• Aucun résultat trouvé

Limiter les confl its : l’expérience des comités de paix

Alexis Niyibigira

8.2 Limiter les confl its : l’expérience des comités de paix

Imediatamente após afirmar a necessidade da graça prévia e concomitante, a DV 5 apresenta também a dimensão carismática, indicando sua importância para ato de fé. Segundo os Padres conciliares, sem o auxílio do Espírito Santo é impossível a adesão ao Deus que se revela. Ao lado dos aspectos antropológicos e das dimensões da graça preveniente e concomitante, o auxílio do Espírito Santo compõe o quadro que se compreende como elementos necessários para o ato de fé. É Ele, dizem os Padres, “que move e converte o coração para Deus, abre os olhos do entendimento e dá ‘a todos docilidade no consentir e crer na verdade’” (DV 5).

Se a opção fundamental na fé depende do sentido a ser descoberto na Revelação, é o Espírito Santo como divino pedagogo quem conduz o ser humano para tal sentido. Aqui, dois aspectos precisam ser levados em conta: primeiro, a distinção do auxílio do Espírito Santo e a ajuda da graça proposta pelos Padres conciliares na formulação da DV

525 Para se evitar uma aproximação prejudicial com uma perspectiva panteísta, é importante observar o que

sublinha Ruiz de la Peña ao falar do ser humano como graça criada: “Para que tais atos e atitudes sejam realmente operações vitais suas [do ser humano], e não de Deus, operando nele e sem ele, algo tem que se ter produzido em seu interior; esse algo é – repitamo-lo uma vez mais – não um quid superadditum, mas um novo modo de ser, inerente e estável, que o transforma onticamente e é o efeito criado da habitação de Deus nele.” (RUIZ DE LA PEÑA, Juan L. O dom de Deus: antropologia teológica, p. 322).

526 Cf. ALFARO, Juan. Cristología y Antropología, p. 85.

527 “Como participación en la gracia de Cristo, cuya plenitud tiene lugar en la encarnación, la gracia del

cristianismo es la divinización del hombre en su ser integral corpóreo-espiritual; es decir, no solamente en su interioridad, sino también en su misma corporeidad”. (ALFARO, Juan. Cristología y Antropología, p. 101). Cf. LADARIA, Luis F. Teología del pecado original y de la gracia, p. 275-276.

5; e, em seguida, as ações do Espírito Santo no interior dos atos humanos na solidão do ser.

A distinção entre esses dois elementos poderá tornar ainda mais clara a opção fundamental do ser humano em seu ato de fé. Ela permite elencar com mais propriedade o que cabe ao ser humano em sua resposta e, ao mesmo tempo, oferece condições para uma leitura mais consistente acerca da ação de Deus na vida humana. Com isso, ajuda a esclarecer como o ser humano pode assentir ao sentido último de sua vida sem que isso signifique constrangimento, mas seja um ato de sua liberdade que sempre é total – aspecto tão caro aos homens e mulheres nos dias de hoje.

a) O Espírito Santo no vir-a-ser do ser humano

Como se pode compreender a distinção e ao mesmo tempo a relação entre a ajuda da graça e o auxílio do Espírito Santo sem que sejam confundidos? Em um primeiro momento, pode-se dizer que o texto pretende frisar que não somente a graça vem ao encontro do ser humano, prévia e concomitantemente, e este responde com suas capacidades naturais. Mas, que a resposta e as condições para tal acontecem sob os auxílios interiores do Espírito Santo.528 Trata-se, portanto, de uma distinção para explicitar, como se disse, que não somente se trata de um auxílio à liberdade do ser humano, mas também uma graça que torna possível até mesmo a resposta.

A radicalidade dessa compreensão cristã a respeito do ser humano, que na graça tem o auxílio do Espírito Santo, pode ser sintetizada na expressão de Paulo: “pois é Deus quem opera em vós o querer e o fazer, segundo a sua vontade” (Fl 2,13). Uma afirmação que pode causar dificuldades quando, à sombra de uma compreensão fixista e deísta, Deus é colocado para fora da história como um expectador que já sabe o fim da trama e que intervém segundo sua presciência.

