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Dans le document Ivan Marsic (Page 23-31)

Um dos primeiros ensaios portugueses de temática nietzschiana, assinados, que conheço, saiu da pena de Sampaio Bruno. Como escreve Manuel Gama,

"Sampaio Bruno soube ver, soube sentir o pulsar da sua época e, simultaneamente, soube pensar e construir um pensamento que extravasa para fora do seu tempo, e que, por isso mesmo, nos cativa e

'. Apud João de Freitas Branco, Viana da Mota. Uma Contribuição para o Estudo da Sua Personalidade e da Sua Obra, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1972, p. 333.

nos leva a seguir esse jtranscurso, que não só é de ontem, mas também de hoje e de amanhã."

Afinal o mesmo o têm afirmado muitos dos estudiosos da obra nietzschiana a respeito do seu autor, sobretudo quando sublinham a sua actualidade. E o próprio Nietzsche considerava-se do número daqueles que nascem póstumos: "Ich selber bin noch nicht

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an der Zeit. Einige werden posthum geboren." Sublinho estes aspectos sintónicos entre Nietzsche e Bruno, porque foram sem dúvida essas sintomas que predispuseram este último a debruçar-se sobre aspectos do pensamento do autor de O Anticristo. E se muitos dos seus juízos relativos a esse pensamento são disfóricos e desajustados, é porque não chegou a aprofundá-lo suficientemente, ou por falta de oportunidade ou

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por escassez de meios . Refira-se que Bruno foi um escritor muito precoce, pois, com 14 anos apenas, iniciou a sua colaboração no Diário da Tarde, jornal conotado com a corrente liberal e anticlericalista, e com 16 publicava Análise da crença cristã (1874), livro de crítica irreverente à crença tradicional, revelador de acentuado espírito filosófico e crítico, e que criou mal estar nos meios conservadores de então. Em 1891 participou no levantamento republicano do Porto, tendo sido por isso forçado a exilar-se em Paris (1891-1893). É autor de uma obra que Joel Serrão qualifica de

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"prolixa, nebulosa e até, à primeira vista, contraditória" . Bruno enveredou inicialmente pelo materialismo, oscilando entre o deísmo e o agnosticismo. A publicação de O Brasil Mental (1898), obra de critica ao positivismo então em voga,

'. Manuel Gama, O Pensamento de Sampaio Bruno, Lisboa, Imprensa Nacional, Casa da Moeda, 1994, p. 9. Para um conhecimento mais exaustivo das opções doutrinais de Sampaio Bruno, e como complemento a esta obra, veja-se Nova Renascença (Porto), Outono de 1995, número exclusivamente dedicado ao pensamento do filósofo portuense.

2. Friedrich Nietzsche, Ecce Homo, Band 6, p. 298.

3. No elenco das obras provenientes da biblioteca particular de Sampaio Bruno existentes na

Biblioteca Pública Municipal do Porto, tal como o elaborou Manuel Gama, não figura obra alguma de Frederico Nietzsche. Sobre o seu pensamento só existe o livro de Henri Lichtenberger, La Philosophie de Nietzsche, 7. ème éd., 1903 (Cf. Manuel Gama, op. cit., pp. 173-214).

4. Joel Serrão, Sampaio Bruno. O homem e o pensamento, Lisboa, s.d. [1958], p. 8. Para uma

marca já a superação do materialismo. Durante o exílio começou a interessar-se pelo esoterismo. Evolui então para uma teurgia heterodoxa, emanatista e messiânica. Estuda a obra de Marx e Engels. Adepto de um misticismo idealista e de um "panteísmo larvar e misticizante", Bruno é detentor de um pensamento de raízes esotéricas e "filia-se numa tradição acroamática que, a par e passo da filosofia moderna, racionalista e crítica, subrepticiamente continuou o ensaio da cabala judaica, mística e emanacionista. "

É notório o empenhamento de Sampaio Bruno em, por um lado, harmonizar o racionalismo e o misticismo gnóstico e, por outro, tentar descobrir um veio comum à mística, à filosofia e à ciência.

