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O estudo sobre os grandes sistemas técnicos, como o elétrico, remonta a Thomas Park Hughes (1983), com sua obra Networks of power: electrification in

Western Society, 1880-1930, dedicada a investigar as mudanças tecnológicas e

organizacionais na configuração dos sistemas de energia elétrica nos Estados Unidos, na Alemanha e na Inglaterra, entre 1880 e 1930.

Segundo ele, nenhum sistema técnico tem sido “mais impressionante em seus aspectos técnicos, econômicos e científicos, nenhum deles tem influenciado em seus efeitos sociais, e nenhum deles envolveu mais completamente nossos instintos e capacidades construtivas do que o sistema de energia elétrica”

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(HUGHES, 1983, p. 1, tradução nossa)22. Inventores, engenheiros, gerentes e

empresários têm construído um mundo artificial, a partir da difusão desse sistema, ordenando a maneira como vivemos no mundo (HUGHES, 1983). Para o autor, os sistemas de energia elétrica, assim como outros, incorporam os recursos físicos, intelectuais e simbólicos da sociedade que os constrói, portanto, são artefatos culturais, causas e efeitos das mudanças sociais (HUGHES, 1983).

Ao considerar que as questões tecnológicas apresentam conteúdos técnicos, científicos, econômicos, políticos e sociais importantes para a compreensão do sistema-mundo moderno, Hughes (1983) desenvolve, na obra Networks of power:

electrification in Western Society, 1880-1930, o conceito de Large Technological

System (LTS) para referir-se aos sistemas técnicos de grande abrangência territorial e integrados – como o de energia, mas também os de transporte, comunicação e abastecimento de água –, que estruturam o espaço construído da sociedade moderna. Tais sistemas são formados por componentes técnicos, interconectados por uma extensa rede material e imaterial, e controlados de forma centralizada com a finalidade de melhorar o seu desempenho, de modo a orientá-los à consecução dos objetivos para os quais foram pensados (HUGHES, 1983).

O objetivo de um sistema elétrico, por exemplo, é converter o potencial de energia disponível no meio ecológico em uma demanda desejada pela sociedade. Para isso, todo um sistema técnico terá sido pensado. No intuito de que essa finalidade se cumpra sem muitos imprevistos e perturbações, faz-se necessário que os componentes do sistema, mesmo de temporalidades diferentes, estejam operando normalmente, identificando e corrigindo os possíveis reverse salients, isto é, problemas críticos, irregularidades ou falhas que impedem o seu funcionamento pleno (HUGHES, 1983). A solução rápida e eficaz para os reverse salients é condição sine qua non para a continuidade do funcionamento dos circuitos, minimizando os danos à sua ordem sistêmica.

Para que se tenha ideia do impacto de um reverse salient não corrigido no sistema elétrico, destacamos um evento ocorrido no momento da escrita desta tese, mais precisamente no dia 21 de março de 2018, às 15h48min, quando fomos surpreendidos por uma disfunção na estrutura nacional do sistema elétrico

22 “Of the great construction projects of the last century, none has been more impressive in its

technical, economic, and scientific aspects, none has been more influential in its social effects, and none has engaged more thoroughly our constructive instincts and capabilities than the electric power system” (HUGHES, 1983, p. 1).

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interligado, o que, segundo o ONS, causou o desligamento de cerca de 19.760 MW dos subsistemas regionais Norte e Nordeste, correspondendo a 25% da carga total do SIN naquele momento e ocasionando um apagão desses dois subsistemas em todos os estados. Em consequência da perda repentina de carga, o ONS cortou, automaticamente, 3.740 MW dos subsistemas Sul e Sudeste/Centro-Oeste, o que gerou a interrupção temporária e parcial do fornecimento de energia em alguns lugares dessas regiões. De acordo com o operador, a disfunção foi causada por um erro na calibração de um disjuntor, na subestação de Xingu, no estado do Pará, a qual faz o controle automático da energia elétrica que é gerada pela hidrelétrica Belo Monte, passa por esse sistema de transmissão e é escoada por dois linhões para o Sudeste do país. A falha no disjuntor “desconectou o bipolo em corrente contínua de 800 kV, entre Xingu (PA) e Estreito (MG), por onde escoa para a região Sudeste/Centro-Oeste a produção da usina de Belo Monte, que era de 4.000 MW no momento” (ONS, 2018c, p. 1). O disjuntor estava calibrado para receber até 3.700 MW de potência, em vez de 4.000 MW, como acabou acontecendo. No momento em que a transmissão atingiu esse limite, o disjuntor se desligou automaticamente, paralisando todo o resto da rede básica (CERNE, 2018). A partir dessa interrupção, o operador desconectou os subsistemas Norte-Nordeste dos subsistemas Sul- Sudeste/Centro-Oeste, separando-os, o que gerou um excesso de geração no Norte e o desligamento automático, preventivo e em cadeia dos circuitos elétricos dessa região e do Nordeste.

