possível encontrar ―a função feminina em sua significação simbólica essencial‖ (LACAN, 2010/1955-56, p. 105). É isso que irrompe então, no real, sob a forma de algo que Schreber nunca conheceu, forçando-lhe o remanejamento de seu mundo. Trata-se de ―uma exigência da ordem simbólica, por não poder ser integrada no que já foi posto em jogo no movimento dialético sobre o qual viveu o sujeito, acarreta uma desagregação em cadeia, uma subtração na trama da tapeçaria, que se chama delírio‖ (2010/1955-56, p. 108). A noção de Real apresenta-se ainda no início de seu desenvolvimento na obra lacaniana na ocasião deste Seminário acerca da psicose. Seu incremento será de suma importância para a compreensão da mulher posteriormente, sobretudo, no campo da psicose, quando Lacan (2001/1973, p.466) utiliza a expressão ―empuxo à mulher‖. A expressão ―empuxo à mulher‖ (pousse

à la femme) foi utilizada por Lacan em 1973. Sustentada pelas novas

concepções acerca da sexuação e do gozo feminino, trata-se, ao mesmo tempo, de uma dificuldade fundamental do sujeito psicótico em responder como homem ou como mulher e de uma tendência à feminização na psicose. Tal tendência é manifesta na certeza delirante de ser objeto de Outro que goza do sujeito psicótico como de um corpo de mulher.

Mas por enquanto, cabe destacar que Lacan se refere à ―função feminina‖ da mesma forma que a ―feminilidade normal‖ é referida por Freud – a saber, a ideia de ser a maternidade (mais especificamente a procriação) como o que há de essencialmente feminino. Aqui, no entanto, ele demarca sua ―significação simbólica‖, associando a descreveu os mecanismos da paranoia como uma defesa contra a homossexualidade latente, Lacan situou essa defesa em termos de uma dependência estrutural da função paterna pela elaboração de dois grandes conceitos: Nome-do-Pai e foraclusão. A esse respeito, ver Roudinesco e Plon (1998).

procriação à simbolização da sexualidade feminina e aos questionamentos acerca da diferença sexual.

Essas observações mostram-se pertinentes na medida em que, no contexto dessa elaboração, Lacan retoma a questão histérica ―O que é ser uma mulher?‖, assim desenvolvida no campo da dissimetria do Complexo de Édipo na menina e no menino. Na lição de março de 1956 do Seminário As psicoses (1955-1956), comenta um caso de histeria masculina em que a fantasia de gravidez e procriação está em primeiro plano.

Trata-se de uma observação do psicólogo da escola de Budapest, Joseph Hasler (1921), que descreve o caso de um homem de 33 anos, condutor de bonde, cujos sintomas teriam surgido depois de tropeçar, ao descer do trem, machucando-se levemente. Levado ao hospital para exames e curativos, constata-se que nada grave lhe tinha acontecido. Mas a partir desse episódio, o paciente passa a ter crises e a sentir dores cada vez mais frequentes, repetindo o ritual de exames, que continuaram todos negativos. Ao mesmo tempo é acompanhado por Hasler, que identifica aspectos traumáticos da infância do sujeito e destaca traços de feminilidade. Sabe-se que o paciente teria presenciado uma cena marcante no passado: uma mulher grávida de sua vizinhança emitia gritos de dor; escondido, ele assistiu ao socorro dessa mulher que estava com as pernas levantadas, em trabalho de parto. Aparentemente, o médico só pôde retirar partes da criança que deveria ter nascido. As semelhanças das crises do sujeito ao trabalho de parto e seu discurso ―feminino‖ levaram o médico que o acompanhava a afirmar que para ele seria mais compreensível caso se tratasse de uma mulher. Hasler insistia na busca de elementos homossexuais e fixações anais para explicar e dirigir o tratamento desse caso. Nenhuma intervenção que fizesse nesse sentido obtinha qualquer ressonância no paciente. Lacan comenta outros aspectos do doente (como por exemplo, seu intenso interesse pelas galinhas e pela botânica, em torno da germinação) na dimensão da questão do ser, que se impunha a partir do tema da procriação. Para mais detalhes sobre o caso, ver Lacan (1955-56).

Segundo Lacan, Hasler ignorava que as crises de seu paciente teriam decorrido menos do acidente, e mais dos exames a que fora submetido subsequentemente, destacando que estava em jogo não apenas uma fantasia de gravidez, mas também uma fantasia de fragmentação corporal. A característica e a permanência de suas crises com a insistência na investigação do próprio corpo demonstravam, assim, diferentes formulações da questão do ser: ―O que sou eu? Um homem ou uma mulher?‖, questão que para ele se formulava como ―Sou

ou não sou alguém capaz de procriar?‖ (LACAN, 1981/1955-56, p. 201. Tradução da autora)40.

3.3 DESDOBRAMENTOS DA QUESTÃO DO SER: INTERROGAR-

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