O ensaio sobre temática nietzschiana, saído da pena de Sampaio Bruno e atrás referido, apareceu no jornal republicano portuense, A Voz Pública, de 9-X-1904, e intitulava-se "O Supra-Homem" • O tema nietzschiano do Homem Superior parece ter impressionado Sampaio Bruno dum modo particular. Já na sua obra A Ideia de Deus (Porto, 1902), refere "a soberba diabólica de Nietzsche" (p. 377), creio que motivado pela doutrina do Homem Superior. Nos capítulos finais do mesmo livro cita palavras escritas por Hartmann em defesa da supressão da ideia de progresso: "A humanidade será capaz deste alto desenvolvimento da consciência, que deve preparar a renúncia absoluta da vontade? Uma raça superior de animais aparecerá acaso sobre a nossa terra, para continuar a obra da humanidade e atingir o alvo?" E Bruno acrescenta: "ímpia função seria essa para esse órgão requintado de animal mais remontado do que o homem; sacrílega foi a soberbosa fantasia do supra-homem de Nietzsche" (p. 474). No artigo referido Bruno revela-se detentor de uma imagem desfocada de Nietzsche e da sua obra. Com efeito, debruçando-nos sobre o seu breve trabalho, constatamos que

\ Joel Serrão, op. cit., pp. 126 e 182.

2. Bruno inseriria mais tarde este ensaio em Os Modernos Publicistas Portugueses, Porto, 1906,

ele veicula erros na abordagem do tema e denota uma deficiente compreensão da doutrina de Nietzsche. Aí Bruno começa por levantar o problema das afinidades entre Max Stimer e Frederico Nietzsche. Esclareça-se que desde muito cedo se associou, penso que nem sempre devidamente, o pensamento de Frederico Nietzsche ao de Max Stirner, aliás Johann Kaspar Schmidt [1806-1856], como teorizadores da corrente anarquista. Já em 1893 Jean Thorel assinava na Revue Bleue, revista que era lida por alguns dos nossos intelectuais, um ensaio intitulado "Les pères de l'anarchisme: Bakounine, Stirner, Nietzsche" (cf. supra, p. 43). Stirner, que se insere na corrente filosófica da esquerda hegeliana, na sua obra mais representativa, Der Einzige und sein

Eigentum (1845), nega toda a autoridade. Por isso esta obra tornou-se o autêntico

breviário do individualismo anarquista. Efectivamente Stirner afirma a soberania do

Eu, do Único, desenvolvendo assim um individualismo extremo. Para ele a valorização

e a auto-afirmação do Eu, elemento fulcral do imperativo stirneriano "verwerte dich", é a única coisa que tem valor, visto o indivíduo ser a suprema realidade. O solipsismo ético, subjacente a toda a obra, fez com que o seu autor tenha sido apontado por alguns como o precursor do Homem Superior, de Nietzsche, e antepassado das correntes existencialistas . Esta tendência para destacar um pretenso parentesco doutrinal entre Nietzsche e Stirner encontrou também representantes entre nós, como ficará suficientemente documentado em páginas subsequentes. Convém contudo notar que Nietzsche não refere uma única vez nem Max Stirner nem a sua obra. Na sua tentativa de estabelecer afinidades entre Stirner e Nietzsche, Sampaio Bruno recorre à autoridade de Henri Lichtenberger, autêntico vademecum dos interessados em Nietzsche neste dealbar do séc. XX, para com ele afirmar que "o individualismo intransigente, o culto do eu, a hostilidade para com o Estado, o protesto contra o dogma da igualdade e contra o culto da humanidade" são doutrinas comuns a um e a

outro e encontramo-las expensas tanto em Der Einzige und sein Eigentum do primeiro, como em Also sprach Zarathustra do segundo. Logo a seguir pergunta-se o que seja o "Supra-Homem" de Nietzsche e dá de imediato a resposta:

"Pode definir-se o Supra-Homem: o estado a que atingirá o homem quando houver renunciado à hierarquia actual dos valores, ao ideal cristão, democrático ou ascético que hoje tem curso em toda a Europa moderna, para regressar à tabela dos valores admitida entre as raças nobres, entre os Senhores que criam eles mesmos os valores que reconhecem em vez de os receber do exterior. "

O homem chegará ao "Supra-Homem" pela auto-supressão, e Bruno dá-nos, em parêntesis, a palavra alemã Selbstaufhebung, colhida não em Nietzsche directamente, mas em Lichtenberger, que escreve: "L'homme donnera naissance au surhomme par autosuppression (Selbstaufhebung)" . O homem, entediado de si próprio, evoluirá para o "Supra-Homem" e os seus valores. A característica mais saliente que distinguirá o homem vulgar do "Supra-Homem" será a moral; a do primeiro dirigindo-se a "todos os homens sem distinção", a do segundo revelando-se como "apanágio dum pequeno número de espíritos superiores". A consequência, em que Nietzsche acredita, será a assimetria entre os indivíduos numa Europa contemporânea "resolutamente democrática", crente "na igualdade natural dos homens". Nietzsche pretende "uma sociedade aristocrática, dividida em castas bem definidas, tendo cada uma delas os seus privilégios, os seus direitos, os seus deveres". Bruno interpreta este antagonismo numa óptica social de luta de classes entre explorados e exploradores, e as guerras que Nietzsche profetiza para a Europa entende-as como lutas sociais, em que os oprimidos tentarão sacudir o jugo que os oprime e os opressores afirmar ainda mais a sua supremacia; para ele tratar-se-á de lutas pela hegemonia do mundo. No alto da nova

escala axiológica não está já a compaixão, como outrora, mas a vontade, transmutação, que Bruno rejeita, devia ter a sua punição, e teve-a:

"o orgulhoso que formulou doutrinas destas terminaria no suplício duma prolongada loucura; a demência castigou o que imaginara a abominável destrinça duma moral de Escravos e duma moral de Senhores, no advento do cristianismo não vendo senão, com horror e desprezo,' o advento do plebeísmo; ele ousara diabólicas blasfémias como a desorbitadas audácias se atrevera, na impiedade do insolente repto".

E Bruno, para quem o núcleo do pensamento de Nietzsche é expressão de aristocratismo radical, proclamado por um espírito orgulhoso e insolente, termina, lembrando que se o homem pretende a promoção a "Supra-Homem" pela inflicção da dor, então

"ele não avança, retrograda; e o helenismo, com toda a sua arte, toda a sua filosofia, toda a sua ciência, desde que vive da desigualdade, e se baseia na escravatura, não só é uma coisa imoral como é uma coisa desprezível, por baixa e inferior.

O Supra-Homem resultaria, pois, afinal, um Infra-Homem; ele pertence à pré-história, dado a este vocábulo o sentido marxia- no [sic\]".

Bruno faz, pois, uma leitura socialista da doutrina do Homem Superior, uma leitura desfocada pelos filosofemas da luta de classes tal como a descreveu e idealizou Karl Marx.

É também uma visão negativa a que encontramos na Folha da Noite, do Porto, continuadora de A Província, na sua edição de 28 de Março de 1905. Aí é referida a expectativa gerada à volta da visita do imperador Guilherme II a Portugal, e o articulista anónimo interroga-se: "Acaso entre este pequenino recinto da Europa e a pátria do famoso Kant, das lendas de Wagner e do soberbo e desorientado Nietzsche

haverá a prendê-los mais do que laços de interesse, relações de afecto?" O pensamento nietzschiano é, pois, recepcionado como expressão de desvario e de soberba, fontes onde pode ser letal dessedentar-se.

