a) Vila-Moura [1877-1935]
Bento de Oliveira Cardoso e Castro Guedes de Carvalho Lobo (visconde de Vila-Moura) é um representante típico do esteticismo decadentista, sobretudo na primeira fase da sua produção literária. Como diz João Alves, seu estudioso, "Vila- Moura conhecera a natureza ordenada pela mão do decadentismo" . Evolui depois para uma fase naturalista. O drama da vida pobre e difícil dos lavradores do Douro, bem como a terra com que eles se sentem irmanados, passam a constituir tema nuclear das suas obras. Mas mesmo nesta segunda fase, as reminiscências decadentistas e simbolistas continuam a ser uma presença constante. Vila-Moura é titular duma obra diversificada, abrangendo um alargado leque de géneros literários, indo do romance à crónica, passando pela crítica de arte, a filosofia e o jornalismo. Foi um crítico acérrimo da corrente positivista. Na sua obra principal, Nova Safo, refere-se aos "nossos liliputianos do positivismo" . Integram a sua fase decadentista obras como:
Boémios (1914), Doentes de Beleza (1913) e sobretudo Nova Safo (1912), em que as
personagens nos surgem marcados por um profundo pessimismo, fruto dum total
\ João Alves, O Génio de Vila-Moura, Porto, Tavares Martins, 1937, p. 27.
desencanto face à vida. Para além da colaboração deixada em revistas , integram a sua bibliografia numeroros títulos, dos quais se destacam: A Moral na Religião e na Arte (1906), A Vida Mental Portuguesa (1908), Vida Literária e Política (1911), Camilo
Inédito (1913), António Nobre (1915), Fanny Owen e Camilo (1917), Cinzas de Camilo (1917), Fialho de Almeida (1917), Os Últimos (1918), Obstinados (1921), Pão Vermelho (1923), Almas do Mar (1924), Calvário de um violento (1924), Cristo de Alcácer (1924), Uma família de Ibsen (1924), Luz Fremente (1924), O poeta da "Ausência" (1926), Entre Mortos (1928), Cariatide (1929), Dor Errante (1933), Novos Mitos (1934), Piedade (1934), para só citar os mais importantes.
Foi sócio dinâmico e "valioso elemento da Renascença Portuguesa", como sublinha Alfredo Ribeiro dos Santos . Colaborou assiduamente em A Águia, em cujas páginas, entre 1912 e 1928, assinou para cima de quatro dezenas de ensaios. Cerca de vinte e seis títulos da sua bibliografia foram editados pelo movimento.
É motivado pela doutrina do Homem Superior e pelo conceito elitista que Nietzsche tem da Arte que o autor de Doentes de Beleza defende, em ensaio publicado em A Águia, a existência do Estado-Artista para prevenir a derrocada da Arte que o povo, ébrio da sua vitória sobre o clero e a nobreza e na sua fúria iconoclasta, ameaça levar a cabo. Afirma ser a Arte um produto aristocrático - "obra do menor número e para o menor número". E neste ponto diz comungar da opinião de Nietzsche: "Neste ponto estamos inteiramente com Renan e Nietzsche - e com eles afirmamos: Em suma, o fim da humanidade não é produzir massas esclarecidas, mas alguns grandes
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homens..." que constituam uma elite. Esta sintonia com Nietzsche insere-se, pois, no
\ Para além de A Águia, refira-se Nação Portuguesa (1914-1938), Portucale (1928-1962), Húmus (1921-1922), Labareda (1924-1926), Ilustração Moderna (1926-1932), Prisma (1936-1941) e
Dionysos (1912-1928).
. Alfredo Ribeiro dos Santos, A Renascença Portuguesa - Um movimento cultural portuense, p. 44.