Com base nos resultados de operação do ONS acompanhados nesse dia, a curva de carga do SIN vinha em trajetória normal, alcançando, às 15h47min, um dos maiores picos de consumo do dia (79.286 MW). Oito minutos depois, a curva despencou abruptamente para 61.769,5 MW, uma queda de quase 23% de carga. Nesse intervalo, o ONS registrou queda de 93,4% de carga no Norte, de 71% no Nordeste, de 4,8% no Sudeste/Centro-Oeste e de 4% no Sul (ONS, 2018d). Os impactos nos demais sistemas técnicos dependentes do sistema elétrico foram rapidamente sentidos por uma significativa parcela da população brasileira: sinais de trânsito parados, sistemas metroviários, bancários e de abastecimento de água paralisados, engarrafamentos nas principais cidades. O apagão fechou escolas, universidades, estabelecimentos comerciais, postos de combustíveis etc. Enfim, os rebatimentos dessa disfunção no uso do território foram imediatos, com a

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reorganização da vida urbana e a paralisação, embora temporária, da operacionalização de seus principais objetos e ações. Isso revela tanto o grau elevado de dependência que a sociedade atual mantém com o sistema técnico elétrico, chegando ao ponto de uma falha localizada paralisar praticamente toda a vida econômica e social de um país, quanto a centralização da capacidade de comando, controle, identificação e resolução de eventos sinistros no sistema pelo operador nacional. À medida que o sistema interligado se amplia e se diversifica, mais susceptível à ocorrência dessas falhas ele se torna, já que, atualmente, sua operação é dependente da atuação coordenada de vários agentes, com diversos interesses econômicos e políticos por trás. Desse modo, se, por um lado, um sistema elétrico interligado, como é o caso do brasileiro, possibilita uma otimização dos recursos energéticos e integração do território nacional pela via da eletricidade, por outro, gera um risco maior de um evento local ganhar uma dimensão nacional, o que põe em evidência a questão da segurança do sistema23.

Assim, ao fornecerem as bases materiais para a reprodução da vida moderna, esses grandes sistemas técnicos têm desenvolvido um papel central no processo de reorganização do espaço, qual seja, de urbanização, industrialização e desenvolvimento econômico, contribuindo para uma mudança significativa no estilo de vida. Eles são o fundamento técnico de um emaranhado de redes de poder que determinam o funcionamento de “organizações dedicadas à administração, saúde e assistência social, ‘cultura’, segurança e ordem pública, ciência e educação, religião e vida comunitária” (JOERGES, 1988, p. 25, tradução nossa)24.

Imerso em objetos técnicos de todos os tamanhos, conteúdos e significados, formas e idades, criados deliberadamente para atender a ações específicas e predeterminadas, o período técnico-científico e informacional está totalmente envolto dessas entidades que, embora onipresentes, estão escondidas sob a superfície da

23 Vivenciar esse evento, no momento da escrita de uma tese que se propõe a estudar a dimensão

espacial do fenômeno da energia elétrica e os seus encadeamentos, foi uma experiência ímpar de nossa trajetória acadêmica, já que, pela primeira vez, pudemos sentir nosso objeto de estudo, não pela sua presença, mas pela sua ausência, não pela luz que iluminava o nosso retorno diário da universidade para casa, mas pela escuridão que nos forçou a usar outros sentidos e perceber aquilo que escapa ao olhar guiado pela luz elétrica: o medo da noite; a superação, embora temporária, do invento sobre o seu inventor; a desnaturalização das “próteses” que enxertamos sobre a superfície da terra; e a insuficiência das normas diante da ausência da técnica.

24 “In fact, modern LTS such as electricity systems or telecommunication systems guarantee the

ongoing production, distribution, use, and disposal of almost all goods in almost all organizations of a society. They guarantee the functioning of organizations devoted to administration, health and social care, ‘culture’, security and public order, science and education, religion and communal life. And they guarantee the functioning of all other LTS” (JOERGES, 1988, p. 25).

