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Como ciência de síntese situada na encruzilhada dos métodos e dos resultados sistematizados por meio da associação entre várias ciências (GEORGE,

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1972), a geografia recorre a um grande e diverso volume de dados, tendo de estar, na maioria das vezes, na fronteira de outras ciências21. Tudo para alcançar aquilo

pelo qual ela se encontra ininterruptamente empenhada: a busca pela unidade (GEORGE, 1972). Ao ver-se, em vários momentos da pesquisa, em um lugar de intersecção, o geógrafo deve conhecer, se apropriar e ter o domínio do vocabulário e dos métodos próprios desses campos limítrofes, a fim de “garantir o diálogo, a colaboração, a boa interpretação e a verificação dos resultados fornecidos pelos especialistas, os quais, por sua vez, também se sentirão incitados à pesquisa em alguns campos sobre os quais incide a curiosidade dos geógrafos” (GEORGE, 1972, p. 10).

Assim sendo, ao escolhermos como objeto de estudo um setor produtivo carente de análises geográficas, porém muito investigado pelas ciências exatas – sobretudo pelas engenharias elétrica e de energia, pelo planejamento energético e pela economia –, adotamos, como primeira estratégia de pesquisa, apropriarmo-nos dos vocábulos inerentes ao setor elétrico e conhecer a sua história, a sua organização e o seu funcionamento. Para isso, fizemos um levantamento amplo e minucioso de artigos, dissertações, teses, livros e revistas. Esse levantamento se deu, especialmente, através de consultas no site da Biblioteca Brasileira Digital de Teses e Dissertações (BDTD), através do link: http://bdtd.ibict.br/, onde tivemos acesso a dissertações e teses defendidas em programas de pós-graduação stricto

sensu do Brasil. O acesso a esses trabalhos acadêmicos permitiu um conhecimento

mais amplo sobre as principais revistas e livros citados pelos autores e em circulação no país e no mundo. A maioria das dissertações e teses consultadas foi defendida em programas de pós-graduação em ciências exatas, notadamente nos seguintes programas: Programa Interunidades de Pós-Graduação em Energia, vinculado à Escola Politécnica, à Faculdade de Economia e Administração, ao Instituto de Eletrotécnica e Energia, e ao Instituto de Física, da USP; e Programa de Pós-Graduação em Planejamento Energético, do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (COPPE), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Além disso, começamos a participar de conferências, fóruns e encontros a respeito de temas como: energia renovável, regulação, mercado energético,

21 Salientamos que a condição fronteiriça não é própria somente da geografia, mas de todas as áreas

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infraestrutura e impactos socioambientais. Dos eventos que participamos, destacamos os seguintes: o VIII, o IX, o X e o XI Fórum Nacional Eólico, ocorridos, respectivamente, nos anos de 2016, 2017, 2018 e 2019; o IV Fórum Estadual de Energia do Rio Grande do Norte, realizado em 2016; e, em 2017, o V German- Brazilian Renewable Energy Business Conference: Onshore Windenergy Brazil, o I Encontro da Inovação, Qualidade e Competitividade para o Setor Elétrico Brasileiro e a X Feira e Congresso All About Energy.

A participação nesses eventos foi fundamental para a incorporação, na tese, de um portfólio de conceitos, ideias e visões mais amplas e sólidas sobre a estrutura, a regulação e a organização do setor elétrico nacional. Também possibilitou o estabelecimento de contatos com representantes de empresas geradoras de energia eólica, de fornecedores de componentes, de prestadoras de serviços, de órgãos reguladores e planejadores, e de empresas transmissoras e distribuidoras. Portanto, esses eventos se tornaram verdadeiros campos de pesquisa.

Complementando essas atividades, tivemos a oportunidade de assistir a um ciclo de palestras, sobre o setor elétrico brasileiro, proferidas por pesquisadores, planejadores e profissionais da área, no ano de 2012, e disponíveis na plataforma do YouTube. O ciclo contemplou as seguintes palestras: a primeira, “A evolução do setor elétrico brasileiro”, do professor da UFRJ, Nivalde Castro, disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=33-8ghjuHvU; a segunda, “Desafios da Operação do Sistema Elétrico Brasileiro, do ex-diretor do Operador Nacional do Sistema (ONS), Hermes Chipp, disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=zyOq- jWqmrQ; a terceira, “Importância e desafios de planejamento do setor elétrico brasileiro”, do ex-presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tiomno Tolmasquim, disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=kwCWz- C2dVM; e a quarta, “Regulação do setor elétrico brasileiro”, do ex-ministro de Minas e Energia e ex-diretor da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), Nelson Hubner, disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=aK3y3Fed7CY.