No ser humano, precedido e acompanhado pela graça, o auxílio do Espírito, passa a ter expressão de fecundidade e comunhão529 e apontar para a sua realidade mais

528 Cf. MIRANDA, Mário de França. A salvação de Jesus Cristo: a doutrina da graça, p. 51.

LATOURELLE, René. Teologia da Revelação, p. 385. LATOURELLE, René. La Révélation et sa transmission selon la Constituion Dei Verbum. Gregorianum. Commentarii de re theologica et philosophica editi a professoribus Ponticiae universitatis Gregorianae, p. 23.

529 “La Gracia es comunión de vida con Cristo; pero esta comunión nos es dada por el Espíritu Santo: es el

don de Dios Padre mediante el Unigénito en el Espíritu Santo.” (ALFARO, Juan. Cristología y Antropología, p. 82).

íntima: o seio trinitário onde ele é Amor. O amor trinitário, portanto, é o próprio Espírito que permite, no infinito, que uma realidade distinta de si participe de sua intimidade.530 Essa imagem de seio evoca diferentes realidades: o espaço e o feminino, lugar e pessoa.

Segundo Raniero Cantalamessa, Ruah, o nome hebraico para referir-se a Espírito, tem uma conotação de espaço, de lugar, ao significar “espaço atmosférico entre o céu e a terra [...] o ‘espaço vital’ no qual o homem se move e respira”.531 Essa perspectiva de lugar pode ser observada na Sagrada Escritura quando fala, por exemplo, em viver no Espírito. O mesmo autor lembra que a palavra Espírito nas línguas semitas é substantivo feminino e “isto fez com que se desenvolvesse em certos ambientes (sobretudo entre os autores sírios antigos) uma rica doutrina do Espírito Santo como ‘Mãe’”.532 Todavia, lembra Cantalamessa, dado o abuso, e não o erro, com que fora tratada tal perspectiva, ela acabou sendo deixada de lado pela Tradição da Igreja.533

Além dessa perspectiva, a compreensão bíblica do Espírito é como aquele que habita o ser humano534 como sopro, hálito divino, respiração. Aqui se torna clara a expressão de Agostinho, já citada: “tu eras mais interior do que o íntimo de mim mesmo e mais sublime do que o mais sublime de mim mesmo”.535 Por essa habitação do Espírito de Deus, o ser humano é conhecido e pode conhecê-Lo. Trata-se, portanto, de uma relação de intimidade.

Segundo a carta de são João, “reconhecemos que permanecemos nele e ele em nós: ele nos deu o seu Espírito” (1Jo 4,13). Essa pode ser compreendida como a expressão que esclarece a intimidade divina-humana: Deus no ser humano e o ser humano em Deus. Esse é o sentido mais apropriado para se compreender, a partir do mistério da encarnação do Verbo, a participação humana na vida de Deus em sua intimidade. A visão de Deus não se trata, portanto, de uma contemplação estática e monótona, mas de um movimento ininterrupto de amor, participação e intimidade, “como tu, Pai, estás em mim e eu em ti,

530 Cf. CONGAR, Y. Ele é o Senhor e dá a vida, p. 95. Esse texto também pode ser encontrado em:

CONGAR, Yves. El Espíritu Santo, p. 272.

531 CANTALAMESSA, Raniero. O canto do Espírito: meditações sobre o Veni Creator, p.16. Cf.

MOLTMANN, Jürgen. A fonte da vida: o Espírito Santo e a teologia da vida, p. 75.

532 CANTALAMESSA, Raniero. O canto do Espírito: meditações sobre o Veni Creator, p. 23. 533 Cf. CANTALAMESSA, Raniero. O canto do Espírito: meditações sobre o Veni Creator, p. 23. 534 Segundo Giuseppe Manca, em sentido paulino “pneuma può infatti significare sia lo Spirito di Dio o

Spirito Santo, sia l’uomo in quanto aperto e transformato dallo Spirito di Dio, sia, più ampiamente, il campo del divino in contrapposizione a quello umano.” (MANCA, Giuseppe. La Graziai: dialogo di comunione, p. 36).

535 “Tu estavas mais dentro de mim do que a minha parte mais íntima. E eras superior a tudo o que eu tinha

que eles estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste [...] Eu neles e tu em mim” (Jo 17, 21.23), disse Jesus. A intimidade em Deus é dinâmica e no mesmo Espírito cria intimidade e comunhão entre os seres humanos (cf.Ef 2,18-22).