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realidade cotidiana (GRAS, 1993). O mundo parece inimaginável sem os sistemas elétricos, aeroviários, de telefonia, cibernéticos, orbitais, financeiros e informacionais, ainda que milhões de pessoas não tenham acesso a eles. Segundo Alain Gras (1993, p. 2, tradução nossa), esses sistemas somente são “eficazes nos países industrializados porque se tornaram parte do nosso meio ambiente, porque constituem nosso meio ambiente e porque fazem parte de uma estrutura que os conecta e os torna interdependentes”25.

Portanto, os grandes sistemas técnicos têm sua existência percebida pelo homem moderno apenas quando os objetos a eles conectados deixam de operar suas funções programadas em decorrência de anomalias (reverse salients) ocorridas em um de seus componentes, como foi o caso relatado anteriormente. “É somente quando ocorrem os acidentes que vemos a barragem ou a central elétrica, o campo petrolífero ou o satélite” (GRAS, 1993, p. 1, tradução nossa)26. Nesses

momentos, a demora, a prorrogação e as demais alterações das atividades inorgânicas planejadas são de inteira responsabilidade do sistema que está off-line, que travou, que deu pane, o qual, portanto, é preciso esperar que reinicie ou que seja reinstalado. Além de inteiramente dependente da lógica operacional desses grandes sistemas, o “ser moderno respira através de um pulmão artificial que, de fato, cortou-o de todas as outras formas de vida” (GRAS, 2005, p. 1, tradução nossa)27.

Após destacar a importância da discussão inaugurada por Hughes, Bernward Joerges (1988) apresenta uma definição complementar de grande sistema técnico, na qual ele seria conceituado como um sistema de máquinas e estruturas que desenvolve de “forma mais ou menos confiável e previsível, operações padronizadas e complexas em virtude de serem integradas a outros processos sociais, governadas e legitimadas por racionalidades formais, intensivas em conhecimento e

25 “Ces techniques ne sont efficaces dans les pays industrialisés que parce qu’elles sont devenues

une part de notre environnement, qu’elles constituent notre milieu et qu’elles s’insèrent dans une structure qui les relient et les rend interdépendantes” (GRAS, 1993, p. 2).

26 “ce n'est que lorsque les accidents se produisent qu'on voit Ie barrage ou la centrale, Ie champ

pétrolier ou Ie satellite” (GRAS, 1993, p. 1).

27 “L'être moderne respire par un poumon artificiel qui l'a, en fait, coupé de toutes les autres formes de

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impessoal” (JOERGES, 1988, p. 23-24, tradução nossa)28. Esse autor ainda os

considera como:

complexos e heterogêneos de estruturas físicas e maquinarias [...] materialmente integrados, ou ‘acoplados’, em grandes extensões de espaço e tempo, independentemente de suas particularidades culturais, políticas, econômicas e corporativas, que sustentam o funcionamento de um grande número de outros sistemas técnicos, cujas organizações a eles se vinculam” (JOERGES, 1988, p. 24, tradução nossa)29.

A confluência de máquinas, dispositivos e demais artefatos materiais duradouros em torno de um grande sistema técnico, possibilita maior fluidez no território e novas conquistas no espaço, sendo ele o resultado de uma “aceleração contemporânea [que] impõe novos ritmos ao deslocamento dos corpos e ao transporte das idéias, mas também acrescenta novos itens à história” (SANTOS, 2013, p. 28). A operação e eficiência dos grandes sistemas técnicos têm se dado cada vez mais pelo uso de hardwares, softwares e protocolos que automatizam os processos, regulando o que os “artefatos técnicos podem fazer e forçados a fazer, e como eles podem interagir entre si, com pessoas e natureza” (JOERGES, 1988, p. 30, tradução nossa)30.

Para Bertrand Gille (1979), os sistemas técnicos são formados a partir do conjunto de estruturas que não estão fechadas em si mesmas, mas necessariamente abertas aos vizinhos, em constante colaboração e cooperação com outras estruturas: a “aviação sem alumínio, o automóvel sem o petróleo são estritamente inconcebíveis, como a nossa agricultura atual sem fertilizantes químicos, sem os inseticidas, sem toda a maquinaria agrícola, do trator para as colheitadeiras” (GILLE, 1979, p. 10, tradução nossa)31. Portanto, eles são

28 “I have suggested to consider technical systems as systems of machineries and freestanding

structures performing, more or less reliably and predictably, complex standardized operations by virtue of being integrated with other social processes, governed and legitimated by formal, knowledge- intensive, impersonal rationalities” (JOERGES, 1988, p. 23-24).