As atividades de campo foram iniciadas no primeiro ano do doutorado, em 2015, com a participação em duas reuniões públicas da empresa Força Eólica do Brasil, realizadas nas cidades de Lagoa Nova e Cerro Corá, nos dias 27 e 28 de outubro de 2015, respectivamente, para discutir os projetos de instalação dos

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parques eólicos Santana I e II, e Calango 6, que têm 42 aerogeradores no total, instalados nos municípios de Bodó, Cerro Corá e Lagoa Nova. A primeira reunião, em Lagoa Nova, teve a duração de 1h 54min., e a segunda, em Cerro Corá, de 1h 31min. Nas duas reuniões, houve a participação de funcionários da empresa, prefeitos e vereadores dos três municípios e representantes da sociedade civil.

A nossa participação nessas duas reuniões foi importante por ouvirmos, nos poucos minutos concedidos pela empresa, os relatos dos moradores sobre as demandas locais, as suas frustrações, os conflitos, as angústias, as expectativas e os problemas gerados a partir da instalação dos parques, tendo em vista que a Força Eólica já tinha instalado outros empreendimentos eólicos nos três municípios em momentos anteriores. Se, por parte dos moradores, ouvimos relatos preocupantes sobre as contradições do processo de instalação dos parques, dos representantes da gestão pública municipal, apenas entusiasmo com a possibilidade de aumento das receitas municipais. No entanto, o prefeito de Lagoa Nova questionou o porquê de o município de Bodó ser contemplado com a instalação da maioria dos aerogeradores em seu território.

Vale salientar que, em nenhum momento, interrompemos as reuniões com perguntas, dúvidas ou questionamentos. Essa escolha se deu porque o objetivo era que nossa participação nesses dois eventos se desse da maneira mais despercebida possível, observando as relações estabelecidas entre a empresa, a gestão pública municipal e os moradores locais, sem influenciá-los. No entanto, nossa presença foi rapidamente percebida pelos funcionários, quando fomos apresentados à gerente executiva da empresa por uma colega do doutorado que estava participando das reuniões como prestadora de serviços. Além disso, as fotografias que fizemos durante os dois eventos geraram olhares curiosos e interrogativos do público presente.

Ainda no dia 27 de outubro de 2015, tivemos a oportunidade de conversar com a proprietária do chalé onde ficamos hospedados, localizado na zona rural de Lagoa Nova. Na ocasião, ela relatou os impactos sociais e econômicos gerados a partir da instalação dos primeiros parques eólicos na região, especialmente no que concerne ao aumento da renda dos proprietários de estabelecimentos comerciais e da recrudescência de algumas mazelas sociais. No dia seguinte, fizemos o primeiro trabalho de reconhecimento do campo, ao visitar alguns parques eólicos construídos

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na região da Serra de Santana, e conversamos com alguns moradores de maneira informal e aleatória.

O segundo trabalho de reconhecimento do campo aconteceu nos dias 25 e 26 de julho de 2017, no Mato Grande, região localizada na porção nordeste do estado e que concentra um dos maiores quantitativos de aerogeradores instalados no território potiguar. No primeiro dia, fizemos uma atividade de campo na comunidade indígena do Amarelão, na zona rural do município de João Câmara e que tem sido impactada com a construção dos parques eólicos na região. A visita foi guiada por um dos representes da comunidade e contou ainda com a participação da professora Adryane Gorayeb, do departamento de Geografia, da Universidade Federal do Ceará (UFC), e do professor estadunidense Christian Brannstrom, da Texas A&M University, cuja palestra sobre os impactos sociais das usinas eólicas no litoral do Ceará e no Texas (USA) tivemos a oportunidade de presenciar, à noite, no campus João Câmara do IFRN. Ainda no dia 26, percorremos os municípios de João Câmara, Parazinho, São Miguel do Gostoso e Rio do Fogo, observando a paisagem modificada pela parafernália elétrica (aerogeradores, cabos e torres de transmissão, subestações etc.) instalada nesses lugares. No percurso, também foi possível conversar com alguns moradores e ouvi-los sobre suas relações com todo o processo de instalação dos parques.

