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1.4.2 Link State Routing
Folheando as páginas da revista A Águia, sobretudo na sua 1 .a série, quando não era ainda órgão do movimento renascentista, deparamos com colaboração assinada por figuras das letras nacionais, a qual, só por si, não confere aos seus autores
jus a serem considerados aguilistas ou homens da Renascença Portuguesa. Todavia
essa colaboração revela uma sintonia com o espírito e os objectivos acalentados pelos homens que lançaram o movimento, mesmo que, por vezes, sejam detectáveis, em
alguns dos seus escritos e nas suas declarações, certas antinomias conceptuais, que nos poderiam induzir a supor o contrário. Inserem-se neste grupo nomes como Manuel Laranjeira, Joaquim Manso e Veiga Simões, embora não em pé de total igualdade, como veremos.
a) Manuel Laranjeira [1877-1912]
Apesar de tão intempestivamente ter posto fim aos seus dias, Manuel Fernandes Laranjeira é titular de uma obra digna de registo, a qual se encontra não só dispersa por variados periódicos, mas também concretizada em alguns títulos que integram a sua bibliografia, abrangendo um alargado leque temático, que vai da política à pedagogia, passando pelas artes plásticas, a psicopatologia e a literatura, merecendo o teatro particular destaque . Da sua bibliografia salientam-se Amanhã (1902), Comigo (1912) e, publicados postumamente, Cartas de Manuel Laranjeira
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(1943), Diário Intimo (1957) e Prosas Perdidas (1958) . Joel Serrão lembra que culturalmente Laranjeira entrosa "na ambiência mental do fim do século (e
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especialmente em Nietzsche e Ibsen)" . Mas ele também está imbuído de Tolstoi, de Zola, de Sudermann, e Goethe com o seu Fausto, Shakespeare com o seu Hamlet e Cervantes com o seu Dom Quixote ajudaram igualmente à sua configuração mental. A sua obra revela-nos traços ora de naturalismo, ora de simbolismo e de decadentismo. O naturalismo está patente sobretudo na produção dramática, onde combativamente
1. A quase totalidade da sua obra encontra-se coligida em Obras de Manuel Laranjeira, organização,
prefácio e notas introdutórias de José Carlos Seabra Pereira, vols. I e II, Porto, Ed. Asa, 1993. Além disso detectei colaboração sua em A Águia, A Arte, Arte e Vida, O Campeão, Crónica, Ilustração Popular, Ilustração Transmontana, Jornal de Notícias, O Mondinense, O Mundo, Norte, Pátria, Porto Médico, Revista Coimbrã, Revista Musical, Revista Nova, A Semana Azul, Serões, Teatro Português e Voz Pública.
2. Veja-se Orlando da Silva, Manuel Laranjeira (1877-1912), Vivências e Imagens de Uma Época,
ed. do autor, s/l., 1992, sobretudo a cronologia biobibliográfica, pp. 27-50.
procura dissecar e denunciar os problemas dimanantes da decadência social. O decadentismo e o simbolismo estão sobretudo presentes no Diário íntimo e em alguma da sua poesia, de que Comigo é um exemplo paradigmático, embora aí, por vezes, o decadentismo se alie a um certo "alor vitalista", na expressão de Seabra Pereira . Em
Comigo, e parcialmente também em Diário íntimo, só certos tópicos decadentistas
estão presentes, o declive depressivo, a acedia, o tédio, o envelhecimento precoce, não se manifestando outros tópicos axiais do decadentismo, tais como a perversão sádica,
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o desvio erótico ou a estesia do disforme e do repugnante .
Tendo terminado o curso de Medicina em 1904, Laranjeira apresentou, em 1907, a tese A Doença da Santidade, onde faz uma abordagem psicológica do fenómeno místico, inserindo-o no domínio da patologia. O estudo da relação da doença com a arte, primeiro, e com a santidade, depois, pô-lo em contacto com a obra de Max Nordau e, através dela, com o pensamento de Frederico Nietzsche, para quem a santidade é também manifestação de um estado incuravelmente patológico, "eine Symptomen-Reihe des verarmten, entnervten, unheilbar verdorbenen Leibes!" Contudo Laranjeira sempre se demarcou das leituras de cunho nosológico que o autor de Entartung faz da obra nietzschiana, como já acima sublinhei (supra, p. 67). Consciente de que o destino o colocara na linha de fractura entre um mundo que se desmoronava e outro que começava a erigir-se, entre o crepúsculo dos ídolos dos velhos valores e a aurora do Homem Superior, ensarcose da nova realidade axiológica por Nietzsche propalada, Laranjeira não podia deixar de comungar das ansiedades e dos anseios do evangelista da vida e da força, a nova medida de todas as coisas. Por isso o problema do sentido da vida foi um tema que sempre o obcecou mas também
\ Cf. José Carlos Seabra Pereira, Do Fim-do-Século ao Tempo de Orfeu, Coimbra, Liv. Almedina, 1979, p. 47.