Esse mesmo sopro que é intimidade é também vento. Não se trata de um sopro como vento passageiro, mas de um sopro que permanece. Sabe-se que o vento não permite ser preso. Estancá-lo corresponde a perdê-lo. Sua característica é o movimento. Essa comparação pode ser útil para entender, no ser humano, a dinâmica do Espírito a que se tem feito referência, ainda que com limitações, como toda analogia. Na natureza, o vento só pode permanecer em uma realidade quando esta se deixa mover por ele. É preciso que a realidade tocada pelo vento participe de sua dinâmica.

Como toda analogia, a limitação aparece de imediato. O Espírito de Deus não é uma realidade aniquilável sob pretexto algum. Mas, por outro lado, sua liberdade permite ao seu interlocutor que se feche, impossibilitando sua participação na dinâmica do Espírito. Esse movimento pode ser observado no diálogo com Nicodemos. Nele Jesus afirma:

O que nasceu da carne é carne, o que nasceu do Espírito é espírito. Não te admires de eu te haver dito: deveis nascer do alto. O vento sopra onde quer e ouves o seu ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim acontece com todo aquele que nasceu do Espírito”. (Jo 3, 6- 8)

O que nasce do Espírito permanece Nele em uma dinâmica nova. Uma dinâmica que o direciona para uma realidade escatológica, de certo modo já presente pelo dom do Espírito. Ele faz o ser humano partícipe da vida divina, como anuncia a carta de Paulo a Tito, “não por causa dos atos justos que houvéssemos praticado, mas porque, por sua misericórdia, fomos lavados pelo poder regenerador e renovador do Espírito Santo, que ele ricamente derramou sobre nós, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador” (Tt 3,5-6). O Espírito como sopro de vida possui um caráter criador, renovador e escatológico que perpassa todas as dimensões da vida humana.536

Nesse sentido, o pecado contra o Espírito Santo leva à negação da vida em seu âmbito mais profundo, isto é, como realidade doada. Aniquilação que passa pela negação do fundamento primeiro de suas opções: o amor. Tal amor, como lembra Paulo, fora

536 Cf. MOLTMANN, Jürgen. A fonte da vida: o Espírito Santo e a teologia da vida, p. 59-61.

“derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5). No amor, o fundamento da vida é relacional. E a partir dessa compreensão se desenvolve o modo cristão de viver, que é, antes de tudo, participação na vida divina, na dinâmica trinitária manifestada na encarnação que transfigura a vida humana no amor, sua identidade mais íntima. A coerência humana é coerência no Amor, porque Deus é amor.537

Tal realidade leva Paulo a exortar os cristãos de Colossas com a seguinte expressão: “Se, pois, ressuscitastes com Cristo, procurai as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Pensai nas coisas do alto, e não nas da terra, pois morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo, em Deus” (Cl 3,1-3). Essa esperança messiânica não deve, todavia, ser confundida com o anseio espiritualista que nega a historicidade da vida humana, mas expressão da confiança naquele que é o seu criador e redentor.538

Nessa confiança, a ressurreição de Jesus é o sinal do apreço de Deus pela carne humana, obra de suas mãos. A oposição carne e espírito, portanto, não deve levar a um dualismo da constituição humana, que é sempre integral. Como argila, ela não seria carne sem o sopro de vida, sem o Espírito. A humanidade se insere na tensão escatológica entre morte e vida, que é explicitada na encarnação, morte e ressurreição do Verbo, que se torna discernimento de Deus à vida humana (cf.Rm 8,3s; 1Tm 3,16; Jo 1,14; 1Jo 4,2; 2Jo7). Nesse discernimento, o ser humano, iluminado pelo mistério de Jesus Cristo, responde à pergunta quem sou? em relação àquele que é, ou seja, é possível ao ser humano dizer eu sou no Espírito daquele que É, habita-o e o faz ser.539

Como Espírito de vida, Deus recria o ser humano conduzindo-o a uma vida nova como resposta ao anúncio do Evangelho. Nesse sentido, a fé como assentimento e entrega confiante de si manifesta também a adesão a uma nova vida. O ser humano, situado no tempo e na história não a nega, mas passa a vivê-la sob uma nova luz, que o toma de modo integral. O derramar do Espírito Santo no íntimo do ser humano ultrapassa o nível de sua consciência como fundamento profundo das opções em liberdade. Vai às suas

537 “Uma vez que nossos corpos são o templo do Espírito Santo, e formam uma unidade substancial com

nossa alma ou nosso ‘coração’, devemos levar muito a sério as afirmações segundo as quais eles podem conhecer uma transfiguração, refletindo, a seu modo, a glória de Deus, a paz e a alegria do Espírito”. (CONGAR, Yves. Ele é o Senhor e dá a vida, p. 117).