3. Vila-Moura, "Palavras Antipáticas, IV Estado - O Estado Artista", in.4 Águia, n.° 1, 1912, 2." série,
seguinte contexto lógico: a arte é produto clerical e aristocrático. Com o descalabro destes dois estados importa pôr a recato da sanha iconoclasta do povo o nosso legado artístico. Para tal, é necessário criar um quarto estado, uma elite sensível e interessada pelos valores estéticos, que acautele a sua sobrevivência. E o Estado-Artista, integrado por esse menor número, pelo cérebro do país, versus plebe analfabeta .
O Estado-Artista de Vila-Moura e o mundo do Homem Superior de Frederico Nietzsche, em cujos arcanos o autor de Nova Safo se iniciou pela leitura de Les
maîtres de la pensée contemporaine (1904), de Jean Bourdeau, conforme ele próprio
confessa, revelam analogias flagrantes.
Aplicando a concepção elitista da arte à "Pátria Nova", em cuja edificação os aguilistas estão empenhados, Vila-Moura vê-a constituída por uma diminuta parcela, "plena de génio dominador", a elite, o cérebro; e por outra, vasta, ampla, mas passiva e quase abúlica, a qual sujeita os seus hábitos e movimentos às aspirações da elite. Nessa nova pátria não há lugar nem para a igualdade, geradora dos "maiores desconcertos", nem para o socialismo, factor de estagnação. Também Nietzsche não tolerou nem uma nem outro na escala de valores do Homem Superior, por si elaborada. Da doutrina que prega a primeira afirma não existir veneno mais venenoso: "Die Lehre von der GleichheitL. Aber es gibt gar kein giftigeres Gift" . Quanto aos socialistas, odeia-os e apelida-os de escumalha, por minarem o instinto e o prazer do trabalhador, tornando-o
\ Convém recordar que a concepção da Arte como património exclusivo de uma elite, perfilhada por Nietzsche, também se generalizou entre nós. Antes de Vila-Moura defender a ideia de um Estado- -Artista, e recuando ligeiramente no tempo, já José Júlio Rodrigues, em 1910, em conferência
pronunciada na Associação dos Jornalistas de Lisboa tinha abordado o tema do aristocratismo na arte. Numa perspectiva "nietzcheanna" [sic], afirmou expressamente ter chegado à conclusão "de que certa arte será sempre e apenas só para os sur-hommes da sensibilidade". (José Júlio Rodrigues, Esboço de uma Filosofia da Arte, Lisboa, Liv. Clássica editora, 1910, p. 32).
invejoso e vingativo:
"Das Sozialisten-Gesindel, die Tschandala-Apostel, die den Instinkt, die Lust, das Genùgsamkeits-Gefuhl des Arbeiters mit seinem kleinen Sein untergraben, - die ihn neidisch machen, die ihn Rache lehren..." .
Nova Safo, com o subtítulo Tragédia Estranha, é a obra mais conhecida de
Vila-Moura e é também a que mais evidencia as marcas do seu simbolismo decadentista. Efectivamente é aí, nessa "análise audaciosíssima duma aberração requintada, duma vida superior descarrilada na desvairada boémia da luxúria" que Vila-Moura manifesta a sua estesia decadentista e se revela um "estranho patologista-
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-esteta" . Dentro do movimento da Renascença Portuguesa, que então ensaiava os primeiros passos, a obra foi saudada, por parte dos correligionários do autor, ora com panegíricos arrebatados e incondicionais, ora com loas condicionadas por ligeiras reservas. Mas também deparamos com reservas mais sérias. Jaime Cortesão refere-se, sem reservas de espécie alguma, à "extraordinária" Nova Safo e afirma que ela "representa este esforço assombroso, único em Arte, até agora realizado: acender estrelas celestes, na mais densa caligem do Inferno" . Para Leonardo Coimbra ela é uma obra admirável, "uma tragédia no profundo sentido metafísico". Quanto à heroína, Maria Peregrina, o tribuno portuense considera que, "como sensibilidade ubíqua, ela é a omnipresença amorosa, o laço interno da vida, o Deus comovido e narcisado da sua plenitude de beleza; e a mais perfeita sensualização do abraço universal". Este arrebatamento, porém, é condimentado com uma certa postura reticente. Assim lembra ao autor que "a sua Arte pode dar feições mais tranquilas da grande tragédia cósmica,
'. Id., Der Antichrist, Band 6, p. 244.