2. d. id, ibid., pp. 49-51.
para o qual nunca encontrou solução cabal. Tece-lhe encómios pela boca do operário, personagem central de Amanhã, o qual afinna que "a vida triunfa das crenças, de Deus, de tudo, porque a única crença verdadeira e santa, o único deus que existe, é a
vida - a Vida" \ A ânsia de viver deixou-a bem expressa no poema que paradoxalmente se intitula "Tristeza de Viver":
Ânsia de amar! Oh ânsia de viver! Uma hora só que seja, mas vivida
e satisfeita ... e pode-se morrer, Porque se morre abençoando a vida
Mas também vitupera a vida, ora dizendo-se enjoado dela3, ora dando largas a todo o
ressentimento que por ela nutre, apodando-a mesmo de prostituta:
"Encarei com rancor a vida, a vida monstruosa, esfingica - a ^passível inconsequente. Parecia-me vê-la, a prostituta leviana e < ^ £ j ? f £ de braço dado com a morte - nesse corrupto e sombno festim da existência."
Já no ano anterior à publicação de A Doença de Santidade, em 1906, Laranjeira, escrevendo na revista Porto Médico, classifica de poeta-filósofo o autor de
Aurora, cujas obras são constituídas "de conflitos entre o mundo ideal e o mundo real,
com a condenação da existência presente" 5 Esses conflitos entre o mundo real e o
mundo ideal também os retrata Laranjeira, em Serões, ao dissertar sobre António Carneiro e o seu quadro "Cristo". Afirma que o Cristo que o artista reproduz na tela é um Cristo humano, real, e não um Cristo ideal, "doentiamente bondoso, ávido de
\ Obras Completas de Manuel Laranjeira, vol. I, p. 101.
2 InOMondinense, 3 de Junho de 1916, p. 1. 3 Carta a Manuel Luis de Almeida, in op. cit. p. 339.
* Carta ao mesmo destinatário, de 24 de Junho de 1903, td.,,btd., p. 367
sofrer pelos outros, que se faz matar numa crise de passividade, numa ânsia exagerada, patológica de amor ao próximo" . Esse Cristo recusa-se Laranjeira, duma forma terminante, a descortiná-lo na tela de António Carneiro. Porque esse Cristo, para além de já não inspirar autênticas obras de arte, é "o fanático criminoso da ralé, o apóstolo da abjecção humana das cóleras-nietzschianas" 2. Numa palavra, esse Cristo não se identifica com a verdadeira vida. Só o Cristo humano vale a pena ser retratado, pois só Ele é que é o sósia do homem postado na fronteira que divide um mundo velho, que se desmorona, e um mundo novo, que se vai formando. Só Ele é retrato fiel "do Homem que ultrapassa a humanidade do seu tempo, do Homem que, no dizer de Nietzsche, é Sobre-homem" 3. Ao rejeitar o Cristo "doentiamente bondoso", Laranjeira parece apostar na vida, sintoniza com a rejeição que Nietzsche faz desse miserável Deus do "monotono-teísmo" cristão, "dies hybride Verfalls-Gebilde aus Null, Begriff und Widerspruch, in dem alie Décadence-Instinkte, alie Feigheiten und Mudigkeiten der
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Seele ihre Sanktionen haben!" .
Muito embora Laranjeira tivesse lutado toda a sua vida contra o racionalismo e o cepticismo estéreis, e apesar de ver em Nietzsche e no seu vitalismo uma bóia salvadora no mar do pessimismo e do desencanto, não conseguiu contudo agarrar-se a ela e assim alcançar a margem. Soçobrou ingloriamente nas suas águas salobras. Estava convicto de que se encontrava irremediavelmente emaranhado nessa teia de tristeza, de ansiedades utópicas e de tédio, característica da sua época; de que falhou, porque pediu demasiado à vida, procurando erroneamente viver uma vida idealmente concebida, em vez de uma vida objectivamente assumida. Desta sua convicção dá
\ld., "António Carneiro - Esboço para o estudo de uma obra através de um temperamento", in Serões (Lisboa), n.° 17, Novembro 1906, p. 350.
2. Id., ibid, 3. Id., ibid., p. 351.
Amadeo de Sousa Cardoso, em carta datada de 24 de Dezembro de 1905, nos conta a
seguintes termos
■E» sou um fflho deste século deste séculode tnsteza de ansredadea não pôdPe a S O recado£c.ornem p e d t « - e £ e ) a vjda
W c S K t a ^ S r um ideal, de eoneeber a vida eomo um ideal de felicidades. Estou-o pagando.
E é esta convicção que faz do autor de Comigo um dos homens trágicos que povoam a nossa literatura dos finais do século transacto e dos primórdios do actual. Creio ter sido a consciência dessa sua dimensão trágica, a sensação da sua tortura interior, que, sob múltiplos aspectos, o sintonizaram com o profeta de Dioniso. António de Cértima, um dos seus críticos mais clarividentes, também se deu conta dessa dimensão e
detectou essa sintonia e por isso escreve.