29 “some types of technical systems can be singled out as undisputably large: those complex and

heterogenous systems of physical structures and complex machineries which are materially integrated, or "coupled" over large spans of space and time, quite irrespective of their particular cultural, political, economic and corporate make-up, and support or sustain the functioning of very large numbers of other technical systems, whose organizations they thereby link” (JOERGES, 1988, p. 24).

30 “Technical norms are the structural or institutional aspects of machinery: They regulate what

technical artifacts are allowed to do and forced to do, and how they are allowed to interact among themselves, with people and nature” (JOERGES, 1988, p. 30).

31 “[…] l’aviation sans aluminium, l’automobile sans le pétrole sont proprement inconcevables comme

notre agriculture actuelle sans les engrais chimiques, sans les insecticides, sans toute la machinerie agricole, du tracteur aux moissonneuses-batteuses” (GILLE, 1979, p. 10).

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extremamente dinâmicos, possuem uma coerência entre suas operações e estão em constante evolução (GILLE, 1979). A sua dinâmica é fruto da solidariedade entre os objetos técnicos e dos fluxos de mercadorias, pessoas e capitais, possibilitada pelas redes materiais e imateriais fixadas no território.

Ademais, sua evolução acontece a partir da invenção de novas técnicas, códigos e normas, e da supressão ou absorção de componentes precedentes que, apesar de aparentemente gerarem desequilíbrios, asseguram a coesão no interior do sistema, suprimem as possíveis perturbações dentro das estruturas e garantem o pleno funcionamento das máquinas. Evidente que o desempenho de cada sistema variará conforme o lugar e o tempo. Ele pode ser compatível com “vários tipos de sistemas econômicos, com vários tipos de sistemas sociais, mas pode ter incompatibilidades, e é aqui que se encontram algumas das dificuldades na transferência de tecnologia para os países do Terceiro Mundo” (GILLE, 1979, p. 11, tradução nossa)32.

Como exemplo, podemos citar o caso de turbinas eólicas planejadas com tecnologia europeia e que, ao serem instaladas no território brasileiro, apresentam incompatibilidades com o meio geográfico local, exigindo das máquinas adaptações sucessivas. Não somente as máquinas precisam se adaptar a esse novo meio, mas também os sistemas sociais, econômicos e técnicos locais preexistentes necessitam se adaptar aos imperativos impostos por esses novos objetos técnicos.

Recentemente, o conceito de macrossistema técnico foi apresentado por Alain Gras (1993) como uma categoria específica de grandes estruturas sociotécnicas do período histórico presente, dispostas em uma configuração de redes e articuladas em gigantescas unidades técnicas. Sua gênese está, historicamente, ligada à “dinâmica das redes, resultante da revolução industrial [...] compatível com os valores da revolução política e regulada pelas tecnologias da informação e da comunicação, que incorporam a ‘revolução do controle’” (ROBERT, 1999, p. 16, tradução nossa)33. Portanto, eles possuem a “particularidade de sempre

32 “Un systéme technique peut en effet se trouver compatible avec plusieurs types de systémes

économiques, avec plusieurs types de systémes sociaux, mais il peut y avoir des incompatibilités et c’est la que reside un certains nomb es de difficiltés dans les transferts de technologie vers les pays du tiers-monde” (GILLE, 1979, p. 11).

33 “Le macro-système technique n'est étranger ni à la révolution industrielle ni à la révolution politique,

ni à la ‘control revolution’. [...] Nous allons voir qu'il émerge en fait a posteriori comme produit d'une maîtrise globale réussie de la dynamique des réseaux issus de la révolution industrielle, conforme/compatible avec les valeurs de la révolution politique et régulé par les (mais également

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acoplar seus próprios objetos técnicos com uma tecnologia de informação que permite que cada momento defina o estado do sistema” (GRAS, 1993, p. 3, tradução nossa)34.

Embora os grandes sistemas técnicos tenham surgido como projeto de construção dos Estados-nação (ROBERT, 2004), no período atual eles têm sido regulados, controlados e usados com o objetivo único de atender às exigências de fluidez do capital produtivo e financeiro para a construção de novos espaços da racionalidade capitalista (SANTOS, 2013). Operados por uma ordem global, esses sistemas técnicos estão a serviço de uma “produção em escala planetária, onde nem os limites dos Estados, nem os recursos [...] são levados em conta [...], exceto a busca desenfreada do lucro, onde quer que se encontrem os elementos capazes de permiti-lo” (SANTOS, 2014, p. 181). Assim, tudo está organizado e “disposto para que os fluxos hegemônicos corram livremente, destruindo e subordinando os demais fluxos. Também por isso o Estado deve ser enfraquecido, para deixar campo livre (e desimpedido) à ação soberana do mercado” (SANTOS, 2013, p. 31).