538 Cf. MOLTMANN, Jürgen. A fonte da vida: o Espírito Santo e a teologia da vida, p. 81-83.

CANTALAMESSA, Raniero. O canto do Espírito: meditações sobre o Veni Creator, p. 245.MERTON, Thomas. Espiritualidade, contemplação e paz, p. 16-17.

539 “La Saint-Esprit, habitant hypostatiquement en nous comme don et comme propriétaire, nous sanctifie;

il fait aussi de nous les enfants adoptifs de Dieu”. (SCHEEBEN, Mathias Josef. Les mystères du christianisme, p. 177).

profundezas inconscientes e de lá ilumina sua consciência, dando-lhe autoconsciência. Percebendo-se, observa também seu ambiente e em relação ao que o compõe, dá-se conta de seus limites e possibilidades.

Na descoberta de si, o ser humano direciona sua existência na busca de algo que lhe corresponda, dando-lhe sentido. Ao ver que tal sentido lhe devolve a si mesmo, ele se descobre capaz de uma opção fundamental. É a consciência de sua profundidade quem o leva a descobrir a presença que o habita sendo capaz de transformá-lo para que se torne o que verdadeiramente é. Sendo o que é, participa da vida divina sem ser confundido com ela.

b) As características do auxílio do Espírito Santo na DV 5

Embora com uma estrutura otimista na sua descrição do ato de fé, a DV 5 não se deixa levar pela ingenuidade e tem em consideração a realidade do pecado. Por isso, ao ler o texto, é possível afirmar que o ser humano como totalidade em devir, ainda que sob a condição de pecado, continua no uso de sua vontade. Essa perspectiva positiva não diminui a soberania da graça, mas evidencia ainda mais a responsabilidade humana perante a autocomunicação de Deus.540

Um dos auxílios do Espírito Santo apontados na DV 5 é à conversão humana, dispondo o ser humano à graça. Conversão compreendida como verdadeira transformação humana, isto é, em sua profundidade, em seu modo de conhecer, amar e escolher, como sublinha Alfaro.541 Não se trata, pois, apenas de atitudes externas, mas de mudança interna (cf. Mt 15,18-20), fruto da luz divina que ilumina o ser humano dando lhe um novo coração, como profetizaram Ezequiel (cf. Ez 11,19;36,26) e Jeremias (cf. Jr 24,7;31,31).542 Como também escreveu Paulo: “Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio” (Gl

540 Cf. BOFF, Leonardo. Graça e experiência humana: A graça libertadora no mundo, p. 221-222. 541 “Es una transformación que tiene lugar en lo más profundo de la persona [...] en el núcleo central de su

conocer, amar y decidir”. (ALFARO, Juan. Cristología y Antropología, p. 54).

542 “O termo ‘coração’ se refere àquele ponto mais íntimo e nuclear do espírito humano, no qual a pessoa

se abre ou se fecha à verdade e ao bem, determinando assim a orientação última da própria vida. Essa abertura não pode resultar de uma iniciativa humana, ela se deve à ação, inteiramente gratuita, do Espírito, que move o coração para que se abra livremente à verdade e possa assim sintonizar com a proposta divina. Esse movimento do coração consiste numa conversão pelo qual o ser humano, saindo de si mesmo e da sua autossuficiência, volta-se para Deus, confiando-lhe sua vida e sua realização.” (MACDOWEL, João Augusto A. A. Fé. In: PASSOS, João Décio; LOPES SANCHEZ, Wagner. Dicionário do Concílio Vaticano II, p. 382).

5,22). O obséquio da vontade na fé se realiza na conversão do coração. É nessa disposição que o Espírito Santo gera no ser humano a atitude filial em relação a Deus.

Tal conversão se efetiva à medida em que o ser humano se orienta para Deus como opção fundamental ao Amor. A conversão da vontade, enquanto adesão à fé como graça, realiza a obra de uma vida nova no ser humano, como diz Paulo: “se alguém está em Cristo, é nova criatura. Passaram-se as coisas antigas; eis que se fez uma realidade nova.” (2Cor 5,17). Uma nova criação fundada no Amor, cuja beleza é tão antiga e sempre nova543, e que não se pauta em mudanças externas, mas emerge do íntimo do ser humano por uma Presença que o habita em uma entrega gratuita e irrevogável.544 A eleição de Deus, que não cessa de criar e sustentar, é como o zelo materno (cf. Is 49,15) a ser respondido com amor; como a fidelidade esponsal(cf. Is 54) a ser respondida com fé; como a confiança filial (cf.Is 9,6; Mt 1,21-23) a ser respondida com esperança.