Nesta mesma linha de recepção negativa se insere o autor anónimo que assina com a inicial P. um ensaio intitulado "O filósofo da anarquia", publicado no diário lisboeta Novidades, de 14-X-1907. Ao rotular Nietzsche de "filósofo da anarquia", com certeza que não conhecia o que este tinha escrito sobre os anarquistas:

"Wenn der Anarchist, ais Mundstuck niedergehender Schichten der Gesellschaft, mit einer schônen Entriistung 'Recht', 'Gerechtigkeit', 'gleiche Rechte' verlangt, so steht er damit nur unter dem Drucke seiner Unkultur [...] Der Christ und der Anarchist, beide sind décadents."

E mais adiante:

"Der Christ und der Anarchist: beide unfáhig, anders ais auflõsend, vergiftend, verkummernd, blutsaugend zu wirken, beide, der Instinkt des Todeshasses gegen Alies, was steht, was gross dasteht, was Dauer hat, was dem Leben Zukunft verspricht... " .

Ao escrever: "toda essa literatura patológica e afectada - e com a pior das afectações, a do cinismo - encontrou a sua filosofia nos livros de Nietzsche", o articulista das

Novidades denota não conhecer esses livros ou não ter sabido lê-los. Por isso afirma

que "a sua obra é ilógica, absurda, o trabalho de um demente" e que o seu autor está possuído de um "orgulho satânico". O autor anónimo chegou a esta conclusão baseado em Also sprach Zarathustra, que contudo qualifica de extraordinário poema, e em Zur

Généalogie der Moral, embora não saibamos de que tradução ele se serviu, visto nessa

data ainda não haver traduções portuguesas. E, à laia de epílogo ao conteúdo de Also

sprach Zarathustra, conclui:

"Tais são, a traços largos, as mais extraordinárias afirmativas do filósofo do anarquismo. Na falta de concatenação lógica da sua teoria, nas extravagâncias, nos pensamentos, nos seus reptos de lirismo delirante, nas suas monstruosas imagens, nas suas negativas e nas suas blasfémias, punha-se o desequilíbrio dum cérebro, mas ao mesmo tempo, repetimos, a condensação das loucuras dos nossos dias."

Como vemos, a demência e a soberba continuam a ser colocadas na fonte donde brota a obra nietzschiana.

Ângelo Jorge [1883-1922] ' está ainda por estudar e é quase desconhecido dos dicionários de literatura. Só fugidiamente é referido pelo Dicionário Bibliográfico

Português, de Inocêncio Francisco da Silva , e mais recentemente pelo Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, que dá dele a seguinte caracterização: "espírito

profundamente irrequieto, insatisfeito, extremamente dinâmico e estranho pelas suas múltiplas contradições" . Foi efectivamente autor de cariz anarquista, cantor do pessimismo, da dor e do tédio, vogando canhestramente nas águas simbolistas-

'. Ângelo Jorge emigrou ainda criança para o Brasil, onde se dedicou ao jornalismo. Regressado a Portugal em 1901, deixou profusa colaboração dispersa pelos mais variados periódicos. Cito, a título de amostra: Actualidade (Porto, 1903), Educação Nacional (Porto, 1896-1950, com interrupção entre 1919-1927), Nova Aurora (1." série, Táboa, 1900-1901, 2." série, Coimbra, 1904-1905), Semana Azul (Porto, 1906), Livres (Porto, 1903-1907), Ilustração Popular (Porto, 1908-1909), Alerta (Barcelos, 1905), A Vida (Porto, 1905-1910), O Protesto (Lisboa, 1908-1909), Ideia Livre (Porto, 1911-1916), Jornal de Notícias; foi também director de A Boémia (Porto, 1901-1902) e Luz e Vida (Porto, 1905). Da sua obra em verso destacam-se os seguintes títulos: Penumbras (Porto, 1903) Dor Humana (Porto, 1908), Espírito Sereno (Porto, 1912), A Visão da Eternidade (Porto, 1914); em prosa escreveu: Beatrice (Porto, 1909), Olhando a Vida (Porto, 1910), Irmânia (Porto, 1912), Gritos de Prometeu (S. Paulo, 1915).

