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O trabalho tem um papel central na vida dos seres humanos. A atividade profissional é um meio de prover o sustento e satisfazer as necessidades básicas dos indivíduos, possibilita o relacionamento entre as pessoas, o reconhecimento, permite que vínculos de amizade sejam estabelecidos, pode se constituir, também, em um caminho para a expressão humana (NATAL; FAIMAN, 2010).

Ao se reconhecer a relevância do trabalho tanto na sociedade como na vida das pessoas, é possível compreender o que pode representar a perda do papel profissional para o trabalhador diante do momento da aposentadoria (SANTOS, 1990).

De acordo com Santos (1990),

a perda do papel profissional é uma ruptura com os laços estabelecidos pelo sujeito durante vários anos. Ele deve agora reorganizar sua vida, estabelecer novos pontos de referência e reestruturar sua identidade pessoal. Esse remanejamento será mais ou menos difícil em função do lugar ocupado pelo trabalho na vida do sujeito, do investimento feito por ele no papel profissional. No entanto, em todos os casos, as modificações provocadas pela aposentadoria têm uma repercussão sobre o sujeito, acarretando, ao menos temporariamente, um questionamento da identidade pessoal (SANTOS, 1990, p. 28). A despeito das transformações e repercussões na vida e saúde do(a) trabalhador(a), Zanelli, Silva e Soares (2010) referem que não se pode negar o significado do lugar que o trabalho ocupa na vida humana, trabalho este que deverá se estender até efetivar-se a aposentadoria.

Como uma forma de assegurar o sustento de trabalhadores nos seus últimos anos de vida, a aposentadoria começou a ser introduzida em países industrializados no final do século XIX. A aposentadoria possibilitou tirar muitas dessas pessoas da mendicância, situação que vivenciavam por não terem mais condições de continuar trabalhando. Mudanças ocorridas com o decorrer do tempo transformaram o caráter da aposentadoria de um tipo de favor do Estado em um direito dos trabalhadores (FONTOURA; DOLL; OLIVEIRA, 2015).

Aposentadoria é o afastamento do trabalhador de suas atividades laborais. Alguns se aposentam jovens, outros não alcançam a aposentadoria por falecerem antes de se aposentarem. Para uns a decisão pela aposentadoria é pessoal, para outros a aposentadoria é imposta, entretanto, muitos temem este momento e as consequências que podem trazer para a vida (FRANÇA, 1999).

Além da interrupção das atividades laborais cotidianas, aposentadoria significa também a ruptura de um vínculo social e o distanciamento de um ambiente habitual (RODRÍGUEZ, 2009).

Segundo Magalhães et al. (2004), a aposentadoria pode ser entendida como uma transição que abrange a ampliação, redefinição e mudança nos papéis. Antunes e Parizotto (2013) referem que esta etapa é um momento novo na vida da pessoa, alguns colegas de trabalho não farão mais parte do convívio social, e uma das principais fontes de satisfação passa a ser a vida no contexto familiar. Ao se aposentar o sujeito perde alguns espaços e status, por outro lado, lhe são apresentadas novas possibilidades, que podem ser encobertas diante do sentimento de perda.

A literatura registra diversas abordagens teóricas sobre o tema da aposentadoria. Para França e Soares (2009), no decorrer dos últimos anos houve um aumento do número de pesquisas empíricas e modelos teóricos na área da aposentadoria, em especial nos países desenvolvidos, onde o número de pessoas idosas foi mais evidenciado. Essas autoras trazem em seu estudo, as principais teorias subjacentes ao processo de decisão da aposentadoria:

Teoria dos papéis – para Ashforth (2001 apud França; Soares, 2009) esta teoria evidencia os papéis que os indivíduos desempenham na sociedade e como se dá o movimento dessas pessoas entre esses papéis. Dentre estes, a decisão pela aposentadoria pode ser vista como uma transição de papel em que o trabalhador se aposenta e se retira de um papel para entrar em outro. De acordo com França e Soares (2009), ao longo da vida, os indivíduos podem desempenhar diferentes papéis, como filho, marido, pai, trabalhador, aposentado, entre outros, que

podem ser identificados em vários contextos, como família, organização ou sociedade.

Teoria da continuidade – de acordo com Atchley (1989 apud França; Soares, 2009), os indivíduos tentam preservar suas estruturas internas, que se referem às características psicológicas, como atitudes, comportamentos, interesses, dentre outros, e externas, que se relacionam com o ambiente físico e social. A adaptação das pessoas às mudanças ocorreria por meio da continuidade interna e da externa. A aposentadoria é uma transição iniciada antes do afastamento do trabalhador e que continua até alguns anos após o seu acontecimento.

Perspectiva do curso de vida – conforme Elder e Johnson; Kim e Moen; Quick e Moen; Szinovacz (2003, 2002, 2003, 1998 apud França; Soares, 2009), essa teoria se baseia na compreensão do comportamento do indivíduo através da sua história e do contexto em que ocorre o evento.

A aposentadoria é um processo que pode trazer mudanças nas múltiplas dimensões da existência do ser humano, não podendo ser compreendida apenas como um término de carreira (ZANELLI; SILVA; SOARES, 2010).

A decisão pela aposentadoria é pessoal, algumas pessoas desejam se aposentar mas gostariam de continuar desenvolvendo uma atividade profissional; outras querem parar de trabalhar mas não planejaram a vida após a aposentadoria; tem aquelas que relatam que pretendem realizar vários projetos mas ao se depararem com a aposentadoria não são capazes de descrever suas vontades; há ainda as que gostam das atividades que realizam, da organização onde trabalham, do relacionamento interpessoal estabelecido no contexto do trabalho e não querem se afastar (FRANÇA, 1999).

Se possível deve-se reduzir de maneira gradativa o tempo utilizado nas atividades laborativas, objetivando diminuir as repercussões da cessação do trabalho e identificar o sentido que outras atividades podem possibilitar (ZANELLI; SILVA; TORDERA, 2013).

O acontecimento da aposentadoria atinge aquele que se aposenta e as pessoas que lhe são próximas, como filhos e cônjuge, e as alterações nos hábitos do aposentado podem influenciar nas suas relações sociais pelo novo cenário que se forma (SOARES et al., 2007). A transição para a aposentadoria pode significar a possibilidade de busca por um trabalho que venha dar mais prazer ou que requeira um novo perfil profissional. Esse trabalho deve ser realizado de preferência em horário reduzido para que esses trabalhadores tenham tempo livre para os relacionamentos familiares, para o lazer e para outras atividades

que não estejam voltadas à vida profissional (FRANÇA; SOARES, 2009).

A aposentadoria oportuniza descobertas e desenvolvimento de potencialidades. A tutorização, processo no qual o tutor com grande experiência na sua área profissional acompanha e orienta outro trabalhador, pode ser uma estratégia a ser incluída para orientação para o período após a aposentadoria (ZANELLI; SILVA; TORDERA, 2013).

Estar aposentado ou vivenciar o momento da aposentadoria permite à pessoa refletir sobre as relações estabelecidas entre a vida pessoal e a vida no trabalho. Aquilo que não foi possível realizar muitas vezes devido ao próprio desenvolvimento das atividades laborais torna- se viável nessa fase da vida, como a reformulação das relações com os amigos e a família, o voluntariado, a espiritualidade, o lazer (ZANELLI; SILVA; TORDERA, 2013).

Considerando que a aposentadoria é um processo com importantes repercussões para a vida do(a) trabalhador(a) diante de uma nova realidade vivenciada, é relevante estudar este tema na enfermagem.

5 MÉTODO

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