A conversão do coração humano, portanto, auxiliada pelo Espírito que dispõe à graça prévia e concomitante, desperta o ser humano à filiação divina por uma nova vida no Espírito que leva à união com Jesus Cristo morto e ressuscitado para a vida em Deus.545 A salvação humana, que é o próprio Deus, ao revelar sua face em Jesus Cristo, o Nazareno, afeta a vida ordinária daquele que, descobrindo-se encontrado, deixa-se conduzir voluntariamente com fé, esperança e amor.546

É salvação que, como resposta de adesão ao discipulado de Jesus Cristo, torna- se um salvar-para, ou seja, leva o ser humano a uma opção fundamental e dinâmica que é uma opção crística: “Fui crucificado junto com Cristo. Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim. Minha vida presente na carne, eu a vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou, e se entregou a si mesmo por mim” (Gl 2,19b-20). Uma opção fundamental que é possível como ato de fé enquanto resposta à autocomunicação de Deus. Por meio desta, o ser humano participa da vida divina em Jesus Cristo, que, como graça incriada, é autodoação pessoal do Deus triuno, e como graça criada, vivência filial no amor de Deus, orientação do homem para a participação na vida trinitária.

543 Cf. AGOSTINHO DE HIPONA. Confissões, X, 27, 38, p. 299.

544 Cf. RUIZ DE LA PEÑA, Juan Luis. Gracia. In: FLORISTÁN, Casiano; TAMAYO, Juan-José.

Conceptos fundamentales del cristianismo, p. 542.

545 “Tende a la unión con el Cristo glorificado por la resurrección, para participar por él en la vida de Dios”

(ALFARO, Juan. Naturaleza y gracia. In: RAHNER, Karl. Sacramentum mundi, p. 888).

546 Cf. MIRANDA, Mario de França. A salvação de Jesus Cristo: a doutrina da graça, p. 11. RUIZ DE LA

PEÑA, Juan Luis. Gracia. In: FLORISTÁN, Casiano; TAMAYO, Juan-José. Conceptos fundamentales del cristianismo, p. 544.

A opção fundamental como ato de fé estabelece uma entrega total do ser humano ao querer de Deus, possível ao ser humano quando, no Espírito Santo, desenvolve sua existência tendo Jesus Cristo como pedra angular de suas opções.547 A experiência de fé não é uma questão de emoções e sensações, mas de vida cristificada no poder do Espírito Santo. Não é uma relação de conveniência, mas de abandono à graça (cf. 2Cor 4,7;12,9; Fl 1,19s), sem a qual o ato de fé não é possível. Por isso se tem afirmado ao longo do texto que o ser humano não chega ao conhecimento de Deus se, antes, o próprio Deus não se der a conhecer. Ele que habita em luz inacessível é quem manifestou sua glória (cf. 1Tm 6,16). Somente assim o ser humano, inclinado à transcendência, pode compreender seu caráter pessoal.

Outra característica do auxílio do Espírito Santo na DV 5 é a abertura dos olhos do entendimento para a adesão à fé, que vai além da capacidade natural da razão humana, pois é preciso crer para compreender. É graça que, condescendente, ilumina a consciência humana. Na prece do salmista, “Senhor, é tua face que eu procuro” (Sl 27,8). Tal afirmação expressa, ilustrativamente, a resposta do ser humano à iniciativa de Deus, em cuja visão está a plenitude da vida. Como afirma o quarto evangelho, “a vida eterna é esta: que eles te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e aquele que enviaste, Jesus Cristo” (Jo 17,3; cf. Jo 10,14;8,19;12,45;14,7-9)

O ato de fé, portanto, requer adesão total e união pessoal. É visão de Deus que se antecipa na história pela encarnação do Verbo: “quem me vê, vê o Pai” (Jo 14,9b) superando o que outrora fora dito a Moisés: “Não poderás ver a minha face, porque o homem não pode ver-me e continuar vivendo” (Ex 33,20). Essa visão de Deus como