2. João Ameal, "Três novelas do visconde de Vila-Moura", in Diário de Lisboa, 10-V-1924, p. 3. 3. Carta inédita endereçada ao autor em 28 de Agosto de 1912. A leitura tanto desta carta como das
outras duas que refiro a seguir foi-me facultada pelos herdeiros de Vila-Moura. (Veja-se a nota 2 da p. 178).
fora do trágico humano das taras de Maria Peregrina" \ Quanto a reservas mais sérias, elas vêm de Teixeira de Pascoaes, sobretudo relativamente às ideias veiculadas na obra, porque quanto à forma a obra empolga-o em absoluto. Em carta dirigida a Vila- -Moura, Pascoaes expressa a sua profunda convicção de que, com a forma em que está escrita Nova Safo, ele se alcandorou "à altura dum Eça, dum Camilo ou dum Fialho", porque "vê-se bem que um grande prosador acaba de aparecer em Portugal". Porém, "sob o ponto de vista das ideias, a 'Nova Safo' não concorda comigo. Ela prega o niilismo pela sensualidade, assim como Tolstoi o pregou pela castidade. Para ambos o fim a atingir é a morte, o aniquilamento da vida" . E em recensão crítica da obra, publicada em A Águia, vai considerá-la "um livro pessimista e niilista", uma "obra de Beleza e Morte", ele que a desejaria "de Beleza e Vida" .
O enredo da obra desenrola-se num ambiente de intensa sensualidade e, como
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afirma o próprio autor, encontra-se aí descrita "a loucura sensual" . A personagem principal, Maria Peregrina, de 30 anos, é uma poetisa decadente. Da sua obra destaca- sse A Emparedada, de cunho autobiográfico, contendo "páginas notáveis, mau grado
serem doentias e decadentes"5. Devota de Nietzsche, em cujos conceitos se apoia, por vezes, para definir a vida, Peregrina move-se num mundo de delírio sensual, duma sensualidade mórbida de volúpias e de delírios, que a situam muito "para além do bem e do mal". O narrador homodiegético, também ele escritor, e Maria Peregrina conhecem já os livros um do outro. Agora vão conhecer-se pessoalmente numa carruagem de comboio, pois a heroína anda em viagem com uma estrangeira, mais nova, e com a qual troca "olhares perversos duma sensualidade doentia"; depressa se
\ Carta inédita endereçada ao autor em 10 de Novembro de 1912. 2. Carta inédita endereçada ao autor em 27 de Julho de 1912.
3. Teixeira de Pascoaes, "Nova Safo, por Vila-Moura", in.4 Águia, Setembro de 1912, p. 112. 4. Vila-Moura, apud João Alves, op. cit., p. 128.
revela como "figura confusa, denotando desequilíbrios íntimos" . Doente do mal-de- -viver, nutre por toda a gente o mais profundo desprezo. Revela-se seguidora da nietzschiana transmutação de todos os valores, pois declara ter "o maior desprezo pela moral de toda a gente" e fazer do avesso da moral tradicional "uma verdadeira religião,
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um culto fervorosíssimo" . No diálogo que, de imediato, se estabelece entre o narrador e Peregrina, o primeiro refere-se à cruzada, empreendida por Maeterlinck, Nietzsche e Wilde, contra o "positivismo estreito dos últimos cinquenta anos" . A sua interlocutora mostra conhecer, desde há muito, estes autores, em particular Nietzsche. Já no colégio inglês, que frequentara, citava este autor, em apoio das suas opções pessoais. Divagando com o seu colega de estudos, Edgar, sobre os mais variados temas, discorre também sobre o amor "extravagante" versus amor "vulgar", e proclama que o "amor exótico" não interessa ao comum dos homens, mas tão somente aos outros, os da "vida superior", para quem ele é um factor de beleza. E aduz, a este propósito, o testemunho de Nietzsche, o qual "afirma a supremacia do vício", colocando-lhe na boca as seguintes palavras:
"as relações eróticas do homem com os adolescentes foram, duma forma que nem nós chegamos a compreender, a condição única, necessária a toda a educação viril; que todo o idealismo da força na natureza grega se baseou em tais relações; que o comércio sexual regular bakava ao passo que se ia elevando a concepção daquelas relações" .