Feitos esses reconhecimentos, passamos a realizar a pesquisa de campo por meio de visitas aos parques eólicos, às usinas solares, às subestações, aos projetos sociais desenvolvidos pelas empresas eólicas e às comunidades impactadas, direta e indiretamente pelos empreendimentos elétricos. Nessas visitas, fizemos observações simples, fotografias georreferenciadas, conversamos com trabalhadores do setor e com representantes de associações de moradores locais e tivemos acesso a alguns documentos importantes, como: cópias de contrato de arrendamento, de processos judicializados e de comprovante de pagamento de arrendamento de terras pelas empresas. Nesse sentido, esses campos foram riquíssimos para o desenvolvimento da tese, já que, ao visitarmos todos os municípios produtores de energia eólio-elétrica, obtivemos um olhar do todo sem perder de vista as particularidades do processo. Além do que isso nos possibilitou o acesso a múltiplas visões sobre o fenômeno em análise e a criação de uma rede de contatos com integrantes do trade eólico.

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Nesses campos, tivemos o cuidado de exercitar o nosso olhar sobre a dimensão visível do território, algo que era tão caro para os geógrafos clássicos e que, nos anos mais recentes, ficou tão secundarizado com o advento das novas técnicas de captação de imagens. Isso não quer dizer que não tenhamos recorrido ao uso dessas novas técnicas. Porém, tentamos conciliá-las com o exercício do olhar, da observação e da contemplação, já que é a partir deles que a questão espacial emerge precipuamente, isto é, o “possível papel que a trama das localizações pode ter na construção e manifestação de um fenômeno” (GOMES, 2013, p. 7). Para o geógrafo Paulo César da Costa Gomes (2013, p. 8), desde o final do século XVIII, com a geografia clássica, que a “contemplação da diversidade terrestre unia duas grandes fontes de prazer: aquela da sensibilidade estética e aquela proveniente da possibilidade de compreensão dos fenômenos observados”. A observação era um recurso básico dos geógrafos clássicos, que nos últimos tempos, contudo, tem sido paulatinamente, “relegado e passou mesmo a ser malvisto, como se a observação nada pudesse nos ensinar” (GOMES, 2013, p. 8-9).

Nas observações realizadas in loco, adotamos a forma direta intensiva, que, segundo Marconi e Lakatos (2011), é desenvolvida por meio de duas técnicas: a observação propriamente dita e a entrevista. Na primeira técnica, utilizamos as observações sistemática, não participante e em equipe. Para esses autores, a observação sistemática realiza-se em “condições controladas, para responder a propósitos preestabelecidos. Todavia, as normas não devem ser padronizadas nem rígidas demais, pois tanto as situações quanto os objetos e objetivos da investigação podem ser muito diferentes” (MARCONI; LAKATOS, 2011, p. 78). Nas pesquisas em que se recorre a esse tipo de observação, o “pesquisador sabe quais os aspectos da comunidade ou grupos que são significativos para alcançar os objetivos pretendidos. Por essa razão, elabora previamente um plano de observação” (GIL, 2011, p. 104). Sendo assim, a observação deve obedecer a um planejamento e se utiliza de instrumentos para a coleta de dados ou fenômenos.

Desse modo, as observações sistemáticas que realizamos durante a pesquisa de campo, em todas as municipalidades norte-rio-grandenses produtoras de energia eólio-elétrica, se deram a partir da organização e sistematização prévia, com a divisão dos campos, a escolha dos roteiros, a elaboração de mapas com rotas, fenômenos a serem observados e comunidades visitadas, a produção de um roteiro

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de perguntas, a calibragem do Global Positioning System (GPS) etc. Os registros foram feitos a partir de anotações, fotografias e gravações das conversas informais autorizadas que mantivemos com os presidentes das associações de moradores.