No que concerne ao macrossistema técnico, “é ele que organiza as redes como um sistema sociotécnico, ou seja, como uma forma que articula suas dimensões técnicas e organizacionais, o que lhes oferece os meios (humanos, jurídicos e gerenciais) de sua integração” (ROBERT, 1999, p. 17, tradução nossa)35.

Ao fazer isso, ele integra os objetos técnicos e as ações em um grande sistema dinâmico e complexo. Dessa forma, ele é uma realidade híbrida que não se explica apenas pelo fator técnico, mas também pelo econômico, pelo político e pelo social. Sobrepostos aos sistemas técnicos, temos todos os outros.

As discussões sobre os grandes sistemas técnicos foram incorporadas na Geografia brasileira por meio do professor Milton Santos, ao denominá-los “grandes coisas artificiais, grandes objetos geográficos, articulados entre si em sistemas, produtos da história dos homens e dos lugares, localizados no espaço” (SANTOS, 2013, p. 105). Ao construir uma teoria do espaço como totalidade e destacar o papel régulateur des) technologies de l'information et de la communication (TIC) qui incarnent la ‘control revolution’” (ROBERT, 1999, p. 16).

34 “Ces systèms, offrent aussi la particularité de coupler depuis toujours leurs propres objets

techniques avec une technologie de l’information qui permet à chaque instant de définir l’état du système” (GRAS, 1993, p. 3).

35 “Le MST [macro-système technique] organise à son tour ces réseaux comme système socio-

technique: c'est-à-dire comme forme qui articule leurs dimensions technique et organisationnelle, qui leur offre les moyens (humains, juridiques et gestionnaires) de leur intégration” (ROBERT, 1999, p. 17).

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da técnica, da ciência e da informação como elos entre os sistemas de objetos e de ações, esse autor apresentou uma série de temas, atrelados aos sistemas técnicos, que mereceriam atenção especial dos geógrafos, entre eles: os “sistemas de engenharia e suas características atuais; a criação de grandes objetos geográficos, fixos e fluxos no espaço; [...] e os circuitos espaciais de produção e os círculos de cooperação” (SANTOS, 2013, p. 120).

Para Milton Santos (2013), os sistemas técnicos atuais são definidos pelas seguintes características: tendência de ubiquidade, universalidade e unificação; capacidade de absorver os sistemas técnicos menores; serventia aos atores hegemônicos da economia, da cultura e da política; e exigência de unidade no comando. Em relação a essa última característica, ele considera que de uma “multiplicidade de instalações e uma pluralidade de comandos, encaminhamo-nos para o comando único. Essa tendência não é exclusiva de apenas um sistema técnico, como o da eletricidade, por exemplo, mas abarca a totalidade dos sistemas técnicos” (SANTOS, 2013, p. 107).

O geógrafo argentino Adriano Furlan (2016, p. 63), ao realizar uma revisão conceitual sobre o tema em questão, apresenta pensamento bastante semelhante ao de Milton Santos, afirmando que:

Todas las acciones y funciones que ocurren en el medio técnico-científico- informacional estarían atravesadas por la ineludible co-presencia de los macrosistemas técnicos, ya que sin su concurrencia ninguno de los objetos técnicos modernos, y menos aún los más recientes y sofisticados de ellos, podría intervenir en las acciones para las cuales fueron concebidos o lo harían muy deficientemente, con un mínimo grado de eficacia y sin manifestación de su intencionalidad. Debido a la dependencia funcional que ejercen sobre el funcionamiento del conjunto, los macrosistemas técnicos son, por lo tanto, componentes estratégicos del sistema técnico hegemónico. El comportamiento invasivo del sistema técnico actual sobre prácticamente todos los lugares del planeta, y la consecuente tendencia a la homogeneización de los patrones de producción y uso del espacio, aún con diferenciales de densidad técnica e informacional y complejidad organizativa, sería posible gracias a los macrosistemas.

Assim, os sistemas técnicos característicos do período atual, representativos dos sistemas econômicos hegemônicos e integrados em macrossistemas,

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