Creio que Nietzsche nunca expressou literalmente tal opinião. É certo que, em termos gerais, era esta a leitura que ele fazia do lugar da pederastia na vida e na educação entre os gregos. O tema da pederastia na cultura helénica foi estudado por Nietzsche
'. Id., ibid., p. 2.
2. Id., ibid., p. 7. 3. Id., ibid., p. 12.
no âmbito do seu interesse pelo helenismo. Em carta endereçada ao seu amigo Erwin Rohde, datada de 23 de Maio de 1876, expressa o seu grande espanto por este, na sua obra intitulada Der griechische Roman und seine Vorláufer, e que lhe fora enviada pelo autor nesse mesmo ano, só tão escassamente se referir às relações pederásticas. Nietzsche considera que foi na base dessas relações que, entre os gregos, se desenvolveu o ideal do Eros bem como uma vivência mais pura e mais intensa da paixão amorosa. A educação masculina na antiga Grécia apoiava-se nesta maneira de conceber o ideal da paixão e enquanto durou esta maneira de educar, que coincide com a época áurea da cultura helénica, o Eros correspondia à paixão pederástica .
Interrogada se também ela considera certas as afirmações do filósofo, Maria Peregrina afirma tê-las por "absolutamente verdadeiras", pois condizem com os estudos, a que se tem dedicado, da civilização grega.
Peregrina envia a sua obra a várias academias estrangeiras, sendo-lhe devolvida por algumas delas. Isso deprime-a profundamente. Essa depressão não a impede, contudo, de continuar a considerar-se detentora de um espírito superior, pois "a superioridade é, como observa Nietzsche, o que está para além do homem; mas isto
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que o homem superior pensa ao definir o valor alheio não o sente quando se vê" . O tom aparentemente neutro com que o narrador fictício conduz os diálogos com a heroína, ela também fictícia, não chega a revelar a existência duma sintonia de pontos de vista entre ambos. Contudo, quanto ao autor real, como lembra João Gaspar Simões, convém ter presente que ele veiculou para essa "obra profunda" muito da sua experiência pessoal e "transpôs para ela um drama próprio" . Com Nova Safo, Vila- -Moura de modo algum pretendeu apresentar uma imagem de Nietzsche, tão pouco
\ Cf. Frederico Nietzsche, Briejwechsel, Kritische Gesamtausgabe, herausgegeben von Giorgio Colli undMazzino Montinari, Berlin, de Gruyter, II, 5, 1980, p. 164.
2. Vila-Moura, op. cit., p. 112.
3. Cf. João Gaspar Simões, recensão critica de O Génio de Vila-Moura, por João Alves, in Diário de
uma leitura da sua obra. Creio que, tendo descoberto o vitalismo do "louco alemão" , nem sempre correctamente compreendido nas suas verdadeiras componentes, viu nele o antídoto contra o tédio que a corrente positivista em si provocava. Essa descoberta motiva-o a criar uma personagem que encarnasse algumas características programáticas do Homem Superior, uma heroína que vivesse à margem da tradicional escala de valores morais, situando-se muito "para além do bem e do mal", que evitasse identificar-se com a massa, com o rebanho. Não é por acaso que ela surge na pujança dos seus 30 anos, a mesma idade em que Zaratustra, o pregoeiro do Homem Superior, deixa a sua terra, para subir à montanha e aí desfrutar do seu espírito. Vila-Moura criou assim uma obra a que, no conjunto da literatura portuguesa desta época, a história da recepção produtiva do pensamento nietzschiano em Portugal deve consagrar particular destaque .