2. O Dicionário Bibliográfico Português, de Inocêncio Francisco da Silva, limita-se a citar 18 títulos

da sua vasta obra e poucas das muitas publicações em que colaborou. Quanto ao próprio Angelo Jorge escreve simplesmente: "De quem ignoro circunstâncias especiais", vol. XXII, Lisboa, Imprensa Nacional, 1923, p. 103.

3. Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, coordenação de Eugénio Lisboa, Publicações

-decadentistas. Escrevendo em 1911, ele próprio nos dá conta de três fases da sua vida de produção literária: a l.a (1899-1905), "mística, espiritualista, pessimista, com pródromos de revolta imprecisa e vaga"; a 2.a (1905-1908), caracterizada pelo "anarquismo, revolta declarada e ardente, com pródromos de rebelião contra os

pontífices libertários"; a 3.a (1908-1911), marcada pela "depuração do espírito anarquista, revolta declarada contra os pontífices, regresso ao primitivo espiritualismo, vegetarismo, kuhnismo" . Também ele nos deixou marcas, embora ténues, de recepção disfórica de Nietzsche. A revista Nova Aurora, no seu n.° 3, de 1905, insere um ensaio seu, intitulado "Os grandes homens", onde o autor afirma que Nietzsche foi buscar a sua concepção do "Super-Homem" à teoria sociológica que defende que os grandes homens, através da suas novas maneiras de ver e da originalidade das suas ideias, exercem influência sobre a sociedade, contribuindo assim para o seu progresso. Angelo Jorge, porém, não subscreve tal teoria, por considerar que ela já há muito ruiu pela base, não tendo resistido à análise crítica a que foi submetida. Essa análise provou que os grandes homens não estão acima ou ao lado das sociedades, mas encontram-se nelas inseridos, numa íntima ligação. As sociedades não evoluem pela influência que sobre elas possam exercer tais grandes homens, mas é no seio das sociedades evoluídas que eles surgem. A influência dá-se, portanto, no sentido oposto. Assim sendo, o autor de Penumbras, sem nada nos ter dito quanto ao verdadeiro conteúdo da concepção nietzschiana do "Super-Homem", rejeita-a como errónea, por ela se basear num falso pressuposto . Dessa rejeição encontramos expressões noutros ensaios. Assim, na revista portuense^ Semana Azul, de 3-VI-1906, assina Ângelo Jorge um breve ensaio intitulado "O Super-Homem". Referindo esta concepção a Nietzsche, apelida-a de

"famosa e bizarra" e elucida o leitor de que, a ser verdade essa concepção, cairiam por

'. Ângelo Jorge, "Jornal dum solitário", in: Ideia Livre, Porto, 1." série, n.° 1, Agosto 1911, p. 26.

2. Cf. Ângelo Jorge, "Os grandes homens", in Nova Aurora, 2." série, Coimbra, n.° 3, 1905, pp. 76-

terra os "ideais humanitaristas", mesmo os mais elevados. Mas o autor rejeita essa hipótese, pois sujeitando a concepção do "Super-Homem" a um exame crítico, constata-se que ela não passa "de simples boutade especulativa, de mera blague filosófica." E isto pela simples razão de não ter uma base objectiva e sólida, mas se mover no âmbito do arbitrário e convencional. E justifica:

"Depois, a termos de aceitar a teoria estranha do Super-Homem, teríamos, como consequência dessa adopção teórica, de estabelecer espécies a dentro do género humano: - género, Homem, (termo de comparação); espécies, Infra-Homem e Super-Homem."

Tudo artificialismo, na óptica de Jorge. Portanto conclui: "O Super-Homem não existe. É uma bizarria, uma extravagância teórica, não corporizada jamais nos factos sociais. Melhor: o Super-Homem existe: - É a humanidade." Contudo Jorge contradiz-se, pois não admite entre os homens nem a "paridade intelectiva", nem a "analogia de idiossincrasias". É o que assevera num outro ensaio intitulado "Os inferiores", aparecido em Ilustração Popular, também do Porto. Aí procura provar a veracidade da velha sentença de Aristóteles:

"Há na espécie humana indivíduos tão inferiores aos outros, como o corpo o é para a alma ou o animal para o homem; estes seres são próprios unicamente para os trabalhos do corpo e incapazes de fazerem coisa mais perfeita".