A escolha das comunidades visitadas obedeceu aos critérios estabelecidos pelo então mestrando Luís Felipe Fernandes Barros, para sua pesquisa, que foram adotados integralmente aqui, haja vista que realizamos juntos boa parte dos campos. Esses critérios foram definidos, segundo o pesquisador, a partir da sobreposição de dados vetoriais e, por conseguinte, da constatação da existência de aerogeradores instalados dentro ou ao lado dos polígonos de assentamentos de reforma agrária e credito fundiário, de comunidades quilombolas e indígenas, de uma reserva de desenvolvimento sustentável e de vilas agrícolas criadas por projetos de colonização. Diante disso, se construiu um mapa de densidade, por meio do qual pudemos visitar as comunidades que estavam sob maior influência dos parques eólicos. Evidente que nossa pesquisa não teve o intuito de descrever e analisar cada comunidade visitada, até porque a pesquisa de Luís Barros cumpriu essa tarefa, mas apresentaremos, no quarto capítulo, alguns casos emblemáticos de relações positivas e negativas envolvendo as empresas do setor eólico, as comunidades e o Estado.

Nas idas aos campos, adotamos a estratégia da observação não participante, que ocorre quando o “pesquisador toma contato com a comunidade, grupo ou realidade estudada, mas sem integrar-se a ela: permanece de fora” (MARCONI; LAKATOS, 2011, p. 78). Ele presencia os fatos atuais e tem conhecimento dos pretéritos, porém, não se deixa “envolver pelas situações; faz mais o papel de expectador. Isso, entretanto, não quer dizer que a observação não seja consciente, dirigida, ordenada para um fim determinado” (MARCONI; LAKATOS, 2011, p. 78).

As observações foram, ainda, feitas em equipe, contando com as participações da doutoranda em Geografia Francisca Diana e da historiadora Ana Paula, no campo da Serra de Santana; do mestre em Geografia Francicélio Mendonça da Silva, nos campos de Ceará-Mirim e Rio do Fogo; e do mestre em Geografia Luís Felipe, dos doutorandos em Geografia Roberto Paolo e Thomaz Xavier, da professora Adryane Gorayeb, da geógrafa Tathiana Bezerra e da pedagoga Isadora Mangualde, nas demais atividades de campo. O trabalho em equipe possibilitou a realização de incursões no campo muito frutíferas e ricas, já

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que vários olhares foram lançados sobre o objeto de estudo e diversas questões da pesquisa foram levantadas e discutidas durante os deslocamentos, as refeições, os momentos de descanso, de lazer, enfim, no decorrer dos múltiplos espaço-tempos da pesquisa.

Sobre a técnica da entrevista, recorremos a um roteiro de perguntas-chave abertas como instrumental para a coleta dos dados (Anexo 1). Ele foi o principal instrumento da entrevista. No entanto, outros instrumentos apoiaram-no, como câmeras fotográficas, gravadores de sons e imagens etc. Para que o roteiro fosse usado de modo a se alcançar o êxito desejado, fez-se necessário que ele contivesse perguntas com certa “flexibilidade e adaptabilidade, dependendo do potencial de informações, da experiência e mesmo do comportamento do entrevistado e do entrevistador” (MARANGONI, 2005, p. 172). Portanto, o roteiro foi constituído de poucas questões “abertas” para que o interlocutor tivesse a possibilidade de expor seu conhecimento e manifestar suas opiniões sobre o assunto tratado. Nesse sentido, perguntas que demandassem respostas fechadas, tipo sim ou não, foram evitadas, pois poderiam estancar o “fluxo de informações advindas da rica fonte que é o entrevistado” (VENTURI, 2011, p. 457).

Ademais, a nós como pesquisadores coube dispor de certas habilidades específicas, como: a abordagem e a linguagem adequadas, o conhecimento prévio sobre o tema em pauta, o bom-senso e o bom-humor, a cordialidade, a sensibilidade, a disposição em escutar mais e intervir menos, o raciocínio rápido, a paciência e a capacidade para retomar o curso da entrevista sem gerar constrangimentos ou demais situações deselegantes, vestir-se de modo a não causar estranheza, comportar-se de acordo com os modos locais etc. Para Marangoni (2005, p. 173), essas habilidades podem “significar desde o mais desejável sucesso ao mais completo fracasso na obtenção das informações desejadas”. Acreditamos que obtivemos o sucesso esperado.