b) Teixeira Rego [1881-1934]
Trata-se de uma figura cimeira da nossa vida cultural, sócio da Renascença Portuguesa, e um dos docentes que mais ilustraram a Faculdade de Letras da
. Em entrevista concedida a João Alves, Vila-Moura, discorrendo sobre a política e o carácter português, diz que os portugueses pretendem pautar a vida como se pauta uma folha de papel e, derivando para Nietzsche, interroga-se: "se o louco alemão, Nietzsche, tinha ou não motivos para afirmar que a primeira qualidade da inteligência é a maleabilidade ...". Cf. João Alves, op. cit., p. 104.
. Apesar de Nova Safo revelar ecos nietzschianos tão evidentes, isso não nos àkjus a considerar Vila- -Moura um leitor assíduo e empenhado de Nietzsche. Disso mesmo me dei conta num relance de olhos pela sua biblioteca que tive oportunidade de consultar em Porto-Manso, Baião, graças à deferência dos actuais senhores da Casa da Torre, D. Maria da Conceição de Azeredo Pinto Melo e Leme Caeiro e Eng. José Miguel da Fonseca Rocheta Caeiro, sobrinhos-netos do visconde. Nela apenas constatei, para além da obra de J. Bourdeau, Les Maîtres de la Pensée Contemporaine, a presença de Le voyageur et son ombre - opinions et sentences mêlées, tradução de Henri Albert, (5." ed., Paris, 1909), Como falava Zaratustra, (tradução de 1913) e Lettres choisies de Nietzsche (20
Novembre 1868 - 21 Décembre 1888), sem indicação de tradutor, (Paris, 1931), obras só parcialmente
lidas e sublinhadas. Nem o próprio Vila-Moura nos convence do contrário, apesar de afirmar: "Eu leio Nietzsche como o aprendiz de piano toca escalas, por exercício". (Vila-Moura, "Flores de Vidro", in
Universidade do Porto na primeira fase da sua existência. Com a vinda para o Porto da Faculdade de Letras, em 1919, José Augusto Ramalho Teixeira Rego é convidado por Leonardo Coimbra para professor de Filologia Românica, atendendo aos seus trabalhos originais sobre a matéria. Até 1928, data do decreto que extinguiu a Faculdade de Letras do Porto, leccionou sucessivamente Literatura Portuguesa, Literatura Espanhola e Italiana e História das Religiões. Em 1925, após prestação de provas, o Conselho da Faculdade outorga-lhe o título de doutor. Até à extinção total da Faculdade vai ainda reger as cadeiras de Filologia Portuguesa e de Literatura Grega. Foram seus alunos, entre outros, Álvaro Ribeiro, José Marinho, Delfim Santos, Eugénio Aresta e Sant'Anna Dionísio. A última acta do Conselho Escolar, com data de 30 de Junho de 1931, foi escrita e assinada por ele, na sua qualidade de secretário do mesmo Conselho.
Embora não tendo frequentado cursos universitários, Teixeira Rego teve mestres de primeiro plano, entre outros Sampaio Bruno e Basílio Teles. Ao primeiro liga-o uma leitura reflectida e crítica da sua obra, a qual lhe determinou a configuração mental. Em diálogos assíduos e prolongados, Bruno sugeriu-lhe leituras e alertou-o para os problemas. Quanto a Basílio Teles, incutiu-lhe o gosto pelas línguas, tanto antigas como modernas. Teixeira Rego conhecia, das línguas antigas, o latim, o grego e o sânscrito, e das modernas o francês, o inglês e o alemão.