Há, pois, espíritos superiores, construtores de "religiões esplêndidas, ciências admiráveis, poemas imortais, obras de arte colossais, teorias, princípios, axiomas, hipóteses" que de maneira alguma "poderão jamais nivelar-se com a imensa foule dos incaracterísticos, dos banais, dos ridículos, dos imbecis que pavoneiam ao bom sol a

sua irredutível inferioridade". "Mas esses homens superiores", remata Ângelo Jorge,

"sucumbem muitas vezes [...], por ausência daquele nobre orgulho, daquela consciência permanente da individualidade que marca fundamente, indelevelmente, a máscula figura do Só de Nietzsche e de Max Stiraer."

Embora Jorge fale do Só de Nietzsche e de Max Stirner, em rigor de termos deveria falar tão somente no Só de Stirner, pois é ele o autor de Der Einzige imd sein

Eigentum, obra de leitura obrigatória para todo o anarquista ortodoxo, e Jorge foi-o

durante muito tempo, como atrás ficou dito. Creio, porém, que ao falar no Só de Nietzsche, o autor do artigo quer indicar o Homem Superior da parenética nietzschiana, o qual, ao guindar-se acima da grande massa, se instala autenticamente no isolamento da sua superioridade. Quanto à " máscula figura", essa sim, que se refere, sem dúvida alguma, ao Homem Superior. Afinal, depois de rejeitar a concepção do "Super-Homem" por a considerar como "boutade especulativa" e "mera blague filosófica", Angelo Jorge vai dividir a humanidade em "homens superiores" e "homens inferiores" e como que faz a apologia da "máscula figura do Só de Nietzsche". Abundam nestes ecos esparsos de recepção nietzschiana sinais reveladores duma leitura superficial e apressada de qualquer obra do filósofo de Rócken ou de qualquer ensaio sobre a mesma. Podemos, contudo, constatar que a doutrina do Homem Superior continua a ser a temática nietzschiana que mais arrebata e fascina os leitores do profeta de Zaratustra, embora dessa doutrina nem sempre se faça a leitura mais adequada.

'. Id., "Os inferiores", in Ilustração Popular, Porto, n.° 43, 28-VIII-1909, pp. 269-271. Tanto este ensaio como o anterior foram mais tarde inseridos em Olhando a Vida (Porto, 1910).

É ainda no contexto do interesse pelo tema do Homem Superior e duma visão disfórica da obra e da figura de Frederico Nietzsche que se inserem os ensaios de Maria Amália Vaz de Carvalho, para quem o ideal do Ûbermensch é "medonho" e o seu teorizador um "alucinado", um "pobre". Em "Gabriel D'Annunzio - Il fuoco e a sua tradução brasileira" a autora apresenta-nos D'Annunzio como alguém que tenta encarnar o ideal do Homem Superior, tal qual o protagoniza Frederico Nietzsche:

"o que ele deseja ser é o super homem [sic] de Nietzsche, isto é, o inimigo da humildade, da piedade, da resignação, do sacrifício; o inimigo implacável e desdenhoso dos fracos, dos doentes, dos feios, dos infelizes. Para ele a vida do homem tem um fim: gozar centuplicadamente de tudo o que é belo, viril, enérgico, magnífico: quer seja a glória, quer o amor, quer a vingança, quer o mando supremo, ou a suprema heroicidade!"

A autora de Impressões de História repete e desenvolve esta mesma ideia noutro ensaio sobre o mesmo autor: "Gabriel d'Annunzio tem a pretensão de realizar em obras de arte, e talvez na sua própria vida individual, a doutrina do alucinado

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