O roteiro de perguntas adotado no trabalho em tela foi pensado previamente, tendo como eixo norteador a relação das empresas com as comunidades em uma perspectiva econômica, social e ambiental. As respostas foram ora anotadas, ora gravadas, mediante a autorização do entrevistado. Essa técnica possibilitou um diálogo mais aberto, mais humanístico e com mais afeto, já que o contato inicial com os entrevistados priorizou sempre a obtenção da confiança do interlocutor, a

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utilização de expressões adequadas e o respeito pelo seu espaço-tempo. Como a instalação de parques eólicos nos lugares visitados é um fenômeno recente e alvo de muitas críticas por parte dos moradores, muitos deles demonstraram se sentir à vontade e dispostos para falar sobre os pontos positivos e negativos desse processo.

Mesmo assim, tivemos a cautela de sempre perguntar se o interlocutor estava disponível para um “bate papo” informal e que, caso contrário, voltaríamos em outro momento, além de ressaltar que ocuparíamos o mínimo do seu tempo. Os relatos duraram, em média, de 15 a 20 minutos, apesar de alguns, diante da empolgação dos entrevistados, terem sido mais demorados, e foram concedidos nos alpendres de suas residências e nos espaços de trabalho. A preocupação e o cuidado com a forma como abordaríamos os interlocutores e conduziríamos as entrevistas, deveram-se às muitas críticas que fazemos a determinadas condutas de pesquisadores egoístas, insensíveis, por vezes, antiéticos (mas que se vangloriam de serem os que que, de fato, produzem ciência), que recorrem à aplicação de questionários longos, exaustivos, enfadonhos e invasivos, e que não levam em consideração o tempo e os limites do que é, para o outro, da ordem do privado, do subjetivo e da individualidade. Sendo assim, visitamos um total de 26 comunidades, o que incluiu assentamentos de reforma agrária e do crédito fundiário, acampamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), comunidades quilombola e indígena, vilas agrícolas criadas a partir do desenvolvimento de um projeto de colonização e comunidades pesqueiras, ao longo de 13 dias de atividade de campo e entre 22 municípios (Mapas 2 e 3).

105 Mapa 2: Rio Grande do Norte – Municípios visitados durante a pesquisa in loco realizada entre set. 2017 e fev. 2018

106 Mapa 3: Rio Grande do Norte – Lugares fotografados durante a pesquisa in loco realizada entre set. 2017 e fev. 2018

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No total, realizamos sete atividades de campo nos municípios que estão direta ou indiretamente ligados à produção de energia eólica. A escolha dos líderes comunitários para o desenvolvimento do roteiro de entrevista se deu porque eles são os procurados pelos representantes das empresas para intermediar a relação com a comunidade. Embora os parques eólicos, as subestações de energia elétrica e as comunidades visitadas estejam localizados nos espaços rurais, nos preocupamos em visitar também a sede dos municípios, no intento de observar as principais mudanças na paisagem urbana relacionadas ao setor eólico, como, por exemplo: o fluxo de pessoas e a circulação de componentes eólicos; os escritórios e os centros de apoio de montagem, operação e manutenção dos parques, criados pelas empresas nesses lugares; a presença de fábricas de torres de concreto; os laboratórios de energias renováveis criados etc.

A pesquisa de campo ainda contemplou, no segundo semestre de 2018 e no primeiro de 2019, as seguintes atividades: visita à fábrica de torres da Dois A Tower System e ao canteiro de obras dos complexos eólicos Bento Miguel e Cutia, localizados no município de São Bento do Norte; visita técnica ao complexo eólico Asa Branca, no município de Parazinho; e registro fotográfico georreferenciado dos sistemas técnicos de transmissão e de distribuição de energia elétrica, instalados no território potiguar (linhas, redes e subestações das transmissoras e da distribuidora). Para tal registro, seguimos por quatro rodovias federais que conectam a cidade de Natal às demais regiões e às cidades do interior do estado, a saber: a BR-406, também chamada “reta do sal”, que a conecta com a cidade de Macau; a BR-304, com a cidade de Mossoró; a BR-226, com a região do Seridó; e a BR-101, com o litoral sul.

Além dos dados primários obtidos na pesquisa de campo, recorremos aos dados secundários coletados na pesquisa documental. Vale salientar que entendemos a pesquisa documental no seu sentido amplo, como contemplando uma variedade de tipos de documentos, a exemplo de jornais, revistas, regulamentos, leis, medidas provisórias, decretos etc. Nesses casos, os “conteúdos dos textos ainda não tiveram nenhum tratamento analítico, são ainda matéria-prima, a partir da qual o pesquisador vai desenvolvendo sua investigação e análise” (SEVERINO,

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