Foi colaborador assíduo de A Águia, desde que ela se tornou o órgão do movimento renascentista (1912), até ao seu desaparecimento (1932) . E autor de
Nova Teoria do Sacrifício (1918), obra editada pela Renascença Portuguesa. Como
tradutor verteu do inglês o Coriolano de Shakespeare (Porto, 1910), do francês os
'. Encontramos colaboração sua igualmente em O Debate, Diário de Notícias, A Vida Portuguesa, na Revista da Faculdade de Letras do Porto (1920-1923), na Revista de Estudos Históricos (Porto,
1924-1926) e em O Porto Ilustrado (1928). Quase toda esta colaboração se encontra compilada em Teixeira Rego, Estudos e Controvérsias, compilação, posfácio e notas de Pinharanda Gomes, Lisboa, Assírio e Alvim, 1990.
Contos da Condessa Aulnoy e do alemão A Loucura da Europa, de Hans Gobsch
(Porto, 1933). Colaborou, com trabalhos sobre temas literários, na História de
Portugal, direcção de Damião Peres (Barcelos, 1929) .
Rego tem presente A Origem da Tragédia, de Nietzsche, ao elaborar o seu "Esboço duma interpretação do sentido da tragédia", publicado no número tríplice de
A Águia, Outubro-Novembro de 1916. Apesar de conhecedor do alemão, leu a obra na
tradução francesa, L'Origine de la Tragédie, de Jean Marnold e Jacques Morland. Para estabelecer uma teoria quanto à origem da mesma, e do teatro em geral, Teixeira Rego percorre várias hipóteses. Ela seria, antes de mais, o resultado do desejo do homem de dar mais intensidade aos aoogtepimentos e às suas vivências pessoais, não se limitando a narrá-los. Ele atingiria mais facilmente esse objectivo através da
representação, ou seja, tornando-os de novo presentes. Hipótese que Rego considera
pouco plausível, dado as primeiras representações não o serem da vida real, mas evocarem feitos lendários e miraculosos dos deuses e heróis. Fala-nos depois do mito dionisíaco, do seu lugar na mitologia e da hipótese, na sua opinião a mais plausível, de ser ele a origem da tragédia, a qual cantava os sofrimentos de Dioniso. Para ilustrar esta mesma hipótese, faz uma incursão pelo pensamento alemão; passando por Hegel, sublinha o paralelismo por este estabelecido entre o mito de Édipo e a narrativa bíblica da queda de Adão, pois da mesma maneira que Édipo perdeu a felicidade ao descobrir 0 segredo do seu próprio destino e se exila, assim também Adão perde a felicidade edénica ao adquirir a ciência do bem e do mal. Refere, depois, F. Schlegel e a sua leitura da obra esquiliana, a qual veicula a dimensão trágica do cosmos, a decadência da natureza e do homem. Finalmente o autor do ensaio detém-se em Nietzsche e na sua explicação da tragédia grega. Também para Nietzsche o centro da tragédia grega é
1 Cf. Luís de Pina, Faculdade de Letras do Porto (Breve História), Porto, s/ed., 1968, e Pinharanda
Gomes, A "Renascença Portuguesa"- Teixeira Rego, Lisboa, 1984, e "José Teixeira Rego e a Filosofia da Religião", in Gil Vicente, n.° 3, vol. II, 3." série, Guimarães, 1981, pp. 263-280.
ocupado pelos sofrimentos de Dioniso, inicialmente e durante muito tempo ocupante exclusivo. Quando outras personagens foram surgindo no campo da tragédia, Édipo, Prometeu, etc., o facto deve-se exclusivamente às analogias existentes entre estes heróis e a figura dionisíaca, de quem seriam apenas máscaras .
Teixeira Rego não toma uma posição crítica face à doutrina nietzschiana da origem da tragédia; apenas se limita a ela recorrer em apoio da sua própria explanação da tragédia enquanto expressão da luta do homem com o destino. Para ele, merece particular atenção o mito bíblico da queda de Adão e Eva, pois esse mito reflecte a passagem do homem de frugívoro a carnívoro ou omnívoro. Enquanto se limitou a